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A segunda vertente da pesquisa de campo não abandonou a pesquisa documental e bibli- ográfica, pelo contrário, este tipo de pesquisa continuou sendo realizada até o final do traba- lho. Entretanto, os trabalhos de campo tiveram foco, basicamente, na realização de observa- ções e de entrevistas abertas, conforme descrito a seguir. Vale lembrar que para complementar os instrumentos citados, foram levantadas, paralelamente, as iniciativas de inovação, no seg- mento de não-guerra, atualmente em curso em uma série limitada de organizações e progra- mas governamentais (técnica de saturação), as quais foram analisadas, buscando-se determi- nar estruturas relacionais e os mecanismos de interação entre elementos da estrutura, conside- rando sua invariância e estabelecendo um paradigma a partir do qual foi possível construir um quadro que permitiu identificar os componentes essenciais e os pressupostos teóricos da cultu- ra da inovação presentes ou ausentes.

4.2.2.1 Observações

Constituída como uma ferramenta capaz de ir além do ver e escutar (Gil, 2002). Foi esco- lhida como instrumento por poder auxiliar no exame do objeto de estudo e na descoberta de provas. Sua principal vantagem foi a possibilidade de registrar o fato tal e qual ocorre. Por meio delas, verificou-se a consistência das informações trazidas nos outros instrumentos, identificaram-se comportamentos não intencionais e aspectos inconscientes e recolheram-se informações sobre as quais os participantes não se sentiam confortáveis ou evitam verbalizar. Inicialmente, as observações realizadas foram planejadas de acordo com o referencial teórico estudado.

Este tipo de instrumento foi amplamente utilizado durante todas as fases da pesquisa, in- clusive na fase exploratória, de forma assistemática. Buscou-se observar o cotidiano das pes- soas responsáveis por realizar inovações, registrando-se apenas o que era relacionado ao obje- to de pesquisa, abarcando os elementos relativos ao meio, ao contexto e à cultura organizaci- onal. Isso não significa que as observações sobre outros fenômenos não categorizados deixa- ram de ser verificados. Observações livres e não-estruturadas (ALVES-MAZZOTTI; GE- WANDSZNAJDER, 1999, P. 164) foram as mais realizadas.

As observações foram iniciadas durante o Curso Expedito de Engenharia de Defesa do Instituto Militar de Engenharia (IME), realizado no auditório da EMBRAER em setembro de 2011. Participaram do evento cerca de 20 empresas da BID, ABIMDE, o ITA, o IME e outras organizações, o que favoreceu a coleta de observações sistemáticas, além do agendamento algumas entrevistas para a fase descritiva.

Além disso, foram organizados diversos workshops, sendo que um deles contou com representantes do MD, da ABIMDE, do COMDEFESA/FIESP, da ECEME, do IME e do IMM (Instituto Meira Mattos) da ECEME. Diversas reuniões, também, foram realizadas com o Grupo de Pesquisa Guerra do Futuro, Indústria de Defesa e Inovação (GFIID), composto por engenheiros militares, oficias superiores do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em- presários e alunos das Escolas de Alto Comando.

Deste conjunto de observações, pôde-se depreender que as indústrias de Defesa estão ávidas por dar um salto tecnológico, mas para tanto, elas necessitam saber qual rumo será tomado pelas Forças Armadas, quais os equipamentos militares serão necessários para que as

Forças desempenhem seu novo papel na guerra do futuro28 e qual o orçamento ou o plano de investimento o Estado brasileiro está disposto a desembolsar regularmente.

4.2.2.2 Entrevista Aberta de caráter descritivo

A opção pelo uso da técnica de entrevista aberta se deu pela necessidade de o pesquisador obter o maior número possível de informações sobre determinado tema, segundo a visão do entrevistado, e também para obter um maior detalhamento do assunto em questão. Ela é utili- zada geralmente na descrição de casos individuais, na compreensão de especificidades cultu- rais para determinados grupos e para comparabilidade de diversos casos (MINAYO, 1998).

