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1.2.2.3 Bilan historiographique

Após algum tempo de análise pessoal e de reflexões sobre a trajetória profissional de vários estudiosos que aprendi a admirar, pude perceber que suas construções teóricas, e sua busca profissional, eram análogas, e algumas vezes, conectavam-se, de forma precisa, às suas buscas mais subjetivas.Por isso mesmo, ao

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traçar a minha trajetória, embora num movimento pouco comum à prática acadêmica, escolho começar pela intimidade do meu nascimento. Mais precisamente por fatos e circunstâncias que o antecederam e que, ao meu ver, já delinearam possibilidades e escolhas, abraçadas consciente-inconscientemente ao longo do percurso, e cujo sentido só lhes pude atribuir, posteriormente.

O meu nascimento foi festejado com a presença de um duplo afeto. De um lado, o cheiro forte de velas que, segundo minha mãe, lembrava o falecimento recente da minha avó paterna que se fora, um mês antes da minha chegada ao mundo, e as mortes consecutivas dos quatro irmãos que me antecederam. Dois deles, vítimas de doenças sustentadas pela pobreza e pelas péssimas condições de saneamento básico e de saúde de uma das regiões mais pobres do sertão mineiro, no vale do Jequitinhonha. E dois cuja gestação nem chegou a termo, entre outros fatores, pela ausência de políticas, programas e serviços públicos de saúde, que pudessem garantir às mulheres de baixa renda o acesso ao acompanhamento médico e psicológico, no período pré-natal.

De outro lado, a presença de velhos, segurando nas mãos: água, carvão, flores silvestres de sabugueira, ramos verdes de arruda, erva de santa Maria e alecrim, e que, em uma espécie de ritual de pajelança, transmitiam a herança da minha origem familiar indígena, enquanto rezavam pela minha mãe, para que tivesse um parto tranquilo, e velavam pela vida da criança que era eu, na minha chegada ao mundo. Eles ao som de seus cochichos e embalados pelos diferentes sentidos de suas crenças, buscavam em preces balbuciadas, as dádivas celestes para a família, que consideravam abençoada com o surgimento de uma nova vida.

Foi interessante recuperar desta história um fato significativo: o meu primeiro choro forte e insistente, nos momentos posteriores ao nascimento, segundo me foi contado, foi interpretado como fome e apelo ao peito, e foi acalentado pela minha avó materna, com um aconchego no colo e uma “chuquinha” 14 de chá, uma vez que

minha mãe, debilitada física e emocionalmente, por instruções da parteira, deveria ser poupada de iniciar a amamentação imediatamente após o parto. Em reposta ao choro

14 Termo utilizado regionalmente para designar uma pequena mamadeira que era utilizada para complementar a alimentação do recém nascido. Além do leite materno, era comum utilizar, nesta época, os chás de erva doce, picão, poejo, hortelã, erva cidreira e outras ervas usadas para aliviar sintomas de doenças típicas dos recém nascidos.

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e após o chá, fui ninada longamente por dois velhos, que tiveram uma grande participação em minha infância: minha avó de umbigo: S. M. P e o senhor V.L.M. Várias vezes, quando ainda era criança, ouvi o senhor V.L.M. cantar para mim este verso, criado por ele em minha homenagem: “Êta menina de espírito forte; trouxe a vida pra sua casa e venceu a sina de morte.”

Segundo afirma Goffman (1985 p.11) ao discorrer sobre a representação do Eu na vida cotidiana, o que dizem de cada pessoa, e a forma como a representam, também a influencia no que ela pensa e sente a respeito de si mesma. Neste caso isto foi comprovado, pois apropriei-me da proposta imagética destes velhos amigos, na construção da minha identidade.

Assumi ao mesmo tempo o lugar de quinta filha, e o lugar da filha mais velha. A primogênita dos sete irmãos que compõe hoje, juntamente com meus pais, já idosos, a minha família de origem direta. Gostei de me apropriar desta imagem, quase heróica. Aliás, segundo afirma Hanna Arendt(2010)15, Somos sempre o herói de nossa história. E narramos nossos feitos heróicos, como forma de buscar a distinção. E, com amparo nesse pensamento, se por um lado, fui precedida pela morte, e pela constante presença/lembrança da finitude humana, estampada na saudade que minha mãe abraçou como forma de suplantar a ausência dos mortos; por outro, o feito heroico, foi que inaugurei de fato, a vida na nossa casa e representei a marca inicial de uma história consecutiva de ganhos e de vida. Pois, segundo conta minha mãe, foi a minha insistência em demandar o seu olhar ainda vidrado na imagem dos meus irmãos mortos, que contribuiu para que ela, através da minha vida, recuperasse o seu sorriso e a vontade de viver.

Uma vez que a maioria das abordagens teóricas da psicologia, ainda que por caminhos diferentes, afirmem que os seres humanos necessitam ser vistos, reconhecidos e desejados, para que depois possam se ver, reconhecendo a si mesmo, na sua diferença, e direcionar seus afetos ao outro, eu diria que em decorrência desse intervalo de ausência-presença do olhar da minha mãe, os velhos, me viram primeiro, e eu simplesmente, respondi ao seu olhar. Talvez, devido a esta história, a racionalidade e o afeto nesse caso, se conectem de tal modo, que

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sustentem, como dois pilares, minha trajetória profissional. Pois não consigo rever minha infância, e tampouco escrever sobre o envelhecimento, sem trazer à lembrança os velhos da minha terra. Eles povoam meu imaginário ainda hoje, com seus sonhos, lugares, com os personagens de suas histórias, e com os sons de músicas antigas de autoria própria, ou da cultura popular, que eram cantadas por eles, em refrões repetidos, como este:

“Que lindos olhos. Que lindos olhos, tem você. Que ainda hoje, que ainda hoje eu reparei. Se eu reparasse, se eu reparasse há mais tempo. Eu não amava, não amava a quem amei.” 16