Os debates sobre as implicações culturais do turismo ou, em termos mais particulares, sobre as questões da homogeneização ou da autenticidade cultural são reveladores da complexidade das relações entre turismo e cultura, as quais têm vindo a ser alvo de crescente atenção nas últimas duas décadas, especialmente no contexto do chamado ‘turismo cultural’. Até há relativamente pouco tempo, e como diversos autores referem, as esferas do turismo e da cultura eram vistas como distintas e bem demarcadas, sendo o turismo entendido como um conjunto de atividades circunscritas no tempo e no espaço (Rojek e Urry, 1997: 2) e com um cariz predominantemente lúdico. Talvez devido a esta perceção, a cultura e o turismo têm permanecido – salvo algumas exceções importantes e que serão posteriormente consideradas – relativamente impermeáveis enquanto domínios epistemológicos. Para além disso, e como Clarke e Meethan salientam, muitos dos estudos desenvolvidos no âmbito do turismo têm tratado a cultura de forma simplista, não problematizada (Clarke, 2001: 1-2), quer como um conjunto de características sociais distintivas de pessoas ou lugares, quer para descrever determinados tipos de atrações turísticas (Meethan, 2001: 127).
No entanto, o desenvolvimento extraordinário do chamado “capitalismo do consumo” ou das “economias simbólicas” (Lash e Urry, 1994), caracterizado por um incremento da produção e do consumo de bens simbólicos e da mobilidade de pessoas, objetos e culturas a nível global, assim como as repercussões destas alterações no âmbito do turismo – nomeadamente a expansão e diversificação de tipos de turismo e de objetos turísticos e uma maior consciência da importância dos significados simbólicos na construção, promoção e consumo das atrações turísticas – têm levado muitos autores a refletir sobre a convergência ou mesmo sobreposição das duas categorias, bem como das práticas que elas descrevem (Rojek e Urry, 1997: 3; Urry, 2002: 93; Craik, 1997: 71). Neste contexto, Rojek e Urry questionam: “Where does tourism end and leisure or culture or hobbying and strolling begin?” (Rojek e Urry, 1997: 1)
128
A ideia de que o turismo é fundamentalmente uma prática cultural há muito que vinha sendo enfatizada, particularmente no âmbito de análises sociológicas e culturais do turismo. Na sua análise pioneira sobre a complexidade da experiência turística, já MacCannell reconhecera a natureza intrinsecamente cultural do turismo, afirmando por exemplo que todas as atrações turísticas, ou o lazer em geral, constituíam experiências culturais (MacCannell, 1999: 23, 35). Na esteira de MacCannell, e no âmbito do seu estudo sobre o cariz semiótico do turismo, Culler chamou igualmente a atenção para o facto de a experiência turística ser uma prática sobretudo cultural (Culler, 1981: 127). Também Clarke e Critcher fundamentam a aplicação de instrumentos de análise dos estudos culturais ao lazer a partir da assunção básica de que “o lazer é uma forma de cultura” (1985: 226).
Foi a expansão extraordinária dos objetos e das práticas consideradas ‘culturais’, decorrente daquilo a que poderíamos chamar a ‘legitimação’ social da cultura popular e do esbatimento da dicotomia cultura erudita/popular, e a diversificação dos tipos de turismo entendidos como ‘culturais’, assim como a convergência destes processos no âmbito do turismo cultural, que tornaram a cultura um foco central e um problema analítico no âmbito dos estudos de turismo. Até há algumas décadas atrás, a noção socialmente dominante de cultura como um conjunto restrito de práticas e bens culturais eruditos determinara em grande medida a visão do turismo cultural como um tipo de turismo ligado à educação e à cultivação intelectual e à visita de determinados locais ‘certificados’ como culturais (neste sentido ‘elevado’ de cultura e herdeiro do chamado Grand Tour). A associação desta noção de cultura a um segmento populacional socioeconómico privilegiado, e em termos mais genéricos as distinções entre cultura erudita e cultura popular (esta última com uma conotação negativa, aliada às massas e à falta de qualidade e de gosto), foram igualmente transpostas para o turismo. Assim, o turismo cultural era (e em parte continua a ser) visto como claramente distinto – ou mesmo oposto – ao chamado ‘turismo de massas’, circunscrevendo-se a um segmento de mercado composto por consumidores com um nível socioeconómico e cultural mais elevado, e logo potencialmente mais lucrativo.
