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Como pudemos constatar no capítulo dedicado à evolução da poesia épica, elaborar uma epopeia era para qualquer poeta um desafio, desafio esse que o poeta abraçava, procurando aliar a necessidade de criação individual com a preocupação em imitar os modelos consagrados e em seguir fielmente as normas. Pondo de parte os poetas cujo principal intuito é o de entreter, fica claro, como diz Bowra, que a missão dos outros poetas é diferente: «Eles não partilhavam a crença vulgar de que a poesia serve simplesmente para entreter horas de lazer ou dá estímulo a um prazer requintado. Acreditavam eles que o seu papel era extremamente sério e que o seu objectivo consistia em tornar melhores os homens» (Bowra, op. cit.: 25).

Como é natural, com o tempo, os códigos da epopeia evoluíram, adaptando-se às sociedades e aos valores ideológicos dominantes da época. E ainda que no caso da poesia épica ela tenha, com o tempo, perdido entusiastas, a verdade é que a elevada consideração em que era tida tornou-a, ainda durante o século XVIII, um género tentado por alguns poetas. Um desses poetas foi JCM.

A Joanneida foi publicada em 1782 e isso é um facto. Mas o que nos deve importar agora é perceber as razões que estiveram na origem da escrita de uma obra como a Joanneida em plena segunda metade do século XVIII e como foi possível a um homem como JCM concebê-la.

Relativamente à personalidade de JCM, os dados atrás referidos permitem- nos, parece-nos, fazer um retrato coerente da personalidade do autor da Joanneida.

Por um lado, o facto de o autor ter pertencido, pelo menos, a três academias ao longo da sua vida evidencia desde logo um aspecto da sua personalidade: o seu gosto

pela investigação, pelo estudo, pelo conhecimento (do passado e do presente). A

própria leitura da Advertência à obra parece indiciar estarmos perante um homem reflectido, culto, com vontade de aprender e de reforçar os seus conhecimentos; alguém que dava bastante primazia à leitura e que sentia um especial interesse nos mais variados assuntos e temas, tanto antigos como modernos. Ora todas estas características são o que, de certa forma, mais o aproximam da sua

Andrade e Castro, 2ª Condessa de Camarido. De qualquer forma, este casamento e a actuação da filha enquanto dama camareira só prova a ligação próxima da família do autor a figuras e momentos de relevo da História de Portugal, inclusive no tempo de D. João I.

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contemporaneidade, na medida em que o século XVIII é também ele um século virado para as descobertas científicas, para os estudos e investigações em todos os campos.

Por outro lado, não podemos deixar de constatar que JCM não foi aquilo a que possamos chamar um escritor no sentido pleno do termo, ou seja, alguém que abraça a carreira literária e que, de forma mais ou menos consistente, constrói um conjunto de obras. Só publicou uma obra que pouca repercussão teve na sociedade de então e os restantes escritos da sua autoria conhecidos não foram feitos com o intuito de serem publicados e divulgados, estando antes circunscritos a um dado tempo e a um dado local, como é caso dos discursos e dos registos que fez no seio das academias de que foi sócio. Para além disso, e dos dados que pudemos recolher relativamente à sua biografia, JCM, apesar de ter sido um homem culto e informado, não parece ter repercutido esse interesse e essa cultura recolhida num percurso literário que se evidenciasse48.

Daí que JCM, talvez porque proveniente de famílias ilustres e com um determinado peso na sociedade e um passado a respeitar e a manter, não tenha encarado, ao longo da sua vida, a escrita como um meio de afirmação na sociedade, de combate e de defesa de um determinado partido ou ideal, mas que a ela tenha recorrido apenas quando essa mesma sociedade, e mais propriamente o poder político, o impossibilitou de seguir a carreira que pretendia: a vida militar.

Assim sendo, importa questionarmo-nos sobre as razões por detrás da escrita e publicação da Joanneida, no fundo perceber o projecto e a motivação da sua escrita.

Poderíamos perguntar se terá a escrita e a publicação desta obra tido como intuito alcançar um engrandecimento ou uma afirmação pessoais, com o propósito de vir a triunfar na esfera dos escritores e de ser agraciado por isso. Apesar de, na obra, a personagem Camilo se referir à vontade em alcançar uma distinção social (cf. Pinto, op. cit, est. 51 e 52, Canto VIII), a quase ausência de comentários, críticas ou meras referências à obra por parte dos contemporâneos de JCM parece contrariar esta possibilidade.

48 Aliás, pondo de parte os discursos que preparou no âmbito da Academia Solitária e da Academia

Litúrgica de Coimbra, não se conhecem outros textos de investigação ou outro género de obras escritas pelo autor que tenham sido publicadas, não só no século XVIII, mas inclusive posteriormente.

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Terá o autor sido motivado por um sentimento de vingança pelo facto de a Pátria não ter atendido os seus desejos? Se atentarmos nas palavras do autor na

Dedicatória, é visível uma certa amargura na forma como se refere à classe dirigente: «Eu os [desejos] tive sempre de servir aos meus Soberanos, e à minha Pátria; e se os frutos não corresponderão às diligências, seria falta de fortuna, ou talvez culpa da minha inutilidade; mas ainda convencido desta, eu pretendo mostrar a fidelidade do meu zelo neste pequeno tributo, que rendo à Pátria. (Pinto, op. cit: IX). Igualmente isso é visível na Advertência quando refere: «Conheço, que vale pouco o que lhe dou; mas talvez vale menos ainda o que ela me tem dado, se não metermos em conta o prémio dos trabalhos dos meus antepassados» (ibidem, XV).

