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Application aux DCOM

Dans le document UNIVERSITÉ DE LA POLYNÉSIE FRANÇAISE (Page 175-200)

1. Revue de la littérature

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autores identifica, ainda, dentre os principais grupos presentes no país, uma tendência dos nativos do Suriname e das Antilhas de se inserirem melhor na sociedade local que os marroquinos e os turcos, devido à familiaridade com a cultura e a língua local (Schalk‐Soekar, Breugelmans e Van De Vijver, 2008).

Ainda sobre as dificuldades de integração do sujeito ao todo social, Merton (1938), Norton (2013) e Moreira (2014) afirmam a existência de uma relação direta entre o acesso dos migrantes a recursos simbólicos e materiais e o status social. Esta relação é importante para compreender o processo de construção da representação que os sujeitos têm de si e do seu entorno. Segundo Norton (2013), a perceção de si construída pelo sujeito está relacionada com os desejos por reconhecimento, pertencimento, estabilidade e segurança. Tais desejos, por sua vez, não podem ser separados da distribuição de recursos materiais existentes numa sociedade, reforçando assim a noção de que o acesso aos recursos materiais (bens de consumo) e simbólicos (língua, educação, amizades) são condições fundamentais para a integração do migrante na comunidade recetora. Assim, quanto maior o acesso do migrante aos recursos materiais e simbólicos, maior o acesso ao poder e aos privilégios.

Interessa-nos ressaltar que essas reflexões e análise da integração sob a lógica de grupos ou sujeitos (Entzinger e Biezeveld, 2003) apresentam contribuições importantes para um estudo sobre a integração de imigrantes brasileiros sob uma perspetiva que privilegia as experiências, as emoções vividas e as representações construídas por estes sujeitos sobre os processos de adaptação ou não ao país de destino. Uma investigação, portanto, sobre a sociabilidade desde sujeitos, suas afetividades, suas práticas quotidianas (trabalho, escola, lazer, compras) e suas representações sobre a adaptação e integração nas sociedades de origem e de destino torna-se importante.

1.3 As Redes Sociais: Um Olhar Sobre o Espaço

As ciências sociais têm feito um esforço para compreender a dinâmica cultural do fenómeno que nomeamos de desterritorialização. Neste sentido, a teoria transnacional - o transnacionalismo, nos estudos migratórios, constitui um importante esforço teórico. É, portanto, considerada uma perspetiva inovadora para a análise das migrações internacionais, ainda que o transnacionalismo não

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seja compreendido teoricamente como um fenómeno novo, ainda que existam, na história das migrações, exemplos de transnacionalismo. Todavia, com o advento das novas tecnologias na área das telecomunicações e dos transportes, facilitando enormemente o deslocamento entre grandes distâncias e a comunicação através das fronteiras nacionais, este fenómeno ganhou um forte impulso.

Com isso, as práticas, as relações e os vínculos atuais de sociabilidades não são apenas mais intensos do que em épocas anteriores, mas também são afetados pela possibilidade de realização concomitantemente: “aqui e lá”. Nesse contexto, as tecnologias assumem um papel importante, com forte centralidade, na busca de compreender as migrações como um fenómeno transnacional. Segundo os estudiosos da área, um dos papéis das redes sociais virtuais na experiência migratória é aquele que, outorgando-lhe agência aos sujeitos, os proporciona serem relativizadores da distância física e geográfica entre os locais de destino e de origem dos migrantes (Bauman e Penchel, 1999; Castells, 2000), ou seja, as tecnologias permitem superar as distâncias e aproximar os lugares e as pessoas mais facilmente.

Esta (con)vivência transnacional entre os múltiplos pólos de relacionamento possibilita ao migrante uma experiência de viver simultaneamente entre um lugar e outro. Simultaneidade não no sentido de viver em um lugar ou outro, mas de se incidir como um pivô entre os lugares com os quais mantêm relação de ligação. Neste especto, é importante entender essa experiência de simultaneidade, de pertença a dois ou mais espaços, sem que a vinculação com um seja exclusiva do elo com o outro dos imigrantes. Segundo Togni (2015), no ambiente virtual existe um lugar mutuamente constituído, no qual tudo o que é realizado, vivido e sentido em um só lugar se realiza e também se desfaz no outro. Nesse sentido, enquanto no ambiente de destino o sujeito é um migrante, no ambiente de origem assume outros papéis e identidades. Assim se constitui uma migrante no ambiente de destino, embora seja esposa e mãe no ambiente de origem; ou um pai no destino, mas que também é filho na origem. Todos esses elementos e práticas indicam que não existe uma rutura radical entre o que os sujeitos são em um lugar e no outro; mas sim que desempenham múltiplos papéis em diferentes lugares simultaneamente. Logo, as noções de simultaneidade, de multiplicidade identitária e de interação entre diferentes

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papéis sociais revelam que, mais do que abordar as ruturas radicais e ou pertenças particulares e exclusivas, necessitamos compreender as articulações: articulações que compõem a vida das pessoas que, imbricadas em distintos contextos socioculturais, lhes conferem uma maneira híbrida de viver, desenvolvendo vínculos, atividades e pertenças com todos os lugares inerentes às tarefas e vivências quotidianas.

