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- ACCORD POUR LE DÉVELOPPEMENT ET LA PROTECTION DES

Dans le document RAPPORT N° 53 (Page 165-171)

Na realização desse Percurso, incialmente estava prevista a construção de narrativas in loco, com moradores que estivessem de passagem na rua, em deslocamento, ou no final de tarde, conversando com vizinhos, convivendo na rua e nos espaços coletivos, os quais seriam abordados pela pesquisadora e solicitados a contar alguma história referente ao lugar que lhes seria indicado nas fotografias impressas em uma ficha, as quais foram tomadas e selecionadas no percurso prévio. Porém, os moradores ocupam muito pouco os espaços coletivos e tampouco mantêm o costume de convivência no espaço público.

Dessa forma, algumas situações interferiram para a modulação desse passo e na tomada de decisão da construção para que as narrativas passassem a acontecer no Centro de Saúde: (i) a constatação durante o percurso I de que as pessoas não permanecem na rua, sendo que alguns que estavam de passagem, em deslocamento para o ponto de ônibus ou no sentido do Jardim São Marcos, não se dispuseram a participar, justificando-se pela falta de tempo; (ii) identificou-se que as pessoas que permanecem na rua são sempre as mesmas, conhecidas como “cuidadores” ou “olheiros” do bairro; (iii) a equipe de saúde sugeriu que essa construção acontecesse durante as oficinas no Centro de Saúde, com moradores que acessavam o serviço. Decidiu-se, assim, por uma inflexão no Percurso I, que passou a ser mais um momento de vivência para habitar aquele território, no sentido de acessar e produzir mais dados, deixando-se atravessar por situações e acontecimentos mais do âmbito subjetivo do que mapeamentos e registros. Essa modulação no percurso também se norteou pela ideia do urbanista errante discutida por Jeudy e Jacques: “O urbanista errante não vê a cidade somente de cima, em uma representação do tipo mapa, mas a experimenta de dentro, sem necessariamente produzir uma representação qualquer desta experiência” (JEUDY; JACQUES, 2006, p. 118).

Como o objetivo desse percurso foi o da produção de mais dados, a pesquisadora novamente deixou-se guiar por uma das agentes comunitárias em saúde, mas, curiosamente, foram percorridas praticamente as mesmas ruas do trajeto anterior, o que nos remete a constatação de que se trata de um caminho permitido para os “estrangeiros” ao território, cujas impressões são transcritas a seguir, a partir do diário de campo da pesquisadora.

O percurso I foi realizado em 10/04/2014, e a narrativa que se segue corresponde ao conteúdo dos registros do diário de campo da pesquisa, inclusive a partir de gravações da fala da própria pesquisadora. Com a intenção de melhor apresentar o resultado do procedimento metodológico adotado e dar fluidez à narrativa, optou-se por manter o conteúdo o mais próximo possível do registro bruto, em determinados momentos na primeira pessoa do plural, adaptando a transcrição quando necessário.

O local de saída para o percurso foi o Centro de Saúde São Marcos. Ao nos aproximarmos da margem do córrego, percorrendo as ruas Maria Luisa Pompeo de Carmargo, Monsenhor Landell de Moura e Roque de Otaviano, próximo a uma área ainda de ocupação irregular, ouvimos barulho de marretadas. Eram técnicos da Prefeitura Municipal de Campinas demolindo construções irregulares de pessoas que haviam sido removidas para um conjunto habitacional em outro bairro. Uma assistente social tentava acessar uma família que se recusava desocupar o seu barraco (Figura 30), observou-se, pois não houve abertura para uma conversa, e seguiu-se a caminhada em direção à única ponte oficial de travessia para a Vila Esperança. Logo que atravessamos, uma senhora nos abordou e ininterruptamente, sem dar margem a qualquer pergunta, passou a narrar suas histórias sobre as cobras que tem no mato, o perigo da rua, a Praça do PAC II finalizada e que só aguardava inauguração e o asfalto que estaria chegando. Era uma moradora da Vila, trabalhadora na Prefeitura Municipal de Campinas na atividade de gari e que nos deixou uma pista de que é uma interlocutora importante entre os moradores e a atual gestão municipal.

