CARD PUNCHES, VERIFIER, DATA TRANSCEIVERS
49.7 X Figure 4-13.-Transceiver control unit
Figura 5 - Site da Mídia Ninja75
Fonte: Mídia Ninja
A Mídia Ninja - Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação - site na Figura 4 - foi fundada oficialmente em março de 2013 no Fórum Mundial de Mídia Livre76, realizado na Tunísia. Mas sua história começou muito antes. Nas palavras da fundadora, coordenadora das articulações políticas e de redes, membro do conselho editorial da Mídia Ninja, Marielle Ramires, “o início da Mídia Ninja começa em 2002, começamos em Cuiabá, lá onde começa o Cubo77, ainda não tinha o nome Mídia Ninja. Tem muito processo aí” (informação verbal).
A história da Mídia Ninja está intimamente ligada ao circuito Fora do Eixo78, que emergiu do Espaço Cubo, em Cuiabá-MT, em 2002. O Fora do Eixo desenvolveu tecnologias
75 Página inicial do site da Mídia Ninja. Disponível em: http://midianinja.org/. Acesso em 25 de junho de 2019. 76 O Fórum Mundial de Mídia Livre é um evento de discussão do direito à comunicação e à liberdade de expressão.
Tem o objetivo de reunir midialivristas para discutir iniciativas que fortaleçam os veículos de comunicação alternativos, num momento em que “acentua-se a concentração das grandes corporações de mídia e explicita-se o papel desses grupos como suporte do discurso hegemônico”. Disponível em: http://www.fmml.net/.
77 Segundo Lenissa Lenza, membro do Espaço Cubo e atual membro da Mídia Ninja, o movimento independente
foi uma "organização coletiva cultural, autodenominada Instituto Cultural, que trabalhava uma rede de ações laboratoriais estruturantes da cadeia produtiva cultural, partindo do segmento da música", e que nasce em Cuiabá (MT). "Temos projetos que contemplam áreas da comunicação, audiovisual, música, educação, economia solidária, artes visuais, teatro, literatura etc. O início da formação do Cubo se deu justamente pela necessidade de termos um grupo coeso trabalhando em prol da cultura alternativa local, autoral e independente. [...] Juntamos três parceiros do movimento estudantil, dois músicos e técnicos de áudio da cidade e montamos o Cubo em 2002." Disponível em: http://rockpara.blogspot.com/2009/07/espaco-cubo-e-o-cubo-card-cultura.html
78 O Fora do Eixo, ou Circuito Fora do Eixo, emergiu do Espaço Cubo em 2005, e teve origem no cenário da
música independente, no compartilhamento de experiências entre coletivos de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR). Em Cuiabá, quatro produtores culturais que frequentavam festivais de música independente e participavam ativamente de coletivos, Pablo Capilé, Talles Lopes, Daniel Zen e Marcelo
de comunicação e produção cultural, além de atuar como movimento social em colaboração constante com outros grupos e coletivos há 10 anos. Foi dessa rede que saiu o grupo considerado como fundador da Mídia Ninja: Bruno Torturra, Rafael Vilela, Felipe Altenfelder, Dríade Aguiar, Pablo Capilé, Filipe Peçanha e Thiago Dezan.
A Ninja surge do Fora do Eixo. O Fora do Eixo é a base desse processo todo. Mas a Mídia Ninja é como se fosse um projeto incubado. [...] Emergiu do Fora do Eixo, do processo. Não existiria a Mídia Ninja. Não foi planejado, um projeto escrito. Inclusive essa perda de controle faz parte do processo. Vai crescendo tanto que você perde o controle disso e isso que é o incrível. E antes da Mídia Ninja, o Fora do Eixo viveu ápices e momentos incríveis (informação verbal)79.
