O texto é um produto do pensamento organizado, de como ele se organiza para atingir um objetivo. Da mesma forma acontece com o texto da pesquisa científica. A ciência moderna está pautada nas ideias de rigor, precisão, objetividade, verdade, estabilidade, ordem, etc. Tudo o que foge a essa lógica racionalizada dos paradigmas da ordem corre o risco de ser considerado não-científico (HISSA, 2002).
O mesmo autor assegura: “o método diz respeito às concepções amplas de
interpretação do mundo, de objetos e de seres, referentes às posturas filosófica, lógica, ideológica e política que fundamentam a ciência e os cientistas na produção do
conhecimento” (HISSA, 2002, p. 159). Para o autor, a conceituação de método não deve
ser avaliada exatamente no sentido operacional da palavra. Assim, as metodologias necessitam ser mais flexíveis, a fim de se adaptarem aos projetos e às pesquisas.
Isso nos permite incluir outras categorias do pensamento, intrínsecas aos métodos e metodologias, também referenciadas pelo autor, por exemplo: imaginação, improvisação e liberdade. Dessa forma, estamos suscitando a criação. Os métodos e metodologias científicos não podem ser tomados como paradigmas limitadores da liberdade de criar, de imaginar e de improvisar.
Hissa (2002, p. 167-168) discute ainda a importância do experimento na ciência moderna. Segundo o autor, para a ciência, o experimento seria “entendido como o pré-
requisito do acerto”, algo “introdutório” e “provisório”. Nesse sentido, o projeto de
pesquisa não se encaixa nas ideias de transitório, provisório, experimentado, sujeito a mudanças? Quando começamos nossas idas ao campo de pesquisa desde a elaboração do projeto, a cada novo evento uma alteração ocorria naquilo que havíamos projetado. Tal fato, porém, ocorreu também ao longo do desenvolvimento da pesquisa, da aplicação das entrevistas, a cada observação, percepção, ao sentir os objetos e sujeitos estudados, as histórias contadas. Enfim, especialmente na pesquisa experimental, e o trabalho de campo é uma delas, estamos susceptíveis a ter de lidar com aquilo que não estava projetado.
Nesse momento ou em situações semelhantes, o pesquisador precisa saber utilizar a improvisação, indispensável ferramenta metodológica na prática da liberdade de criação.
Por outro lado, é necessário mencionar, nosso trabalho se desenvolveu pautado na pesquisa descritiva e experimental, utilizando-se de métodos de descrição e observação aprofundados, associados ao levantamento de campo em cada território já mensurado. Antes da realização dos trabalhos de campo, foram feitas visitas prévias nos municípios de Campo Azul, Japonvar e Minas Novas, a fim de identificar os territórios agroextrativistas com os quais iríamos estudar. Além disso, buscamos ainda (re)conhecer as famílias camponesas e as lideranças locais para estabelecer uma relação de proximidade e, consequentemente, facilitar a obtenção de dados e entrevistas quando fôssemos efetuar o trabalho de campo definitivo.
A primeira visita a campo para reconhecimento dos territórios de estudo foi realizada no mês de julho de 2009 nas comunidades rurais de Cachoeira do Fanado e Cachoeira da Lagoa, em Minas Novas1. A outra localidade reconhecida foi a comunidade rural Cabeceiras do Mangaí, em Japonvar, no mês de outubro de 2009. Por fim, visitamos a Vila São José, em Campo Azul, no mês de janeiro de 2010. Definidos tais territórios, a próxima etapa da pesquisa foi a realização do trabalho de campo, ocorrida no mês de abril de 2010 em Japonvar e Minas Novas. Posteriormente, concluímos as entrevistas no município de Campo Azul, em julho de 2010.
Depois de já ter realizado mais de 60% da pesquisa de campo, restava apenas Campo Azul. No entanto, quando fizemos a visita prévia, não foi possível identificar que as propriedades rurais no entorno da Vila São José não seriam suficientes na sustentação do trabalho de campo. Quando já estávamos em campo, percebemos que muitos moradores da vila possuíam propriedades rurais e eram extrativistas de pequi, mas não se encaixavam nos nossos critérios de análise, ou seja, deveriam morar na propriedade camponesa.
A partir disso, tivemos de “improvisar” nova estratégia, a qual não estava
prevista no projeto de pesquisa. Do contrário, caso não improvisássemos, todo o planejamento e investimento financeiro estariam perdidos. Assim, optamos por realizar a
1 Trabalho de campo proporcionado pelo Projeto de Pesquisa “Mapeamento e análise das estratégias de reprodução social complementares da agricultura camponesa no recorte territorial de Minas Novas, Capelinha e Chapada do Norte – Vale do Jequitinhonha”, desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa Terra & Sociedade – Núcleo de Estudos em Geografia Agrária, Agricultura Familiar e Cultura Camponesa – IGC/UFMG. Financiado pela FAPEMIG.
