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O terceiro vídeo desta seção que procedemos a análise é o Não Faz Sentido! - Adoles- cência Tardia, publicado em 19 de julho de 2011 e o 31o vídeo postado no canal. A temática da “adolescência” é outra vez abordada, seguindo um pouco os argumentos apresentados no vídeo anterior que analisamos. Ao se referir aos adolescentes tardios, os chamados playboys, Neto (2011) sintetiza o assunto do vídeo da seguinte maneira: “A moda agora do momento é a preguiça, é o marasmo, é o lenga a lenga...”.

O vídeo inicia com Felipe se dirigindo a um grupo específico de jovens masculinos que recebem certo mimo por parte dos pais. Para se referir a essa “tribo” específica, o perfor- mer interpela o auditório por meio de um vocativo, atribuindo, também, características que qualificam a “criação” dos filhos e o modo como eles se comportam socialmente: “Ô muleque barbudo, que mora com os pais e só quer saber de ir pro bar, zoar, pimpão! Criado a leite com pêra, ovomaltino... Acorda pra vida, playboy...” (NETO, 2011).

Após a vinheta, Neto alega que os playboys são uma turma de jovens que pensam que já são adultos, mas que na verdade agem como se fossem adolescentes, “achando que a vida é um besteirol americano, que a vida é um... o American Pie.” (NETO, 2011). O filme mencio- nado integra o repertório cultural das audiências e faz menção a produção cinematográfica es- crita por Adam Herz e dirigida pelos irmãos Paul Weitz e Chris Weitz. A comédia já rendeu cerca de oito versões e trata das relações sexuais entre jovens e seus amigos, um “besteirol americano”, como diz Neto (2011).

A comparação com a série se deve à constatação que o performer faz de que, ao ultra- passar a idade de 20 anos, já não se é mais “muleque”. Com isso, percebemos que a “adoles- cência”, para Felipe Neto, é uma etapa da vida em que fazemos besteiras e tomamos atitudes “sem pensar”, como ele destaca também nos dois outros vídeos que analisamos nesta seção.

O emprego de palavrões ou adjetivos que desqualificam as audiências é recorrente neste vídeo, como notamos na seguinte passagem:

Não adiante mais você ficar gritando pro mundo: Eu sou homem! Eu sou homem! Agora eu sou homem! Porque se as suas atitudes são de muleque, você vai continuar sendo visto como muleque! Melequento, fedento a leite! Só pra deixar claro o que é ser um melequento: quando você tem vinte e poucos anos, você tem gás, cê tem energia, cê tem disposição... cê consegue começar as coisas do zero e... e ir com vontade, que nem um... um alce fugindo de um leão... cê consegue se destacar ainda cedo. Agora, quando você pega esse gás e você enfia no... álcool... nas baladas... na curtição... você se torna um melequento. Melequão! Eu vou usar palavras só da sua idade mental pra esse vídeo... sem palavrão. Bobalhudo. Bonachão. Tarantino. (NETO, 2011).

A variação de timbre é novamente retomada, possibilitando ao performer aproximar- se do timbre feminino, mais agudo, como quando ele grita: “Eu sou homem! Eu sou homem!” para demonstrar que o garoto deixou de ser adolescente e se tornou um rapaz, um jovem adul- to. A fala evidencia, ainda, em sua performance vocal, associada à gestualidade do performer, que inclina o punho das mãos para frente, um tipo de comportamento afeminado, que beira o limite entre o “masculino” e o “feminino”, próprio à adolescência, quando os meninos “mu- dam de voz”, ou seja, quando o timbre dos homens se torna mais grave. Percebemos, também, que as gírias e neologismos utilizados por Felipe são próprias ao grupo ao qual ele se dirige e do qual faz parte. Assim, verificamos que a abertura é uma ironia a si mesmo, pois Neto se apresenta com a barba por fazer (muleque barbudo) e, provavelmente, também se comportou da mesma maneira como ele critica (mora com os pais, criado a leite com pêra, playboy).

O ensinamento pretendido no vídeo diz respeito ao modo como Felipe pensa que as audiências devem se comportar: de maneira centrada e dedicada ao estudo e ao trabalho, sem contudo deixarem de se divertir. Aproximando o conselho de vida enunciado a si mesmo, Felipe deixa transparecer que sua escolha pessoal foi abrir mão de momentos de prazer e di- versão para se dedicar “ao que realmente interessa”. Observemos o seguinte trecho, em que podemos perceber tal aspecto:

