O contato direto dos pesquisadores com os motoristas se estendeu por um ano e meio, oferecendo muitas oportunidades para que fossem testemunhados alguns incidentes e obtidos relatos de vários outros. Escolhemos apresentar o incidente de Rafael porque além de nos oferecer uma possibilidade para descrever como sua ação habilidosa se tornou o fator de confiabilidade naquela situação, contribuindo para que o incidente não se tornasse um acidente, nos revelou um endereçamento de sua atividade ao se referir
ao zulgamento de seus colegas, caso ele tivesse sido abalroado numa conversão proibida. Este incidente também ilustrou um resultado da observação psicológica do trabalho que é o seu efeito de produzir uma atividade no observado, aquilo que Clot (2007) descreve como diálogo interior. Esse diálogo se dá quando o trabalhador, ao ser observado, começa também a se observar, perguntando-se o que está sendo percebido e concluído a partir de suas ações. Quando Rafael se dirigiu aos pesquisadores afirmando que eles tinham testemunhado que ele não havia cometido nenhuma “manota”, estava externalizando uma reflexão sobre a própria ação. Ele deixou de ser apenas obzeto da observação dos pesquisadores e se transformou em mais um observador..
Já no caso do incidente de Rui, o motivo da escolha se deu em virtude do grande número de relatos de incidentes de motoristas dormindo ao volante que nos foram descritos. Cada um desses incidentes tem características bastante particulares que só poderiam ser desvendadas, analisando-os caso a caso. Em contrapartida, eles possuem alguns elementos que se repetem, o que pode ser confirmado no relato de Rui, ao apontar que outros colegas da Prontidão também tiveram incidentes semelhantes ao dele, bem como o fato de acontecerem sempre depois dos motoristas terem atendido muitas ocorrências seguidas durante o dia, quando não há possibilidade de revezamento. Portanto, expor a recorrência destas situações, ressaltando sua importância para se estabelecer as condições para o surgimento do incidente, pode contribuir para fomentar ações que busquem prevenir sua reincidência.
Por um lado, Rui aponta que os incidentes chamados de “dirigir por osmose” (sem que o motorista esteza com clareza de consciência) acontecem após um período prolongado de empenho sem que seza possível descansar, configurando uma situação de intensificação da carga de trabalho, ao mesmo tempo em que as estratégias habituais para lidar com esta carga de trabalho, ou seza, os revezamentos, estão afetados
pela significativa redução do efetivo, comprometendo as possibilidades de descanso. Por outro lado, conforme vai relatando sua experiência de 12 anos no “Resgate”, vemos que não é somente o volume de trabalho que está relacionado com o seu desconforto particular e com o sofrimento que expressa como “cansaço e estresse”. Dirigir viatura de resgate é diferente, pois nestas ocorrências em particular, o risco percebido para a vida da vítima é maior, ou como diz Rui: “é parasalvar os outros”.
Quando passa a dirigir carros de combate a incêndio, Rui continua vivenciando uma situação de demanda intensa, pois em períodos de seca, também as bombas respondem a um grande número de chamadas. Contudo, para ele, nem todas as ocorrências de incêndio se revestem do sentido de urgência que é característico da maioria das ocorrências de resgate. Somente quando se trata de incêndio em residência, ele volta a sentir essa mesma urgência, mas estes casos são mais esporádicos.
Parece-nos bastante significativo quando Rui diz que o Resgate é “[...] ‘frenético’ porque você não tem tempo de pensar”, pois podemos entender que este pensar a que ele se refere representa a apropriação que realiza da realidade que lhe é imposta, ou seza, o processo interior de transformação da realidade dada, em realidade vivenciada. No caso de seu trabalho no Resgate, diante das condições dadas (volume de trabalho, sem revezamento) e da significação que a ação de resgate assume para ele (salvar vidas), Rui não consegue garantir o desenvolvimento pleno de sua atividade e passa “a dirigir por osmose”. Ora, o próprio termo osmose, que denota um processo passivo, representa sua incapacidade de agir normativamente diante desta realidade. Ainda que não existam elementos para apontar uma doença particular, podemos dizer que sua saúde encontra-se afetada nesta situação, pois mesmo tentando usar de um recurso para garantir suas condições efetivas de dirigir (lavar o rosto com água gelada), percebe que não é suficiente, e passa a depender passivamente do amparo de colegas, sendo que a
condução de seu veículo acontece à despeito dele (CANGUILHEM, 2007). Em contrapartida, quando dirige a bomba, algumas condições são semelhantes (o revezamento permanece inviável), o significado daquela atividade contribui para que ele pense, aza, diriza e consiga lidar de maneira mais adequada com as ocorrências esporádicas em que o risco à vida é considerado mais grave.
É preciso ressaltar nestes casos de “dirigir por osmose” o papel decisivo dos colegas de guarnição, que são recurso valioso para evitar que essa condição altamente perigosa resulte em acidente. Através da ação dos colegas que o comportamento “estranho” do motorista pode ser identificado, seza porque este comportamento é diferente de sua maneira particular de dirigir (estilo), seza porque o comportamento do motorista não está de acordo com o esperado genérico em situações de deslocamento para ocorrências (CLOT, 2006).
Para concluir, retomamos novamente o conceito de gênero da atividade, incluindo agora o conceito de estilo, que neste caso, permitem que este pequeno coletivo, a guarnição, ampare este suzeito no momento em que o desenvolvimento de sua atividade fica comprometido (LIMA, 2007).
O gênero define “as fronteiras móveis do aceitável e do inaceitável no trabalho”, resultando na interposição de limites, requerendo assim, o surgimento do “estilo pessoal”. Este seria, então, "[...] a transformação dos gêneros, por um suzeito, em recursos para agir em suas atividades reais. Em outros termos, é o movimento mediante o qual este suzeito se liberta do curso das atividades esperadas, não as negando", mas desenvolvendo-as (CLOT, 2006, p. 49/50).
Após tudo que foi dito sobre o incidente de Rui, acreditamos ter trazido uma ilustração da forma pela qual o trabalho é definido por Clot (2006) como “[...] atividade
dirigida pelo suzeito, para o obzeto e para as atividades dos outros, com a mediação do gênero”. (p. 97).