A perspectiva etnográfica poderá responder a estas exigências, na medida em que respeita o mundo quotidiano dos indivíduos enquanto interaccionam, ou seja, centra-se nas experiências vividas em situações reais. Diz-nos Woods(sd) que os etnógrafos não contemplam de fora o processo de investigação, antes tomam parte dele, cultivando a reflexão — vendo-se a si próprio dentro da investigação — e observam de acordo com o enfoque teórico, pois os resultados da investigação vão-se construindo através dele.
Assim, o paradigma qualitativo, onde se integra a etnografia, assume que a realidade se encontra em movimento constante, que o conhecimento é compreensão e que os fins de uma investigação devem referir-se à análise dos processos (Goetz e Le Compte, 1988). Deste modo, os dados — referentes aos contextos onde têm lugar as interacções, as actividades, valores, ideologias e expectativas de todos os participantes, incluindo o próprio investigador — constituem "produtos culturais e históricos"'(idem) na medida em que produzem, num espaço e num tempo concretos, uma comunidade peculiar e específica, onde os seres humanos constroem formas de relacionamento entre si que condicionam o seu quotidiano, como é o caso da sala de aula.
Neste âmbito, a perspectiva etnográfica possibilita-nos uma maior e melhor penetração na realidade quotidiana das situações educativas, bem como uma maior capacidade para captar as perspectivas subjectivas de quem intervém nessa realidade, oferecendo-nos uma compreensão mais profunda e, consequentemente, a permissão de um controle mais consciente da intersubjectividade.
Em síntese, e de acordo com aqueles autores, esta é uma realidade epistemológica que apela para:
— a presença do interaccionismo simbólico, aceitando que os seres humanos actuam com base na atribuição de significados;
— a aceitação das indeterminações presentes na singularidade das situações e acontecimentos, nos seus aspectos irredutíveis e únicos;
— a presença da relação macro-micro numa complementaridade contraditória; — a presença da perspectiva etnometodológica através de formas híbridas em que não é possível discernir totalmente a sua pureza metodológica — como era exigido pelo positivismo;
— uma análise espácio-temporal que aceita e valoriza a presença de 'démarches* onde o objecto de pesquisa não se considera ao nível da sua extensão, mas da sua intensidade;
— a possibilidade de penetrar para além das aparências; — o permitir pôr-se no lugar do "outro",
— a compreensão do sentido do processo, na medida em que a interacção e a interpretação não permanecem estáticas;
— a existência de uma dialéctica contínua entre "obter de" e "contribuir para" no grupo.
As situações acima referidas constituem, assim, aspectos metodológicos que supõem uma deslocação que, do registo dos factos, passa para o mundo dos sentidos, e onde a cientificidade se constrói no registo, no questionamento, na interpelação, através de uma gramática de escuta, onde subjaz uma nova opção ontológica, mas também deontológica.
Representa ainda um enfoque epistemológico aberto, não pré-determinado, indutivo mais que dedutivo, preconizando uma nova visão da Ciência pelo repúdio da imagem do cientista como observador passivo e numa atitude de denúncia do positivismo.
De facto, no modelo positivista — mediante a sua ambição de neutralidade pelo não considerar a implicação do investigador — a validação do conhecimento científico exige o distanciamento sujeito/objecto. Além disso, o seu apego às evidências impede que se procure outras razões numa investigação. Aliás, a essência da tirania positivista está precisamente nesta recusa da complexidade, pois compreender uma situação é tomar, simultaneamente, a sua complexidade e a presença de subjectividade própria de quem investiga.
Nesta perspectiva, diz-nos Madureira Pinto (1985:149) que se torna necessário contrapor ao conjunto de evidências constitutivas da "ilusão da transparência" do social — e da compreensão prática das práticas sociais — um sistema de relações que
restituam o seu sentido objectivo, sem contudo ignorar que a subjectividade, ela própria objectivável, são uma componente específica desse sentido.
Aliás, ao verifícar-se que a operação fundamental da ciência do comportamento tem sido a observação de um "objecto" por um observador, Devereux (1980) convida- nos a substituir esse facto pela aceitação da análise da interacção entre os dois, numa situação em que cada um deles — objecto e observador — é simultaneamente observador para ele próprio e objecto de observação para o outro.
Depreende-se, assim, a inevitável emergência da tarefa intelectual de rever radicalmente — nos modelos de racionalização da prática científica dominante — o pressuposto da neutralidade associado à relação sujeito/objecto do conhecimento, pois
lembra-nos Giroux (1986:31) que o "fetichismo dos factos e a crença na neutralidade representa mais do que um erro epistemológico".
Torna-se evidente — não obstante algumas intenções teóricas — que não existem nas práticas de qualquer investigador neutralidade e objectividade puras, pois como refere Ardoino (1983:25) "as práticas desenvolvem-se através da interacção num esforço de intersubjectividade". Deste modo, a interacção surge como um objecto de conhecimento. Subjaz aqui uma (r)evolução epistemológica conducente a novas formas de pensamento, de representação do objecto, recusando o dogma clássico da pureza, da simplicidade e transparência dos factos — idealmente invariantes ou eventualmente controladas — para aceitar a ideia de processos dinâmicos, temporais e históricos.
Por conseguinte, importa ultrapassar certos modos convencionais de pensar a pesquisa em Ciências Sociais, pois, refere-nos Madureira Pinto (1985) que não há estrada real que nos conduza à verdade científica e mesmo esta não tem, em rigor, outra razão de ser que não, precisamente, a de perpetuar e tornar a longo prazo irreversível a caminhada das ciências.