Reside nesse ínterim a importância das novas tecnologias para a compreensão dos processos de mobilidade humana na atualidade, uma vez que atuam tanto como canais facilitadores para que os futuros migrantes possam localizar amigos e parentes no exterior, dispostos a prestarem assistência ao seu projeto de mobilidade, quanto, e ao mesmo tempo, possibilitam que os migrantes mantenham fortes laços de afinidade e inserção com a comunidade de origem, independentemente da distância geográfica existente entre eles. Neste especto, destacamos as contribuições do trabalho de Boyd (1989) para uma melhor compreensão sobre as redes sociais como componentes fundamentais nas análises dos sistemas migratórios. Nas suas análises de redes sociais baseadas em laços de parentesco e amizade, a autora destaca que elas, além de possibilitarem a conexão entre migrantes e não migrantes no tempo e no espaço, apresentam contribuições importantes para uma autossustentação dos fluxos migratórios.

[...] Uma vez iniciados, os fluxos migratórios, frequentemente, tornam-se autossustentados, refletindo o estabelecimento de redes de informação, assistência e obrigações que se desenvolvem entre migrantes, na sociedade de destino, e amigos e parentes, nas áreas de origem. Essas redes ligam as populações dos países de origem e de destino e asseguram que os movimentos não sejam, necessariamente, sem direção ou limitados no tempo (Boyd, 1989, p. 641).

É importante ressaltar que essa conexão entre não-migrantes e migrantes no espaço e no tempo não se restringe apenas às redes sociais baseadas em laços de parentesco e amizade. Devemos, também, considerar, refletindo em suas funcionalidades, as redes sociais virtuais. Aqui o virtual não deve ser considerado na perspetiva de ser oposto do real, mas sim como “uma faceta do real”, que mesmo não estando presente na sua materialidade, tem uma existência concreta (Togni, 2015). Nesse sentido, analisar as redes sociais com

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base na articulação dos dois conceitos semânticos - redes sociais e redes sociais virtuais - nos permite avançar teoricamente e conceitualmente nesse campo de investigação. Cumpre ressaltar aqui que as redes sociais devem ser entendidas enquanto abordagem teórica em alternativa de análise das migrações internacionais, que aparece em contraposição aos extremos da teoria neoclássica estrutural (Assis, 2003); e redes sociais virtuais enquanto importantes tecnologias e espaços que possibilitam observar e interpretar situações de comunicação e conexão, sendo, assim, produtoras de sociabilidades na mobilidade.

Acrescentamos, ainda, que a utilização dessa abordagem nos auxilia também na compreensão sobre como as redes pessoais possibilitam aos migrantes a construção do capital de ligação entre o lugar de origem e destino, lhes facilitando a mobilidade assim como no entendimento de como os media sociais contribuem para o estabelecimento de vínculos dos migrantes entre os lugares vividos.

É certo que as novas tecnologias têm desempenhado um papel basilar no aumento da intensidade dos movimentos e fluxos migratórios pelo tipo de práticas que motivam e capacitam os sujeitos. Práticas que possibilitam aos migrantes conservarem papéis significativos em suas comunidades de origem, assim como darem continuidade à sua vida social e familiar tanto no local de destino quanto na origem. Os migrantes têm, assim, a oportunidade de serem não apenas “migrantes conectados” (Diminescu, 2008), mas, sobretudo, “migrantes virtuais”. Nesta situação, a localidade física torna-se irrelevante para suas identidades na medida em que prosseguem participando das várias dimensões da vida que ocorrem em suas comunidades de origem, independentemente de onde eles vivem ou das pessoas com quem mantêm relações.

