O capítulo “Divisão do Espírito” inicia com a descrição dos sentimentos do autor sobre a descida ao inferno. Este local, dentro de sua alma, é qualificado como assustador, terrível e confuso. É um deserto, que na aparência não possui nada, mas é habitado por seres invisíveis que transformam seu rosto, desfigurando sua forma. Jung dialoga com o espírito da profundeza, que lhe pede para descer. Ele se revolta e relata não ser capaz. Então, o espírito da profundeza diz para ele descansar. Mas esta ordem soa como absurda, pois o espírito da profundeza destrói deuses e, com isso, o descanso é despropositado. Jung sente ter se entregado não à alma, mas a um tolo animal, fazendo dele um louco, um bêbado. Contudo, ainda pede que a alma lhe ensine. A alma diz: “Meu caminho é luz”119 (JUNG, 2013, p. 142). Jung questiona se para sua alma a luz é sinônimo de escuridão, de trevas, de noite. A resposta é
118 “Fiquei prostrado por causa dessas imagens. Naturalmente, vi que a pièce de resistance era um mito do herói e um mito solar, um drama da morte e da renovação, exprimindo-se a ideia do renascimento no escaravelho egípcio. Tudo deveria terminar com o aparecimento do novo dia. Mas em lugar deste surgira a insuportável onda de sangue, fenômeno excepcionalmente anormal, segundo me pareceu. Lembre-me então da visão de sangue que tivera no outono do mesmo ano e renunciei a qualquer tentativa de compreender (JUNG, 2006, p. 215). Em alemão: “Ich war von den Bildern aufs Tiefste bestürzt. Natürlich sah ich, dass die piece de resistance ein Helden-und Sonnenmythus war, ein Drama von Tod und Wiedererneuerung. Die Wiedergeburt war verdeutlicht durch den ägyptischen Skarabäus. Am Ende hätte der neue Tag folgen sollen. Stattdessen kam der unerträgliche Blutstrom, ein durchaus abnormes Phänomen, wie mir schien. Da fiel mir aber meine Blutvision vom Herbst desselben Jahres ein, und ich gab jeden weiteren Versuch zu verstehen auf“ (JUNG, 1983, p. 183).
que a luz é de outro mundo e que este outro mundo existe, independente do fato de alguém saber dele ou não. Ele interroga a alma sobre o valor que ainda poderia ter o saber do mundo exterior, com sua linguagem. E ela responde: “Perdão, talvez eu ouça mal, talvez te interprete mal, talvez eu me deixei seduzir por minhas próprias mentiras e macaquices (…) talvez um louco em meu próprio manicômio”120 (JUNG, 2013, p. 143). Mas a alma não acredita ou concorda com tais palavras e diz: “Quem te dá pensamentos e palavras? (…) Tu ousas pensar que aquilo que imaginas e falas poderia ser tolice? Não sabes que isto provém de mim e me pertence?121 (JUNG, 2013, p. 143).
O autor responde a esta fala, argumentando logicamente que o fato de sentir- se revoltado é uma revolta da alma contra si mesma, pois todos os pensamentos e palavras são provenientes da própria alma. A alma concorda: “Isto é guerra civil”122 (JUNG, 2013, p. 143). Jung diz que vai em frente, mesmo que seja tolice e que sejam dispostas imagens como monstros estranhos ou horrorosos. Encontra-se preparado para continuar seu caminho com a alma, um demônio mascarado de Deus. E outra polaridade ocorre: “Tu colocas uma máscara de Deus, e eu te venero. Depois colocas uma máscara de demônio, ai, uma máscara do banal, do eterno medíocre”123 (JUNG, 2013, p. 143).
Até aqui apareceram as polaridades entre o espírito das profundezas e o espírito do tempo, entre sentido e absurdo, entre dentro e fora, interioridade e exterioridade, esperteza e sabedoria, loucura doentia e loucura divina, mundo interior e mundo exterior, sentido interno e sentido externo, poder e não-poder, e de agora em diante, o leitor encontrará não só polaridades do tempo e do espaço e de qualidades, mas, também, polaridades ligadas a questões éticas e morais: o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau, o que é bem e o que é mal.
No capítulo “Divisão do Espírito”, o autor avalia se vale a pena continuar, se a luta da guerra interior é justificada. Ele luta, dando socos e golpes no ar, mas, tanto
120 “Vergib, vielleicht höre ich schlecht, vielleicht missdeute ich dich, vielleicht umgarne ich mich mit Selbstbelügung und Affenspiel (…) ein Narr in meinen eigenen Tollhaus” (JUNG, 2009, p. 240)
121 “Wer gibt dir Gedanke und Wort? (…) Und du wagst es zu denken, dass das, was du ersinnst und sprichst, Unsinn sein könnte? Weißt du noch nicht, dass es aus mir kommt und mir gehört?” (JUNG, 2009, p. 240).
122 “Das ist Bürgerkrieg” (JUNG, 2009, p. 240).
123 “Du nahmst eines Gottes Maske vor, und ich verehrte dich. Nun nimmst du eines Teufels Maske, wehe, eine ungeheuerliche, die Maske des Banalen, des ewig Mittelmäßigen!” (JUNG, p. 2009, p. 241).
isso como a resposta da alma, são falsas. Percebe que havia retornado ao deserto, onde assassinos e assaltantes lançam setas envenenadas.
E interpreta os conteúdos do seu inconsciente124. O assassinato vivenciado internamente é como o assassino do príncipe Franz Ferdinand: “Era uma visão do deserto, eu lutava contra minhas próprias imagens refletidas em espelho. Havia guerra civil dentro de mim. Eu era meu próprio assassino e o próprio assassinado”125 (JUNG, 2013, p. 144). E o assassinato refletia-se nos eventos mundanos, que podiam ser antecipados: “Pelo fato de trazer o assassinato dentro de mim, eu o previ”126 (JUNG, 2013, p. 144).
Logo, o conflito e a guerra acontecia entre duas polaridades: o poder e o não- poder. O velho estava sendo substituído pelo novo em um processo dinâmico no qual, quando um elemento sobe demasiadamente, seja Deus ou um ideal, deve ser trocado por outro. De acordo com esta perspectiva, até um Deus pode ficar doente, por ter se elevado muito além e deve diminuir lentamente. O Deus mencionado faz referência à qualidade do herói da narrativa subsequente.