De acordo com Marielle, em 2011, ainda como Fora do Eixo, eles começaram a “cobrir a rua, porque começam os movimentos. Primeiro porque São Paulo está naquele momento de efervescência de várias marchas na rua” (informação verbal)80. Foram graças a esses movimentos, mas sobretudo ao jeito particular de fazer a cobertura deles, que a Mídia Ninja ganhou notoriedade, com as coberturas ao vivo da Marcha da Liberdade, em São Paulo, em maio de 2011 (ainda como Fora do Eixo81) e no auge dos protestos que mobilizaram o país, em junho de 2013. Na época, o grupo fazia transmissões ao vivo das manifestações nas ruas usando apenas smartphones e geradores improvisados – até então, os chamados livestreamings não eram tão populares nem tão fáceis de se fazer quanto hoje.
Nós falávamos que 2013 ia ser ser foda, preliminares. E já anunciava o que ia ser 2013, então quando vai e acontece 2013 no começo do ano a gente já tinha um diálogo, o Torturra tava com a gente, fora os parceiros que estavam unidos, Cláudio Prado, Ivana Bentes, dentre outros, enfim, a gente começa a pensar numa mídia que vá conseguir cobrir o que estava acontecendo naquele momento, e ali surge o nome Mídia Ninja, que era, poxa, estamos cobrindo, estamos fazendo Pós-TV, a gente já fazia Pós-TV, transmissão ao vivo na rua. A gente ia fazer transmissão dos festivais, quando a gente ia fazer os festivais. Aí em 2013, no começo do ano a gente vai para o Fórum Social da Tunísia, faz a primeira cobertura com a Mídia Ninja, já abre Facebook, lança a identidade visual e começa no início de 2013 a Mídia Ninja. Em um momento que estávamos num diálogo com os movimentos de rua e movimentos
Domingues, criaram o Espaço Cubo em 2002, um dos precursores do Fora do Eixo. Seu planejamento era coletivo e suas atividades colaborativas. No fim deste ano, os participantes já tinham à sua disposição um estúdio de gravação, um núcleo de comunicação e divulgação de eventos, um ambiente para os shows e um selo de distribuição de discos. Disponível em: http://foradoeixo.org.br/historico/
79 Entrevista gravada da editora da Mídia Ninja, Marielle Ramires, concedida para a pesquisa no dia 23 de março
de 2019. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice D desta dissertação.
80 Entrevista gravada da editora da Mídia Ninja, Marielle Ramires, concedida para a pesquisa no dia 23 de março
de 2019. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice D desta dissertação.
81 O Fora do Eixo, ou Circuito Fora do Eixo, emergiu do Espaço Cubo em 2005, e teve origem no cenário da
música independente, no compartilhamento de experiências entre coletivos de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR). Em Cuiabá, quatro produtores culturais que frequentavam festivais de música independente e participavam ativamente de coletivos, Pablo Capilé, Talles Lopes, Daniel Zen e Marcelo Domingues, criaram o Espaço Cubo em 2002, um dos precursores do Fora do Eixo. Seu planejamento era coletivo e suas atividades, colaborativas. No fim deste ano, os participantes já tinham à sua disposição um estúdio de gravação, um núcleo de comunicação e divulgação de eventos, um ambiente para os shows e um selo de distribuição de discos. http://foradoeixo.org.br/historico/
lá de São Paulo. E quando estoura 2013 a gente estava lá, lá de dentro fazendo isso, quer dizer, a gente já tinha um diálogo com aquele lugar, a gente pertencia aquele lugar e a gente estava fazendo mídia a partir daquele lugar também. Quando explode o processo do MPL, com a tarifa que foi a repressão que teve a primeira manifestação de 13 de junho, se não me engano, a gente estava cobrindo (informação verbal)82.
