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Dans le document THE UNITED STATES NAVY (Page 60-75)

Figura 3 - Site do Estúdio Fluxo44

Fonte: Estúdio Fluxo

O caráter de independência do Estúdio Fluxo, cujo site podemos ver na Figura 3, está presente desde a sua origem, em 2014. No vídeo destinado à arrecadação de recursos para a construção de um jornalismo independente, o fundador Bruno Torturra, em um formato de paródia aos programas religiosos dos canais abertos de televisão, convida os leitores a contribuírem com um novo projeto de mídia independente45. Além disso, no espaço destinado ao "Quem somos", o veículo diz buscar sua "independência financeira na relação direta com

42 Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/congresso-em-foco/premio-congresso-em-foco/.

43 Os dados das redes sociais Facebook, Instagram e Twitter do Congresso em Foco foram captados das respectivas

páginas no dia 04 de julho de 2019.

44 Página inicial do site do Estúdio Fluxo. Disponível em: http://www.fluxo.net/. Acesso em: 25 jun. 2019. 45 O vídeo de arrecadação "Doar é amor!", em paródia aos programas religiosos nos canais abertos de televisão

ficou no ar na página "Como apoiar o Fluxo" até meados de 2018. Com as mudanças na linha editorial e forma de financiamento do veículo, o vídeo foi substituído por outro conteúdo, mas ainda pode ser visto no canal do veículo no YouTube, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AqYmM-pHqiM.

sua audiência ou em parcerias com organizações com as quais tem afinidade". Outro aspecto que remete a essa independência no jornalismo é que o próprio Estúdio Fluxo desenvolveu um aplicativo para valorizar a mídia independente, a ferramenta Libre46.

O veículo nasce em 2014, por meio do jornalista e fotógrafo Bruno Torturra, em um momento em que ele diz ter reconhecido não querer “criar um grupo político e, sim, editorial”. Naquele período, Bruno integrava o canal Mídia Ninja - Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, coletivo de mídia do qual ele também foi idealizador e fundador, e que conquistou notoriedade em 2013, durante as manifestações de junho que reuniram milhões de brasileiros nas ruas das principais cidades e capitais brasileiras. Sobre a relação entre as dinâmicas política e editorial e a conjuntura da Mídia Ninja na época, o jornalista afirma que:

o editorial tem uma outra dinâmica das relações políticas. E quando você estabelece relações políticas, o resultado vai ser um grupo político e não um grupo editorial. E eu achei justo que fosse dessa forma a Mídia Ninja, mas eu falei ‘não é o processo que eu quero fazer parte’. E aí a única escolha que eu tinha era dar um golpe de estado na Mídia Ninja, que não é minha vocação. Porque eu era o dono, dono do domínio, do nome, tinha senhas, eu era o organizador do processo todo. Eu poderia trocar senhas, por exemplo. Mas eu falei não, isso aqui não é uma empresa. Tinham centenas de pessoas já participando do processo e eu era o corpo estranho. O processo que essas pessoas querem executar não é o meu. E aí eu montei o Fluxo (informação verbal)47.

Num primeiro momento, o Fluxo nasce com a “proposta de ser uma redação. Ser um estúdio de verdade. A gente alugou esse espaço no centro de São Paulo” (informação verbal)48, mas, segundo Torturra, entre problemas de gestão, financeiros e centralização dos processos, isso não se concretizou. A evolução dessa proposta, no entanto, ocorre, e o Fluxo evolui para algo, ainda, diferente do tradicionalmente posto.

os jornalistas que eu contava para montar o Fluxo também não houve um compromisso tão forte quanto o que eu tinha, na hora de assumir uma produção. E eu acabei centralizando muito a produção em torno de mim mesmo. O Fluxo era eu. Eu ancorava 95% da produção do Fluxo, criava todas as pautas, chamava todas as pessoas. Mas foi um lugar que, enquanto foi um espaço físico, engraçado que eu tenho um pouco de trauma, eu me bloqueio um pouco porque foi muito frustrante fechar ele, mas quando eu lembro vejo que a gente fez muita coisa legal lá dentro, que não era só produção pra fora. Que é um sonho que eu tinha que é uma redação aberta ao público. Então não era só uma redação. Era um lugar onde tinha debates, e

46 O Libre foi desenvolvido pelo Estúdio Fluxo em parceria com a Open Knowledge e App Cívico e refere-se a

uma ferramenta para facilitar ao máximo o microfinanciamento a conteúdos, autores ou veículos. Post a post, como um botão de "like". Com cadastro e adesão simples, o público pode distribuir seus créditos livremente, de acordo com os conteúdos que mais valorizou durante o dia a dia. Para os veículos é uma forma de gerar receita e avaliar relevância e impacto diretamente com o público. A página http://www.midialibre.org.br/ atualmente aparece fora do ar.