As entrevistas foram realizadas junto aos mesmos grupos descritos no número 2) do item 4.2.1 (Vertente exploratória). Em relação ao grupo de entrevistados (Planejadores e Gesto-

res), a finalidade foi: (i) investigar sobre os elementos do modelo aparente; (ii) entender as

interfaces e os mecanismos de interação entre os agentes; identificar os benefícios e as barrei- ras para a formação de alianças no setor; (iii) identificar frustrações dos gestores; (iv) investi- gar de que forma a cultura organizacional (crenças, interesses, valores) influencia as inova- ções no setor; (v) avaliar a percepção dos gestores sobre o estágio de evolução do sistema; (vi) identificar aspectos da cultura de inovação presente ou ausente em cada setor; (vii) identi- ficar aspectos que demonstram fragmentação ou afastamento entre os agentes do Sistema; (viii) identificar aspectos facilitadores e motivadores da interação entre os agentes; e (ix) ava- liar a opinião de cada organização sobre a relação entre os agentes do sistema.

Utilizando-se o mesmo instrumento, foram entrevistados os inovadores, mas com finali- dades diferentes, buscando-se entender: (i) quais elementos dos sistemas são mais evidentes para os usuários; (ii) qual a posição de tais elementos na estrutura; (iii) quais opiniões sobre a operacionalização do sistema vigente; (iv) quais as opiniões dos inovadores sobre o sistema vigente; (v) identificar benefícios e perdas que os sistemas trazem para a organização e para os usuários; (vi) identificar como os usuários percebem a influência dos sistemas nos seus trabalhos; e (vii) conhecer suas expectativas e seus objetivos de carreira e de que forma eles são motivados e recompensados pelas inovações sugeridas.

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Guerra do futuro – Guerra ainda não visualizada que será desenvolvida. Simultaneamente, tanto no espaço macroscópio, como também no espaço mesoscópico e no espaço microscópio, cada qual definido por suas propriedades físicas específicas, e que no seu todo configurarão um extraordinário campo de batalha, sem precedentes nos anais da história da guerra (Liang; Xiangsui, 1999).

Vale a pena reforçar que foram entrevistadas fontes diferenciadas dos diversos agentes (Figura 23), evitando-se ter somente o ponto de vista de vista de um determinado grupo (Ma- rinha, Exército, Aeronáutica, Indústria, ou Universidade). Minayo (1998) discute esta questão com base nas proposições de Bourdieu de que as pessoas que vivem no mesmo ambiente so- cial tendem a desenvolver e reproduzir disposições semelhantes e, em sendo assim, os signifi- cados individuais podem estar representando significados grupais. Em outras palavras, a fala de alguns indivíduos de um grupo pode ser representativa de grande parte dos membros deste mesmo grupo inserido em um contexto específico.

O conjunto de entrevistados, formado por Planejadores, Gestores e Inovadores (PGID), foi constituído por oficiais superiores, da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, em geral, com mais de vinte anos de profissão; por engenheiros militares e civis (professores e pesqui- sadores) de cada uma das Forças Singulares; por oficiais e pesquisadores civis dos Centros e Institutos Tecnológicos civis e militares; por alunos dos Institutos Militares (IME e ITA); por professores das Instituições de Nível Superior (IES) e estudantes especializados na área de inovação e ou de Defesa; por diretores e gerentes das empresas da BID; por diretores, geren- tes e ou consultores das Associações ligadas à BID (ABIMDE, ABDI, etc.). Todos estes mili- tares e civis estavam trabalhando, estudando ou pesquisando sobre setor de Defesa.

Assim, a seleção das pessoas a serem entrevistadas se deu por relevância, representativi- dade e acessibilidade. Buscou-se entrevistar primeiramente os oficiais do QEMA (Quadro de Estado-Maior) e engenheiros militares, crendo que eles pudessem fornecer informações rele- vantes sobre o funcionamento e as características do SIDOMC (Sistema de Doutrina Militar Combinada) e do SisCTID e suas utilizações e aplicações.

De acordo com Bourdieu (1999), para se obter uma boa pesquisa é necessário escolher as pessoas que serão investigadas, sendo que, na medida do possível, estas pessoas já devem ser conhecidas pelo pesquisador ou apresentadas a ele por outras pessoas da relação investigada. Dessa forma, quando existe uma familiaridade ou proximidade social entre pesquisador e pes- quisado as pessoas ficam mais à vontade e se sentem mais seguras para colaborar.

Buscou-se assegurar a representatividade entrevistando-se pessoas de vários departamen- tos, funções e instituições, conforme pode ser visto no Apêndice K, que apresenta o perfil dos entrevistados. Na figura 23, que sintetiza de forma gráfica a distribuição das instituições e associações pelos diferentes agentes, verifica-se que as instituições ligadas à Marinha estão no interior do círculo cinza, as ligadas ao Exército, no círculo verde e as da FAB, no de cor azul. As instituições ligadas ao MD estão na interseção dos três círculos.

