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Comparaison d’´echantillons appari´es

Uma vez concretizada a caracterização da diversidade dos alunos da turma, importa agora saber o que pensa a professora a respeito dessa diversidade, como a considera no processo de ensino-aprendizagem e na sua relação com a concretização da igualdade de oportunidades de vida. O acesso a esta informação verificou-se mediante uma entrevista (anexo III) à professora, já no final do período de Observação Participante, pois nesta altura não só os objectivos do nosso trabalho estavam mais clarificados, como também haveria mais à vontade para conseguir gravar a nossa conversa, permitindo, deste modo, uma informação mais fiável e sem receios.

Para esta característica de diversidade, à origem geográfica de cada aluno associámos também a de seus pais, conseguindo-se uma origem de tendência mais rural ou mais urbana. Por exemplo, a uma criança nascida numa zona urbana e com pai de origem rural e mãe de origem urbana, atribuiu-se uma origem de tendência urbana, uma vez que é esta a característica que mais predomina. No caso de haver coincidência na origem dos três elementos — criança, pai e mãe — dizemos que o aluno possui uma origem fortemente rural ou urbana, conforme a coincidência verificada em relação ao rural ou ao urbano.

Questionando a professora sobre a diversidade na sua sala de aula, começou por afirmar a sua existência mais ao nível do "comportamento" e no sentido de um distanciamento em relação aos objectivos da aprendizagem da leitura, referindo "os que lêem bem", "os que vão mais devagar" e "os que realmente não aprendem ao mesmo ritmo ou se virão mesmo a atingir os objectivos".

Posteriormente, insiste-se na questão da diversidade ao nível da origem dos alunos, parecendo-nos hesitante e pouco segura no conhecimento desta realidade e dizendo: em relação ao "nível sócio-económico, de uma maneira geral, não me pareceram de estrato social muito carenciado. Parecem-me crianças que vivem razoavelmente bem ... O problema é mais ao nível da educação ... do tipo de educação ".

A sua afirmação leva-nos a pensar que não os diferencia tanto pelo nível económico, mas sim pelo nível cultural implícito no tipo de educação em que foram orientados e que se manifesta na sua interacção com a professora.

Conduzindo a nossa questão para uma possível influência no processo de ensino- aprendizagem, continua hesitante e parece-nos pouco consciente disso quando nos refere "Sei lá ... às vezes sem a gente querer até é influenciada ... porque eles em casa ... a gente também se apercebe da maneira como eles estão habituados a ser tratados em casa. Consoante isso é que uma pessoa varia ... Com o Vítor não posso actuar da mesma maneira que a Ana ... se a criança está habituada a que o pai não a trate com grandes mesuras, já não tem problemas. Agora na maneira de ensinar ... não faço assim grandes diferenças ... Ensinar é tudo por igual, até porque quando se trata de explicar qualquer coisa é sempre a mesma e ... tanto ensino de uma maneira a um como a outro ... tento explicar precisamente da mesma maneira ... agora ensino mais a um ou a outro quando têm dificuldades ... mas uma explicação que eu possa dar a respeito de qualquer coisa é

seus

Depreende-se que, apesar de não ter conhecimento concreto da diversidade dos alunos, a professora apercebe-se dessa diversidade na sua interacção com eles, procurando agir particularmente de modo a reproduzi-la um pouco na aula, por exemplo,

se pressente que em casa é bem tratada permite que o mesmo aconteça na aula, ou vice- versa.

Em relação à influência dessa diversidade no processo de ensino-aprendizagem, parece verificar-se uma espécie de igualdade que trata a todos por igual, sem qualquer diferença pelas diferenças que possa haver entre as crianças, apenas ensinando mais (do mesmo) a quem tenha dificuldades.

Quando abordamos o princípio da igualdade de oportunidades para todos, a professora parece-nos bastante realista em relação ao que se passa na sociedade, dizendo "acho isso muito difícil ... é uma ilusão. Na sociedade em que vivemos, acho que não é possível ... depende muito do ambiente em que vivem ... que vão frequentar, dos conhecimentos ... mesmo a nível académico também, porque isso vai marcar muito a oportunidade ... mas às vezes não é só saber, não é só a nível de conhecimentos, é preciso também ter sorte ... Acho que não há igualdade de oportunidades ... até porque está provado que os estratos sociais mais baixos têm menos oportunidades ... porque o tipo de ambiente que eles frequentam não é de modo a criar essas oportunidades".

Notamos um certo fatalismo na reprodução das desigualdades sociais e da importância do ambiente em que vivem, onde se incluem não apenas a possibilidade de estudar, mas também outras que depreendemos seja a influência social das famílias.