47 Entrevista gravada do fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, concedida para a pesquisa no dia 30 de

novembro de 2018. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice B desta dissertação.

48 Entrevista gravada do fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, concedida para a pesquisa no dia 30 de

o público viria, os assinantes frequentavam, tinha festa, tinha ingresso, tinha exibição de filme. Era um lugar vivo. Então esse lugar a gente viveu mesmo. Esse lugar existiu no centro de São Paulo, num momento muito mágico para aquela região, que era o primeiro ano do governo do Haddad. O segundo ano, na verdade. O Vale do Anhangabaú tinha uma energia na cidade, naquela região especificamente, que parecia que as coisas iriam dar certo. Os coletivos culturais estavam se mudando para lá. Tinha até a convergência de vida social, com a produção midiática, com cultural e com apoio da sociedade que rapidamente ruiu, que não deu tão certo assim. Mas eu acho que o maior responsável por ele não ter se mantido mesmo fui eu mesmo, que não sou um bom empreendedor. E aí acho que o que acabou reorganizando a produção do Fluxo foi o projeto que a Suzi [Susana Jeha] criou, que é o Córtex49 (informação verbal)50.

Que, segundo Torturra, seria o responsável pela reorganização do Estúdio Fluxo, e onde concentra boa parte da produção do veículo:

[o Córtex] reencontrou uma identidade editorial através dele que estava muito implícita no que eu acreditava da Mídia Ninja, que é o plano sequência, que é a rua como território de experimentação midiática, conversa não confrontacional e não editada, a conversa que flui e experimentação técnica que o Córtex também tem, é gravado só com o celular, com equipamento e equipe mínima para não dar interferência no ambiente. Então a gente faz no supermercado, em loja, no meio da rua e ninguém repara que é um programa de jornalismo, que era tudo que já estava na Mídia Ninja nas transmissões que eu gostava de fazer, só que agora sem o calor das bombas e manifestações (informação verbal)51.

É importante destacar a escolha do Estúdio Fluxo diante do protagonismo de Bruno Torturra. Ele é reconhecido como o criador da Pós-TV (uma rede de transmissões ao vivo pela internet (WebTV)52 em todo o país através dos coletivos ligados ao Fora do Eixo), o realizador da primeira transmissão ao vivo em um movimento de rua no Brasil, em 2011. A experimentação de novos formatos de distribuição de conteúdos é uma das buscas de Torturra, que disse no Festival 3i - Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, em 2018, que a experiência mais incrível que viveu foi da Pós-TV53. “No final do projeto a gente estava em 30 cidades. Já podemos fazer TV onde não existe”. Ele explica:

O que me fez parar de ser um repórter de revista foi o meu smartphone. Eu estava numa manifestação em que eu testemunhei uma violência policial extrema, e o que

49 Susana Jeha é criadora e diretora do Programa Córtex, produzido e divulgado pelo Estúdio Fluxo, e do qual

Bruno Torturra é apresentador.

50 Entrevista gravada do fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, concedida para a pesquisa no dia 30 de

novembro de 2018. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice B desta dissertação.

51 Entrevista gravada do fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, concedida para a pesquisa no dia 30 de

novembro de 2018. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice B desta dissertação.

52 A WebTV é distinta da televisão tradicional feita originalmente on-line via banda larga e redes móveis. 53 De acordo com palavras de Torturra em artigo na Revista Piauí, “As imagens vinham sobretudo de São Paulo,

mais exatamente de um sofá puído que ficava na edícula de pé-direito alto nos fundos da Casa Fora do Eixo, no bairro do Cambuci. Eram horas e horas, quase todos os dias, consumidas em debates, conversas, experimentações de formato e linguagem sobre temas que não tinham quase nenhum espaço na imprensa tradicional”. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/olho-da-rua/. Acesso em: 25 jun. 2019.

eu consegui colocar no ar naquela mesma hora teve um impacto imenso, muito mais do que qualquer coisa que eu tinha feito minha carreira toda no jornalismo impresso. E ali ficou muito claro que existe uma fronteira muito interessante para ser explorada. E o que eu venho fazendo de lá para cá é experimentação (informação verbal)54.

