partie II Corrections
XIII.3 Variables al´eatoires continues
Perante os indicadores desta categoria damo-nos conta da grande frequência de interacções em que as crianças manifestam o direito ao uso da palavra no sentido aluno <—> professor, em que a iniciativa de participação é daquele e há um consentimento da professora, resultando pequenos diálogos que vão surgindo pontualmente ao longo das aulas e que têm como consequência a concordância e aceitação das ideias, sugestões e opiniões implícitas nas mensagens dos alunos.
Verificamos também a grande variedade de temas evocados que podemos separar em dois pequenos blocos que denominamos de formais e não-formais, segundo a sua relação com aspectos académicos ou não-académicos. Nos primeiros incluímos situações onde são focados conteúdos, esclarecimentos, materiais e condições de aprendizagem — exemplos: o Vítor diz que é maiúscula e a professora diz que ele tem razão. A Rute pergunta se vão fazer Ditado e a professora responde que sim. A Patrícia diz que falta lá o "ei" e a professora vai ao quadro completar. O Nuno diz que não consegue ver o quadro e a professora pede ao colega para se desviar. — Nos segundos podemos englobar temas relativos a festas e passeios, aspectos pessoais e de vestuário, horário de
dormir e referências à família — exemplo: O João diz que faltou porque teve que ir a Lisboa com os pais e a professora alimenta a sua conversa perguntando-lhe onde ficou e o que viu. A Sofia diz que faz anos a 26 de Novembro e a professora sorri-lhe, concordando com a cabeça. O João refere que a sua irmã está doente e a professora diz: "Ai está? Que chatice!".
Gráfico 12: Distribuição do direito ao uso da palavra
Tiago Rita Mariana ■ i Etisa ■B Luís H Isabel G. M Inès H Ana B9 Henrique ■ O B w Patrícia o g Fábio ~ " Hugo Ricardo (sabei Vítor
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" Hugo Ricardo (sabei Vítor " Hugo Ricardo (sabei Vítor Sérgio Nuno Pedro Sofia Rute João Sérgio Nuno Pedro Sofia Rute João Sérgio Nuno Pedro Sofia Rute João Sérgio Nuno Pedro Sofia Rute João Sérgio Nuno Pedro Sofia Rute João C 51 10 15 20 25 30 H 1 1 frequênciaSe, por um lado, verificamos (gráfico 12) que quase todos os alunos da turma entram nesta categoria (excepto a Rita e o Tiago), por outro lado, é importante referir que a frequência com que cada um tem direito ao uso da palavra é muito díspar, assim como a sua distribuição pelos diversos temas evocados.
Deste modo, vemos que o João é a criança que mais surge com o direito à palavra, tanto em temas formais como informais. Analisando os dados, é bastante evidente a sua presença que parece impor-se a toda a turma, falando de festas e passeios,
de aspectos pessoais e familiares, sugerindo e dando opiniões que parecem ser do agrado da professora, ou mesmo acusando os colegas na aula.
Um pouco menos frequente, mas também com forte uso do direito à palavra, surge a Rute que evoca principalmente temas relacionados com a parte académica — quando diz que a professora só quer na sala quem quer aprender, ou quando mostra curiosidade sobre aspectos da aprendizagem— mas também evoca temas não académicos, defendendo os seus direitos na aula quando a professora não a interpela ou acusando os rapazes de lhe terem levantado as saias. Também é quem mais elogia o aspecto pessoal ou o vestuário da professora, como na situação que se segue: A Rute diz que a professora vem muito bonita e a professora sorrindo responde "Ai venho? Muito obrigada!".
Continuando a observar o gráfico 12, verifica-se que a presença daquelas duas
crianças (João e Rute) é tão dominante nesta categoria que chegam a utilizar tanto o direito à palavra quanto as outras todas juntas.
Há ainda outras crianças com alguma frequência nesta categoria como a Sofia, o Pedro e o Nuno, depois o Sérgio, o Vítor e a Isabel e, por fim, surgem outros com uma frequência menos significativa: o Ricardo, o Hugo, o Fábio, a Patrícia e o Henrique, a Ana, a Inês, a Isabel G., o Luís, a Elisa e a Mariana, sendo de assinalar a ausência do Tiago e da Rita.