pesquisa de campo aleatoriamente2 visitando as propriedades camponesas, sem poder agendar previamente, como fizemos nos outros territórios de estudo. Além da vila São José, as entrevistas foram realizadas em outras quatro comunidades: Guarda Mór, Olho
D’água, Riacho Dantas e Riacho dos Santos. Ao todo, realizamos 15 entrevistas nessas
localidades. Por tal mudança no percurso do projeto, não realizamos, nesses territórios, entrevistas gravadas, mas fizemos anotações dos relatos orais, que compõem o diário de
campo. Segundo Marafon (2009, p. 389), no diário de campo: “é necessário efetuar o
registro das observações, das entrevistas e desenhos efetuados, pois o diário de campo é mais que um simples registro de fatos, ele reflete a memória do pesquisador para que as
informações sejam analisadas em profundidade”.
Em todos os territórios estudados, optamos pelo uso da Amostragem Aleatória Simples. Os elementos que compõem a amostra foram selecionados aleatoriamente, buscando, através de visitas prévias e posteriores de campo, identificar em cada comunidade as famílias ativas na coleta do pequi. Para escolhermos as famílias a serem estudadas, contatamos, inicialmente, lideranças das comunidades e/ou pessoas mais velhas, a fim de que pudéssemos ter a noção das primeiras casas que visitaríamos. A partir daí, e buscando evitar maiores influências na seleção das amostras, as próprias famílias entrevistadas indicavam os outros sujeitos extrativistas.
O critério na escolha das amostras baseou-se nas famílias que complementam as atividades agropecuárias com o extrativismo dos Cerrados, especialmente a coleta do pequi. Identificamos alguns sujeitos durante a pesquisa em Japonvar e Minas Novas, principalmente os membros mais velhos das comunidades, para a realização de entrevistas livres gravadas3. Acrescentaríamos ao trabalho, a partir das narrativas orais, as histórias de vida e do território, a percepção do tempo, do espaço e da seca, as migrações, a influência de agentes externos, como as empresas de reflorestamento.
Cabe salientar que os relatos orais gravados e/ou registrados no diário de campo foram transcritos e mantidos na linguagem coloquial, fazendo-se o mínimo de correções, com o objetivo de manter-se a originalidade, sem, portanto, ter a intenção de ridicularizar os sujeitos da pesquisa. Por conseguinte, não revelamos a identificação dos camponeses entrevistados, apenas destacamos o sexo, a idade e a localidade de residência dos mesmos.
2 Para a realização de parte da pesquisa em Campo Azul, contamos com o auxílio de um morador da Vila São José, que nos levou às comunidades rurais mais distantes. A companhia desse morador facilitou, inclusive, a relação com muitas famílias camponesas, favorecendo a obtenção de dados.
Em Cabeceiras do Mangaí, entrevistamos 15 famílias, o correspondente a aproximadamente 20% das famílias da comunidade. Neste território, procuramos entrevistar uma variedade de sujeitos, desde as famílias camponesas que coletam o pequi até os comerciantes locais e regionais que compram daquelas famílias e vendem aos compradores de outras cidades. Além disso, realizamos uma entrevista livre, com gravação de voz e com perguntas previamente elaboradas, com o presidente da COOPERJAP, pois a fábrica de processamento dos frutos dos Cerrados está localizada neste território.
Em Cachoeira do Fanado e Cachoeira da Lagoa, em Minas Novas, também foram entrevistadas 15 famílias, correspondendo a cerca 19% do total de famílias das duas localidades juntas. Nos territórios em questão, entrevistamos quase todas as pessoas que utilizaram o pequi da safra 2009-2010 na comercialização, já que aqui o número de pessoas envolvidas e o fluxo comercial são diferentes dos territórios extrativistas do Norte de Minas Gerais.
Duas abordagens são utilizadas, uma qualitativa e outra quantitativa, de maneira que a obtenção de dados se fez por meio de um questionário com questões abertas e fechadas, cujo levantamento de dados mensuráveis tem o objetivo de elaborar gráficos, tabelas e quadros sobre a estrutura das famílias camponesas estudadas, sua propriedade, sua produção e a dinâmica econômica do pequi. Os dados qualitativos são utilizados para interpretar e refletir sobre o modo de vida das famílias camponesas, seus aspectos culturais, suas relações econômicas e a sua relação com a natureza, de forma que possa identificá-las com o seu território e evidenciar as características de existência de um campesinato sertanejo.
A propriedade de cada família camponesa visitada foi pontuada com uso de GPS (Global Positioning System), o que gerou os mapas de localização dos territórios amostrais da pesquisa.
Após finalizar a pesquisa de campo, todos os dados foram tabulados em planilhas do Microsoft Excel, transformados em gráficos, tabelas, quadros e, depois, interpretados qualitativamente nos resultados da pesquisa. Todas as gravações de áudio foram transcritas, formando um banco de informações qualitativas para o estudo e trabalhadas ocasionalmente com algumas falas e relatos orais dos entrevistados no conteúdo das análises.