subtrair, “às vezes explicitamente, o ser humano do tempo geológico e dos processos naturais a ele associados” (Drummond, 1991: 179). Acresce o mesmo autor que tal facto explica a “rejeição às implicações colonialistas e ou belicistas do "darwinismo social" de Helbert Spencer e aos determinismos geográficos e raciais do século XIX”. É já em pleno século XX, com um amplo desenvolvimento das Ciências Sociais que surgem novas vertentes do pensamento com o aparecimento de novas disciplinas que rompem, definitivamente, com paradigmas passados, destacando-se a sociologia ambiental que, pelo seu contributo, se instituiu com linhas de pensamento que “combateram esses reducionismos e determinismos geográficos, que souberam rejeitar as explicações da cultura através da biologia ou qualquer ciência natural e que resistiram aos conceitos e modelos da "história natural" e das suas herdeiras, inclusive a ciência da ecologia” (idem, ibidem).
É neste entendimento, e tendo presente que as questões ambientais não podem ser dissociadas das questões sociais, que reside a relevância da análise da relação das ciências sociais com o estudo do meio ambiente. Neste âmbito, apercebemo-nos, de imediato, do grau de complexidade que encontramos quando necessariamente se tem de integrar a análise das questões ambientais na esfera social. Como referem Axtell e Epstein (1996: 1), “Ios processos sociais são complexos pois estes não podem ser literalmente decompostos em processos separados - económicos, demográficos, culturais, espaciais (...) ambientais - cujas análises individuais podem ser agregadas de forma a conferir uma análise adequada dos processos sociais como um todo”. Contudo, e como acrescentam os mesmos autores, “é exatamente como a ciência social é organizada, dentro de departamentos mais ou menos insulares e jornais de economia, demografia, ciência política, e muito outros. Obviamente, muitos cientistas sociais, prontamente, concordariam que tais divisões são artificiais (...) mas, iriam também concordar que não existe uma metodologia natural para estudar esses processos em conjunto, da forma como estes estão intricados uns nos outros” (idem, ibidem). Concebendo que, análise à temática ambiental não pode ser tratada, de forma isolada, estanque e unidirecional, separando-a de toda uma multiplicidade de inter-relações de variáveis, vai-se proceder a uma breve abordagem histórica sobre a relação do Homem com o Meio Ambiente, incidindo, em particular, na sociologia como ciência e na sociologia ambiental como disciplina, devido ao elevado contributo que deram para a nova perceção das relações Homem/Ambiente. Através da análise à sociologia e aos fatores que estiveram na génese da sociologia ambiental se compreenderá melhor a estreita relação da componente ambiental com a componente social.
Como refere Haining (1990: 22), a estrutura espacial de cada época é “uma consequência dos instintos sociais dos indivíduos (...) e dos seus comportamentos” contextualizados num ambiente económico, social e cultural que determinam esses mesmos comportamentos, verificando-se que o comportamento da humanidade, que mais se perpetuou no tempo, insere-se num modelo que se refugiava na perceção que o ser humano era incapaz de infligir quaisquer tipos de danos ao planeta, pois este detinha a capacidade de tudo regenerar, compensando eventuais desequilíbrios
e mantendo inalterável o equilíbrio saudável entre o Homem e a Natureza. Neste contexto, a crença do Homem sobre a inesgotabilidade dos recursos e na ausência de qualquer tipo de impactes decorrentes da atividade humana no ambiente, foram correntes predominantes de pensamento que marcaram épocas. Como referem Berkes, Folke e Colding (1998: 1), este entendimento atribuía-se “à falta de visão humana e ganância do Homem que assim acreditava que os recursos poderiam ser geridos de forma sustentável”. O sistema de suporte de vida humana acometia a natureza a uma simples fonte fornecedora de mercadorias em que o mundo científico orientava a utilização desses mesmos recursos como se fossem ilimitados, cegamente vinculado à mentalidade reinante das sociedades.
Neste contexto, a história do século XVIII e, mais ainda, no século XIX, remete-nos para uma doutrina ideológica, que ficou conhecida como determinismo. Este conceito afirma que “existe uma relação causal entre a estrutura do ambiente e as formas de organização da sociedade, os tipos de povoamento, os regimes políticos, as características físicas, morais e de personalidade dos habitantes, para além dos seus costumes e as suas práticas habituais” (Mela et al, 2001: 56). Neste campo, destacaram-se o determinismo geográfico e o determinismo biológico que encetavam duas teorias sobre o desenvolvimento social. A primeira foi acerrimamente defendida por Henry Thomas Buckle, historiador britânico que afirmava nas suas obras, uma das mais conhecidas “History of Civilization in England”, que a sociedade humana “é produto das forças naturais e é, portanto, susceptível de uma explicação natural” (Bierstedt, 1981: 2). Segundo o autor, o aspeto visual da natureza tinha uma enorme influência sobre o Homem, sendo capaz de moldar o seu comportamento. De acordo com a sua interpretação sociológica, o Homem reflete o meio onde vive, isto é, no ambiente natural, bonito ou no seu oposto, bastante degradado, a sua imaginação desenvolve-se de uma forma excessiva, ao contrário, se o ambiente for menos ameaçador, menos hostil, tal situação desenvolveria a inteligência mais racional do Homem. Por exemplo, o caso da Inglaterra que, ao caracterizar-se por relevos agradáveis, relevos pouco acentuados, com suaves colinas representava, segundo o autor, um exemplo de paisagem que promovia a inteligência racional.
Entretanto, surgia uma outra doutrina que assenta no discurso sociológico do darwinismo e a sua posição evolucionista. Charles Darwin, naturalista britânico, numa das suas obras, “A Origem das Espécies”, formula a teoria da evolução dos seres vivos mediante uma seleção natural que proporciona aos indivíduos variações úteis na luta pela existência; estas variações transmitem-se, reforçadas, aos descendentes. Em virtude da seleção natural, sobrevivem os indivíduos e as espécies melhor adaptadas. Estas ideias revolucionam as conceções biológicas da época. Esta doutrina foi seguida por muitos sociólogos, um dos quais Herbert Spencer, que adaptou o principio da seleção natural ao domínio humano. William Graham Sumner, um dos discípulos de Herbert Spencer, acrescentou a esta teoria o seu próprio conceito – o “conceito de competição da vida” – que referia, inclusivamente, que a luta do ser humano não era só travada com as outras espécies, mas também com a sua própria espécie. Este pensamento vigorou até início do século XX,