Reflectindo sobre os fundamentos que levaram à criação e publicação de todas estas obras e de muitas mais que surgiram durante este período, tanto no universo português como no europeu, Cecile Maurice Bowra conclui que, nomeadamente no século XVII, mas também no XVIII, os «autores de epopeias literárias lançaram-se a uma missão de dificuldade invulgar ao tentarem adaptar o ideal heróico a tempos que o não eram, e ao proclamarem na poesia uma nova concepção de grandeza e de nobreza do homem.» (Bowra, op. cit: 41). Isso explica o facto de existir um grande desfasamento entre a recepção crítica destas obras na contemporaneidade da sua publicação e o nosso tempo. As obras que naquela altura tiveram uma boa recepção do público e várias edições tornaram-se para os leitores de hoje textos mortos, curiosidades histórico-literárias, sendo que «a razão que explica o fracasso da maioria destes textos foi a incapacidade de os autores transformarem os dados históricos em material épico», o que faz com que a maior parte destes poemas não passem de crónicas rimadas. (Pires e Carvalho, op. cit.: 393)28.
Desta forma, se atentarmos em todos os poemas que, segundo as regras estabelecidas, podem ser designados como poemas épicos, constatamos que esses poemas representam quase sempre um momento de reflexão do e sobre o passado recente, ou sobre a viabilidade da sua continuação, recaindo muitas vezes sobre o poeta a função de revalorizar um ideal heróico passado num Presente que já não é
heróico. Como refere Bowra, «a julgar pelos seus melhores exemplos, a epopeia
literária floresce não tanto no apogeu de uma nação ou de uma causa, mas nos seus últimos dias ou no seu declínio.» (Bowra, op. cit.: 37).
Na mesma linha de pensamento, refere Cabral do Nascimento na sua obra
Poemas Narrativos Portugueses, que «as epopeias envelhecem, porque as aspirações populares variam com o tempo; o que, em certa altura, pareceu consubstanciar a vida duma nação, séculos volvidos – ou até depois de poucos anos – afigurar-se-á
28 Como refere Fidelino de Figueiredo, «hoje […] já não é a epopeia que expressa as inquietações
colectivas dos povos. […] Os géneros literários são determinados na sua estrutura pelas funções, a que se destinam, porque a arte visa à utilidade. E cada poeta e cada prosador tem de adaptar os seus meios de expressão aos fins que almeja, sem o menor acatamento das fronteiras dos géneros literários, nem dos seus canônes internos (Figueiredo, 1987: 352-353).
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destituído de significado, se bem que haja preenchido o seu momento histórico» (Nascimento, op. cit.: 10).
Desta forma, e ainda que Aristóteles defendesse que «a Poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a História, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular» (Aristóteles, op. cit.: 115-116), e ainda que, segundo as regras de Aristóteles e Horácio, bastasse à obra épica ser «uma hábil construção do engenho culto, não sendo necessário que constituísse uma criação do génio poético» (Pires e Carvalho, op. cit.: 416), a verdade é que, paulatinamente, e enquanto género, a epopeia se foi desvalorizando, assim como aquilo que na essência ela representava. Mas Cabral do Nascimento, referindo-se à realidade portuguesa, aponta uma outra razão, bem mais específica da nossa sociedade, para que tal desvalorização tivesse ocorrido: o facto de a crítica às nossas epopeias, tendo como referência uma obra ímpar como foram Os Lusíadas29, ter assentado, por um lado, em saber se as
mesmas se equiparavam ou não à mestria da epopeia camoniana e, por outro lado, em saber se as mesmas cumpriam escrupulosamente todos os preceitos épicos, sendo que a existência de diferentes e por vezes antagónicos pontos de vista sobre um determinado poema épico fazia com que fosse difícil ao mesmo encontrar unanimidade em seu torno, levando-o a sair «da arena inevitavelmente farpeado» (Nascimento, op. cit.: 39-40).
Assim sendo, no momento actual, e enquanto investigadores deste género, importa termos presentes as palavras de Fidelino de Figueiredo:
No estudo da génese das epopeias temos de considerar não somente os dados históricos proporcionados pela análise dos textos modernos, mas também passar ao domínio psicológico primitivo, à elaboração desfiguradora, que estava feita no todo ou em parte no momento em que um poeta individual de amplo fôlego ordena o seu poema. Temos de recorrer aos estados dos espíritos da época da redacção da epopeia ou da constituição da sua matéria, aos conceitos de valor, aos mitos guiadores, aos ideais verdadeiros ou falsos, que se haviam cristalizado antes do advento do poeta épico. É esta cristalização lendária que proporciona ao poeta épico um mundo lendário já formado heterogeneamente ou inorganicamente, mas com força suficiente para se impor como paisagem moral ou concepção geral da vida de um povo e dos seus planos de acção do próximo passado e do próximo futuro. (Figueiredo, 1987: 59-60).
29 A este propósito, refere Hélio Alves. «é devido a uma narrativa única e unívoca da nacionalidade
[…] que Camões ocupa o centro e as margens da memória literária portuguesa. […] Não restam dúvidas acerca da imensa qualidade e força retórico-poéticas de tantos versos de Os Lusíadas […] Mas dizer tudo isto não quer dizer que os Lusíadas se elevam incomparavelmente acima de outros poemas, ou até (a quanto se alcandora a arrogância!) que se elevam a espécimen cumeeiro e único da literatura ocidental.» (Alves, 2001: 21).
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Deste modo, ainda que seja visível uma grande disparidade de temas, géneros, conteúdos e personagens entre os diversos poemas épicos (o que os permite distinguir entre si), parece-nos óbvio que qualquer juízo de valor relativamente a um determinado poema épico não deve nem pode estar exclusivamente centrado no
critério da qualidade ou não qualidade poética, nem tão pouco na avaliação e
comparação normativa tendo por base uma obra de excelência. Importa-nos, sim, uma análise criterial deste poema, assente em critérios objectivos e ajustados à realidade do género, da época histórica e à realidade do próprio autor.
Como refere Bowra, «cada poema segue a sua orientação própria e contribui com a sua parte especial para a visão e compreensão da vida. Não podemos dizer que uma espécie é necessariamente melhor do que a outra; apenas podemos assinalar as diferenças entre elas e sentir o prazer que cada uma nos causa» (Bowra, op. cit.: 10).
Estabelecido o contexto e os antecedentes que influenciaram a escrita da
Joanneida, importa agora debruçarmo-nos sobre o autor da mesma, procurando compreender as suas motivações para a escrita desta obra.
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