Vale notar, no Apêndice K, que os 54 (cinquenta e quatro) entrevistados foram seleciona- dos não por amostragem, mas de acordo com critérios julgados relevantes para o objeto parti- cular desta investigação.

Figura 23: Distribuição das instituições do Agente Governo / Forças Armadas Fonte: Elaborada pelo autor

Ainda em termos de representatividade, houve uma distribuição equitativa entre planeja- dores, gestores e inovadores, conforme se observa na Figura 24.

Figura 24: Distribuição dos entrevistados pela funcionalidade Fonte: Elaborada pelo autor

Por outro lado, a seleção das empresas levou em conta o setor (segmento de não-guerra). Por essa razão, foi realizada no Estado do Rio de Janeiro e no interior do Estado de São Paulo, onde há importante foco na industrialização, especialmente na cidade de São José dos Cam-

Marinha Exército

pos, cidade de médio porte com cerca de 190.000 habitantes, considerada um tecnopólo de Defesa. O universo de indústrias considerado foi fornecido pela Associação Brasileira das Indústrias de Defesa (ABIMDE) e pela Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), por meio de documento eletrônico em 2011. No diretório fornecido, constavam 170 empresas e 47 instituições associadas, algumas com reconhecimento internacional pela quali- dade e complexidade tecnológica de seus produtos. As empresas participantes da pesquisa podem ser vistas no Quadro 7. As que estão marcadas na cor cinza participaram da pesquisa, mas não foram realizadas entrevistas, sendo apenas coletadas observações que interessaram diretamente ao escopo desta pesquisa. Vale observar que, por questões contratuais, uma em- presa de grande porte se viu impedida de participar da pesquisa, embora tenham demonstrado interesse no tema.

Quadro 7 – Empresas e associações participantes e projetos estudados

Agente Instituição / Empresa Projetos (Inovação)

BID

EMBRAER Defesa Aeronave de Carga KC-390

IACIT Soluções Tecnológicas GNSS (Global Navigation Satellite Sys- tem)

VISIONA - (EMBRAER/TELEBRAS) Satélites

H2LIFE Indústria e Comércio S/A Tratamento de água

CONDOR S/A Armas não-letais

ATEM & REMER Consultoria de Patentes

IMBEL Radio transceptor portátil TPP-1400

Omitido Projetos navais

HELIBRAS Helicópteros do Brasil Helicóptero EC- 725 (HX-BR)

FIAT-IVECO Viatura Blindada sobre Rodas Guarani

SAVIS Projeto SISFRON

ENGEPRON Navio Patrulha Grajaú

ARES Aeroespacial e Defesa Robô que neutraliza artefatos explosivos Companhia Brasileira de Cartuchos - CBC Munições

ORBISAT Radares de vigilância aérea e terrestre

AVIBRAS Indústria Aeroespacial Veículos não-tripulados (ar, mar e terra)

BCA Ballistic Coletes balísticos

EUROBRAS Construções Metálicas Abrigos sustentáveis e contêineres

ATECH Sagitário - controle do espaço aéreo

Fonte: Elaborado pelo autor

Obs: Uma empresa de grande porte, voltada para empreendimentos navais, declinou o convite para participar da pesquisa, por razões contratuais com as Forças Armadas.

No setor das universidades, o universo das IES levado em conta foi formado por institui- ções de ensino que estavam pesquisando no campo da Defesa, com cursos de graduação ou

especialização nesta área do saber. Em consulta ao Ministério da Defesa, foram indicadas 09 Universidades, vinculadas ao programa Pró-Defesa. O Quadro 8 apresenta as instituições par- ticipantes.

Quadro 8 – Instituições de Ensino Superior participantes

Agente Instituição Parceria com FA

IES

Fundação Getúlio Vargas-FGV Exército e Marinha

Universidade de São Paulo - USP CTMSP Marinha

Universidade Federal Fluminense - UFF Exército e Marinha

Universidade da Força Aérea - UNIFA Aeronáutica

Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Exército

Escola de Guerra Naval (EGN) Marinha

Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR) Aeronáutica

Instituto Militar de Engenharia - IME Exército

Instituto Militar da Aeronáutica - ITA Aeronáutica

Fonte: Elaborado pelo autor

Obs: ficaram de fora da pesquisa nos IES, a UFCG, por questões de acessibilidade e outro renomado IES, por não permitir a condução da pesquisa por ocasião da visita deste pesquisador àquele estabele- cimento, em virtude de o ofício de apresentação não ter chegado a tempo naquele estabelecimento de ensino.