A Mídia Ninja, segundo a definição do próprio site, é uma “rede de comunicação livre que busca novas formas de produção e distribuição de informação a partir das novas tecnologias e de uma lógica colaborativa de trabalho”83. Uma das coisas que a diferencia de alguns veículos independentes abordados vem do próprio grupo que se intitula como “midiativista”. Isso quer dizer que, mais do que um observador atento, uma terceira pessoa que relata e transmite os acontecimentos, os colaboradores da Mídia Ninja são participantes, atuantes dentro dos movimentos sociais. Para a jornalista da Mídia Ninja entrevistada para esta pesquisa e coordenadora das redes do grupo, Raíssa Galvão, essa é uma característica forte do veículo. “É você produzir de dentro. Não é você ser um espectador de longe, de um helicóptero. [...] Acho que é essa relação de estar ali fazendo de dentro, envolvido, e tomando partido também sobre aquilo que está sendo colocado, é uma grande coisa” (informação verbal)84. Para Ivana Bentes (2015), o midiativista quando está dentro de uma manifestação é diferente do jornalista corporativo, sendo que:
a Mídia Livre e o midiativismo são resultado do trabalho de seus colaboradores. A Mídia Ninja, por exemplo, que acompanho de perto e da qual sou entusiasta, conta com a estrutura e força de trabalho da rede Fora do Eixo para realizar suas atividades, além de organizações internacionais que se interessam em custear a formação de novos agentes de comunicação e a produção de conteúdos ligados às questões socioambientais e culturais. Ou seja, tem autonomia conceitual, política e financeira, em relação aos poderes econômicos (BENTES, 2015, p. 17).
Para quem acessa o conteúdo produzido por eles, seja no site, seja nas redes sociais, está claro que se trata de uma primeira pessoa, um ator. Eles se tornam, ao mesmo tempo, redator e personagem, não só cobrindo, mas participando e até organizando manifestações e protestos, por exemplo. Como descreveu a jornalista Lilia Diniz no observatório da imprensa em 1º agosto de 2013:
A cobertura engajada é a principal marca do grupo, que participa ativamente dos fatos que mostra. Após o confronto com a polícia, os repórteres-ninja Felipe Peçanha e Felipe Assis foram detidos no Rio sob a acusação de incitar a violência. Sem apuração e checagem de informações, ou abrindo espaço para que o outro lado se
82 Entrevista gravada da editora da Mídia Ninja, Marielle Ramires, concedida para a pesquisa no dia 23 de março
de 2019. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice D desta dissertação.
83 In: “Quem somos” do site http://wwww.midianinja.org.br/ consultado no dia 26 jan. 2019, às 14h57.
84 Entrevista gravada da editora das redes sociais e da rede de colunistas da Mídia Ninja, Raíssa Galvão, concedida
para a pesquisa no dia 11 de maio de 2019. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice E desta dissertação.
manifeste, o Mídia Ninja começa a chamar a atenção da grande imprensa. E se distancia do circuito alternativo para se converter em protagonista.85
Essa impressão também aparece nos espaços em que o Mídia Ninja se define para seu público. Dizem eles em seu FAQ: "Nesse contexto, o cidadão que se vê como um veículo ou faz parte de uma rede de midialivrismo não está em um protesto apenas para fazer o registro. Ele é um corpo da multidão e a comunicação é uma das formas de mobilizar e organizar".86 Por essa postura combativa, a Mídia Ninja já foi duramente criticada:
Então, quando começa ali, [nas manifestações] [...] os veículos de comunicação deram capa da Folha, vândalos quebram não sei o que, vândalos depredam não sei o que. E quando a gente vem, a gente fala assim ‘peraí, vândalos?’, quando vai ver na Mídia Ninja estava outra chamada. E aí as pessoas começam a confrontar (informação verbal)87.
Além dessa crítica, se de fato produz jornalismo, o veículo já foi questionado pelo seu modelo de financiamento e aproximação com figuras políticas, como ocorreu em 5 de agosto de 201388, em entrevista de Pablo Capilé e Bruno Torturra ao Programa Roda Viva, da TV Cultura.
