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Contexte et justification du projet

1. DESCRIPTION DU PROJET

1.1. Contexte et justification du projet

As leituras sobre a comunicação e a imprensa na fronteira acabam, por vezes, sugerindo uma inclinação para análises relacionais. A ideia faz sentido: falar de fron- teira exige contemplar o encontro de territórios – o que implica encontros culturais, para além da esfera jurídica, administrativa e governamental. As notícias, na função de registros construídos a partir da realidade, tornam-se objetos úteis para entender que temas e abordagens circulam em uma localidade. Além disso, interessa saber que relações se propõem nas notícias, por meio das fontes consultadas e das ins- tâncias e pessoas citadas. É uma forma de relatar os acontecimentos ligando-os a incidentes, iniciativas, personalidades, demandas e mesmo outros relatos. A im- prensa local fronteiriça, portanto, é relevante fonte de elementos para a investigação sobre quais motivos e valorações foram conferidos às mudanças na forma de tra- vessia.

Porém, ao seguir a mesma lógica da alteridade que demanda que a fala sobre a fronteira contempla a relação entre dois ou mais entes nacionais, é necessário reconhecer o fato bastante claro e reproduzido no mundo: as regiões de fronteira de um país são também periferias em relação aos seus centros administrativos nacio- nais. As normas de segurança nacional do Brasil, derivadas como as linhas demar- catórias de processos históricos complexos, tornam precário o desenvolvimento eco- nômico dessas regiões. As restrições afetam o processo de geração de riqueza, que também é conformado por modelos produtivos em geral ligados ao setor primário. Daí as demandas por apoio e melhorias na infraestrutura, na segurança e em outros âmbitos da administração pública.

Por vezes, a proximidade geográfica e cultural existente entre as populações fronteiriças alimenta o preconceito por parte da metrópole, e vice-versa. Pode ocor- rer, como foi verificado nos jornais estudados para esta proposta, as menções à con- vivência produtiva e fraterna entre as cidades fronteiriças como exemplo a ser se- guido pelos governos centrais no trato com os municípios “do interior” e com os visi- tantes do país vizinho.

Para os fins de exploração deste estudo, e à luz da literatura provisoriamente apresentada, pareceu ser útil construir uma categoria que ajude a identificar as rela- ções traçadas nas notícias sobre a abertura dos portos para as barcas, em 1982, e o início do tráfego na Ponte Internacional da Integração, em 1997. Um requisito é que se possam identificar tanto as menções entre os povos fronteiriços quanto des- tes com seus governos centrais. Isso é pensado como uma forma de identificar e analisar as menções que enviesam o sentido da fronteira como periferia de uma na- ção (reivindicações, viés securitário) e como espaço compartilhado entre duas na- ções (convivência, cooperação, similaridades).

Nesse sentido, a categoria do status relacional fronteiriço indica o caráter mul- tiescalar (desde a escala da cidade até a escala nacional) e variável (podendo va- riar da reação favorável à tendência de integração até a ausência de manifestação a respeito) que caracteriza as interações entre as populações locais de São Borja e Santo Tomé e delas com seus centros administrativos regionais e os centros nacio- nais de decisão. Essas relações, quando presentes no texto, podem ser classificadas como pendendo de modo gradativo entre a integração e o distanciamento.

De forma preliminar, considera-se necessário indicar as formas nas quais o status relacional fronteiriço pode ser registrado. As seguintes relações foram busca- das e analisadas, tendo em comum as gradações integração, distanciamento e au- sência/indiferença:

a) população fronteiriça X centro regional de decisão – relação metrópole/pe- riferia entre as capitais e as cidades fronteiriças: pode ir de pedido via projetos a reclamação e protestos, passando também pelo agradecimento e valorização da ação de autoridades e setores;

b) relacionamento entre populações fronteiriças: liga-se a registros de valora- ção de atitudes entre as cidades de São Borja e Santo Tomé. De modo análogo à compreensão de que a área de Relações Internacionais extrapola a dimensão diplo- mática, englobando as práticas de indivíduos no contato com nacionais de outros países, consideram-se aqui as manifestações vindas tanto dos representantes dos poderes públicos como de empresários e pessoas em geral;

c) população fronteiriça X autoridades estrangeiras: vai se tratar aqui do en- contro do qual falou Grimson (2002) quando mencionou o contato do visitante da área fronteiriça com o ordenamento jurídico e político do outro país. Essa variável

visa dar conta da relação do indivíduo com o Estado do país vizinho;

d) relações Argentina e Brasil: as menções nas notícias que se referem a essa variável são as evocações das dificuldades e das soluções que Argentina e Brasil defrontam no trato de suas diferenças. Essa variável se deve à constatação de que qualquer modificação oficial no modo e nas normas de transposição de fronteiras depende do contexto momentâneo das conversações e debates entre representan- tes dos dois países.

A categoria do status relacional fronteiriço, portanto, é uma proposta para clas- sificar minimamente as diferentes posições e os participantes dos relatos noticiosos sobre as modificações na travessia do rio Uruguai entre São Borja e Santo Tomé. Parte da premissa de que, nas notícias, as posições manifestadas também podem variar conforme o status de cada fonte. O intuito é visibilizar esses posicionamentos e concessões de importância com base na relação entre os posicionamentos como são relatados nas notícias, tendo em mente que as notícias são representações ge- radas pelas instituições (produzidas pelos jornalistas de veículos e assessores de imprensa), que partem da realidade social para ajudar a construir um “mundo possí- vel” de ser abrangido pela cobertura jornalística e de ser apresentado nos formatos e ritmos da imprensa, e que sobre o trabalho noticioso operam processos de seleção, edição e veiculação muito peculiares.

3 O JORNALISMO EM CIDADES DE INTERIOR: