1. DESCRIPTION DU PROJET
1.4. Composantes du projet
4.1.1. De uma redução jesuítica a outra
A cidade gaúcha de São Borja e a cidade de Santo Tomé, na margem argen- tina do rio Uruguai, integram uma faixa fronteiriça entre o Brasil e a Argentina de mais de 1.263 quilômetros de extensão. A maior parte dessa fronteira liga o estado do Rio Grande do Sul às províncias argentinas de Misiones e de Corrientes. Sepa- radas, e também unidas, pela barreira fluvial e conectadas desde 1997 pela Ponte Internacional da Integração, São Borja e Santo Tomé têm suas origens no período jesuítico e integram, portanto, a etapa histórica de definição de limites entre os terri- tórios nacionais, que resultou, no caso da relação Argentina-Brasil, na barreira física do rio Uruguai como linha delimitadora.
Flôres (2012) situa a fundação da Redução de São Francisco de Borja, origem da atual cidade gaúcha de São Borja, em 1682, a partir do deslocamento de uma fração da população residente na Redução de Santo Tomás Apóstol, que daria ori- gem ao povoamento da cidade de Santo Tomé. As reduções indígenas integravam o projeto de evangelização acordado entre a Igreja e o Estado espanhol, a cargo da Companhia de Jesus, segundo Flôres (2012). A data de fundação da Redução de São Francisco de Borja pelo jesuíta Francisco Garcia é tema ainda em debate, pois há historiadores que indicam o ano de 1690, como Colvero e Maurer (2011). O que fica fora de controvérsia é a fundação do núcleo originário de uma das cidades a partir da outra, laço histórico entre São Borja e Santo Tomé. Desde a travessia do rio Uruguai por meio de canoas, depois balsas e finalmente por meio da Ponte da Integração, as cidades e suas populações conviveram, a exemplo de outras áreas de fronteira.
Existindo em uma área urbana de fronteira semiconurbada, os jornais Folha de São Borja e Unión podem conter informações sobre como o espaço fronteiriço é visto e em quais situações esse olhar é visibilizado nas notícias, que integram os
fluxos de alimentação do imaginário.
Os antigos laços entre os municípios de São Borja e Santo Tomé surgem da vivência cotidiana da travessia, do comércio intenso, da existência de ligações fami- liares entre pessoas dos dois países, do convívio facilitado pelo “portunhol”22, entre
outros aspectos notáveis, por exemplo. Porém, a separação física imposta pelo rio Uruguai parece conferir a esse ponto fronteiriço uma diferença relevante em relação ao que se verifica no ponto Santana do Livramento-Rivera. Müller (2007) explica que as duas cidades, cujo limite é uma avenida que conecta os dois centros urbanos, formam uma fronteira conurbada, isto é, as duas cidades se apresentam unidas, como que fundidas entre si. Seguindo essa mesma categorização, tem-se que a fronteira São Borja e Santo Tomé se caracteriza como semiconurbada, com seus centros urbanos geograficamente separados um do outro pelo rio Uruguai e unidos por uma ponte internacional, aproximando-se, nesse aspecto e no encontro das na- cionalidades brasileira e argentina, da fronteira Uruguaiana-Paso de los Libres.23
4.1.2 Folha de São Borja e Unión – breve histórico
A imprensa fronteiriça entre o Brasil e a Argentina, a exemplo de qualquer outra estrutura midiática em área limítrofe entre países, traz em sua constituição os reflexos dessa conformação político-territorial. Entende-se que suas características editoriais e modos de produção derivam em parte do contexto espaço-temporal pró- prio de cada cidade. É por esse raciocínio que se propõe buscar registros de como os jornais Folha de São Borja e Unión caracterizaram o estar e viver na fronteira e por meio de quais critérios deram importância às inovações no percurso de travessia entre os dois países.
Ambos os jornais, contemporâneos durante 33 anos, podem ser qualificados, num primeiro momento, como interioranos, locais e fronteiriços. O mais antigo e
22 Em sentido lato, é a mescla do português com as variantes do idioma espanhol, no contato verbal interpessoal entre lusófonos e hispanófonos.
