Tendo em conta os objectivos deste trabalho de investigação, impuseram-se vários cri- térios no momento de seleccionar o corpus literário da nossa investigação. Em primeiro lugar, havia que conhecer, de uma forma abrangente, as publicações de potencial recep- ção juvenil das últimas décadas para se poder fazer um esboço das principais tendências actuais. Por conseguinte, o primeiro passo que efectivamente realizámos foi tentar com- pilar todas as publicações de autores portugueses, desde 1995. Devemos acrescentar que não foi tarefa fácil. Com efeito, tal como já sublinharam outros investigadores (Colomer, 1998; Blockeel, 2001; Silva, 2009), a precariedade das infraestruturas de investigação no campo da literatura infantil e juvenil provoca uma falta de dados bibliográficos e lacunas nas fontes de consulta, convertendo a pesquisa numa tarefa árdua.
Apesar de termos feito algumas diligências no sentido de encontrar esta informação já sistematizada, a verdade é que ela não estava disponível19. Para chegarmos à recolha que cremos exaustiva de todas as publicações juvenis publicadas pela primeira vez entre 1995 e 2010, compilada no Anexo 1, foram precisos vários meses de trabalho moroso. Recor- remos à informação disponível nos sítios Web das editoras, mas nem sempre se encontra a informação organizada e clara no que diz respeito, por exemplo, à data da primeira edição de determinado título. Através do cruzamento das informações disponibilizadas pelas editoras, das resenhas disponíveis na revista Vértice e da informação acessível nos catálogos de bibliotecas (sobretudo do catálogo da Biblioteca Municipal de Coimbra e das Bibliotecas Muncipais de Lisboa), fomos elaborando uma listagem provisória. Se o facto de muitos dos livros de potencial recepção juvenil estarem inseridos em colecções, como veremos, facilitou, de algum modo, esta demanda, o surgimento de informações contraditórias em alguns catálogos em relação, por exemplo, à data da primeira edição ou da colecção a que pertenciam, tornou esta tarefa plena de obstáculos.
De forma sucinta, presidiram à elaboração do corpus de investigação critérios de or- dem temporal, autoral e de tipologia textual. Como já referimos, o trabalho de inves- tigação de Francesca Blockeel, que abrangeu o estudo de narrativas juvenis do período compreendido entre 1974 e 1994 (Blockeel, 2000), constitui o ponto de partida da nossa investigação. Deste modo, estabelecemos o ano de 1995 como o marco temporal inicial do nosso estudo, definindo o ano de 2010 como o seu terminus. Interessava-nos de sobre- maneira verificar de que modo os últimos anos do século passado e os primeiros do novo milénio constituiram um marco importante para a literatura juvenil portuguesa em diver- sas vertentes e, por conseguinte, acreditámos que a análise das publicações editadas pela primeira vez na primeira década deste novo século aportaria informações pertinentes. Em segundo lugar, e tendo em conta os objectivos deste trabalho de investigação, apenas nos importava a análise de textos de autores portugueses, constituindo a nacionalidade dos au- tores outro critério importante. Apesar de, em Portugal, se publicarem muitas traduções de livros de autores estangeiros, pretendíamos conhecer o olhar dos autores portugueses sobre esta questão particular da Alteridade.
Finalmente, tendo em conta o segundo objectivo do nosso trabalho de investigação, pretendíamos focalizar a nossa análise, de forma particular, nas narrativas de recorte rea- 19Percorremos sobretudo as listagens disponibilizadas pela Biblioteca Nacional e a página web do Insti-
lista. Com efeito, é nosso propósito analisar estas obras nas suas especificidades narrati- vas, linguísticas e literárias e colocá-las em relação com um leitor modelo inserido numa fase específica de desenvolvimento (adolescência). Foi, por isso, necessário, identificar todos os textos de recorte realista. Se algumas colecções, de teor fantástico, por exemplo, não deixam dúvidas quanto ao seu conteúdo, outras colecções há na realidade editorial portuguesa que são constituídas por textos de várias tipologias. Para além disso, encon- trámos livros publicados fora de qualquer colecção. Foi por isso essencial proceder à leitura da globalidade dos títulos seleccionados, verificando a sua eventual adequação aos critérios que definimos para a elaboração do nosso corpus. Se a morosidade deste pro- cedimento, por um lado, constituiu, em termos de optimização do tempo que tínhamos disponível para a elaboração deste trabalho, uma enorme barreira, por outro, permitiu o contacto com um elevado número de publicações de autores portugueses e um conheci- mento global do que se tem vindo a publicar em Portugal nesta área específica da literatura juvenil nos últimos dezasseis anos.
É pertinente ainda sublinhar que apenas se seleccionaram os textos narrativos, excluindo- se os textos poéticos bem como os textos dramáticos, estes últimos com uma presença residual no conjunto das produções contemporâneas, como veremos, e já objecto de uma análise extensiva em Bastos (2006). Eliminaram-se também as narrativas de carácter his- tórico, infelizmente também pouco abundantes no período em análise. Registe-se ainda que não foram seleccionadas narrativas escritas por adolescentes20, bem como livros de contos e, pontualmente, outras produções literárias21.