Mas para além destas, é possível encontramos motivações de outro âmbito que podem justificar a escrita da Joanneida, nomeadamente motivações literárias. Se considerarmos o que refere JCM: «A paixão pelas virtudes heróicas, e o zelo da glória nacional foram quem unicamente me animaram a este empenho» (ibidem: VIII), ficamos com a ideia que o autor terá tido como propósito valorizar uma figura

histórica de relevo49 cuja grandiosidade, até então, nunca fora posta em absoluta

evidência.

Mas a motivação literária que, a nosso ver, melhor justifica a escrita da

Joanneida é, sem dúvida, o descrédito a que, segundo o autor, a Poesia no séc.

XVIII estava votada. JCM apela à necessidade de voltar a credibilizar o género,

criticando o lugar que então estava reservado aos Poetas, apenas faltando serem «apedrejados nas ruas os que se aplicam à poesia»50. E continua, dizendo: «Não sei se é desgraça da mesma arte, que tem caído em descrédito, ou se é castigo do abuso, que dela fazem alguns dos seus Professores. É certo, que muitos se servem dela para fins insignificantes, e talvez nocivos; mas isto prova somente a corrupção dos homens.» (ibidem: XI-XII).

49 Como afirma o autor na Dedicatória que faz ao príncipe D. José I: «A clara fama deste grande

Defensor da Pátria [D, João I] interessa muito particularmente a V. A., pois que da imortalidade dela procede uma grande parte do majestoso esplendor, que adorna a Real Pessoa de V. A.» (ibidem, VI- VII).

50 Faz o autor uma distinção entre poetas e versejadores, lamentando-se que os sábios a saibam

distinguir, mas os leigos não, sendo que estes consideram como pessoas sem interesse quem se ocupa da poesia. Cf. Pinto (ibidem: XI).

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Interessante nesta afirmação de JCM parece ser a sua dimensão de crítica

literária. De facto, por aquilo que afirma, pelas metáforas que utiliza51, e ainda que

não refira nomes, JCM aparenta estar informado sobre o que então se escrevia e sobre o que se passava no panorama literário português setecentista.

Assim, sentindo-se na obrigação de explicar porque se dedicou a fazer estes versos52, JCM acaba por, no fundo, evidenciar a principal razão que o motivou:

Assim os dons das Musas, que podem ser inúteis, e talvez perniciosos, dispensados a génios leves, e corações corrompidos, que se aproveitem deles para lisonjear a ociosidade, ou para adular o vício, serão sempre interessantes, e proveitosos cada vez, que se unirem a um espírito sólido, e um coração honrado, que os aplique ao seu verdadeiro destino, que é

celebrar a virtude, imortalizar as acções ilustres, ministrar exemplos aos Príncipes, e documentos aos Povos (ibidem, XII).

JCM parece, assim, ter tido o intuito de, como diz Bowra, atribuir «majestade e complexidade aos seus assuntos contemporâneos relacionando-os com o passado e produzindo um quadro que explica o presente pelas suas remotas origens» (Bowra,

op. cit.: 24), embora, como a própria história do género épico nos demonstra, tal trabalho não pudesse ser feito de um dia para o outro53.

Assim, importa ter presente que as motivações que levaram JCM a escrever a

Joanneida, apesar de diversas, não significam que este homem quisesse ser visto na sua contemporaneidade como um «novo Camões». Bem pelo contrário, a vida e a parca obra literária de JCM indiciam bem estarmos perante um homem com propósitos humildes, alguém que não abraçou a escrita de um poema épico com o intuito de renovar ou recriar um género épico. JCM procura, isso sim, partir dos modelos consagrados, ter como suporte os bons exemplos para não só escrever um poema épico que pudesse conferir de novo ao género a valorização que o mesmo já não detinha no momento da escrita da Joanneida, mas igualmente ter como assunto principal do seu poema uma época histórica e uma personalidade ímpar que, efectivamente, foram determinantes para a existência de Portugal enquanto nação.

51 Compara o autor a existência de bons e maus poetas pelo uso que fazem da Poesia ao ladrão e ao

viajante (usam armas diferentes com intuitos diferentes: proteger-se e atacar) e à abelha e à aranha, que retiram suco da mesma flor, uma para fazer mel, a outra para fazer veneno. No fundo, quer o autor realçar o valor universal da Poesia na Literatura e para o Homem, defendendo que há que distinguir quem consegue trabalhar bem os dons poéticos de quem não o consegue fazer. (ibidem, XII).

52 «O meu intento é somente dar uma satisfação ao público de me haver ocupado em fazer versos. Tal é

a fatalidade dos tempos, que é preciso desculpar num, aquelas mesmas acções, que em outro serviram para adquirir muita glória.» (ibidem: XI).

53 Aliás, em termos de História Literária, Virgílio é geralmente apontado como o claro exemplo de que

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E se, como diz Bowra, «a simples narrativa é menos importante do que o que ela representa na visão que o poeta tem da vida.» (Bowra, op. cit.: 41), então esta obra, por todas as razões atrás apresentadas, merece a nossa cuidada e atenta análise, análise que tem de ter por base as verdadeiras motivações de JCM para a escrita da mesma e que acabámos de enumerar neste sub-capítulo.