Nosso objetivo agora é mostrar como as reflexões e análises propostas por Antonio Candido sobre a linguagem rosiana a colocam em outro nível de apreciação. A partir de Antonio Candido, a linguagem rosiana finalmente é apreciada por seu potencial de transcender o real imediato e não somente no campo estilístico.
Por meio da reflexão de Candido presente no texto “Sagarana” (1946), detemos uma análise que percebe algumas particularidades na composição da obra Sagarana de uma forma mais apurada em relação às apreciações anteriores.
O crítico se pauta em duas particularidades, a seleção analítica dos elementos da obra e a transcendência da matéria referida, isto é, a transfiguração de alguns elementos que transgridem um referencial. A linguagem rosiana é vista acima da representação de realidade. Essa é considerada como suprarreal pelo crítico, o que nos autorizaria a colocar a linguagem rosiana em relação com alguns conceitos da literatura fantástica.
Na visão de Candido, a experimentação de Guimarães Rosa na obra Sagarana (1946) supera o critério regional por meio de uma condensação do material observado. Podemos encontrar esta mesma reflexão fomentada no ensaio do autor “Literatura e Subdesenvolvimento”, disposto na obra À educação pela noite & Outros ensaios (1987). Neste ensaio, Cristóvão Colombo é citado por Candido, dado que para o crítico, o navegador e explorador italiano tende a subverter os elementos reais exaltando a realidade das terras conquistadas.
O fragmento seguinte é um trecho da carta de Colombo encaminhada aos reis relatando sobre o descobrimento da América.
Suas terras são altas, e nela há muitas serras e montanhas altíssimas, incomparáveis às da ilha de Tenerife; todas belíssimas, de feições, e todas acessíveis, e cheias de altas árvores de mil espécies que parecem chegar ao
céu; e ouvi dizer que jamais lhes caem as folhas, segundo pude entender, pois as vi tão verdes e belas como são em maio na Espanha, e estavam floridas, com frutos maduros, ou em outros estágios; e, no mês de novembro, cantava o rouxinol e outros passarinhos de mil espécies por ali onde eu andava (COLOMBO).
Um estereótipo é formulado, tudo é grande e exótico na América fora da realidade vislumbrada antes. A exaltação iniciada por Colombo ecoa na literatura produzida no período pós-independência do Brasil. A literatura neste período do nacionalismo se concentrava na criação de uma identidade nacional. O engrandecimento da natureza aparece de forma pitoresca na literatura seguindo a exaltação de Colombo.
Dessa maneira, há uma supervalorização dos elementos capazes de afirmar uma realidade nacional. Há também uma concepção de terra com atributos exóticos equiponderando o atraso material do Brasil neste período.
A concepção de agigantamento se arrasta até o decênio de 1930, conforme Candido, dado momento em que toda a promessa de grandeza exaltada na literatura não se concretiza: “O precedente gigantismo de base paisagística aparece então na sua essência verdadeira — como construção ideológica transformada em ilusão compensadora” (CANDIDO, 1989, p. 142). A realidade não é a realidade representada na literatura. Nesta fase, percebe-se o Brasil como um país subdesenvolvido.
Candido percorre a trajetória da literatura brasileira desde o período colonial levantando questões sobre a debilidade da produção literária, uma vez que essa só tinha a literatura da Europa como molde, o atraso, o subdesenvolvimento, a dependência cultural são questões camufladas.
A ruptura da influência da literatura europeia tem início com o Modernismo. No Brasil, o movimento contou com três fases, de duas fases: a primeira foi de 1922 a 1930 e a segunda de 1930 a 1940.
A literatura produzida na primeira fase do modernismo apresenta o exótico como marca do nacional brasileiro.
Ao parecer afirmação da identidade nacional, pode ser na verdade um modo insuspeitado de oferecer à sensibilidade européia o exotismo que ela
desejava, como desfastio; e que se torna desta maneira forma aguda de dependência na independência (CANDIDO, 1989, p. 157).
Neste contexto, o regionalismo que desponta no período modernista brasileiro passa a representar suas características locais na concepção exótica que se tinha de nossa nação. O paisagismo é explorado de forma exacerbada e Candido (1989) define este primeiro momento como “regionalismo pitoresco”.
O segundo momento do regionalismo, que decorre entre 1930 a 1940, foi considerado por Candido como um regionalismo mais amadurecido, pois se encontra em consonância com os preceitos do modernismo, desmistificando a realidade representada na fase anterior. Os problemas sociais aparecem nas narrativas na segunda fase do regionalismo. A circunstância efetiva em que vive o homem brasileiro é demonstrada e a consciência do atraso social no Brasil é explicitada.
O terceiro momento do regionalismo no modernismo é o mais relevante para nosso estudo. Na visão de Candido:
O que vemos agora, sob este aspecto, é uma florada novelística marcada pelo refinamento técnico, graças ao qual às regiões se transfiguram e os seus contornos humanos se subvertem, levando os traços antes pitorescos a se descarnarem e adquirirem universalidade (CANDIDO, 1989, p. 161).
No excerto acima, percebemos que para o crítico existe um requinte na produção dos textos literários na terceira fase modernista. O território transcende sua imagem se metamorfoseando com elementos que não existem em sua realidade. A concepção de existência e os valores humanos dados como reais são subvertidos.
No que se refere à terceira fase, o crítico declara:
Descartando o sentimentalismo e a retórica; nutrida de elementos não- realistas, como o absurdo, a magia das situações; ou de técnicas antinaturalistas, como o monólogo interior, a visão simultânea, o escorço, a elipse — ela implica não obstante em aproveitamento do que antes era a própria substância do nativismo, do exotismo e do documentário social. Isto levaria a propor a distinção de uma terceira fase, que se poderia (pensando em surrealismo, ou super-realismo) chamar de super-regionalista. Ela corresponde à consciência dilacerada do subdesenvolvimento e opera uma
explosão do tipo de naturalismo que se baseia na referência a uma visão empírica do mundo; naturalismo que foi a tendência estética peculiar a uma época onde triunfava a mentalidade burguesa e correspondia à consolidação das nossas literaturas. Deste super-regionalismo é tributária, no Brasil, a obra revolucionária de Guimarães Rosa, solidamente plantada no que poderia chamar de a universalidade da região. (CANDIDO, 1989, pp.161-162)
Candido nomeia a terceira fase como “super-regionalista”. O “super- regionalismo” segue a concepção do surrealismo ou super-realismo. A fase “super- regionalista” vai de encontro à fase do Naturalismo. O Naturalismo agrega as características extremas do Realismo em sua estrutura. Sua temática dava preferência aos aspectos mais cruéis e torpes do ser humano.
O “super-regionalismo” transcende o Naturalismo e o Realismo, esse subverte a realidade com seus elementos não reais. Nada é tão simples como parece, um crime, um romance, uma morte, uma ação, um indivíduo, todos esses elementos transfiguram uma ordem no “super-regionalismo”. A transfiguração agrega a narrativa um efeito de fantasia e magia.
No que condiz à linguagem rosiana, alguns dos elementos que compõem as narrativas do escritor mineiro partem de um referencial, porém, só aparentemente têm as características de seus referentes, esses se apresentam transfigurados. Assim, os elementos como o sertão, o homem, a vida rural, são compreendidos como elementos não realistas, o que coloca a linguagem rosiana em posição de ser apreciada por alguns conceitos de fantástico. A linguagem rosiana subverte o regional.
2. SUPER-REGIONALISMO, SUBVERSÃO DO REAL E A LINGUAGEM