A afirmação e generalização de entendimentos de cultura mais latos, inclusivos de artefactos e de práticas simbólicas de cariz popular e de grupos sociais tradicionalmente marginalizados ou considerados culturalmente ‘inferiores’, aliada à crescente perceção do potencial comercial dos bens culturais, fomentaram a construção de equipamentos culturais dedicados à representação destes grupos, contribuindo sem dúvida para a expansão extraordinária do número de museus e outros monumentos, muitos deles de cariz popular, verificada nas
129
últimas décadas e particularmente no contexto europeu (Richards, 2005: 38; Smith, 2003: 31; Smith e Robinson, 2006: 5). Sendo o turismo e a cultura fenómenos indissociáveis, estes desenvolvimentos traduziram-se na proliferação de uma série de nichos ou subtipos de turismo identificados como culturais e difíceis de destrinçar, tal como Greg Richards constata: “Cultural tourism, heritage tourism, arts tourism and a host of other terms seem to be almost interchangeable in their usage, but it is rarely clear whether people are talking about the same thing.” (2003: 2)
O reconhecimento crescente de que a cultura abrange não só equipamentos e/ou práticas simbólicas institucionalizadas como também práticas sociais informais e quotidianas (aquilo a que Richards chama “cultura como produto e como processo”) teve também diversas implicações evidentes ao nível do turismo e do entendimento de turismo cultural. Por exemplo, no seu estudo das diferentes representações de Amesterdão enquanto destino ou atração turística, Heidi Dahles descreve os passeios pedestres organizados por uma fundação social local (em conjunto com a entidade de turismo da cidade), e com a participação de residentes seniores no papel de guias, como uma forma de turismo cultural ‘alternativo’, centrado nas experiências e no conhecimento diretos dos espaços e das vivências quotidianas locais (Dahles, 1996). Também Clarke (2001), na sua abordagem à “dinâmica cultural do turismo”, salienta a necessidade de ultrapassar as limitações e o elitismo da noção de cultura ligada às artes e ao património histórico-cultural e valorizada na maioria das conceptualizações de turismo cultural em detrimento das “realidades vividas das vidas quotidianas das pessoas comuns” (Clarke, 2001: 2). Neste contexto, o autor defende que o turismo cultural deve ser concebido também como um “processo de absorver a atmosfera do destino, de provar a gastronomia local, de visitar os bairros e as casas dos habitantes locais” (8). Smith e Robinson postularam recentemente esta noção mais abrangente da experiência turística cultural:
Destinations, their peoples and cultures are experienced by the tourist and not just gazed upon. Observing tourists reveals that they actually spend considerably less time than we think in formalised cultural settings such as galleries, museums and historic buildings. Rather more time is spent in restaurants, cafes, bars, shops, the airport and the hotel. Indeed, tourists spend large amounts of time ‘walking around’ and ‘people watching’, and in this process observing and encountering aspects of the host’s culture in the form of everyday practices and behaviours. (Smith e Robinson, 2006: 8)
Greg Richards salienta os problemas – de natureza conceptual e operacional – colocados por esta dilatação dos entendimentos de cultura e de turismo cultural e das práticas sociais que
130
eles compreendem. Perante a constatação de que o turismo per se inclui sempre e necessariamente elementos culturais, o autor questiona-se sobre a própria viabilidade e relevância do conceito de turismo cultural. A abrangência e a diversidade do fenómeno tem-se refletido na coexistência de diferentes definições, que tornam difícil – ou mesmo impossível – a adoção de uma noção única e consensual (Richards, 2003: 3; McKercher e Du Cros, 2002:3).
Na sua consideração crítica das várias conceções de turismo cultural, Richards (2003) distingue e analisa quatro abordagens ou definições principais que designa de ‘conceptuais’, de ‘mensuração’, baseadas nos ‘recursos’ e nos ‘turistas’. Segundo este autor, as abordagens conceptuais centram-se nas motivações dos turistas culturais e enfatizam o cariz educativo – o desejo de aquisição de conhecimentos – da experiência turística. Contudo, o facto de serem muito abrangentes inviabiliza a sua operacionalização, nomeadamente para efeitos de identificação, avaliação e gestão deste tipo de turismo. Entre este tipo de abordagens conta-se a definição genérica da OMT, que descreve como turismo cultural “todos os movimentos de pessoas (…) que satisfazem a necessidade humana de diversidade e tendem a aumentar o nível cultural dos indivíduos, dando origem a novos conhecimentos, experiência e encontros” (Richards, 2003: 4), e a de McIntosh, Goeldner e Ritchie, de acordo com os quais “o turismo cultural engloba todos os aspetos da viagem através dos quais as pessoas aprendem sobre outros modos de vida e de pensamento” (1995: 191).