Em cada um dos agentes, o número de entrevistados foi definido pelo critério de satura- ção. A saturação designa o momento em que o acréscimo de dados e informações em uma pesquisa não altera a compreensão do fenômeno estudado (CRESWELL, 1999, 2007, 2009; GUEST et al., 2006; THIRY-CHERQUES, 2008, 2009). Assim, o número de entrevistas rea- lizadas obedeceu a critérios ex-post. Portanto, foi em função das respostas obtidas e não arbi- trado de forma pré-determinada, pois não é possível delimitar previamente o ponto de satura- ção e, por conseguinte o número de observações requerido (THIRY-CHERQUES, 2009; MORSE et al., 2002). Thiry-Cherques (2008) explica que o valor da pesquisa quanlitativa decorre da credibilidade da pesquisa, da sua adequação a uma realidade possível. Mesmo as- sim, buscou-se ouvir o maior número de instituições possível, evitando-se deixar de fora as mais relevantes à pesquisa.

Na aplicação das entrevistas, foram seguidas as garantias da fidedignidade dadas pelas condições genéricas de investigação: i) as entrevistas foram feitas isolada e privadamente; ii) os participantes não conheceram as respostas um dos outros; iii) as questões formuladas foram circunscritas ao domínio que se queria investigar (THIRY-CHERQUES, 2008).

As entrevistas tiveram duração variando entre 20 minutos e 2 horas e 30 minutos. Elas fo- ram gravadas, com autorização dos entrevistados e garantia da confidencialidade da identifi- cação dos respondentes, e transcritas seletivamente, com auxílio do Software Atlas TI, versão

5.0, para realização da análise dos dados. O software permitiu a integração de dados de áudio, vídeo e textos, o que facilitou muito o trabalho do pesquisador de inserir os registros nas cate- gorias à medida que os mesmos se apresentavam.

Mesmo com a intenção de conduzir entrevista aberta, optou-se por elaborar algumas questões, o que foi feito com base em exaustivas revisões da literatura. As entrevistas não foram simples exercícios na coleta de dados, mas, ao contrário, elas se transformaram em em- preendimentos críticos em que o investigador exerceu um ceticismo constante.

Quanto à formulação das questões o pesquisador deve ter cuidado para não elaborar per- guntas descontextualizadas, buscando-se obter uma narrativa natural. Por esta razão, foram evitadas perguntas diretas, dando prioridade para questões que fizesse com que o entrevistado relembrasse parte de sua vida.

Seguindo o protocolo de McCracken (1988), o instrumento, que pode ser visto no Apên- dice D, foi constituído por uma caracterização do perfil do entrevistado; seguido de uma per- gunta aberta e não direcionada (grand tour), com intuito de dar oportunidade de o entrevista- do discorrer sobre o tema escolhido pelo pesquisador. As perguntas do tipo Grand Tour per- mitiram ao entrevistado contar a sua própria história com seus próprios termos, com a mínima interferência do entrevistador, mas com interação necessária, a fim de angariar a confiança e a empatia dos participantes. De acordo com Bourdieu (1999), neste tipo de entrevista, o pesqui- sador pode muito bem ir suscitando a memória do pesquisado (BOURDIEU, 1999).

O instrumento contou, também, com 12 perguntas pré-planejadas (planned prompt), que permaneceram disponíveis, para os casos em que o entrevistado deixasse de abordar par- cela do assunto. Tais questões abordaram conteúdos que se subdividem em temas como: cul- tura organizacional; interações, parcerias e alianças; e ciência, tecnologia, inovação e doutri- na. Foi deixado, ainda, espaço para perguntas flutuantes (floating prompt), caso este pesqui- sador tivesse dúvidas sobre o que foi dito ou necessitasse aprofundar uma questão abordada pelo entrevistado. As questões foram elaboradas com base nas categorias elaboradas ex ante (Apêndice H), que surgiram da leitura de todo arcabouço teórico da pesquisa e das entrevistas exploratórias realizadas na primeira fase. A Figura 25 traz uma síntese do esquema de catego- rias, baseado no Apêndice H. Vale ressaltar que, no decorrer da pesquisa, as oposições biná- rias (barreiras e facilitadores) mudaram de nome seguidas vezes. Sendo que as oposições bi- nárias da categoria “Benefícios” não se confirmaram, conforme poderá ser visto no capítulo 7.

Figura 25: Síntese do esquema de categorias Fonte: Elaborada pelo autor