Figura 30 - Barracos em processo de remoção

Fonte: Fotografia da autora.

Continuamos a caminhada, passando pela praça que estava pronta, mas ainda com tapumes, aguardando ser inaugurada e, ao dobrar à direita, no final da quadra da Praça do PAC, reencontramos um paciente do Centro de Saúde São Marcos que havia saído junto conosco e agora estava em frente à sua casa. Pedi ao senhor que nos mostrasse a sua moradia e, após alguns segundos de certa resistência, permitiu nossa entrada. Não foi possível fotografar o interior nem o exterior, pois havia vários moradores conversando em frente à casa e ao bar ao lado, o que nos intimidou, mas a pesquisadora fez um rápido croqui do que pode observar em relação a ocupação e transformação daquela moradia (Figura 31). Ficou evidente o comprometimento da ventilação e iluminação naturais da casa (embrião) principal, pois se cobriu e fechou totalmente o recuo frontal da casa, o qual passou a abrir a sala com televisão, uma mesa de refeições, e nos fundos, se edificou uma área para residência da família de

um “sobrinho9” do casal, a partir da parede do próprio embrião, fechando a única

janela da parte posterior. E assim, parte dos ambientes (quarto e sala) da casa da frente, na qual reside um casal ficou totalmente sem iluminação e ventilação naturais direta. Também, o acesso para a parte edificada no fundo, onde reside a outra família, obrigatoriamente se faz atravessando parte da casa da frente (sala, área de refeições). Essa foi a primeira vez que a pesquisadora teve oportunidade de entrar em uma moradia. Apesar das tentativas anteriores no percurso prévio e nesse mesmo percurso, outras iniciativas e pedidos para acessar as casas não foram acolhidos. Houve dificuldade para conhecer o interior das residências em todos os percursos realizados, pois várias incursões ao território foram realizadas pela pesquisadora acompanhando a agente comunitária no decorrer do processo, das quais três foram registradas e tomadas para análise (percurso prévio, percursos I, II e III ao final). Houve certa abertura do senhor com quem a pesquisadora já havia trocado algumas palavras e olhares desde o Centro de Saúde, o que forneceu a pista de que seria possível uma aproximação dos moradores através do Centro de Saúde e de que seria necessário um modo de se criar algum grau de confiança entre pesquisadora e moradores. Assim, a estratégia foi apostar nas oficinas de ambiência que seriam realizadas nos próximos passos da pesquisa como esse momento de aproximação.

9 A palavra “sobrinho” está entre aspas, pois que em diferentes momentos, os moradores relatavam que as ampliações se destinavam a acolher algum familiar, no entanto, nas conversas com as pessoas que ocupam esses novos cômodos se identificava que se tratava de um lugar alugado e que, por diversas vezes se identificou que não havia relação de parentesco, ou seja, é uma forma própria de identificação local.

O tempo de permanência no interior da moradia foi curto, e poucas palavras foram trocadas com o morador. A fala foi mais da agente comunitária, num processo de convencimento de vinculação do senhor, que é hipertenso e diabético, para frequentar o grupo HiperDia e não ir ao Centro de Saúde somente para retirar medicação, motivo da sua ida nesse dia em que o encontramos. Agradecemos, nos despedimos e seguimos na caminhada chegando na Rua Uriassu de Assis Batista, onde clima estava estranho e tenso devido à morte de um jovem da comunidade. Fomos percebendo de tempos em tempos alguns grupos de pessoas conversando, pessoas chorando e, na maioria das vezes, alguns veículos passavam em alta velocidade e muito próximos dos nossos corpos, nos dando certo sinal de intimidação, ou melhor, de que havia uma “estrangeira” na área junto com a agente comunitária. Paramos no comércio localizado em uma das esquinas na Rua Uriassu, localizado mais no final do bairro, mas o proprietário não foi muito receptivo a um gesto da pesquisadora de entrar no estabelecimento. Assim, começamos o percurso de volta, descendo pela Rua Cilon da Cunha Brum até chegar na Rua André Gabois, e atravessamos novamente para o Jardim São Marcos pela ponte autoconstruída entre as Ruas Antônio Pádua e Antônio Teodoro Castro.

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