23 Para fins de comparação, e considerando a distância rodoviária, Uruguaiana dista 631 quilômetros da capital do Rio Grande do Sul, e São Borja está a 583,6 quilômetros de Porto Alegre. A cidade uruguaia de Rivera, capital do departamento de mesmo nome, fica a 505,5 quilômetros de distância de Montevidéu, enquanto Santo Tomé está a 390 quilômetros da capital do departamento de Corri- entes e a 848 quilômetros da cidade autônoma de Buenos Aires. (As distâncias aqui informadas foram obtidas por meio do Google Maps.)
ainda em circulação é o periódico bissemanal Folha de São Borja, fundado em 1970 por José Grisólia e posteriormente adquirido pelos irmãos Renato e Roque Andres. Constituiu-se desde o início como uma empresa jornalística estruturada para o tra- balho coletivo. Hoje o jornal conta com um site24 e integra o grupo empresarial for-
mado ainda pelas emissoras radiofônicas Fronteira FM e Cultura AM. Um fato rele- vante para a pesquisa é a conservação das edições antigas, todas catalogadas, en- cadernadas com capa dura e acomodadas em uma sala específica para a consulta ao acervo. O outro é o quinzenal Unión, fundado em 1977 por Carlos Zapata, tendo circulado até 2010, ano da aposentadoria de seu proprietário. O jornal santo-tome- nho apresentava estrutura produtiva reduzida, com Zapata exercendo as funções de diretor e editor. Não chegou a gerar uma contraparte webjornalística. Possui acervo disposto em dois suportes: o impresso, com tomos encadernados, e a versão digita- lizada.
O período de coexistência dos dois periódicos traz complexidade e riqueza de possibilidades ao projeto. Nesse período, os jornais Folha de São Borja e Unión cir- cularam enquanto os dois países viviam sob regimes ditatoriais e, ao longo das res- pectivas transições para sistemas políticos democráticos, registraram as alterações na travessia da fronteira – em especial a partir de 9 de dezembro de 1997, quando foi inaugurada a Ponte da Integração entre Santo Tomé e São Borja. Para além do contexto histórico, cabe também se indagar sobre os editores dos dois periódicos, cada um em suas circunstâncias: afinal, esses gestores e jornalistas decidiram os aspectos das notícias que foram publicadas, ajudaram a firmar imagens e sentidos sobre as inovações e as consequências e potencialidades que elas trariam para suas cidades.
Dentre tantos temas possíveis, as formas de atravessar a fronteira emergiram em nosso entendimento como assunto especialmente propício. O limite possui uma conformação que, no caso de uma fronteira entre nações, envolve os meios técnicos para a transposição, a estrutura burocrática para o controle, a interação plena de complexidades (cultura, idioma, história, economia) entre as populações fronteiriças,
as relações internacionais. Sejam barcas, aduanas, pontes, todas as formas de or- ganizar a circulação de pessoas em uma linha divisória impactam no cotidiano des- sas localidades e possuem uma relevância para os negócios e a vida cotidiana dos moradores.
Grimson (2002), ao discutir resultados de pesquisa etnográfica nas cidades de Uruguaiana e de Paso de los Libres, aponta que o cotidiano fronteiriço é em geral imaginado nas metrópoles como povoado por tipos exóticos, em uma área na qual o Estado é ausente e a travessia dos limites nacionais alimenta expectativas. Ele ex- plica que as fronteiras são, ao contrário de áreas sem lei, pontos de crescente pre- sença estatal, o que provoca diferentes percepções do “outro”.
A principal prática das zonas de fronteira, a própria travessia, torna-se a forma pela qual é experimentada a alteridade. É tida como experiência pe- culiar já que o “outro” não é somente de diferente nacionalidade para o es- trangeiro, mas também é o lugar por excelência do poder da “nação”: é o Estado. É o Estado encarnado em um de seus funcionários, exercendo o seu poder de policiamento, de controle de território. Em outras palavras, os atores da fronteira vivenciam a relação com o Estado como alteridade. Essa vivência provoca a produção de imaginários coletivos sobre a nacionali- dade, no caso dos brasileiros, e sobre a relação Estado/sociedade, no caso dos argentinos. Esses imaginários são constitutivos dos vínculos criados entre ambas partes [sic], na medida em que reestruturam efetivamente as próprias experiências do espaço (GRIMSON, 2002, p. 166).
Em uma proposta de ponto de vista a partir de Grimson (2002), o cotidiano fronteiriço pode ser visto, então, como a materialização amalgamada de (a) políticas, estereótipos, disputas, colaborações e todas as manifestações que configuram as relações entre duas nações com (b) a vida nas pequenas cidades de dois (ou mais) países vizinhos, com todas as implicações que essa mescla produz. Essa construção do imaginário a partir da vida na fronteira entre nações pode impactar a presença dessa alteridade na imprensa local fronteiriça25, conferindo ao registro noticioso so-
bre fatos que envolvam o país e a cidade vizinha uma visão distinta da que um pe- riódico de referência apresentaria.