Apesar desses ataques, a Mídia Ninja também já foi reconhecida internacionalmente pelo tipo de cobertura jornalística que pratica. No auge das manifestações de 2013, o The New York Times, em matéria assinado por Romero e Neuman, em 20 de junho de 2013, publicou acerca do grupo, que como alternativa “à mídia de notícias estabelecida no Brasil, que alguns veem como ligada à elite e focada em retratar a minoria violenta de manifestantes”, o grupo começou a cobrir as manifestações “distribuindo seus relatórios através das mídias sociais”. Acerca dessa projeção, a Folha de S. Paulo comentou que o grupo foi parar em edições de importantes noticiários do mundo, quando o ninja e ativista Filipe Peçanha, que transmitiu os confrontos entre a Tropa de Choque da PM de SP e manifestantes, foi preso.
A prisão do ‘ninja’ foi parar no ‘New York Times’ e no ‘Guardian’. Em pouco mais de um mês, o grupo já foi descrito como protagonista de uma ‘mudança no panorama da mídia, no ‘Wall Street Journal’, e como ‘um fenômeno de mídia que atraiu atenção e admiração de milhares’, no site do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard (DE SÁ, 2013).
85In:http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/o_jornalismo_em_tempo_real_da_midia_ninja/
consultado no dia 26 jan. 2019, às 16h18.
86 In: http://midianinja.org/perguntas-frequentes/ consultada no dia 30 jan. 2019, às 19h49.
87 Entrevista gravada da editora da Mídia Ninja, Marielle Ramires, concedida para a pesquisa no dia 23 de março
de 2019. A entrevista na íntegra encontra-se transcrita no Apêndice D desta dissertação.
88 O programa foi visto por mais de 230 mil pessoas no YouTube, em poucos dias. A fonte completa encontra-se nas referências deste trabalho.
Para manter-se financeiramente, a informação disponível no portal do Mídia Ninja é de que eles são financiados por assinaturas viabilizadas por meio de um site de financiamento coletivo, o Catarse. Os nomes de todos os apoiadores aparecem na página, exceto nos casos em que, durante o ato da assinatura, a pessoa solicita anonimato. Os valores vão de R$ 10 a R$ 2 mil com diferentes recompensas sendo oferecidas em cada faixa de preço.
Os 123 assinantes que pagam o valor mínimo têm o nome publicado no portal, mesma recompensa dos 90 que contribuem com R$ 20. Os 28 que pagam R$ 50 mensais recebem também prioridade nas oficinas oferecidas pelo Mídia Ninja em todo o país. Já os 11 assinantes que pagam R$ 100 ganham prioridade nos editais abertos pelo grupo. Por R$ 300 (faixa que não tem nenhum contribuinte até o momento) é possível fazer uma visita guiada à casa Fora do Eixo de sua escolha. Por R$ 500, com dois apoiadores, é possível fazer duas visitas.
Os dois valores mais altos têm prêmios especiais. Por R$ 1 mil, é possível acompanhar a cobertura de algum evento ou a gravação de uma coluna em vídeo (também sem pagantes no momento). Por R$ 2 mil, o assinante recebe em casa uma cópia assinada em fine art89 de uma
das fotografias do grupo que fazem parte do acervo permanente do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). No momento da realização desta pesquisa, uma pessoa contribui com essa quantia. 90
Além do financiamento coletivo, o Mídia Ninja declara também que “conta com a estrutura e força de trabalho da rede Fora do Eixo” e de “organizações internacionais que se interessam em custear a formação de novos agentes de comunicação e a produção de conteúdos ligados às questões socioambientais e culturais”. Essas organizações, entretanto, não são nomeadas no site do grupo.
Em suas redes sociais91, a Mídia Ninja acumula um público que atinge mais de 2 milhões de pessoas. No Instagram são 1,2 milhão de seguidores; no Facebook mais de 2 milhões de curtidas na página; no Twitter 575 mil seguidores; e no YouTube 202 mil inscritos no canal.