Desta forma chegou-se a uma listagem de 135 narrativas (a globalidade das quais in- serida em colecções) de recorte realista, romance e novelas22, e 33 livros de aventuras e mistério, cuja acção se desenrola fora de Portugal. Esta foi uma opção nossa, a partir do momento em que, pela leitura de um número significativo de volumes pertencentes a várias colecções de aventuras e mistério, verificámos que a globalidade das mesmas se desenrola em território nacional. Nestes casos, raramente surgem personagens Outro 20À excepção de narrativas que, apesar de se incluirem nestes casos, tenham sido galardoadas com algum
prémio literário, como é o caso de A vida é uma grande ideia, de Carla Oliveira.
21Exemplo desta última situação são os livros da colecção Morangos com Açúcar, surgida na sequên-
cia da série televisiva de grande sucesso em Portugal, que replicam, em formato de livro, a estrutura dos episódios televisivos.
22Por uma questão meramente utilitária, denominamos frequentemente este conjunto de narrativas por
romances, embora se trate, em muitos casos de novelas, sendo a designação utilizada como sinónimo de ficção narrativa em prosa.
(estrangeiros ou outros) e, quando surgem, as personagens estrangeiras (quando o são efectivamente, porque em alguns casos, fazer-se passar por estrangeiro constitui uma es- tratégia nestas narrativas), são frequentemente os responsáveis pelos crimes ou por outras situações condenáveis, numa visão francamente simplista e maniqueísta.
Sublinhe-se que as narrativas de aventura e mistério, pelas suas características, se cen- tram na acção (a estrutura repete-se ao longo dos volumes que compõem a série e as aven- turas terminam frequentemente com a descoberta de um mistério ou o desvendar de um crime), não deixando, no nosso entender, espaço para grandes investimentos nas persona- gens. Por outro lado, as características do grupo de protagonistas estão também definidas desde os primeiros volumes. Por estas razões, decidimos apenas seleccionar as narrativas de aventura e mistério cuja acção se desenrolasse fora de Portugal, não descurando a im- portância que estas produções literárias assumem no panorama editorial português desde a década de 80, com o objectivo de analisar o modo como nestas narrativas os habitantes dos países onde se desenrola a acção, os seus usos e costumes, a sua cultura são represen- tados. A totalidade das narrativas que constitui o nosso corpus encontra-se sistematizada no Anexo 2 e 3, num total de 168 títulos.
Registe-se ainda o facto de, incluídas na nossa listagem definitiva, se encontrarem al- gumas colecções que apresentam narrativas em série: para além das colecções de aventura e mistério, a colecção Espírito da Quinta, de Maria Teresa Maia Gonzalez, a colecção 7 irmãos, de Maria João Lopo de Carvalho e Margarida Fonseca Santos e a série Diário de Sofiae Diário Confidencial de Mariana.
De acordo com Escarpit (1999):
a adolescência é o momento em que o jovem possui um domínio de leitura e um hábito de escrita suficientes, de forma a ser capaz de fazer escolhas, de exercer o seu espírito crítico. Isso implica, evidentemente, uma certa ma- turidade cultural, isto é, a posse de referentes culturais que o torna apto a apreender um texto a diferentes níveis. (p. 71)
A selecção do nosso corpus teve em conta estas variáveis e, embora encontremos títulos que são sobretudo lidos por pré-adolescentes (note-se o facto de, como explanare- mos neste trabalho, a delimitação de fronteiras no que toca a adolescência ser cada vez mais complexa e fluida) trata-se sobretudo de livros de aventuras e mistério cujo peso na totalidade das narrativas acaba por não ser significativo.
Em suma, considerámos para a nossa investigação a ficção narrativa contemporânea para potenciais leitores (pré)adolescentes e jovens, situada no domínio do real (narrativas
realistas, narrativas de aventura e mistério. . . ), publicadas entre 1995 e 2010 e escritas por autores portugueses. Sublinhe-se que algumas das publicações do corpus da nossa inves- tigação, com tiragens elevadas e frequentes reimpressões, cativam e fidelizam de forma significativa os jovens leitores portugueses. Através de diferentes mecanismos, textuais e paratextuais, ao serviço do «enganche» do leitor (Lluch, 2005a, p. 135), nomeadamente o tipo de estrutura da referida colecção, a linguagem utilizada, os temas versados, as personagens intervenientes, os espaços onde decorre a acção entre outros, estes livros possibilitam uma enorme identificação com o leitor, como veremos no capítulo 5. Em alguns casos provocam até um certo comportamento aditivo no mesmo, pela possibili- dade de uma leitura cativante e aprazível (referimo-nos neste caso de forma particular a determinadas publicações que muitos consideram fenómenos paraliterários).
Não excluímos à partida nenhuma colecção (mesmo aquelas classificadas como per- tencentes à paraliteratura) baseados em eventuais critérios de qualidade das obras publica- das, porque, como sublinha Shavit (1993), «il n’ est pas besoin de procéder à l’ évaluation des textes destinés aux enfants pour les traiter scientifiquement» (p. 17), sendo nossa in- tenção analisar estas produções literárias num contexto mais vasto, nas relações múltiplas que estabelecem com as normas sociais.