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Nesta sessão do capítulo propomos uma discussão sobre o campo da interculturalidade como um tema em debate. Apresentando, inicialmente, um diálogo com alguns autores quanto aos seus entendimentos e uso de diferentes termos que designam a estabelecerem uma ideia sobre interculturalidade. Após esse cenário inicial, nosso desígnio será refletir e analisar sobre os desdobramentos históricos dos primeiros conceitos do termo até a constituição mais recente, que é concebida como educação intercultural e adotada como nova perspectiva epistemológica.

A interculturalidade tem se edificado como um campo de efervescência de debates, que ganhou eco e cada vez mais se evidencia frente aos diversos problemas socioculturais da sociedade pós-moderna. De acordo com Garcia e Fleuri (2015), muito se

tem falado ultimamente em interculturalidade, embora nem todos(as) deem à palavra o mesmo sentido. Os autores revelam, ainda, que o interesse por esse campo de debate vem se ampliando e está sendo assumido por diversos campos, como nos movimentos sociais, nas pesquisas científicas, pela mídia e até por camadas mais conservadoras da educação.

Contudo, deve-se ter prudência, pois, muito embora todas essas abordagens tenham como eixo o reconhecimento da diversidade cultural, elas podem apresentar-se, por muitas vezes, com uma nova tendência multicultural isenta de qualquer sentido crítico, político e transformador. Deste modo, o que seria um esforço para promover o diálogo e a cooperação crítica entre a(u)tores socioculturais diferentes, corre o risco de se reeditar em novas formas de sujeição e subalternização (FLEURI; GARCIA, 2015).

Para Fleuri (2005), a interculturalidade se estabelece como um complexo campo de debate entre as diversas concepções e propostas de enfrentamento das diferenças e construção dos processos de identidades culturais, objetivando especificamente a possibilidade de respeitar as diferenças e de integrá-las em um contexto em que não se anulem ou se sobreponham. O autor nos diz ainda que a interculturalidade vem se configurando em uma nova perspectiva epistemológica14, ao mesmo tempo em que se constitui em um objeto de estudo que visa tratar a complexidade e o caráter híbrido, sequencialmente para além da pluralidade e avanço linear nos processos de criação de significados ocorridos nas relações interpessoais e intersubjetivas, constituídas pela construção das identidades nas diversas manifestações culturais.

Nessa direção, a interculturalidade é vista como um campo que já demonstra fertilidade, tendo como meta e caminho a desconstrução de uma lógica alicerçada no monoculturalismo, que concebe os a(u)tores como detentores de uma única cultura, a universal, e assim se contrapõe à globalização eurocêntrica moderna. Como podemos observar nesse fragmento textual de Santos (2005, p. 41):

O interculturalismo tem como premissa básica a defesa de um novo saber, de novos valores e de normas de convivência comum, porém enriquecidos com os aportes de todos. Trata-se de uma questão ligada à cultura, e culturas em contato, tentando desocultar o universo teórico e de conceitos que povoa os saberes das diferentes ciências. Tenta-se uma passagem da lógica (uni) monocultural para a lógica (pluri) policultural.

14 A expressão faz referência às epistemologias alternativas, representadas pelas epistemologias do sul, conceito

formulado inicialmente por Boaventura de Sousa Santos, em 1995, em oposição à epistemologia dominante, partindo do princípio que o mundo é epistemologicamente diverso e que essa diversidade, longe de ser negativa, representa um enorme enriquecimento das capacidades humanas (SANTOS; MENESES, 2010).

Acresce-se a esse pensamento que a noção de interculturalidade, mais do que expressar a coerência étnica de um grupo social e fortalecimento de identidade cultural, também ajuda na aquisição dos conhecimentos culturais de outros povos. Isto significa que não aconteceu somente uma transição de termos conceituais; mas, sobretudo uma mudança no tratamento da pluriculturalidade no ambiente escolar (SILVA, 2003).

