Hélio Alves, reflectindo sobre o facto de Camões ter ocupado «praticamente todo o espaço do cânone português, dentro e para além do Renascimento» (Alves, 2001: 14), aponta três razões que justificam a desvalorização a que foi votada a poesia épica pós-camoniana e o facto de não existirem (ou existirem poucos) estudos críticos sobre outros autores épicos que não o autor de Os Lusíadas:
- o facto de na história da crítica literária, os críticos se contradizerem e se lerem mal uns aos outros, não estando de acordo quanto à análise de determinadas obras54;
- o facto de por motivos históricos se ter instalado em Portugal um «forte preconceito contra os autores ditos castelhanizantes» (ibidem: 13), uma vez que foram vários os autores portugueses que escreveram textos épicos em castelhano;
- o facto de «em contraste com a ilusão de unidade e integridade da História lusa tal como Os Lusíadas a refiguram, muitas das obras que surgem pós-Lusíadas apresentarem Portugal como uma nação caracterizada pela depressão, pela discórdia civil e pela morte», facto que permitiu que Camões e a sua obra fossem «supremamente canonizados» (ibidem: 14).
54 Um exemplo claro disso mesmo é o facto de o número de obras consideradas verdadeiras obras
épicas pelos diversos investigadores ser diferente de autor para autor. Fidelino de Figueiredo (1987) e Hernâni Cidade (1940) referem-se sobretudo a três dezenas de poemas épicos, centrando-se sobretudo no período entre a 2ª metade do século XVI e a 1ª metade do século XVII (mesmo assim, com algumas diferenças na enumeração e na aceitação de certos textos como verdadeiros poemas épicos). Cabral do Nascimento (1949), por exemplo, aponta para a existência de mais de 150 poemas épicos dos mais variados géneros, temáticas e extensões, compreendendo um período que vai desde o século XVI até ao final do século XVIII. Estas divergências quanto à classificação e ao número real de poemas épicos publicados no período pós-Lusíadas explica-se, fundamentalmente, pela existência de diferentes visões relativamente aos preceitos que devem caracterizar o género épico.
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Todos estes factores, segundo o autor, tiveram como consequência a impossibilidade de «vermos as estrelas depois de tanto olhar para o Sol» (idem,
ibidem); ou seja, o facto de Os Lusíadas se terem transformado na referência do género em si (o “Sol da poesia épica portuguesa”) fez com que, naturalmente, esta obra acabasse por “ofuscar” quase em absoluto os poemas épicos que lhe sucederam, inclusive a obra que nos propomos analisar, a Joanneida.
Se nos reportarmos à recepção que o poema de JCM teve ao longo dos tempos, constatamos que a maior parte das referências são posteriores à época do autor e à publicação da obra, chegando mesmo algumas delas a incluir informações menos fundamentadas55, resumindo-se essas referências, na sua maioria, a breves apontamentos que indicam sinteticamente o enredo do poema e alguns aspectos biográficos do autor. Podemos, em todo o caso, dividir essas referências em dois
grupos. Por um lado, existem aqueles autores que, dependendo da situação e da
necessidade, se limitam a referir o autor e a obra ou, então, que somente transcrevem uma parte da obra, referindo a sua autoria. Por outro lado, existem outros autores que, para além dessa referência, e de uma forma resumida (mas globalmente depreciativa) procedem a uma crítica literária.
No caso dos primeiros, a referência ao autor e à obra é feita normalmente pela sua inserção numa enumeração cronológica dos poemas épicos em português escritos entre os séculos XVI e XIX. É o caso de Fidelino de Figueiredo, tanto no artigo que publica na História da Literatura Portuguesa Ilustrada (Sampaio, 1932: 2) como na sua obra (Figueiredo, 1987: 27).
Uma outra referência do mesmo género surge na compilação, em três volumes, de poemas sobre Lisboa feita por João de Castro Osório intitulada
Cancioneiro de Lisboa: séculos XIII-XX, onde surgem algumas estrofes, retiradas do
55 A maior parte das referências a JCM e à Joanneida parecem partir do que Inocêncio referiu a
propósito do autor e do poema no seu Diccionário Bibliographico Português, em 1860. Por sua vez, Inocêncio terá tido como referência a informação constante na obra Bibliotheca Historica de Portugal,
e seus dominios ultramarinos de José Carlos Pinto de Sousa publicada em 1801 e que resume em três frases o assunto do poema e a vida do autor (1801: 199-200). Ora um facto que deve ser salientado prende-se com a existência de pormenores na fonte de 1801 que não foram suficientemente investigados. Por exemplo, a Bibliotheca Historica (e em seguimento o Diccionário Bibliographico) indicam como ano de publicação da obra 1787 em vez de 1782 (que foi o ano correcto). Para além disso, em 1801 José Carlos Pinto de Sousa refere que existem conformidades entre esta obra e a
Heriqueida [sic], obra que Inocêncio em 1860 interpreta como sendo a Henriade de Voltaire, mas que pode afinal ser a Henriqueida de D. Francisco Xavier de Menezes, 4º conde da Ericeira, publicada em 1741.
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Canto IV da Joanneida, e relativas ao momento em que o Mestre de Avis está em Lisboa e tenciona fugir para Inglaterra (Osório, 1956: 550).
O segundo género de referências, como já referimos, vai um pouco mais longe, criticando de forma resumida o conteúdo da obra. Encontramos a primeira dessas críticas na obra Parnaso Lusitano, num poema de Almeida Garrett onde é referido o seguinte: «Alguns (mísera gente) inutilmente/ Compoem grandes Ilíadas/ e tecem/ aos vaidosos magnatas mil sonetos» (Garrett, 1827: 7), sendo referido em nota que entre os maus poemas se encontram a Henriqueida e a Joanneida.
