De acordo com Ariès (1981), até ao século XVIII, a adolescência20 foi confundida com a infância, utilizando-se o conceito de juventude para designar a força da idade, a idade que se situava entre a infância e a velhice. A palavra criança, no final da idade média, usava-se, pois, com um sentido muito lato, designando tanto as crianças como os adolescentes ou ainda os jovens de vinte anos. O conceito de infância estava, mais do que ligado às diferentes etapas biológicas da vida humana, intrinsecamente relacionado com a ideia de dependência. E, embora o vocabulário para designar a primeira infância tivesse surgido para colmatar lacunas sentidas ao longo do século XVII, persistia a «ambiguidade entre a infância e a adolescência, de um lado, e aquela categoria a que se dava o nome de juventude, do outro» (Ariès, 1981, p. 45). Efectivamente, a ideia de adolescência, tal como hoje a concebemos, apesar de se pressentir no século XVIII21, apenas nasceria no século XIX e ganharia força no início do século XX, tornando-se não só um tema literário 20A palavra adolescente deriva do latim adulescere, que significa crescer (Machado, 2003, p. 113), ou
seja, refere-se àquele que está em crescimento.
21De acordo com Ariès (1981), o primeiro adolescente moderno típico foi o Siegfried de Wagner, uma
vez que, pela primeira vez, «se exprimiu a mistura de pureza (provisória), de força física, de naturismo, de espontaneidade e de alegria de viver que faria do adolescente o herói do nosso século XX, o século da adolescência» (p. 46).
como motivo de preocupação dos moralistas e políticos. Passamos assim de uma época sem adolescência para uma época em que a adolescência parece ser a idade favorita, o que constituiu uma reacção da sociedade perante a duração da vida, sendo a juventude a idade privilegiada do século XVIII, a infância a do século XIX e a adolescência a do século XX (Ariès, 1981).
A adolescência, enquanto período da vida situado entre a infância e a vida adulta, nasceu durante o século XIX com a Revolução Industrial, na altura em que o controlo da família sobre os adolescentes se foi estendendo até à idade do casamento (Claes, 1990, p. 7), essencialmente devido a factores económicos e culturais, nomeadamente a exten- são da escolaridade. No século XX, o interesse da psicologia por esta etapa da vida, os movimentos estudantis dos anos 60, a liberalização dos costumes e o desenvolvimento da investigação científica sobre a adolescência consolidaram definitivamente a existência deste grupo social (Lepage, 2000).
Trata-se de um momento muito especial da vida em que ocorrem importantes trans- formações físicas (a puberdade), psicológicas e afectivas e onde é suposto acontecer um crescimento pessoal (que envolve o eu, em relação com os outros e o mundo) que permita a entrada de forma autónoma na vida adulta22. A maturação sexual e as suas implica- ções psicofisiológicas e psicoafectivas, a instabilidade emocional e a hipersensibilidade, o surgimento do pensamento abstracto e o interesse pela auto-observação surgem como características associadas a esta fase da vida (Cervera, 1991). Neste período, os sujei- tos procuram essencialmente descobrir a sua identidade e encontrar sentido para a vida, estando a leitura, nesta fase, associada também a essa busca. Neste contexto, Teixidor (1995) salienta:
El “descubrimiento” de la adolescência como periodo de encrucijada, de cri- sis de identidad, de reafirmación tanto frente al mundo de la infancia al de los adultos, de iniciación sexual, de despliegue de grandes anhelos, de aceso a ciertos ritos de madurez, de afán por conocer y experimentar, en general, ha servido, sin duda, para señalar pautas en la elaboración de los libros juveniles. (p. 8)
Cervera (1991) sublinha, todavia, que a resposta literária a este período encerra uma 22Sampaio (2003) refere que os estudos clássicos de psicologia da adolescência levaram a que esta fosse
considerada por pais e professores como uma época tumultuosa, onde os conflitos são inevitáveis e as ten- sões constantes. No entanto, diversos estudos epidemiológicos têm demonstrado existirem várias evoluções no comportamento psicossocial juvenil, que oscilam entre um minoritário comportamento turbulento e uma evolução para a idade adulta sem problemas significativos, na maior parte dos casos.
maior complexidade e risco «y no puede asegurarse que se haya alcanzado plenamente en la literatura usual» (p. 252).
O conceito de adolescência é, no entanto, difícil de definir, o que leva muitos inves- tigadores a considerarem-na uma construção societal (Lartet-Geffard, 2005). A entrada na adolescência é um fenómeno que acontece cada vez mais cedo, surgindo novos con- ceitos, como a pré-adolescência, parecendo dificil determinar a idade limite desta fase da vida, uma vez que parece prolongar-se até cada vez mais tarde e se torna cada vez menos clara a fronteira que antes separava a juventude da maioridade (Calvo, 2010, p. 22). Este autor afirma que, antigamente, a juventude se constituia como uma etapa para o sujeito se tornar adulto, era o preço a pagar para se garantir esse direito. No entanto, na actua- lidade, a juventude não serve o mesmo propósito, preferindo os sujeitos continuar a ser jovens a todo o custo (p. 23). Com efeito, a sociedade actual parece ser «une société qui s’adolescentise, qui cherche, dans la logique même de l’adolescence, fuir à cet âge adulte réduit à la caricature de lui-même» (Talpin, 2003, p.6).
Anteriormente associada a um período de reorganização da personalidade, como uma fase de crises acompanhadas de transformações psicológicas, a adolescência é, hoje, so- bretudo caracterizada em termos sociológicos pela sua grande dependência em relação à educação, à família e à escola (Bruno, 2002). Por outro lado, como sublinha Calvo (2010), assistimos a:
una metamorfosis de las estrategias y las tácticas de los jóvenes, que hasta hace pouco eran de tipo lineal, finalista y progresivo (flecha de tiempo), al estar programadas para generar su futura inserción adulta, pero que ahora se han convertido en circulares, estacionarias y autorreferentes (rueda del ti- empo), pudiendo resultar eventualmente disfuncionales (o neutralmente non funcionales) en la medida en que dejen de servir para programar la futura integración adulta. (p. 15)
Sublinhe-se que, como salienta Lepage (2000), a noção de adolescência evoluiu, de forma significativa, num século. A autora destaca a precocidade, cada vez maior, da entrada dos adolescentes na puberdade, o que nos permite deduzir que as colecções des- tinadas a leitores de treze, catorze anos são lidas por leitores cada vez mais novos. Por outro lado, a adolescência parece prolongar-se para além dos dezasseis anos, o que levou à criação de um novo patamar editorial, o dos «jovens adultos»23.
Parece consensual o facto de os adolescentes possuirem uma cultura muito própria, com práticas musicais, desportivas, entre outras «qui, par delà les modes éphémères, les distinguent de leurs parents (quel que soit leur milieu), les identifient à une classe d’âge et les reconnaissent comme membres d’une génération» (Bruno, 2002, p. 6). Os adolescen- tes assumem um papel essencial nas sociedades ocidentais, que concebem estes sujeitos como «espoir et miroir de ces societés, visage de leur avenir mais aussi témoin de leur présent et de leur passé récent» (Thaler e Jean-Bart, 2002, p. 33).
Há, no entanto, no contexto da literatura juvenil, um aspecto ideológico que é pre- ciso destacar: a nova representação da adolescência resulta de um olhar externo sobre a mesma, ou seja, sendo os adultos os responsáveis pelos romances para adolescentes, é a representação adulta da adolescência que é veiculada por estas narrativas e, de algum modo, aceite pela sociedade ou por parte dela (Thaler e Jean-Bart, 2002).