Posteriormente achamos oportuno comparar esta situação com uma outra denominada de silenciamento que analisaremos mais adiante e que consideramos oposta ao direito ao uso da palavra.
2.3. A permissão
Analisando os indicadores incluídos nesta categoria , verificamos que as permissões correspondem sobretudo a pedidos para ir ao quarto de banho, para mudança de lugar quando algum colega falta ou haja lugares vagos, havendo ainda uma permissão para fazer um desenho e outra para ajudar um colega limpar o quadro.
Gráfico 13: Distribuição da permissão
3 4 frequência Rrta Tiago Sofia Sérgio nes Mariana Isabel G. ' I Henrique Henrique ;• i Nuno - 7 ' V Í . J Luís Luís " * ■ « ■ ■ « » ; : Isabel ''■ ' : ' : ■ : { Rute Hugo - - ' ' ■ ' ' ' Rute Hugo ■:■:,:: ' ,,.,-,-SSEI Fábio Fábio Elisa Elisa .... .., Pedro Pedro Patricia Patricia ' :-:"-- " '. \ Ana Ana ■ . - , . . - ■ . 1 João i a s i C í í a s : - ; . _ ! 1 ; ; ; ; ; ; a ; ; ™- - — - ""' " H— ■+——— — H 1 1 1 1
Verificamos ainda que algumas dessas permissões surgem naturalmente, no entanto outras, como as idas à casa de banho, quando a professora entende que estão a abusar ou quando implica uma interrupção ou um adiamento da actividade escolar, são adiadas ou acompanhadas de expressões condicionantes.
Constatamos, assim, que as permissões mais frequentes são as idas à casa de banho que muitas vezes não significam propriamente necessidades fisiológicas, mas momentos de fuga para algumas crianças no sentido de as ajudar a quebrar um pouco a tensão da sala de aula.
O gráfico anterior mostra-nos que os que mais recebem permissão são, por frequência decrescente, o João e a Ana, seguidos da Patrícia, do Ricardo e do Pedro, enquanto as restantes surgem com muito menos frequência — havendo mesmo algumas com uma frequência nula —, seja porque lhes é recusado (como veremos na categoria denominada recusa) ou simplesmente porque não manifestaram qualquer pedido nesse sentido.
Aprofundando um pouco mais a análise, damo-nos conta que o João, sendo quem tem mais permissões, as mesmas são acompanhadas de comentários no sentido de ir depressa ou de ter o trabalho adiantado. À Ana é permitido sem qualquer comentário desfavorável, pelo contrário, há alturas em que professora até diz: "Tu és a única que vais". A Patrícia recebe tantas permissões quanto o Ricardo, mas acompanhadas de comentários desfavoráveis, enquanto a este a professora chega a afirmar "Vai que tu não abusas de ir à casa de banho". O Pedro recebe permissões condicionadas pelo trabalho escolar feito. Outros casos não parecem tão significativos, com excepção do Luís que apresenta apenas duas permissões contrariadas.
Outro tipo de permissão refere-se a crianças que pedem para mudar de lugar, já inicialmente referido, como é o caso da Sofia que pede para sentar-se junto da Rita; o João para junto da Mariana e, posteriormente, junto do Pedro; a Rute junto da Mariana; o Hugo pede para o Pedro ir sentar-se a seu lado; a Inês pede para a Isabel ir para a sua
beira e o Nuno que pede para o Sérgio ir também sentar-se junto dele. Algumas destas permissões são também condicionadas pelo comportamento das referidas crianças.
Uma permissão pouco comum é dada à Rute quando esta pede à professora para a deixar fazer um desenho, havendo ainda outra dada ao João que pede para ajudar o Hugo a apagar o quadro.
A utilização desta categoria talvez possa, à primeira vista, não apresentar grande significado, mas se a confrontarmos posteriormente com a categoria da recusa, como sua possível opositora, talvez nos ajude a reflectir que nem todos têm permissão a qualquer momento e que muitos até serão alvo de constantes recusas, em que muitas vezes uma permissão possa surgir como uma recompensa e, caso contrário, como uma punição.