O conto “O espelho” se apresenta como uma reflexão sobre a existência do ser, perante o espelho e perante a sua própria existência. O narrador-personagem do conto coloca em confronto as diversas realidades construídas socialmente de modo a transgredir uma após a outra através das reflexões sobre a metamorfose de sua imagem no espelho.
Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que induziram-me, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreende- me, porém, um tanto à parte de todos, penetrando conhecimento que os outros negam (ROSA, 2005, p.113).
A experiência conduz o narrador-personagem a produzir um novo saber, o novo conhecimento é negligenciado pelos outros indivíduos, o uso do termo experiência sugere que os acontecimentos que irão decorrer no texto demandam que o empirismo esteja presente na ação, ao leitor atento fica o indício: “Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica” (ROSA, 2005, p. 114).
Na concepção de Roas, o grande efeito do fantástico não está somente na hesitação, como discorre Todorov, mas na provocação, “Provocar- e, portanto, refletir- a incerteza na percepção do real” (ROAS, 2014, p. 111). Percebemos tal provocação no excerto do conto citado anteriormente; para o narrador, a realidade em que vivemos é construto da necessidade patente do ser humano em se encaixar na sociedade, assim, o narrador coloca a visão distorcida da concepção de uma identidade perfeita em xeque. Interpretando as palavras do narrador, é importante que o leitor duvide da construção social do que deve ser real.
Outra provocação que põe em dúvida a realidade pode ser encontrada no exemplo da trivial pergunta realizada pelo narrador do conto “O Espelho”:
O senhor, por exemplo, que sabe e estuda suponho nem tenha ideia do que seja na verdade-um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, alias, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. (ROSA, 2005, p. 113)
O próprio narrador responde à pergunta com base em uma concepção simples e rotineira, o espelho é o objeto físico capaz de refletir as formas daquilo que existe. A forma refletida seria a representação da realidade a princípio. Em frente ao espelho, o indivíduo se reconhece. No entanto, o narrador problematiza esta simples concepção sendo necessário ver além da suposta realidade, ou como ele diz ao que “transcende”.
Organizamos nossas atitudes com base no reflexo diante do espelho. Assim, as ações podem ser influenciadas a partir de um discurso do qual o espelho participa, ser magro, ser alto, sem rugas, sem sinais, sem sardas, com cabelo liso,
com plástica, um corpo idealizado pela sociedade: “E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e afizeram, mais e mais” (ROSA, 2005, p. 114). O contato com o espelho seria uma forma de cegueira, para os indivíduos que sucumbem ao discurso exterior sobre si.
No conto de Guimarães Rosa, o espelho é o objeto que possibilita ao narrador-personagem transgredir a suposta realidade que lhe atribui um “rosto”. O espelho deixa perceptível a imagem, sendo um mediador, um objeto de construção da individualidade. Essa construção se torna regressiva, pois está ligada às percepções de indivíduo e de mundo que rodeia o narrador-personagem. É esta
“espécie de efeito retroativo” que nos importa para análise do texto ficcional.
Tomamos como exemplo o conto “Branca de Neve”, dos Irmãos Grimm. No conto, a rainha interpela o espelho sobre qual seria a mais bela mulher do reino, essa não obtém a reposta desejada. A resposta é objetiva e negativa; existe uma mulher mais bela, assim, mesmo que a representação da forma refletida em frente ao espelho seja a concepção de beleza real para a rainha, não é realidade absoluta e única. No conto dos irmãos Grimm, o espelho é o objeto que demonstra a existência de outra realidade. O reflexo no espelho transpõe a forma, contudo não abarca o real.
No conto “O Espelho”, o primeiro reflexo vislumbrado pelo narrador- personagem pode ser considerado a identidade que acreditamos ser a concepção de realidade a ser alcançada. O espelho é o objeto pelo qual o narrador busca transfigurar por si só a suposta realidade, o elemento que o permite subverter o efetivo.
A distinção entre os dois é que o objeto espelho recebe a personificação de um aspecto humano no conto “Branca de Neve”, a capacidade de falar, o que claramente distancia o conto de uma narrativa realista. No conto “O Espelho”, a linguagem utilizada pelo narrador-personagem é aparentemente objetiva e direta, característica da literatura realista, porém, há subjetividade implícita nela. A ambientação remete a elementos pré-concebidos em uma concepção de realidade, o banheiro, o espelho, o homem moderno. Porém, subsequente, o narrador conduz o leitor a uma atmosfera fora do comum, fantasiosa, inexplicável pelas leis naturais.
A existência do milagre: “Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo” (ROSA, 2005, p. 116).
O milagre é um fenômeno que escapa das leis científicas em seu entendimento comum, tendo sua explicação na intervenção das leis que não são regidas pela lógica, portanto, a narrativa do conto: “Oferece uma temática tendente a contradizer nossa concepção de real” (ROAS, 2014, p. 111), como afirma Roas em relação à instauração do fantástico.
O narrador inicia um experimento incomum quando percebe que a imagem monstruosa no espelho não condiz com a realidade de seu ser. O processo de dessubjetivação para sua subjetivação consiste em metamorfosear seu reflexo no espelho em distintas imagens até chegar à sua verdadeira identidade, ao seu verdadeiro eu. Observamos a suposta metamorfose tendo o espelho como objeto que proporciona o fenômeno insólito e garante a transfiguração de percepção de realidade imediata e física. O narrador considera que o espelho pode revelar mais do que apenas o físico.