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à 1.2.3 Symbolic Calculations

Tal como na generalidade das epopeias, o plano do sobrenatural é presença marcante na Joanneida e surge como o meio através do qual os elementos do plano mitológico intervêm e dialogam com o Herói e as personagens da narrativa. Como em muitas outras epopeias, impõe-se ao poeta que estabeleça a ligação entre os dois mundos, cabendo assim aos elementos sobrenaturais, manifestados por intermédio de acontecimentos extraordinários, de metamorfoses, de sonhos ou de profecias, o colocar em evidência a acção divina e a vontade desta em auxiliar (ou prejudicar) as partes em confronto95.

Em termos de acontecimentos inexplicáveis, e tendo tido naturalmente o Poeta como primeira fonte as crónicas de FL, existem na obra dois bons exemplos. Um deles é o da aparição de um «turbilhão de vento impetuoso» que faz com que ao brasão português, que se encontrava colocado nas bandeiras castelhanas, com o propósito de enganar os Portugueses, suceda o seguinte:

(…)

Com impulso mais forte, ou repetido, Agitado o pendão de um golpe duro, Foi das armas de Espanha dividido, Deixando na bandeira o lugar vago,

Sem que em si recebesse algum estrago. (est. 17, Canto II)

situação que provoca uma certa desmotivação no lado castelhano96:

(…) do Rei os arrogantes Projectados intentos orgulhosos Já não mostravam tanta confiança,

Já descobriam menos segurança. (est. 19, Canto II)

Um outro acontecimento vem, no mesmo sentido, e em plena preparação da Batalha de Aljubarrota, animar as hostes lusas:

(…)

Um pequeno sucesso, que aparência De notável só tem na conjuntura

95 No caso dos conflitos entre Portugueses e Castelhanos, ainda que as acções protagonizadas pelos

entes do Inferno pareçam ser prejudiciais ao alcançar da vitória por parte dos Castelhanos, eles são sempre encarados na Joanneida como uma tentativa da parte dos Génios Infernais de apoiarem esse lado do conflito, prejudicando assim os Portugueses.

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Dos acasos, de novo a confiança Acrescenta do povo na esperança. Um gamo de grandeza extraordinária Se levanta no meio dos guerreiros, E com leve carreira incerta, e vária, À palestra convida os Cavaleiros; Seguem muitos com fúria temerária Do veloz animal os pés ligeiros; Mas ele à Régia tenda enfim se atreve,

Onde a vida rendeu a golpe breve. (est. 99 e 100, Canto X)

Como vemos, a presença destes dois feitos sobrenaturais acaba por ter, no plano narrativo, um papel crucial, na medida em que são mobilizadores do ânimo guerreiro das hostes portuguesas, tendo em vista os combates a defrontar com os Castelhanos. Eles são, assim, como que presságios do desfecho do conflito.

Outro dos elementos sobrenaturais mais recorrentes na obra é o da

metamorfose, cuja presença nos poemas épicos tem raízes profundas97. No caso da

Joanneida, e tal como noutros poemas épicos, a entidade divina metamorfoseia-se porque ao Herói tem de ser facultada alguma informação sobre o seu futuro, para que essa informação lhe sirva de incentivo para as suas acções e de orientação para o caminho a seguir.

Na Joanneida, isto é visível sobretudo nos episódios em que os protagonistas necessitam, de forma indirecta e sem que tenham consciência de que os entes divinos dialogam consigo, de receber instruções ou de ficar a par do que o futuro lhes reserva, tendo em vista o sucesso da sua missão. No Poema, a metamorfose surge em ambos os lados em confronto (mais do lado português do que do lado castelhano), mas fundamentalmente tendo como propósito o consciencializar os principais “actores” (ora o Mestre de Avis, ora o rei de Castela) das acções a empreender.

Do lado português, a metamorfose mais recorrente é a do Génio Tutelar dos

Portugueses na figura de Frei Barrocas, figura que sendo “importada” da obra de

FL, ganha na Joanneida o estatuto de profeta por excelência. Tal metamorfose ocorre em dois momentos narrativos importantes: logo no Canto I (est. 53), em pleno cerco de Lisboa, quando a cidade se encontra à mercê das forças castelhanas e é necessário

97 Lembremos somente o caso de Ulisses que, na Odisseia, é interpelado por Minerva, a qual,

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que o Herói responda com empenho ao ataque se que se avizinha e no Canto VII (est. 114) quando, à mercê dos perigos do amor, de novo o Génio se dissimula na pele de Frei Barrocas e surge como intérprete do sonho do Mestre.