Além do fundador e idealizador Bruno Torturra, o veículo tem outros três colaboradores: Ronaldo Bressane, jornalista e escritor; Carol Quintanilha, fotógrafa e cinegrafista; e Fernanda Ligabue, cinegrafista e fotógrafa. O menu do site é dividido de uma forma fora do convencional, e todas as produções são feitas no formato de vídeo ou, pelo menos, com a premissa de sua existência, ademais o suporte de um texto e, algumas vezes, com imagens feitas no momento da entrevista.

São programas do Fluxo: Córtex, Fluxo Entrevista, Fluxo de Consciência e o Streamings. O programa Córtex tem passeios e conversas sem cortes, com apresentação de Bruno Torturra e direção de Susana Jeha. "Pessoas com muito a dizer, em trajetos com muito a enxergar. Dois celulares, dois microfones e uma conversa em campo aberto, sem intervalos. Um trajeto - entre espaços e ideias - que leva do tema específico a grandes questões sistêmicas"55. Em Fluxo Entrevista, os colaboradores do Fluxo fazem entrevistas longas e não editadas que, segundo eles, não cabem nas manchetes. O Fluxo de Consciência é um programa de literatura feito em parceria com a Revista Pessoa, no qual uma dupla de escribas é convidada para uma conversa sobre muitos temas, inclusive literatura. E os Streamings reúnem um arquivo completo com as transmissões ao vivo realizadas por eles. No menu Especiais estão as produções Ruas Rebeldes, Vídeos Especiais e Sociedade da Informação. O site tem ainda um blog "Boletim do Fim do Mundo”, com dicas, desenhos, comentários e colaborações diversas. E na mesma linha de dar dicas estão os Eventos, com uma agenda de eventos, debates, festas e tudo o que o Fluxo faz e apoia fora do estúdio.

Outra característica interessante do Fluxo, é que por ter uma equipe enxuta, eles não mantêm uma periodicidade nas publicações. Não existem matérias factuais no site, e menos ainda a pretensão de dar furos — notícias em primeira mão no jargão jornalístico, ou competir com a mídia televisiva. Embora trabalhem muito com o uso dos vídeos, o que o Fluxo apresenta é um jornalismo de imersão (considerando a etimologia da palavra, e não o jornalismo com realidade virtual), sem cortes, sem edição, em sua maioria, o que traz um assunto com

54 Fala do fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, no Festival 3i - Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, em Belo Horizonte, em junho de 2018.

profundidade, causando a reflexão e proporcionando o debate. Esse tipo de produção não tem espaço, por exemplo, na grade de programação da televisão aberta tradicional56.

Em 2014, ano do seu lançamento, o Fluxo estava localizado no Vale do Anhangabaú, centro da cidade de São Paulo e propunha “um novo modelo econômico para produção de informação” (PORTAL IMPRENSA, 2014). Para se manter, o coletivo convidava as pessoas a apoiarem o projeto com R$ 15 por mês, com os benefícios de ganharem 10% a 20% de desconto nos produtos, cursos e festas; 30% de desconto nos encontros “Jornalismo em Fluxo”; e um zine do Fluxo. Outra possibilidade que ajudaria a manter o coletivo era tornar-se membro com uma mensalidade de R$ 100. O membro poderia “Participar gratuitamente da série de eventos mensais ‘Jornalismo em Fluxo’; receber de 30% a 60% de desconto em produtos e cursos; convites para as festas do Prédio Farol; e brindes especiais”. Mas esse modelo, segundo Torturra, “deu errado. Bem errado. (TORTURRA, 2018a).

Menos de cinco anos depois, em 2019, o Fluxo permanece com as premissas de origem: não fazer mais restrição do seu conteúdo e nem conta com publicidade, “patrocinadores, financiadores ou dinheiro do Estado”, e, desde novembro de 2018, conta com um:

projeto de assinaturas via Catarse. Uma forma simples e direta de estabelecer uma relação e um compromisso direto entre o Fluxo e seu público. E garantir uma renda previsível e uma grade fixa de lives, programas e newsletters. (FLUXO, 2019).

