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Basic Definitions

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Neste sentido, torna-se essencial desenvolver uma educação que considera a interculturalidade como paradigma do aprender a interpretar e a compreender as nossas

125 «Temos a escolha entre o confronto de culturas e o trabalho de reinterpretação e o alargamento

cultural que cada indivíduo pode fazer e que as instituições, a escola e os media devem encorajar (…)», T. do a.

98 sociedades diversas e complexas «comme paradigme pour penser le divers»126 (Abdallah-Pretceille, 2006: 77).

Segundo esta autora, a partir dos anos 1980, face à mudança de visão de uma cultura como ordem, como sistema para uma cultura como ação, como produto de uma situação, de interações num contexto, de uma cultura como construção e não como estado, o paradigma intercultural corresponde a uma outra maneira de analisar a diversidade cultural. O paradigma intercultural analisa não a partir das culturas e das identidades consideradas como entidades independentes mas como processos e dinâmicas segundo uma lógica da complexidade e da variação. Isso significa que os dados interculturais são dados construídos e não correspondem a características de indivíduos ou de grupos. Resultam de um modo de interrogação e de um olhar, no sentido científico do termo (Abdallah-Pretceille, 2006).

Com este paradigma intercultural, a autora propõe, por isso, em vez do conceito de cultura, o de culturalidade, que permitiria «conceber os fenómenos culturais a partir das dinâmicas, das transformações, dos cruzamentos e das manipulações. (…) Seria a cultura em ato»127 (Abdallah-Pretceille, 2006: 81). Para apreender e compreender a natureza complexa, imprevisível e aleatória das culturas, não basta um conhecimento descritivo das mesmas. Torna-se necessário um conhecimento dinâmico e compreensivo dos fenómenos e processos culturais como a aculturação, a assimilação, a resistência cultural, a identidade, a mestiçagem, etc., geradores dos comportamentos e discursos respeitantes às culturas (Abdallah-Pretceille, 2006).

A partir desta observação, Abdallah-Pretceille entende que a interculturalidade (não possuindo um objeto particular e não cobrindo um novo campo disciplinar) tem a mais-valia de considerar a dimensão cultural dos problemas, não como um epifenómeno e muito menos, ainda, como uma variável única e excessivamente determinante consubstanciando um paradigma específico. O que corresponderia, segunda a sua análise, à deriva culturalista. Por isso, Abdallah-Pretceille (2006: 78) sublinha que:

126 «Como paradigma para pensar o diverso», T. do a. 127 Cf. Introdução: Definição de palavras-chave.

99 «La démarche interculturelle, confondue souvent avec une approche culturelle voire multiculturelle, met au contraire l’accent sur les processus et les interactions qui unissent et définissent les individus et les groupes les uns par rapport aux autres. Il ne s’agit pas de s’arrêter sur les caractéristiques auto-attribuées ou hétéro-attribuées des autres, mais d’opérer, dans le même temps, un retour sur soi. En effet, toute focalisation excessive sur les spécificités d’autrui conduit à l’exotisme ainsi qu’aux impasses du culturalisme par survalorisation des différences culturelles et par accentuation, consciente ou non, des stéréotypes voire des préjugés. L’interrogation identitaire de soi par rapport à autrui fait partie intégrante de la démarche interculturelle. Le travail d’analyse et de connaissance porte autant sur autrui que sur soi-même»128.

Para esta autora, todo o discurso sobre a cultura não é mais do que a expressão de um ponto de vista suscetível de ser confirmado ou infirmado por outras versões e não é o reflexo de uma realidade objetiva mas o resultado de uma atividade social, política e da linguagem. É um discurso que consideramos pertinente em virtude da problemática da interculturalidade que se defronta simultaneamente com questionamentos sobre a complexidade dos funcionamentos interculturais dos indivíduos, dos grupos, das interações individuais e intergrupais. O mesmo é dizer que os níveis de análise têm de ser diversificados para não sermos apanhados por uma visão demasiado hermética e específica. Aliás, a cultura é um espaço de posicionamento de si e dos «outros.»

Mas as culturas, marcadas pela história, pela geografia, pela política, pela economia, pela antropologia, pela sociologia, pela psicologia, etc., condicionadas pela relação com «os outros» e inscritas num contexto, num tempo e num espaço, têm tido a tendência de olhar demasiado para si. O seu desafio ao longo dos tempos foi sempre o de libertar-se de discursos dogmáticos e integristas. Como analisa Abdallah-Pretceille (2003), apoiando-se em Pierre Bourdieu, quando este afirmava que não há autonomia da língua relativamente às condições de produção, também não há cultura (aliás, como a

128 «A abordagem intercultural, muitas vezes confundida com a abordagem cultural ou até mesmo

multicultural, coloca a ênfase sobre os processos e as interações que unem e definem os indivíduos e os grupos, uns em relação aos outros. Não se trata de se deter nas características auto-atribuídas ou hetero- atribuídas dos outros, mas operar, ao mesmo tempo, um regresso sobre si próprio. Na verdade, qualquer focalização excessiva sobre as especificidades de outrem conduz ao exotismo como ainda aos impasses do culturalismo por sobrevalorização das diferenças culturais e por acentuação, consciente ou não, dos estereótipos, e até, dos preconceitos. A interrogação identitária de si em relação ao outro é parte da abordagem intercultural. O trabalho de análise e conhecimento realiza-se não só sobre o outro como sobre si próprio», T. do a.

100 religião) sem que se considere as condições de comunicação e de enunciação (Abdallah- Pretceille, 2003). Por isso, duas lógicas caracterizam as culturas: uma lógica relacional e uma lógica de pertença. As culturas não existem, na realidade, sem os indivíduos que as transportam e as atualizam permanentemente.

Deste modo, ao evidenciar-se que a cultura se define fundamentalmente a partir de um espaço social e relacional, isso significa um interesse e uma análise teóricos sobre os processos, os contextos, as interações, mais do que sobre informações simplesmente descritivas e, em princípio, objetivas. Com isto, queremos dizer que não se poderá compreender uma cultura e ir ao seu encontro e esta vir ao nosso encontro ou mesmo compreender a dimensão cultural de uma situação ou de uma ação, a partir de análises puramente culturais. Deparamo-nos, deste modo, com a necessidade de se ir para além do simples conhecimento e denotação dos factos culturais porque estes são mais do que unidades simples, são factos complexos suscetíveis de interpretações múltiplas.

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