Can and Cannot Do
1. What You Always Wanted to Compute
Cinjamo-nos agora ao tópico do Homem da Natureza desenvolvido na
Joanneida, o qual foi plenamente discutido e debatido durante o século XVIII, sendo o seu principal precursor o filósofo Jean-Jacques Rousseau105.
A relevância deste tópico reside no facto de o mesmo ser abordado e desenvolvido no Canto VIII, quando o Herói dialoga com uma nova personagem, Camilo, sobre assuntos de cariz filosófico.
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Referimo-nos aqui à figura de Rousseau, na medida em que as ideias que na Joanneida são transmitidas por Camilo no seu discurso, nomeadamente as que dizem respeito ao estado da Natureza; à oposição entre o homem natural e o homem civilizado; à questão das desigualdades sociais, entre outras, haviam já sido fundamentalmente trabalhadas por Rousseau em duas das suas mais importantes obras, Emílio e o Contrato Social, ambas publicadas na 2ª metade do século XVIII (1762). O facto, como já referimos, de JCM ter procedido a inúmeras leituras antes da escrita da sua obra fica, assim, naturalmente reforçado, na medida em que é possível atestar na Joanneida, assim como nos discursos presentes na Academia Solitária, a influência das grandes figuras do pensamento setecentista, não só Rousseau, mas inclusive Montesquieu.
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No que diz respeito a Camilo, convém realçar que esta parece-nos ser uma das personagens mais intrigantes de toda a epopeia. Da investigação por nós efectuada, não nos foi possível encontrar qualquer referência a um Camilo que tenha vivido no século XIV, na época de D. João I, nem inclusive em pleno século XVIII. Todavia, a referência histórica de um Camilo que acabámos por encontrar nos escritos académicos do autor, aliada aos próprios actos e discursos desta personagem, assim como à descrição que dele é feita pelo Poeta, parecem apontar para que estejamos perante uma personagem autobiográfica106.
A análise dos escritos do autor anteriores à publicação da Joanneida, nomeadamente os que resultaram da sua participação na Academia dos Solitários enquanto secretário (1754-1755), permitiram-nos identificar um Camilo que, cremos, poderá ter sido a fonte de inspiração para a inserção desta personagem no poema épico. No seu discurso durante a 6ª conferência da Academia, dedicada ao tema «De
qual dos Homens devemos fazer mais confiança? Naqueles que nos têm feito benefícios; Ou dos que de nós têm recebido favores?», JCM indica vários exemplos de homens que prestaram os mais relevantes serviços à Nação, mas que foram maltratados por esta. Um desses exemplos é o do general Marco Furio Camilo (o qual é referido pelo autor de uma forma bastante familiar, como se estivesse a relembrar a história de alguém que era sobejamente conhecido pelos outros sócios da Academia), general que em 390 a.C reconquistou Roma aos Gauleses e que
106 Comparem-se os dados biográficos referidos no cap. 4.1 sobre o autor com os seguintes versos
retirados da Joanneida:
Era Camilo cavaleiro honrado Por nascimento, e próprias qualidades, Que de esperanças vãs desenganado, Se ausentara da Corte, e das Cidades; Neste sítio vivia retirado
Do tumulto do Mundo, e nas verdades Da sólida moral Filosofia,
Os agravos da sorte divertia. Uma casa sem fausto, mas decente, Um adorno nem vil, nem precioso, Uma família parca, mas contente, Um vestido nem pobre, nem pomposo, Uma mesa modesta, mas patente, Um proceder sincero, e oficioso O faziam a todos agradável,
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conseguiu impedir que os Romanos abandonassem Roma e emigrassem para Veios, sendo a sua história contada por Tito Lívio na sua Ad Vrbe Condita (Livros 5 e 6). (cf. Enciclopédia Italiana, 1939: 540-541).
Os discursos que esta personagem profere ao longo do Canto VIII levam-nos a questionar se JCM, ao compor a Joanneida, não terá ele próprio querido participar na acção do Poema, de intervir no plano do herói, de comunicar e partilhar os seus ensinamentos e a sua experiência de vida com o Herói. Se assim sucedeu, então a melhor forma de o fazer seria, partindo da figura histórica conhecida de um general maltratado pelos seus pares, com cuja história o autor se identificava (pois, de certa forma, também ele a viveu), criar na sua obra uma personagem que indirectamente permitisse o diálogo entre os dois tempos, o que, cremos, o Poeta acabou por conseguir com a inserção desta personagem.