Um outro aspeto relevante no que respeita a algumas destas definições é a sua progressiva ampliação: uma versão anterior da supracitada definição de McIntosh, Goeldner e Ritchie referia igualmente a história e o património (McIntosh e Goeldner, 1986; Richards, 2003: 4). Também a ‘Carta do Turismo Cultural’ da ICOMOS, originalmente publicada em 1976, identificava como objeto do turismo cultural “a descoberta de monumentos e sítios [patrimoniais] ” (ICOMOS, 1976). Contudo, a versão revista do documento, datada de 1999, expande consideravelmente a noção de património cultural para incluir práticas culturais, experiências e saberes passados e presentes” (ICOMOS, 1999). A definição ampla da ATLAS (1996) destaca igualmente a cultura e os modos de vida locais e contemporâneos como componentes do turismo cultural, a par do património histórico-cultural (Richards, 2005: 4-5; Richards, 2003: 4).
A definição ‘estreita’ de turismo cultural da OMT (1985), assim como a ‘definição técnica’ proposta pela ATLAS (1996), com uma maior ênfase nas motivações de natureza educativa, e na visita a locais e eventos de cariz histórico-cultural e artístico, têm, segundo Richards, a
131
vantagem de permitir a identificação e monitorização dos turistas culturais. No entanto, elas não permitem aferir o grau de motivação dos visitantes, limitando-se a contabilizar as visitas a determinados locais ou eventos. Este facto pode obviamente conduzir a resultados inexatos e pouco fiáveis, tal como Clarke exemplifica, referindo o caso de alguns participantes numa visita turística a Roma, que são contabilizados como turistas culturais, apesar de entrarem no Coliseu apenas para utilizar os sanitários, regressando de seguida ao autocarro (Clarke, 2001: 8).
Esta pode igualmente ser apontada como uma deficiência das noções de turismo cultural baseadas em tipologias de recursos turísticos identificados como ‘culturais’, tal como o da ECTARC (1989), que inclui locais e eventos de cariz artístico e histórico-cultural, artes performativas, visitas e eventos ligados ao estudo de línguas e literaturas, assim como culturas e subculturas tradicionais (Richards, 2003: 6). Para Richards, este tipo de definições tem a vantagem de dar conta da abrangência e diversidade do turismo cultural, mas pode oferecer alguns problemas pelo facto de incluir atrações de pendor mais educativo a par de outras com um cariz maioritariamente lúdico. Tal como este autor, também Craik se posiciona criticamente em relação a certas definições que a seu ver são demasiado latas, e em particular à do ATC (a entidade nacional de turismo australiana), questionando: “Is it fair to ask whether there should be a particular focus on the cultural or educational dimension of these types of tourism in order for them to be counted as cultural tourism?” (Craik, 2001: 105)
Por fim, Richards considera que as conceções de turismo cultural centradas no propósito da visita, adotadas particularmente pelas entidades públicas de turismo (regional/local) e para fins estatísticos, não são muito úteis uma vez que adotam categorias muito genéricas para caracterizar o objetivo das visitas (por exemplo, ‘lazer’ ou ‘visita a familiares e amigos’) e que não aferem o grau de motivação dos turistas. De acordo com as sondagens desenvolvidas pela ATLAS em diversas atrações turísticas, a maioria dos visitantes não se autoidentificam como ‘turistas culturais’, apesar do consumo de bens culturais fazer muitas vezes parte das suas viagens (Richards, 2003: 8).
Tanto Richards como Craik são bastante críticos das noções mais latas e abrangentes de turismo cultural, propostas em particular por organismos internacionais e nacionais de turismo, que generalizam e aplicam a cultura – associada à qualidade e à sofisticação – a um número crescente de formas de turismo, com o objetivo de as tornar mais apelativas, ou seja, como uma estratégia de marketing que tenta aumentar a procura através da valorização da
132
oferta (Richards, 2007: 1; Craik, 2001: 105). Já McKercher e Du Cros, que abordam o turismo cultural de um ponto de vista da promoção e comercialização, acolhem com satisfação a conceptualização do turismo cultural como uma atividade de qualidade destinada ao ‘mercado de massas’ e como um produto primordialmente económico que consiste na capitalização dos bens culturais (McKercher e Du Cros, 2002: 1, 8). De facto, uma breve análise do papel atribuído ao turismo cultural no âmbito das políticas turísticas nacionais e transnacionais no contexto europeu confirma a opinião de Richards de que o turismo cultural se tornou, e é percecionado, como “o santo graal do turismo de qualidade” (Richards, 2007: 1), ou como a última tendência da moda no mundo do turismo (McKercher e Du Cros, 2002: 1).