Por meio dele, as pessoas podem optar por doar a partir de R$ 5 e entrar para a comunidade de apoiadores, recebendo e-mails semanais com dicas de livros e filmes, por exemplo; a partir de R$ 10 e ganhar os mesmos benefícios anteriores, além de descontos em uma editora de livros; ou a partir de R$ 50 levar a newsletter, os descontos e concorrer a uma aquarela original pintada pelo Bruno Torturra todo mês.

O protagonismo do Bruno Torturra, fundador do Fluxo, inclusive, é um dos fatores para a escolha deste veículo de mídia independente como objeto de estudo desta pesquisa, além da qualidade e perspectiva disruptiva das narrativas apresentadas. Bruno Torturra, como ele mesmo diz em entrevista, não cursou jornalismo. Tem formação superior incompleta em Publicidade e Propaganda, parte pela ECA-USP e parte pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing)57. No entanto, seu currículo mostra o porquê de ele se tornar um jornalista tão reconhecido nacionalmente.

56 Entendemos por "TV aberta" o sinal de televisão não criptografado, ou seja, que não cobra para ser acessado,

como aqueles popularmente chamados de "TV fechada", "TV a cabo", "TV paga" ou "TV por assinatura". 57 Disponível em: http://portalintercom.org.br/anais/nacional2016/resumos/R11-1980-1.pdf.

Além da dedicação ao Fluxo, está no currículo de Torturra: ser o editor-chefe do Greg News58; coordenador da ferramenta Libre59; e criador da Pós TV. A experimentação de novos formatos de distribuição de conteúdo é uma de suas buscas. Torturra disse em um evento para empreendedores, jornalistas, acadêmicos e curiosos, para discutir Jornalismo Independente, Inovador e Inspirador, que a experiência mais incrível que viveu foi da pós-TV. “No final do projeto a gente estava em 30 cidades. Já podemos fazer TV onde não existe.”60

Há, ainda, dentro do Estúdio Fluxo, e na trajetória de seu fundador, o papel fundamental do uso dos dispositivos móveis. Em 2011, Bruno Torturra fez o primeiro streaming de uma manifestação de rua do Brasil, o que ele posteriormente ajudou a criar e difundir a Pós-TV. A experimentação, a qual o fundador do Estúdio Fluxo se refere, é como ele define, além da independência, o tipo de jornalismo praticado por ele.

O que eu mais tenho usado para definir o que eu faço é jornalismo experimental. Que eu acho que, no meu caso, define melhor. E talvez ele não tenha muita lógica pra outros veículos menores. Mas, no meu caso, acho que o que eu mais gosto de fazer é não ficar preso mesmo em formato, na pauta. [...] Me interessa muito o experimentalismo de forma, de pauta, de conteúdo (informação verbal)61.

Essa aproximação de Torturra com o smartphone, seja na produção ou transmissão de conteúdo, rendeu a ele visibilidade nas redes sociais62, ainda que, por outro lado, o Estúdio Fluxo não tenha, até aqui, conseguido o mesmo. No Instagram, o Estúdio Fluxo conta com 2,9 mil seguidores, e o perfil pessoal do Bruno Torturra com 24,2 mil, ou seja, quase dez vezes mais. No Facebook, a fanpage do Fluxo conta com 31 mil curtidas, e Bruno Torturra com 43 mil seguidores. No YouTube, rede específica para a publicação de vídeos, principal formato adotado pelo Fluxo, são 25 mil inscritos.

58 Greg News, com o ator, humorista, roteirista e escritor brasileiro Gregório Duvivier, é um programa estilo late- night talk show satírico que vai ao ar na HBO Brasil.

59 O Libre é uma plataforma sem fins lucrativos que promete pensar o jornalismo fora do formato analógico. A ferramenta de microfinanciamento permite que o público realize microdoações ao final de cada matéria que considere relevante, participando ativamente do financiamento do jornalismo independente.

60 Fala do fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, no Festival 3i - Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente, em Belo Horizonte, em junho de 2018.

61 Entrevista gravada do fundador do Estúdio Fluxo, Bruno Torturra, concedida para a pesquisa no dia 30 de novembro de 2018. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice B desta dissertação.

62 Os dados das redes sociais Facebook, Instagram e YouTube do Estúdio Fluxo e de seu fundador, Bruno Torturra, foram captados das respectivas páginas no dia 04 de julho de 2019.

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