Na Joanneida, é o Defensor quem, ficando a par da natureza de Camilo e do homem que ele fora no passado, exprime no poema a contradição entre, por um lado, o homem culto e, por outro, o homem fugido e resguardado na Natureza.
E combinado aquele pensamento Com várias reflexões, que ponderava Nas acções de Camilo, a quem atento Desde a noite primeira contemplava, Sabendo que o seu claro nascimento A mais altos empregos convidava, Não podia adaptar aquele estado Às ideias de um homem cultivado. Assim o disse por diversas vezes, Censurando de inútil, e ociosa Aquela vida, que entre os montanheses Desfrutava Camilo em paz gostosa; Dava razões valentes, mas corteses
Contra aquela inacção indecorosa, (…) (est. 46 e 47, Canto VIII)
E Camilo, procurando clarificar a sua posição, desenvolve a sua argumentação, a qual se centra na oposição entre a pureza do espaço natural e o fingimento da
sociedade107.
Precedendo o seu discurso uma referência aos «asseios» e «proporções particulares» que caracterizavam os «rústicos recreios», as «hortas», os «jardins», os
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Seria interessante comparar a posição evidenciada por Camilo com alguns dos escritos de Rousseau, em especial os seus primeiros discursos (Discurso sobre as ciências e as artes de 1750 e o Discurso
sobre a origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens de 1755). Sobre os mesmos, cf. Rafart (2008: 24-35).
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«pomares», os «viveiros», os «bosques» e os «passeios» (est. 45, Canto VIII), Camilo elogia a pureza do espaço da Natureza em contraponto com o espaço social onde imperam o fingimento e a falsidade108, sendo estas as razões do seu afastamento da
sociedade:
(…)
Aqui vivo mais longe do perigo, Da desordem, do engano, e do embaraço, Com que as Cortes enredam tristemente Um peito puro, um ânimo inocente. Aqui não vejo o torpe fingimento Do vil adulador, o feio engano Do traficante astuto, o sofrimento Do triste pretendente, o ar tirano Do soberbo Ministro, o desalento Do pobre desprezado, o gesto insano Não vejo do disfarce, com que ilude
A falsidade os passos da virtude. (est. 65 e 66, Canto VIII)
Camilo evidencia, de certa forma, diversas ideias já presentes no pensamento rousseauniano: a crença de que o Homem é bom por Natureza, sendo somente a
Sociedade que o corrompe e deturpa a sua condição. Daí a necessidade de o
Homem se afastar da Sociedade e de procurar na Natureza o seu bem-estar.
Surge então, e ainda pela voz de Camilo, uma enumeração das virtudes do
espaço campestre:
Aqui da própria cor da natureza
As paixões se revestem, vêm-se os peitos Nos semblantes pintados; a fraqueza Aparece tremendo, os seus efeitos Não encobre a vingança; e com pureza Se anunciam desprezos, e respeitos, Se manifesta a boa, ou má vontade, Os impulsos do ódio, ou da amizade. Aqui se passa o dia sem cuidado, Aqui a noite sem temor se passa, No puro, natural, sincero estado, Que o cândido prazer não embaraça: Aqui contemplo o campo matizado De flores naturais, com tanta graça, Que o mais hábil pincel jamais figura
Tantas cores diversas na pintura. (est. 67 e 68, Canto VIII)
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Camilo, com o seu discurso, realça a pureza característica do espaço da Natureza, revelando que aqui, em oposição ao espaço da sociedade, nada se esconde,
tudo é exactamente como é, não existindo aí falsidade109.
Estas reflexões, a nosso ver, são claramente influência do pensamento rousseauniano e prova inequívoca de que JCM estava a par das correntes filosóficas e artísticas suas contemporâneas, tendo procedido durante vários anos (não só a partir de 1760, mas inclusive antes, como o provam os seus escritos académicos) à leitura das mais variadas obras, não só centradas na Filosofia, mas dedicadas a todas as esferas da Sociedade.