A Escola possui um papel fundamental no que diz respeito à formação dos nossos alunos. Ela deve trabalhar em prol da educação formal e deve fazê-lo através de várias abordagens, uma das quais será a de preparar os nossos alunos para trabalhar com as novas tecnologias, dotando-os de ferramentas que os tornem capazes de sobreviver numa sociedade cada vez mais exigente. Estando este organismo, Escola, inserido na Sociedade da Informação, precisará de se contextualizar com as novas demandas tecnológicas. Delors (1996) destaca a importância do acesso e uso das novas tecnologias pela sociedade, assim como pelo próprio sistema educativo, pois (...) a digitalização da informação operou uma revolução profunda no mundo da comunicação, caracterizada, em particular, pelo aparecimento de dispositivos multimédia e por uma expansão extraordinária das redes telemáticas. […] Muito embora os efeitos da extensão das redes informáticas sejam ainda limitados, por serem ainda relativamente poucos os que possuem as novas tecnologias e dominam o modo de usá-las, tudo leva a crer que se trata de uma revolução inevitável que permitirá a transmissão de uma quantidade cada vez maior de informação num lapso de tempo cada vez mais curto. […] A responsabilidade dos sistemas educativos surge no primeiro plano: cabe-lhes fornecer, a todos, meios para dominar a proliferação de informações, de as seleccionar e hierarquizar, dando mostras de espírito crítico. […] Deste modo, os sistemas educativos, ao mesmo tempo que fornecem os indispensáveis modos de socialização, conferem, igualmente, as bases de uma cidadania adaptadas às sociedades de informação (pp. 63-64).
Realmente, muitas das nossas escolas têm procurado actualizar-se tecnologicamente, envidando esforços no sentido de proporcionar aos seus alunos os saberes fundamentais para a utilização profícua das mais-valias das TIC. Com a introdução do computador na sala de aula, as escolas assistiram a uma gradual transformação da forma como se pode ensinar e aprender. Ele tornou-se numa ferramenta de grande valia no ambiente escolar e é, por isso, encarado como um instrumento aliado ao ensino e à aprendizagem, tão importante quanto um livro, um quadro de ardósia ou um projector. Por outro lado, o computador tornou-se num dos principais meios de pesquisa, pois a facilidade de acesso a informações (via internet, CDs, DVDs, etc.)
jamais poderia ser conseguida sem a sua utilização. Se, durante muitos séculos, a humanidade só dispunha de um sistema alfabético como comunicação, de facto, vê-o ser enriquecido com a ajuda da imprensa, no século XVI e, desde há pouco mais de um século pelo telégrafo, pelo telefone, a rádio, a televisão, o fax, o computador… objectos que modificarão para sempre a forma de ser e estar no mundo. As tecnologias estão, deste modo, cada vez mais presentes na nossa sociedade e, consequentemente, na Escola, agora percepcionadas como ferramentas que podem mediar a prática pedagógica, actuando na zona de desenvolvimento proximal do sujeito aprendente (ZDP) (Vygotsky, 1994), ampliando, exteriorizando e transformando as funções cognitivas (Lévy, 1990).
Nesta fase, os novos mediadores da comunicação parecem estar a suscitar uma alteração na relação pedagógica. As tecnologias da informação e comunicação vieram para ficar e a Escola não se pode furtar à influência e integração das mesmas. O que importa agora aferir é qual a sua função e qual a melhor estratégia para a integração das TIC nas actividades educativas. Foi nesse sentido que surgiu o Projecto MINERVA (1985-1994), cujo principal objectivo era o de introduzir as TIC no ensino não superior português. O seu plano de acção iria incidir num projecto-piloto que envolveria 14 escolas da região centro do país. Com o mesmo pretendia-se que as TIC fossem encaradas como um instrumento educativo, em todos os níveis de ensino. Mais ainda, pretendia-se olhar para a informática não como uma disciplina específica, ou uma área à parte, excepto no ensino secundário (nos cursos com ela mais directamente vocacionados). Pretendia-se ainda descentrar o funcionamento das escolas, recorrendo às ligações em rede, no sentido de promover uma união entre instituições de ensino dos mais diversos níveis, incluindo o ensino superior. O computador surgia, assim, como ferramenta fundamental nas mãos do aluno, capaz de o fazer interagir na sala de aula e em espaços alternativos de aprendizagem. Podendo esta ferramenta estar aos serviço das mais diferenciadas perspectivas pedagógicas, ela deveria ser encarada como um objecto que permite a pesquisa e gestão da informação, possibilitando o auxílio de professores e alunos no tratamento dessa informação, desafiando-os a colocar e resolver problemas e, ao mesmo tempo, estimulando a descoberta. Este projecto poderá ter sido o ponto de partida para a inserção das TIC no sistema educativo português, levando as escolas, e os seus agentes educativos, a experimentar e desenvolver pedagogias que visavam a inserção das TIC no processo de ensino/aprendizagem. Não obstante, parece haver ainda um longo trabalho por realizar, pois urge introduzir as TIC nos diferentes planos curriculares, nas escolas e na formação dos docentes. O computador é,
efectivamente, uma máquina cujo potencial ainda está longe de ser descoberto, nomeadamente se o cogitarmos ao serviço da Escola e do processo de ensino. As tecnologias da informação são uma perspectiva cultural inquestionável, são um instrumento intelectual que permite potenciar as capacidades do pensamento do ser humano. Permitem-lhe actuar nos mais diversos domínios. Não obstante, o que aqui nos importa não é a ferramenta, é aquilo que ela pode fazer por nós, em prol do nosso crescimento, em prol das novas formas de criatividade que ela permite desenvolver. De acordo com as ideias de Seymour Papert, a Escola deveria ser um lugar onde os estudantes pudessem aprender amplamente, por meio de sua participação activa em trabalhos, “em projectos”, que satisfariam os seus próprios interesses, as suas próprias visões do lugar onde gostariam de estar, das coisas que gostariam de fazer ou dos assuntos que gostariam de explorar. A grande contribuição a ser dada pelas TIC é, segundo o mesmo autor, a de tornar possível a realização de projectos que são, simultaneamente, difíceis e sedutores, mas que permitem criar ambientes de aprendizagem novos, e que atendem a altas expectativas. A escola deveria ser um lugar onde os professores não forneceriam informações, mas ajudariam os estudantes a encontrá-las e a desenvolver as suas próprias habilidades.
