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Variables al´eatoires discr`etes

partie II Corrections

XIII.2 Variables al´eatoires discr`etes

Esta categoria é identificada a partir de interacções da professora com toda a classe, sem se dirigir nunca a qualquer aluno em particular.

Analisando os seus indicadores, bem como o seu nível de frequência registado no gráfico anterior, sobressai uma personagem ao mesmo tempo múltipla e indeterminada, ou seja, somos capazes de identificar vários sujeitos: "meninos"; "todos"; "quem";

"ninguém; "vós"; "toda a gente"; "vocês" ; "tudo" para uma mesma entidade que está presente pelo aglomerado anónimo que constitui a turma — como se não quiséssemos conhecer nenhum em particular — ao mesmo tempo que parece impossível defini-la concretamente.

Para além da identificação daqueles sujeitos, há que considerar ainda outros indicadores que conduzem à existência da personagem turma, como sejam alguns verbos: "vamos"; "vejam"; olhem"; "calem-se"; "façam"; "estejam"; "devem"; "lembrem- se"; "abram"; têm"; "ouçam"; cuja ideia plural e vocativa fazem-nos crer que se dirigem para o colectivo da turma, podendo ainda referir-se como significativo a elevada frequência de "vamos" (30) que, se relacionarmos com a frequência global de "tudo";

"todos" e "toda a gente" (23), nos leva a inferir que signifique "vamos todos" sem excluir ninguém, no sentido de uma pretensa legitimação.

1.2. A exigência

A exigência surge a partir da interacção da professora com toda a turma, porém também pode acontecer dirigir-se verbalmente para um determinado aluno, mas com o intuito de atingir a todos em simultâneo.

Os indicadores desta categoria apontam para aquilo que poderíamos definir como sendo o nível de exigência de uma cultura escolar a que todos devem aderir se querem ser bem sucedidos, mas que acaba por ser angustiante e punidora para os que não conseguem conformar-se aos seus requisitos.

Exigências de tempo quando se pretende uma execução rápida e se impõe limite de tempo para os vários trabalhos — "fazer rápido", "só dou mais cinco minutos" — ao ponto de implicar uma não ida ao quarto de banho ou o adiar do lanche; exige-se a perfeição num trabalho que "toda a gente devia saber fazer", de contrário arrisca-se a levar um "Mau com um traço por cima". As crianças têm de cumprir e que ninguém se lembre de se enganar ou terá que "... fazer outra vez".

Há que habituar-se a "... estar sossegado e a falar baixo na sala", de qualquer maneira a conversa não é bem vinda à sala de aula porque "conversa atrasa o trabalho". Aliás quem não fizer tudo bem feito, rápido, em silêncio e tantas vezes quantas as que a professora mandar, sujeita-se a não ser atendido, pois "... não fazem a vontade à professora e a professora não vos atende" e "... só falo com aqueles meninos bem comportados".

Trata-se de todo um leque de deveres, ordens e regras exigidas pela cultura da escola e que, subtilmente, pretende uma espécie de domesticação destas crianças que até há bem pouco tempo tinham o tempo todo para brincar e conversar. Nem sequer adianta chorar, pois têm de convencer-se de que "...1er e escrever não é nenhuma brincadeira, é uma coisa muito importante".

1.3.0 individualismo

Verifica-se, mediante os dados, uma forte tendência para a construção de uma atitude individualista — bem visível no gráfico 5 — dirigindo-se ora para o colectivo da

turma no sentido de uma ordem que é preciso cumprir, ora para alunos em particular no sentido de impedir que os que sabem não digam ou não deixem copiar aqueles que não sabem. Deste modo, "cada um deve fazer sozinho ... senão não tem piada nenhuma" e é preciso ver se os alunos "conseguem desenrascar-se sozinhos", pois de contrário "não aprende". Como tal as crianças são incentivadas a não dizer nem perguntar nada ao colega, a não copiar e a não deixar copiar, a pensar e dizer muito baixinho para ninguém ouvir, não vá o colega fazer igual, o que é inadmissível porque ele ou ela "tem que aprender sozinho" e só se é capaz e esperto se assim o fizerem. Não só é proibido partilhar aquilo que se sabe como ainda é preciso esconder, sobretudo quando se trata de fichas de trabalho ou de avaliação em que "falar ... nem pensar".

Daí uma série de medidas de precaução que levam à mobilidade de algumas crianças na aula em que "Isabel, vais lá para trás fazer a ficha"; "Ó Hugo, chega a mesa para trás"; "Ó Pedro, vem aqui para a minha beira". Mas como não há lugares vagos para pôr cada criança sozinha numa mesa, e as hipóteses de copiar são muitas, há que utilizar capas de dossier que se colocam sobre a mesa entre cada duas crianças. Contudo, tais barreiras não são suficientes, sobretudo para os mais habilidosos na arte de fazer igual ao colega que lhe está mais próximo, e então recorre-se a novos estratagemas ao ponto de se dizer mesmo que "quem falar, eu tiro-lhe a ficha" ou "se te viras para trás, eu não te vejo o Ditado", havendo mesmo ocasiões em que tal aconteceu.