Vale ressaltar que a ampliação desse debate sobre interculturalidade trouxe também o desenvolvimento de diferentes correntes de pensamento sobre essa nova episteme, a qual se coloca hoje no campo das pesquisas interculturais como um desafio atual, que ainda precisa ser compreendido e desvelado mediante a presença de alguns “nós” a serem desatados. Como Fleuri e Garcia (2015, p. 16) nos apresentam:

De um lado, encontram-se as perspectivas teórico-epistemológicas que reduzem as relações interculturais às relações individuais, sem considerar os contextos sócio- políticos de subalternização, ou que as adequam funcionalmente às novas estratégias globalizantes de dominação. De outro lado, surgem perspectivas de interculturalidade crítica que apontam para a descolonialização do saber, do poder, do ser e do viver.

Caminhando na direção da desconstrução de padrões culturais coloniais modernos, de ressignificação e transformação de seu próprio contexto interativo, temos os estudos de Catherine Walsh (2009), que explora os múltiplos sentidos e usos contemporâneos da interculturalidade, estabelecendo três perspectivas para tal.

Uma primeira categoria se refere à interculturalidade relacional, que estaria restrita ao intercâmbio entre diferentes culturas, tornando invisíveis os processos de mestiçagem, objetivando minimizar os conflitos e contextos de poder e dominação. Sem levar em consideração as estruturas sociais, políticas e econômicas, que mantêm as desigualdades entre classes e a hierarquização dos poderes em termos de superioridade e inferioridade.

Em uma segunda perspectiva de interculturalidade, Walsh (2009) a define como funcional, a qual se alicerça no reconhecimento da diferença cultural enquadrando-a na estrutura social, procurando promover o diálogo, a convivência e a tolerância, sem, no entanto, adentrar nas causas dos processos de desenvolvimento de assimetrias de poder e das desigualdades sociais e culturais. Portanto, essa categoria reconheceria a diversidade cultural como eixo central, sem ter como horizonte a equiparação e igualdade das sociedades. Assim, se sustentaria pela lógica da produção e modo funcional do mundo e da economia capitalista.

Em uma terceira perspectiva de interculturalidade, denominada de crítica, a estudiosa problematiza a estrutura colonial e o modo de produção do mercado capitalista, apontando para a construção de outros paradigmas que privilegiem as sociedades e seus

grupos sociais marginalizados e subalternizados e as crescentes lutas pela descolonização na configuração de um cenário mais justo. Assim, interculturalidade crítica aponta para desconstrução dessa lógica descolonial, com vistas ao enfrentamento dessa matriz e a criação de modos outros de se viver.

Candau (2014) se aproxima dessa perspectiva, denominando-a como multiculturalismo aberto ou interativo, o qual se situa propondo e acentuando a interculturalidade, por considerá-la a mais adequada para a construção de sociedades democráticas e inclusivas, que têm a necessidade de articular as políticas de igualdade com políticas de identidade. Dessa forma, considerando a perspectiva intercultural como uma ferramenta importante para construção dessa articulação.

Em essência, a interculturalidade orienta processos que têm como pilar o reconhecimento dos direitos às diferenças e a luta contra todo e qualquer tipo de discriminação e desigualdade social, por meio da promoção de relações dialógicas e equitativas entre a(u)tores e coletividades, pertencentes a universos diferentes culturalmente, empenhando-se nos conflitos inerentes a tal realidade, e não ignorando as relações de poder tão marcantes nas relações sociais, a fim de reconhecer e assumir os conflitos buscando as estratégias mais adequadas para enfrentá-los (CANDAU, 2012).

É nessa perspectiva que a interculturalidade está envolta e emerge na busca para compreender em profundidade tais questões, que se impõem como necessárias para superação dessa lógica moderna. Contudo, nesse hiato, verificamos a necessidade de uma melhor compreensão desse emaranhado que se tornou o encontro destas terminologias e suas utilizações como novas abordagens epistemológicas.