Só que ouve com atenção, melocotom: o gás que você usa pra diversão, pegação, curtição... tem que ser menor que o gás que você usa pra dedicação, estudo, trabalho, investimento pro seu futuro. Ah, Felipe... deixa de ser careta, brother... Sô! Sô! Sô careta, sô paspalho, sô zé ruela, sô antidrogas, quase não bebo... e é isso aí! Sabe por quê? Porque ao invés deu ficar falando: pô, brother, ae... eu tenho só 23 anos, tá li- gado? Eu tô na fase de curtir... Eu prefiro falar: Eu tenho 23 anos... se eu não me de- dicar agora eu vou ser um melequento eternamente... É perfeitamente possível con- ciliar as duas coisas... a vida de trabalho e a vida de zuação. É só você trabalhar du- rante o dia num estágio e estudar à noite na faculdade. Quando chegar o fim de se- mana, meu amigo, chuta o balde... Dá um... plá... no balde... joga o balde pra longe e extravassa essa porcaria toda. Vai beber, vai se divertir... Você tem... sexta e sábado pra fazer isso. Dois dias de sete dias. O que não pode é você achar que deve se dedi- car dois dias e zuar... cinco dias. (NETO, 2011).

A dica ou conselho do performer às audiências é que elas saibam utilizar bem o tempo que possuem. Ao invés de “encherem a cara”, indo pra balada o tempo todo, pra “curtição”, Felipe aconselha que os usuários optem por coisas que possam lhes instruir, que lhes acres- centem alguma coisa, que lhes conceda cultura, como uma viagem, como ele sugere.

Um recurso ao qual o performer recorre para montar sua encenação é inserir entre as cenas em que está com óculos, como percebemos na Figura 28, na Figura 29 e na Figura 30, quadros em que ele representa alguém que lhe contraria, sem utilizar os óculos escuros, como por exemplo, quando ele diz: “Pô, Felipe, brother... mas eu não tenho direito pra viajar, irmão... pô, não tenho dinheiro...” (NETO, 2011). Seria como uma conversação interna, em que o agente conversa consigo mesmo, interpretando ora um personagem, ora a si próprio. As duas faces da mesma moeda são intercaladas por meio de cortes secos na imagem, organiza- das durante o processo de pós-produção e edição dos vídeos. A separação de ambos os papéis, como frisamos nos vídeos da temática “Felipe Neto”, seria o fim da performance, uma vez que essa prática opera justamente na indistinção entre o que Schechner (1985) denomina de “não-eu” e “não não-eu”. As duas faces, portanto, aparecem juntas, uma ao lado da outra, co- mo em uma moeda.

Dando continuidade à performance, Felipe oferece algumas soluções aos usuários que, por dependerem dos pais, não tem dinheiro, mas querem aproveitar a vida: façam estágio, ar- rumem uma bolsa de pesquisa ou arrumem um cartão de crédito. Observemos a passagem:

Num tem dinheiro, é simples: vai arrumar um estágio, vai trabalhar pro teu pai, vai fazer malabarismo no sinal, vai arrumar um desses cartões de crédito que te dá van- tagem... vai arrumar uma bolsa de pesquisa... vai tomar no... não! Não! Eu prometi que ia usar a sua linguagem... a sua... o seu nível de linguagem nesse vídeo... Então, vai tomar no... gutiguti gugudádá do neném da mamãe... na televisão.... (NETO, 2011).

A remissão ao cartão de crédito é a oportunidade que o performer encontra para divul- gar o produto da Credicard. Enquanto Felipe meninciona o cartão de crédito desta empresa, com seus diferenciais e vantagens, ele aponta com o dedo indicador da mão direita o endereço eletrônico no Facebook em que as audiências podem conhecer melhor o produto anunciado: facebook.com/MEUCREDICARD (FIG. 30).

Por fim, o performer solicita, como de praxe, que os usuários cliquem em gostar e ajudem na divulgação do vídeo. Neto também divulga seu outro canal no YouTube, o Parafer- nalha, dizendo que não se trata de propaganda, como no caso do Credicad. O nome do canal e

também empresa em que Felipe trabalha como dono aparece em um quadro, que disponibiliza, ainda, um link para que os usuários possam acessar o conteúdo mencionado na fala de Neto.

Figura 30 – Quadros do vídeo Não Faz Sentido! - Adolescência Tardia – YouTube – 2011

Fonte: NETO, 2011

Neste vídeo, como podemos perceber, a “adolescência” aparece como uma fase de transição entre a infância e a juventude. O período conturbado é permeado por várias dúvidas quanto a como se comportar e assumir um papel social que não é mais o de uma criança, mas sim o de uma pessoa que pode e quer assumir certas responsabilidades. Alguém que escolhe se mostrar como “autêntico”, que pode fazer suas próprias escolhas e que sabe, ou ao menos deveria saber, lidar com as consequências possíveis das decisões que passa a tomar.