1.4. A competição

Analisando os indicadores relativos à categoria da competição, constatamos que é uma interacção bastante presente na sala de aula, pela elevada frequência com que surge (Gráfico 5), seja em interacção com todo o grupo de alunos, seja individualmente, mas sempre com a finalidade de englobar a todos.

É de realçar a constante comparação e confronto entre o desempenho e o trabalho das várias crianças no sentido do cumprimento das exigências escolares, evidenciando-se a rapidez, a quantidade e a perfeição pretendida pela professora, por exemplo. "Olha, Vítor, o Luís já começou"; "Quero ver quem consegue fazer isto mais vezes no caderno"; "Há ali meninos que têm tudo certo e tu (Pedro) também podes ter"; "Despacha-te, Sérgio, há meninos que já acabaram"; "Quero ver quem tem Bom".

Todas estas interacções vão atingindo as crianças ao mesmo tempo que se dá a entender que é preciso ser capaz e esperto para realizar as várias tarefas escolares ao referir-se "Quero ver quem é capaz de 1er isto" ou "quem é esperto". Tudo isto é ainda apoiado pela importância dada ao apoio familiar na aprendizagem da criança quando se refere "vou ver quem é que estudou a lição em casa", como condição "sine qua non" para o sucesso na leitura onde o que importa é "... ver quem sabe 1er" sem mesmo considerar que possibilidade tem a família de ajudar a criança.

Outras interacções de incentivo à competição parecem querer hierarquizar as crianças ao nível do seu desempenho na aprendizagem e dos seus conhecimentos, pois "Ó Henrique, o Vítor já vai à tua frente", mas "Vamos ver quem consegue fazer primeiro que o Vítor", até porque "Já há duas meninas (Rute e Isabel) que acabaram de fazer", no entanto "Mariana, tu sabes mais do que ele (Henrique)".

Não nos parece tratar-se de uma competição no sentido de estimular cada criança a superar as suas próprias dificuldades e a procurar melhorar cada vez mais a sua aprendizagem, cujo processo é pessoal, mas sim no sentido em que o mais importante é superar os outros, ou seja, ultrapassar e não se deixar ultrapassar para, assim, poder vir a ocupar os primeiros lugares ou as melhores qualificações: "Quero ver quem é o Io a vir

ler-me a frase do quadro..." ou "Quem é que nesta sala quer ficar atrasado?", então "Anda lá Patrícia, que o Henrique ainda te passa à frente".

1.5. A culpabilização

Enquanto as categorias anteriormente analisadas para a anulação da diversidade indicam ou subentendem interacções da professora com o todo da turma, a culpabilização centra-se e atinge particularmente o aluno alvo da interacção docente. Daí justifícar-se o gráfico seguinte onde podemos constatar as crianças culpabilizadas e

respectiva frequência, bem como as ausentes neste tipo de interacção.

Rita Tiago João Rute Sofia Nuno Sérgio Isabel Patrícia Ana Inês Isabel G. Eiisa Mariana Ricardo Fábio Vítor Hugo Luís Henrique Pedro

Gráfico 6: Distribuição da culpabilização

frequência

O gráfico 5 mostra-nos que esta categoria é a menos frequente, contudo não é menos importante na anulação da diversidade, na medida em que os indicadores nela

incluídos evidenciam todo um processo de culpabilização das crianças, que são responsabilizadas pela sua falta de compreensão, pelas dificuldades sentidas, pelos trabalhos mal realizados ou inacabados. São diversas as culpas apontadas, mas sempre centradas na própria criança, como a sua falta de atenção, a sua conversa e brincadeira constante, o seu mau comportamento ou simplesmente a sua falta de interesse pela actividade escolar.

Assim constatamos que o Pedro, o Henrique e o Luís são as crianças mais frequentemente culpabilizadas, sendo menor a incidência no Hugo, no Vítor, no Fábio e no Ricardo e não se verificando nenhuma rapariga atingida pela culpabilização. É de referir que o Luís é acusado de não estar atento, de estar sempre a brincar e de não estar interessado, daí as suas dificuldades e a sua falta de compreensão durante a aprendizagem. O Henrique apresenta as mesmas culpas, com excepção da falta de interesse, enquanto o Pedro é culpado por estar na conversa e sem atenção. Se o trabalho do Ricardo "está uma trapalhada" é porque esteve sempre a conversar; "O Vítor não acabou porque esteve sempre a olhar para o lado"; "Agora o Hugo ... passa a vida na brincadeira e chora" e "... o Fábio ainda não sabe porque esteve a brincar com os cromos".

