Chapitre 5. Méthodologie
5.5. Analyse et organisation des discours
A alteração das condições morfológicas naturais e da continuidade lótica do sistema fluvial são aspectos de elevada importância na quantificação do estado da qualidade da água, à luz dos pressupostos da DQA. Os fenómenos de hydro-peaking são comuns em alguns tipos de AH e têm uma importância vital na satisfação das necessidades energéticas, pois rapidamente poderão responder aos padrões de procura evidenciados ao longo do dia, principalmente nas horas de maior consumo. Como consequência, ocorrem variações significativas nos ecossistemas, nomeadamente a jusante do AH fruto das constantes variações do nível de água no leito do rio, como consequência de descargas de grande magnitude, durante períodos de tempo relativamente curtos. Seguidamente será enumerado um conjunto de impactes causados por esta constante variação dos padrões naturais de escoamento.
Apesar dos impactes aqui explicitados não serem exclusivamente decorrentes de operações de pico, optou-se por colocá-los num sub-capítulo distinto, porque nem todos os AH operam neste tipo de condições e também porque a amplitude dos mesmos é bastante maior que nos AH que não operam neste regime provocando dessa forma consequências bem mais desastrosas no seu meio envolvente.
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5.5.1 Morfologia fluvial
Como abordado anteriormente, o facto de existir uma barreira transversal, ocorrerá um menor fluxo de sedimentos para jusante, pois estes ficam maioritariamente retidos na área de regolfo da albufeira alterando a capacidade natural de transporte do rio. Por outro lado e como consequência do aumento abrupto do escoamento nas horas de pico, a variação do nível de água a jusante será muito acentuada, incrementando artificialmente os fenómenos de erosão nas margens e leito, quando comparados com os fenómenos de erosão natural que ocorreriam em ambiente pristino. Adicionalmente, e como consequência do aumento substancial do caudal escoado nestas operações, poderão ocorrer desabamentos na estrutura das margens, modificando significativamente o percurso natural do rio, com consequências evidentes para a estabilidade da zona ripícola e biota dela dependente.
5.5.2 Zona ripícola
Como consequência dos fenómenos de hydro-peaking, poderá ocorrer uma perda de conectividade e biodiversidade nas zonas de transição entre o ambiente aquático e terrestre fruto das frequentes inundações a que estas estão sujeitas modificando significativamente o habitat das margens dos rios, pois alteram a troca de gases entre a atmosfera e a flora aquática podendo até interferir na actividade fotossintética das mesmas. Por outro lado, o encharcamento e o aumento significativo da humidade no solo podem originar a depleção de oxigénio, afectando a respiração realizada pelas raízes das plantas. A reprodução das plantas pode também ser afectada já que com as constantes alterações do leito e consequentes transbordamentos para as margens, os fenómenos de dispersão natural poderão ser alterados podendo afectar negativamente a distribuição da vegetação nos corredores ripícolas.
No entanto, com as alterações constantes do nível de água poderá ocorrer uma substituição da flora característica das zonas ripícolas e terrestres por outras espécies semi-aquáticas que estarão mais adaptadas a flutuações constantes de humidade, podendo conferir alguma estabilidade ao ecossistema, face às alterações antropogénicas.
5.5.3 Biodiversidade aquática
A fauna e flora aquática podem também ser alvo de pressões com a constante alteração dos níveis de água e consequente instabilidade da zona ripícola adjacente, a jusante de um AH. Neste contexto, fora das horas de pico, a altura da água é normalmente menor que a evidenciada, em período estival, em situação pristina, originando uma menor disponibilidade de habitat para colonização e desenvolvimento das espécies de macro-invertebrados ou algas. Por outro lado, em períodos de pico de produção, a altura de água é normalmente maior que a que seria de esperar nas estações mais húmidas do ano, originando uma maior profundidade e velocidade do escoamento afectando negativamente o desenvolvimento destas espécies, pois provoca um stress adicional e caótico relativamente aos padrões fluviais naturais.
Para além das comunidades bentónicas, outros organismos que vivem dispersos na coluna de água poderão ser também influenciados por estas operações, não tanto pela variação abrupta do regime de escoamento, mas sobretudo pela qualidade da água que será restituída ao rio, uma vez que, como referido anteriormente, a água que alimentará as turbinas provêm normalmente de zonas mais profundas (Metalimnio e Hipolímnio), onde as condições de temperatura e oxigénio dissolvido são drasticamente diferentes das verificas nos troços a jusante dos AH.
As comunidades piscícolas, que se alimentam de macro-invertebrados serão também afectadas por falta de alimento. Adicionalmente, a comunidade piscícola pode ser afectada como consequência das rápidas flutuações do nível de água no leito e margens do rio, já que muitos exemplares poderão ficar
47 retidos ou aprisionados em zonas sem água, podendo até causar a sua morte ou provocar alterações comportamentais significativas, aumentando a sua vulnerabilidade. No entanto, este fenómeno poderá ser agravado consoante a morfologia do local, uma vez que em zonas assoreadas, após a redução do escoamento, poderão formar-se pequenas poças ou charcos de água isolados do leito, resultando na perda repentina de habitats cavernosos junto às margens bem como locais propícios à desova e desenvolvimento de larvas ou alevins interferindo gravemente na distribuição e densidade das populações piscícolas.