Do lado dos inimigos, é sobretudo a Fúria Alecto que se metamorfoseia, procurando assim dar alento aos Castelhanos na luta contra os Portugueses. Isso é visível no sonho do Rei de Castela, em que a Fúria se transforma no vulto de D. Fernando e incita o Rei Castelhano para o combate (estrofe 5, Canto II) ou quando se dissimula na figura de um trombeta e dá o sinal de início da batalha, cujo «som tirano/ O Luso assusta, anima o Castelhano» (estrofe 81); ou ainda no Canto V (estrofe 6), quando a Fúria toma a aparência e a voz de Artimade (engenheiro de D. Juan I que tinha sido aprisionado pelos Portugueses, mas que conseguira escapar da cidade), procurando com a sua intervenção aproveitar-se da predisposição do rei castelhano para a vingança e relançar os combates (est. 64, Canto V).

O Tópico dos sonhos (bons e enganadores), igualmente presente noutras epopeias e em canções de gesta98 está igualmente presente na obra. Sendo, como já vimos, uma das formas de que o poeta épico se serve para estabelecer a ligação entre o plano divino e o plano dos homens, os sonhos ganham preponderância na obra na medida em que, sendo conscientemente vividos (sobretudo pelo Herói do poema, D. João I), significam para quem os vive um sinal claro de ligação com o Divino, uma porta para conhecer o futuro, sendo que uma correcta interpretação desse sonho confere a quem o viveu a certeza sobre qual o caminho a seguir. Geralmente, os sonhos representam alguns dos episódios mais criativos dos poemas épicos, procurando, por intermédio de uma determinada alegoria, consciencializar quem sonha a empreender (ou a rejeitar empreender) uma determinada acção.

Na Joanneida, surgem-nos diferentes tipos de sonhos e com diferentes propósitos: sonhos enganadores que pretendem levar o inimigo a actuar erradamente; sonhos reveladores que pretendem consciencializar o Herói sobre o caminho a seguir ou a atitude a tomar. Logo no Canto II, o rei de Castela tem um sonho em que o rei D. Fernando (na figura do qual a Fúria Alecto se metamorfoseou) o alenta a retomar os

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combates e a conquistar Lisboa; todavia, esse sonho, como o expressa logo o poeta, é um sonho enganador:

Acordou de pavor estremecido O enganado Rei; mas brevemente, Julgando-se do Céu favorecido,

O susto troca em presunção valente (…) (est. 54, Canto II)

A consciência de que os sonhos são por vezes enganadores é igualmente expressa na obra pela voz de Valasco, cavaleiro castelhano, após ter ouvido a narração do sonho pelo rei de Castela:

Os sonhos, meu Monarca, não são mais, Que uma breve ilusão da fantasia, Que crê sentir presentes, e reais Quimeras, que ela mesma inventa, e cria E se houve alguns, que os termos naturais Excederam, talvez já mais seria

Sem mistério maior, e não devemos Crer desta classe, quantos sonhos temos. Mas ainda que julguemos o teu sonho D’outra esfera, Senhor, dos ordinários, Nem por isso os efeitos lhe suponho Infalíveis, ou menos temerários; Pois do Céu igualmente, e do medonho Centro dos fingimentos vãos, e vários Pode ser triste engano, ou santo aviso99

Em favor nosso, ou nosso prejuízo. (est. 64 e 65, Canto II)

O desenvolvimento da temática dos sonhos ocorre mais à frente na obra. No Canto VII, para além de descrever o percurso que o Sonho toma para chegar até D. João I:

Vem o Sonho voando, e toma assento Sobre a mesma almofada, em que reclina A cabeça o Varão, e no aposento

Mil engenhosas fábricas maquina, (…) (est. 104, Canto VII).

O Poeta opina sobre as potencialidades de qualquer sonho:

99 Ao emprego de vários sonhos na Joanneida, assim como na descrição da casa do sono (entre as

estrofes 97 e 104 do Canto VII) não deve ser alheia a consulta por parte de JCM de determinadas obras centradas na temática do sonho (por exemplo, a obra Comentário ao sonho de Cipião de Macróbio, que categoriza cinco tipos de sonhos), embora também é verdade que muitas obras épicas, tanto medievais como clássicas, já empregam recorrentemente o topos do sonho. Exemplo disso é Fernan

Gonzalez, que no cap. VII adormece, aparecendo-lhe em sonhos o monge Pelayo que com ele comunica.

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(…)

Figuras finge, finge sentimento Nos fantásticos vultos, que ilumina; Porque os sonhos ou bons, ou falsos sejam,

Fingem qualquer figura, que desejam. (est. 104, Canto VII).