José Agostinho de Macedo, na introdução ao seu poema em quatro cantos
Viagem extatica ao Templo da Sabedoria, e referindo-se a diversos poemas épicos publicados entre os séculos XVI e XVIII, refere o seguinte: «Desde a morte destes homens [Correia Garção, Domingos dos Reis e Frei José Durão] começou a aparecer outra vez aos solavancos a Poesia. Morreu apenas nascida a Joanneida de Correia de Melo» (Macedo, 1854: 10). Ora esta opinião parece indiciar que a obra de JCM teve uma existência efémera, embora não seja clara a razão dessa efemeridade.
Hernâni Cidade, ao debruçar-se sobre o género épico enquadrado na Literatura neo-clássica, faz referência à Joanneida, classificando-a, assim como à Henriqueida de D. Francisco Xavier de Meneses, «longas leituras soporíferas e inúteis» (Cidade,
op. cit.: 238).
A referência mais “actual” pertence a Cabral do Nascimento que na sua obra
Poemas narrativos Portugueses, antologia de todos os poemas narrativos e descritivos que foram impressos entre o séc. XVI e o primeiro quartel do séc. XIX, para além de se referir ao autor e ao enredo da Joanneida56, critica o poema no seu todo, considerando-o «falho de verdadeira inspiração» (Nascimento, op. cit.: 90).
Apesar destes «apontamentos breves» sobre JCM e a sua obra, a verdade é que a Joanneida permaneceu numa absoluta obscuridade literária, praticamente desde que foi publicada, não tendo sido aparentemente alvo de qualquer tipo de análise ou comentário mais desenvolvido. Para este facto, cremos, podem concorrer diversas razões: a não preponderância do género épico no séc. XVIII; a publicação da obra em Coimbra e não em Lisboa; o facto de o autor não ser um escritor no sentido
56 Informação que segue à letra o que já havia sido referido por Inocêncio Francisco da Silva no
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pleno do termo nem ter outras obras publicadas; o facto de historicamente Portugal ter vivido períodos conturbados no final do século XVIII, início do século XIX (fim da governação do Marquês de Pombal; invasões francesas; lutas intestinas entre Liberais e Absolutistas;…), embora sintamos que a desvalorização a que foi votada a poesia épica pós-camoniana seja a principal razão para que não só a Joanneida mas inúmeras obras literárias das mais variadas épocas e tendo como objecto os mais diversos assuntos tenham caído na mais absoluta escuridão.
Mas apesar dessa aparente obscuridade literária que rodeou a obra, existem alguns motivos para crer que tal obscuridade literária não foi absoluta, pelo menos na contemporaneidade do autor. Consultando a edição número 50 da Gazeta de Lisboa de 3ª feira, 10 de Dezembro de 1782, pode ler-se na parte final:
Sahio à luz a Joanneiada, ou a Liberdade de Portugal, defendida pelo Senhor Rei D. João I. Poema Epico, escrito por José Correia de Mello e Brito d’Alvind (sic) Pinto, Moço Fidalgo da Casa de S. M. Fidelíssima. Vende-se em Coimbra na loja de António Barneoud, no largo da Sé Velha (Matias, op. cit.: 175).
Ora, se a publicação da obra foi noticiada, é credível pensarmos que a obra foi lida e comentada pelos seus contemporâneos. A reforçar esta tese encontra-se uma referência presente na obra Versos de Filinto Elísio publicada em Paris em 1806. O primeiro poema constante desta compilação, Conto, apresenta um diálogo entre o deus romano Apolo e as musas, numa viagem que fazem pela história dos textos épicos, desde a Grécia antiga até à contemporaneidade. Ora, a certa altura, Filinto Elísio refere-se aos «Émulos de Camões», dizendo:
(…)
Passemos mais avante. Em Lusitânia Émulos de Camões esquadrinhemos Não vejo por agora (diz Caliope)
mais que de Alvim a impressa Joanneida (Elísio, 1806: 6)
Aparentemente, Filinto Elísio estar-se-á a referir à obra de JCM, o que, a ser verdade, evidencia que a publicação da mesma, como provavelmente o seu conteúdo, eram do conhecimento público.
À partida, são estes os únicos registos que se referem a JCM e à sua obra, registos que parecem confirmar a tese de que a obra e o autor foram conhecidos da sociedade literária de então. Todavia, a escassez de comentários e de críticas mais fundamentadas a propósito da obra parecem evidenciar que à mesma não foi conferida suficiente relevância na época, tendo em conta as razões atrás apontadas,
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para que sobre ela se reflectisse e se analisasse atentamente a temática, a estrutura, a visão e as inovações que lhe estão subjacentes.
Podemos assim dizer que desde muito cedo a Joanneida se viu condenada a fazer parte de um conjunto assaz múltiplo de escritos que poderíamos apelidar de «monumentos literários», ou seja, obras que têm algum interesse do ponto de vista da sua estrutura ou temática abordadas, mas que nada têm, se assim o podemos dizer, de carismático, de marcante. E se tal sucedeu, muito se deveu aos critérios que, ao longo dos tempos, estiveram na base de tal julgamento.
Certamente, seria interessante compreender os critérios que, no decorrer dos séculos, fizeram com que certas obras literárias sobrevivessem em detrimento de outras; no fundo, que certas obras passassem a fazer parte do cânone e outras não o merecessem. Ora este é precisamente o estudo que esta investigação não pretende fazer. Mais do que meros juízos de valor sobre a validade literária da Joanneida, o que nos importa, mais do que tudo, é, seguindo critérios objectivos, perceber no fundo a importância desta obra, não para o género épico ou para a Literatura Portuguesa, mas para a recriação da figura de D. João I, histórica e mítica, assim como dos acontecimentos históricos de 1383-1385.
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