Parece-nos oportuno questionar se o facto de culpabilizar as crianças pelo seu menor desempenho ajudará a professora a desculpabilizar-se quando, por exemplo, refere "Vou chamar cá alguns pais porque há meninos que não sabem e só se portam mal", ou seja, os pais destas crianças precisam saber que, se a sua aprendizagem não vai melhor, a culpa não é sua.

1.6. A lamentação

A lamentação é uma categoria através da qual constatamos uma série de lamentos que ora se dirigem a toda a turma como: "O meu Deus do Céu!"; "Já me dói a garganta"; "Já me dói tudo de vos ouvir"; "Estou a ficar triste ..."; "Assim não pode ser, qualquer dia vou para casa que já não posso mais"; ora incidem directamente em determinados alunos (gráfico 7) como o Ricardo, o Luís, o Henrique, o Pedro, o Hugo e a Mariana, sendo o Ricardo a criança de quem a professora se lamenta mais frequentemente que, devido às suas grandes dificuldades de aprendizagem, parece constituir um autêntico problema a resolver.

Verificamos que a professora, por um lado, se queixa sobretudo das dores de garganta e de cabeça e do cansaço físico causado pela turbulência das crianças, por outro lado, dirige uma série de lamentações a Deus e a Nossa Senhora com bastante frequência, denotando-se a sua sensação de incapacidade e de impotência, perante o caso de algumas crianças como é o caso do Ricardo que, sozinho, recebe um quinto das lamentações de toda a turma, num total de 25, em relação ao qual diz "Ai, até já me vêm os suores!", "Já não sei o que ... hei-de fazer...", "Ai que dificuldade!", "Este vai ser um problema"; "Ai, Nossa Senhora!". Este pode ser um caso ilustrativo da tensão vivenciada no quotidiano da sala de aula, quando a professora não consegue dar resposta a situações idênticas e perante as quais ela afirma a sua tristeza, lamentando-se "Estou triste com os que não conseguiram ...".

O gráfico seguinte apresenta-nos a distribuição das lamentações pelas crianças atingidas individual e directamente e onde é bem visível um grande número que não sofre particularmente esta interacção. Contudo, a sua ausência aqui pode não significar que não sejam atingidas, ainda que indirectamente, pois, como referimos, há vários

momentos em que a lamentação se dirige a toda a turma. Daí a razão do gráfico só nos apresentar os alunos atingidos em particular.

Gráfico 7: Distribuição de lamentação

Vítor Inês Isabel G. Elisa Sofia Ana João Rute Patrícia w Fábio o = Nuno n Sérgio Isabel Rita Tiago Mariana Hugo Tiago Mariana Hugo Pedro Henrique Luís Ricardo Pedro Henrique Luís Ricardo Pedro Henrique Luís Ricardo ) — — 1 — 1 1 - H 1 2 3 4 ! frequência 1.7. A impaciência

Pela análise dos indicadores desta categoria, verificamos que são bastante frequentes (gráfico 5) as interacções de impaciência na sala de aula, em que a professora dá mostras de se aborrecer, se enervar, se zangar e até se exasperar quando as crianças se riem ou desobedecem, se enganam, se atrapalham e confundem as letras durante a leitura, mas também quando se atrasam na realização das tarefas escolares.

As crianças que mais impacientam a professora (gráfico 8) são o Pedro, com uma maior incidência em relação aos seus colegas, quando se ri na aula e confunde as letras na leitura; o Vítor por desobedecer; o Fábio porque a professora desconfia que ele esteja no gozo com ela; a Inês, o Ricardo e o Luís por dificuldades de aprendizagem; assim

como o Henrique que, além das dificuldades na leitura ainda se atrasa nos deveres escolares, tal como a Elisa. Outras crianças ainda são alvo da impaciência docente, por motivo não identificado, como a Rute, a Mariana, a Isabel G. e o Hugo, enquanto outras parecem não criar motivos para a impaciência docente, como podemos ver no gráfico seguinte. Sofia Ana João Patricia Nuno Sérgio Isabel Rita Isabel G Mariana Rute Hugo Elisa Henrique Luís Ricardo Inês Fábio Vítor Pedro

Gráfico 8: Distribuição da impaciência

frequência

Identificamos duas expressões que a professora utiliza bastante e que podem ilustrar significativamente o grau de impaciência perante comportamentos e atitudes indesejáveis na sala de aula como "... vou me chatear contigo!" e "... já me estás a meter

1.8. Algumas considerações sobre a anulação da diversidade verificada na sala de