Na obra, é precisamente o Génio Tutelar dos Portugueses quem concebe o melhor exemplo de um sonho alegórico (est. 105 a 112, Canto VII). O Génio, apercebendo-se do caminho errado que trilhava D. João I, envia-lhe um sonho (o sonho das quatro figuras femininas como simbolizando os quatro continentes a explorar pelos Portugueses), com propósitos bem definidos:

Querendo precaver os tristes danos, Que um tão grave descuido ameaçava Às nobres pretensões dos Lusitanos, Que o Céu tão favorável abonava; Na mesma escura frágoa dos enganos Um aviso fiel lhe preparava,

Pelo meio de um sonho, que em figura

Lhe mostrasse da glória a face pura. (est. 96, Canto VII)

Um outro sonho que detém uma grande importância na obra é o que surge, no final do Canto VIII (est. 92 a 100), ao próprio Defensor que em sonho vê o seu filho Afonso (nascido da relação com Inês Pires) atormentado por um monstro. Trata-se igualmente de um sonho premonitório e que na obra representa um dos mais importantes obstáculos que o Herói terá de ultrapassar: o Descuido100.

Como dissemos, a existência de uma ligação entre o plano terrestre e o plano divino é intrínseca à estrutura de qualquer epopeia, nomeadamente no que concerne ao percurso que o herói deve tomar ao longo da narrativa. Em muitas epopeias, é recorrente o momento em que o herói se afasta do seu meio ou dos seus pares, seja para receber uma revelação, seja para ter um encontro sobrenatural com uma entidade divina ou um seu mensageiro, findo o qual regressa ao seu meio, cheio de confiança e pronto para encarar as adversidades.

Na Joanneida, isso é visível logo no Canto I, quando o Mestre se recolhe com Frei Barrocas a um lugar mais isolado:

[Frei Barrocas] O conduz com suave, e breve giro Ao mais oculto, interior retiro. (est. 54, Canto I)

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Findo o encontro, o Herói, animado com o que lhe foi revelado, predispõe-se a lutar e a defrontar os inimigos, encorajando assim os seus:

Animado ficou de um novo alento O valoroso Herói; no seu semblante, Se divisa com claro luzimento

De uma firme constância a luz brilhante; Infunde o seu aspecto atrevimento No peito mais mortal, mais vacilante, E dos olhos parece, que fulmina Ardentes raios de uma luz Divina. Neste estado aparece aos companheiros, Com eles corre sobre os altos muros, Influindo nos ânimos guerreiros

Novo espírito, alentos mais seguros (est. 98 e 99, Canto I).

Na Joanneida, é a Frei Barrocas (por intermédio de profecias) que compete anunciar ao Herói o que o aguarda a si e às gerações vindouras, profecias essas que se encontram impressas com letras de luz no «Livro Sacrossanto dos Arcanos»101 (est. 47, Canto I). Logo no Canto I, Frei Barrocas dá início às profecias sobre os reis de Portugal que hão-de vir, iniciando a profecia com o próprio D. João I e avançando até D. José I, rei em cujo reinado viveu JCM. Assim, o Poeta ocupa quase metade do Canto I (entre as estrofes 52 e 97) a narrar as profecias de grande parte da História de Portugal, nomeadamente as que se centram na geração de Avis.

A estas profecias acrescentam-se outras, proferidas pelo mesmo Frei Barrocas já no final do Canto VII (est. 121 a 124), ao mesmo tempo que procede à interpretação do sonho tido pelo Defensor. Aí se alude à futura conquista de Ceuta e às vitórias e conquistas em África pela descendência de D. João I:

A soberba de Ceuta já rendida Às tuas armas vejo; vejo os braços De teus netos, com fúria repetida, De outras Praças vencer os embaraços; Alcácer forte, Arzila defendida, Azamor, Mazagão, dos torpes laços Do Mauritano jugo libertadas, Às Lusas Quinas vejo já prostradas.

101 O tópico do Livro do Futuro, livro onde está escrito o que sucederá aos Portugueses no futuro, foi

igualmente trabalhado por outros autores. Relembremos tão-somente o globo por intermédio do qual Tethys revela a Vasco da Gama os lugares onde os Portugueses hão-de praticar altos feitos (est. 79, Canto X d’Os Lusíadas). Na Joanneida, o Livro é o objecto por intermédio do qual o Génio Tutelar toma conhecimento dos feitos futuros dos Portugueses, feitos esses que são de seguida comunicados ao Herói.

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Cabo Verde, Guiné, Angola, e Mina, Moçambique, Quiloa, com Mombaça, E toda a negra Costa, que ilumina O Sol vizinho, com luz nada escassa, À Lusa glória vejo, que destina

Os mais claros troféus; (…) (est. 121 e 122, Canto VII)

Como podemos constatar, o tópico das profecias, tal como noutras epopeias, ganha aqui a importância de ser o meio mais adequado por intermédio do qual o Herói toma conhecimento do que o futuro lhe reserva, a si e ao seu povo.