Além de fronteiriços, ambos os jornais são interioranos e localizados em cida- des de pequeno porte populacional e diferentes portes econômicos. Nessa condição, os periódicos estão sujeitos a determinadas condições culturais e empresariais de
25 Entende-se que isso ocorra em um processo recursivo, no sentido que Morin (2011) confere ao termo.
produção, circulação e receita que ajudam a conformar suas práticas jornalísticas, expostas em suas notícias. Dornelles (2004) indica que o foco editorial e a qualidade dos periódicos estão condicionados pelo envolvimento com os temas de interesse local, pelas condições socioeconômicas da população e pela capacidade de investi- mento da empresa, entre outros fatores.
A definição proposta por Alsina (2005, p.17) para a notícia, “uma representa- ção social da realidade cotidiana produzida institucionalmente que se manifesta na construção de um mundo possível”, sugere reflexão sobre as empresas que produ- ziram os jornais analisados. A composição das equipes, fluxos de recursos financei- ros e pressões internas e externas geradas a partir da circulação das edições no ambiente interiorano incidem na capacidade de produção noticiosa. O jornal Folha de São Borja é bissemanal e apresenta estrutura empresarial – é integrante, hoje, de um grupo de empresas de comunicação e possui uma equipe destacada para produzi-lo. Em contrapartida, o jornalista Carlos Zapata exercia as funções de editor- chefe, repórter e vendedor de anúncios para manter a circulação quinzenal.
Se a notícia não é um espelho de alta fidelidade do acontecimento, mas sim um relato construído a partir do acontecido, então suas informações devem ser ana- lisadas com distanciamento que permita o ceticismo. Ao defender a posição de que a informação é e sempre foi instável, Darnton (2010, p. 45) aponta para as notícias como registros de interpretação dos fatos, e não como relatos integralmente fiéis:
Por ter aprendido a produzir notícias, agora desconfio de jornais como fon- tes de informação. Muitas vezes, fico surpreso com historiadores que os utilizam como fontes primárias para descobrir o que realmente aconteceu. Na minha opinião, jornais devem ser lidos em busca de informações a res- peito de como os acontecimentos eram interpretados pelas pessoas da época, em vez de representarem fontes confiáveis dos fatos em si.
Romancini (2007) alerta para o risco de anacronismo provocado pelo uso de categorias ligadas ao modelo evolucionista-positivista de historiografia, ou História tradicional. Esse modelo, já superado no respectivo campo científico, caracteriza-se pela ênfase em documentos oficiais, com acumulação de grande quantidade de da- dos e descrições e baixo viés analítico, na premissa de que a documentação estu- dada traz informações verdadeiras sobre os fatos. O alerta de Romancini (2007) é
algo próximo de um eco da recomendação de Darnton: é preciso refletir, desconfiar e criticar a documentação consultada, situando-a em um contexto histórico, econô- mico, político, social e cultural.
O método escolhido para o processamento dos recortes dos jornais Folha de São Borja e Unión foi a Análise de Conteúdo. A decisão se deve à variedade de formas de aplicação do método e à capacidade de se gerar inferências com base nos dados quantitativos. A intenção foi obter, a partir dos recortes, informações que permitissem inferir a respeito dos valores-notícia de seleção empregados em cada veículo para divulgar o serviço de barcas e a Ponte da Integração, a configuração dos textos quanto à localização no jornal, os tipos e as quantidades de fontes de informações citadas nos textos, bem como verificar as modulações do status relaci- onal fronteiriço em cada texto sobre as inovações na travessia.
Para a coleta de dados junto ao editor do jornal Folha de São Borja, Roque Auri Andres, e ao ex-editor do jornal Unión, Carlos Segundo Zapata, aposentado e residente em Santo Tomé, optou-se pela técnica de entrevista semiestruturada. Os objetivos dessa etapa são levantar dados históricos da criação e da atuação desses jornais; entender o processo produtivo de cada publicação ao longo do tempo, inclu- indo, em especial, os dois períodos estudados (1982 e 1997); identificar as estruturas de pessoal e equipamentos; e saber quais os critérios organizacionais (SILVA, 2014) que condicionaram as coberturas de cada jornal sobre as mudanças na travessia do rio Uruguai (barcas, ponte internacional), sob o ponto de vista dos editores.