Nesta perspectiva, quisemos que se referisse aos seus alunos particularmente, ao que nos respondeu que "são capazes de surgir oportunidades para alguns ... mas a maioria não sei ... o Pedro ... sim ... A Sofia poderia ter ... a pessoa com quem ela vive gostará ... não há muitos mais ... é um bocado difícil de dizer ... porque eu acho que

surgir oportunidades não é por obra e graça ... também tem que ter outros conhecimentos ... não é só formação académica ... no meu entender, haverá poucos que irão atingir ... porque não conhece pessoas ... não frequenta ambientes de maneira a serem criadas as condições ... é preciso um leque de condições que facilitem as oportunidades ... há pessoas que têm uma formação académica e que depois as oportunidades também não surgem. Enquanto que há pessoas que nem têm grandes formações académicas, mas que conhecem meio mundo e isso aí é que surgem as oportunidades. Deixa ver na minha turma ... a Mariana é capaz de ter um ambiente propício a isso. O Pedro ... A Rute também é capaz ... O Fábio não sei, tenho muitas dúvidas. A Rita não sei ... o pai também não chegou longe. A Ana só se perder aquela timidez. A Isabel, talvez ... A Isabel G. vai ser um problema ... deve ficar só pela escolaridade obrigatória ... é um bocado difícil, na medida em que ela é adoptada. O Ricardo vai ser uma expectativa frustrada ... A Inês ... vai ter dificuldades, à partida, na parte académica, se tiver oportunidades é de nível baixo ... não lhe vejo grandes voos. O João vivaço ... vai dar nas vistas em todo o lado ... fazer-se notar ... e vai ter essa possibilidade, com certeza. O Henrique ... não vejo. O Luís ... esse não ... estará muito longe. O Sérgio também é capaz ... de subir alto".

Continuamos a constatar que a professora detecta a presença de diversidade na sua turma, ainda que, de modo inconsciente e um pouco impreciso, pela maneira como mostra relacionar a igualdade de oportunidades com os condicionamentos das famílias de origem e, por fim, com casos na sua turma que mostra conhecer mais particularmente. Assim sendo, começa logo por referir o caso do Pedro — que sabe ser filho de um engenheiro e de uma educadora de infância — e da Sofia que não vive com a família de origem, mas com uma professora que é sua tia e com a madrinha que é também licenciada.

Estes dois casos são os primeiros a quem antecipa boas oportunidades de vida, embora refira também outros com essa possibilidade como a Mariana — filha de funcionários; a Rute, o Sérgio e a Isabel, talvez. Porém, tem muitas dúvidas em relação ao Fábio — filho de operários — e à Isabel G. que é adoptada; também não acredita que o Ricardo — filho de um funcionário e de uma doméstica — e o Luís — filho de um operário e de uma desempregada — possam ir longe na vida. Pelo contrário, o João é uma criança que se faz notar e terá "essa possibilidade, com certeza".

O facto de ser rapaz ou rapariga "já não está em causa ... se for uma rapariga que ... mostre que tem pedalada para determinado lugar ... acho que consegue vencer na mesma. Hoje em dia é capaz de ainda haver uma certa diferença, mas ela tende a diminuir".

Continuando a nossa análise, e retomando um pouco mais a relação entre o nivel de escolarização e as oportunidades de vida, refere que "num determinado nível de escolaridade inferior, as oportunidades podem surgir, mas sempre no seu nível ... uma formação académica superior já pensa noutras oportunidades ... a um nível mais alto ... a influência é bastante grande. A escola pode motivar ... incentivar ... para serem um bocadinho ambiciosos, no sentido de tentarem fazer cada vez melhor ... e atingirem os objectivos que se propõe ... à parte disso ... até porque lá está ... a diversidade depende de muitos factores, mesmo quando já sai da escola. Hoje, como sempre, quem vai para as universidades são os da classe burguesa. São os filhos deles que lá estão, praticamente, não por serem inteligentes, mas porque têm dinheiro que podem gastar em explicações. Se não aprendem a bem, aprendem à força de dinheiro para explicações. O que conta são também os conhecimentos e não propriamente a nível académico".

Concluímos que a professora acaba por reconhecer a diversidade na sua turma, ao nível do género ou do estatuto sócio-económico e cultural e mostra ter bem a consciência que essas diferenças se vão repercutir nas oportunidades de vida de cada grupo, antecipando melhores níveis académicos e melhores oportunidades para os poucos que têm condições familiares ligadas aos aspectos económico-sociais e culturais mais prometedores, enquanto que à maioria dos seus alunos são previstas poucas oportunidades, talvez por não pertencerem à "classe burguesa" que ela mesma refere. De tudo isto se depreende uma reprodução das desigualdades sociais onde o papel da escola tem apenas alguma influência.

O conteúdo desta entrevista parece-nos bastante significativo no sentido de poder contribuir para uma melhor compreensão do que se passa no quotidiano da sala de aula, mais especificamente em torno da nossa problemática: Gerir a diversidade no

quotidiano da sala de aula, como uma realidade culturalmente heterogénea e contraditória e na reflexão das questões subjacentes já anteriormente referidas.

CAPÍTULO IV

A GESTÃO (?)

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DA DIVERSIDADE NO QUOTIDIANO DA