As novas tecnologias permitem, assim, que os migrantes conservem contactos frequentes tanto com o lugar de origem, quanto com as comunidades virtuais, o que nos possibilita pensar em impactos significativos nos processos de migração. Todavia, ainda é precoce avaliar esses impactos dos media sociais no processo de mobilidade, considerando o conjunto de outros fatores adicionais que necessitam ser incorporados numa avaliação, a exemplo do tempo de permanência do migrante na sociedade de acolhimento, razões para a saída da

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sociedade de origem, compromisso de permanecer na sociedade anfitriã, movimento subsequente em novas localidades, dentre outros. A despeito disso, algumas questões podem e devem ser colocadas neste debate. De entre elas, pode-se indagar, por exemplo: o forte apoio emocional de uma comunidade proporcionado pelos media sociais diminuiria a motivação dos migrantes na realização de contactos sociais na sociedade na qual chegaram recentemente? O acesso aos media sociais torna mais fácil para os migrantes mudarem de um país para outro, na medida em que podem “transportar” a sua comunidade de amigos com eles, ao mesmo tempo que proporcionam um acesso mais fácil a informações antecipadas sobre novos locais? Ou, ainda: caso decidam retornar para o local de origem, será mais fácil para os migrantes se reintegrarem na sua sociedade, em termos de interação social e participação?

São questões que orientam um olhar transnacional para as redes sociais virtuais nos contextos migratórios, e nos estimulam a inserir nas nossas análises a dimensão do local de origem do migrante e o elo que ele mantém com este lugar, de maneira a compreendermos o processo de integração do migrante na sociedade de destino. Sob essa perspetiva de análise, os estudos sobre a mobilidade migrante contemporânea podem contribuir para suplantar algumas das limitações decorrentes da utilização de modelos lineares, como as teorias bipolares, com tendências explicativas de assimilação próprias do nacionalismo metodológico (Wimmer e Glick Schiller, 2002). E, nesse aspeto, o carácter relacional das vivências dos sujeitos migrantes torna-se um dos pontos fortes da perspetiva transnacional na medida em que nos estimula a romper com uma lógica linear na compreensão dos processos de migração e, ainda, a abordar as múltiplas ligações e continuidade das experiências de vida dos sujeitos migrantes (Togni, 2015).

Nessa esteira, podemos destacar o trabalho de Komito (2011) que, ao analisar a importância da Internet como ferramenta de investigação no contexto dos estudos sobre transnacionalismo, sobretudo as redes sociais virtuais, nos adverte a respeito da importância de reflexões sobre como as novas tecnologias têm provocado o surgimento de identidades transnacionais, isto é, como os sujeitos se consideram membros de um grupo nacional ou étnico, não obstante não viverem nas áreas geográficas associadas a essas nações ou etnias. O transnacionalismo emerge, assim, como um novo fator a ser considerado nos

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processos de integração, assimilação e/ou diversidade nas sociedades de acolhimento, principalmente quando as novas tecnologias possibilitam aos migrantes expressarem seu compromisso com a sociedade de origem utilizando

websites, listas de discussão, grupos de apoio, média digital e redes sociais de

longa distância (Hiller e Franz, 2004). Cabe, ainda, destacar a originalidade do trabalho de Komito (2011) que, se apropriando do conceito de capital social6

(Bourdieu, 1996; Putnam, 2000), analisa os benefícios das redes sociais aos sujeitos em mobilidade utilizando a noção de “capital de rede”, definido como a “capacidade de engendrar e sustentar relações sociais com sujeitos que não são necessariamente próximos, que geram benefícios emocionais, financeiros e práticos” (Larsen & Urry, 2008 como referido em Komito 2011, p. 93).

Consideramos, assim, que investigar os elementos e as práticas dos migrantes pode contribuir para elucidar processos de permanências e ruturas vivenciados por sujeitos que estão num lugar e ainda permanecem vinculados a outro, exercendo simultaneamente múltiplos papéis em diferentes lugares. Essas noções de simultaneidade, de multiplicidade identitária e de interação entre diferentes papéis sociais nos revelam que, mais do que as ruturas radicais ou pertenças particulares e exclusivas em estudos sobre vidas imigrantes, a compreensão do papel das redes sociais nos possibilita abordar as articulações. Articulações estas que formam os sujeitos migrantes, imbricados em diferentes contextos socioculturais, que os conformam de maneira híbrida, no desenvolvimento de vínculos, atividades, afetos e pertenças em todos os espaços que integram os seus lugares e afetos quotidianos.

6 O capital social pode ser definido como os valores, instituições, as normas e relacionamentos

compartilhados que possibilitam a cooperação dentro ou entre os diferentes grupos sociais. Dessa maneira, são dependentes da interação entre, pelo menos, dois sujeitos. Neste aspeto, torna-se evidente a estrutura de redes por trás do conceito de capital social, que passa a ser definido como um recurso da comunidade construído pelas suas redes de relações. Ver: Marteleto, R. M., & Silva, A. B. D. O. (2004). Redes e capital social: o enfoque da informação para o desenvolvimento local. Ciência da informação, 33(3), p. 41-49.

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