O uso do computador no ensino parece estar a tornar-se imprescindível, porque o aprender a comunicar com o mesmo pode mudar a maneira como outras aprendizagens acontecem, dadas as suas capacidades de simulação. O meio cultural escolar, em especial a sala de aula tradicional, continua, em muitos casos, pobre em materiais cuja manipulação poderia tornar simples e concretos, conceitos a serem aprendidos. Os ambientes intelectuais actuais, oferecidos pela sociedade ao aluno, também são muito pobres em recursos capazes de o estimular a pensar sobre o pensar, a aprender a falar sobre isso e a testar as suas ideias através da exteriorização das mesmas. A tecnologia, no seu sentido mais amplo, ou as TIC no sentido mais restrito, mesmo sendo imprescindíveis, nada poderão fazer por si só, ao contrário do que muitos agentes educativos afirmam. São as pessoas fazem as coisas. Papert defende que, apesar de a tecnologia desempenhar um papel fundamental na realização da nossa visão sobre o futuro da educação, o foco central não é a máquina, mas sim a mente e, particularmente, a forma em que os movimentos intelectuais e culturais se autodefinem e crescem. O computador não é uma cultura em si mesmo, mas serve para promover diferentes perspectivas culturais e filosóficas. É uma ferramenta de “pensar com”, em que há uma intersecção de presença cultural, conhecimento implícito e a possibilidade de identificação pessoal.
Quanto à Escola, no seu todo organizacional, ela evoluiu para um sistema de controlo hierárquico, que estabelece estreitos limites, dentro dos quais tanto administradores quanto professores podem exercer as suas actividades pessoais. E essa organização hierárquica da Escola foi herdada através da forma como toda sociedade está organizada, o que se constitui como um sério problema para a implementação de inovações, como o uso das TIC. No que diz respeito à forma como a escola tradicional se apresenta para satisfazer às necessidades dos alunos, Papert afirma que o conhecimento deve ser disponibilizado para um propósito, para atingir um objectivo. Neste sentido, o paradigma construtivista confirma que a construção de significados e representações acerca do mundo não nasce fora do sujeito, a partir do mundo objectivo e real. Efectivamente, o indivíduo tem um papel activo na construção de significados. Desta forma, quando se pretende o alcance de determinado objectivo, este poderá ter inúmeras finalidades, mas terá de ser sempre um objectivo pessoal, no qual o indivíduo acredita e pelo qual se empenha, não apenas algo que está estabelecido num currículo.
A educação tradicional está demasiadamente distanciada das verdadeiras necessidades do aluno, quando concebe a inteligência como inerente à mente humana, e portanto, sem qualquer necessidade ou possibilidade de ser aprendida. Hoje em dia, para além da expressão verbal e escrita, bem como o raciocínio matemático, é importante que se desenvolvam novas capacidades ou habilidades, nas quais se inclui a fluência tecnológica, a capacidade de resolver problemas e os três c’s: Comunicação, Colaboração e Criatividade (Thornburg, 1997). Assim, urge mudar este conceito de educação, olhando o aluno sob o prisma do construtivismo, onde o professor deve ensinar menos e deixar que seja o aluno a descobrir o seu próprio percurso de aprendizagem, tornando-o mais autónomo e responsável.
Se através da perspectiva construtivista de Piaget, a criança é encarada como um sujeito activo, construtor do conhecimento, onde o professor deixa de ser transmissor de conhecimento e o aluno é encarado como tábua rasa, o construcionismo de Papert vem acrescentar algo mais. Se o construtivismo concebe o aluno como sujeito activo e rejeita os modelos passivos de aprendizagem e desenvolvimento, o construcionismo dá particular ênfase às construções particulares do indivíduo, que são externas e partilhadas. Deverá existir o máximo de aprendizagem com o mínimo de ensino. O computador, e num sentido mais lato, as TIC, poderão facilitar bastante o alcançar desta meta.
2.3 A hora da e-Mudanç@: da escola secular à escola nova - uma reflexão