monovalent anions concentration(mol/l)
RADIATION CO-POLYMERIZATION AND ITS APPLICATION IN BIOTECHNOLOGY
7. UV-INDUCED GRAFTING AND MODIFICATION OF POLYMERS BY HIGH LET RADIATION
Ainda na residência do tutor Liebermann, surgiram questões sobre o orçamento familiar. Mais uma vez, antecipando a resposta, perguntei se existia uma noção de gasto fixo com os animais. Em suas palavras,
“Então... Eu não tenho um orçamento mensal. Assim, eu tenho uma ideia mais ou menos. Como seria? Para os cães eu compro uma ração Must. Must, que é uma ração premium especial. Eu compro 15kg, ela custa numa faixa de 150 reais e alguma coisa. Vamos fechar nos 150 reais. Então eu compro 15kg durante... Em 1 mês eu gasto 30kg, dois sacos de 15kg eu compro porque não tem de 20kg. Então eu gasto 300 reais, mais ou menos, com os cães. Só de ração, porque tem banho, tem algumas outras coisas que a gente tem que comprar. Digamos, esse chifre que comprei pra eles, escova de dentes, pasta de dente essas coisas eu compro por fora né?”
Novamente, vemos a tendência em classificar os gastos com a alimentação, saúde e higiene como sendo necessidades, por assim dizer, básicas para a manutenção da vida do animal, seguido de outras coisas que a gente tem que comprar, referentes a qualidade de vida do animal, como produtos, bens e serviços para o pet, considerado gasto extras, de um
orçamento mais ou menos fixo destinado aos pets. E, para o tutor Liebermann, não se trata apenas dos cães,
“Ração pra os... Digamos que... É quase toda semana que eu gasto em média, 5 reais que custa a ração das aves e 5 reais custa a ração dos esquilos né? Dos hamsters, dos roedores. E no caso fica, digamos, em média na semana eu gasto 10 reais com eles. No caso 1 mês tem 4 semanas mais ou menos, eu gasto 40 reais por mês com eles. Só que tem aqueles extras como eu falei. Tem areia de gato em média 5,50. Então areia de gato dá pra eu passar 15 dias. Dá pra eu passar... 2 areias de gato dá pra eu passar 1 mês. Então digamos, 10 e uns quebrados... Digamos 11 reais pra areia de gato. Então assim 40 mais 11...”
E sem se distanciar daquilo que é estipulado para os cães, o orçamento mais ou menos estabelecido para as aves e os roedores também incluem gastos extras, referentes à qualidade de vida do animal, como a areia de gato para os roedores, por exemplo, e dessa forma, escolhendo trocá-la apenas duas vezes ao mês, o que também se configura como uma estratégia para facilitar a lida com o animal. O tutor continua, “então... ainda tem mais... Tem a comida dos peixes. Porque eu tô falando de quê? Das rações, dessas coisas assim que eles precisam, mas sempre tem algo a mais que a gente tem que fazer por eles né?”. Pergunto ao tutor, o que seria esse algo a mais, “aí depois vem as outras coisas né? As besteirinhas. E também pra os cães eu gasto muito com vacina. Vacina demais. Remédio de verme. O cuidado dos animais né?”.
Os gastos extras, embora extras, aparecem diversas vezes nos relatos quando os tutores são questionados sobre as escolhas de consumo que são estruturadas dentro do orçamento familiar mais amplo e destinado aos animais. Elaborados para proporcionar qualidade de vida ao animal, ofertando aquilo que os tutores julgam agradar ao pet, se instalam no orçamento de maneira até despretensiosa, como besteirinhas, algo a mais, extras, agrados, etc.
O tutor continuou narrando sobre os gastos e afirmou que junto ao seu pai custeiam os gastos referentes aos animais, em suas palavras, “na verdade é meu pai quem banca... Na verdade, não é quem banca. É eu e ele. Ele que compra. Eu dou o dinheiro, mas ele que compra”.
Outro elemento que chamou atenção no relato do tutor sobre os gastos extras é referente à higiene do local em que os animais permanecem na residência, diz, “água sanitária, assim... É para limpeza, né? É demais. Você viu ali que eu gastei um litro de água sanitária em uma tarde. Água sanitária, petiscos que eu ofereço a ele...”. A água sanitária mesmo não se configurando como um produto ligado à qualidade de vida do animal pela condição subjetiva do agrado, também pode ser interpretada como parte da higiene que o tutor julga necessária e se relaciona com a qualidade do ambiente em que os animais estão. O tutor prossegue,
“Fora a alimentação... Assim, não tem. O que foco mais é a alimentação. É alimentação, e produto de limpeza que a gente usa direto, esses brinquedos, essas besteirinhas... Porque, até como você está vendo, ele se entretém com besteiras. Uma bola de basquete que eu tinha, eu dei a ele, e ele estava entretido. Um cabo de uma pá, ele se entretém. Então se eu quiser fazer um brinquedo, eu compro uma corda, faço um bocado de nós e jogo aí, entendeu? Então assim, são coisas simples, né?” Veja que o tutor associa os gastos fixos ao uso constante do produto, e na medida em que o uso varia em relação a sua durabilidade, como critério, se encaixa na categoria de extras. E quando se trata desses extras, o consumo novamente não se limita a aquisição de produtos e bens, bem como incorpora a produção de itens que possam ocupar tal posição, como a corda que o tutor sugere como brinquedo.
Ao chegar na residência do tutor Liebermann, ao abriu a porta da sala, havia um aquário gigante apoiado na bancada que dava acesso à cozinha, no estilo de cozinha americana. O tutor mostrou alguns peixes do aquário, acendeu a luz e colocou comida para os animais, não sabia ao certo quantos peixes estavam ali, contei oito, havia mais. Contou também que ele próprio construiu a estrutura do aquário, que fez uma estrutura de isopor para a parte inferior e superior, para proteção o aquário, também havia adaptado a luz, me mostrou o sistema que ele mesmo fez. Selecionou pedras que encontrou na praia e criou, ele mesmo, todo o ambiente interno para os peixes.
A tendência ao consumo criativo, no caso do tutor Liebermann, inclui não somente a criação feita por ele próprio dos itens que vai incorporar ao ambiente do animal, nas gaiolas e aquários. Se refere também ao que ele já produziu destinado à qualidade de vida para o animal, e não somente relacionado ao seu ambiente. Descreve:
“O que eu já produzi? Já fiz brinquedos para os passarinhos, já fiz casinha... No quintal, que eu colocava comida para os passarinhos no quintal. E aí que eles... Os passarinhos não queriam, eles preferiam comer do chão. Que eu não assopro ali? Assopro e fica no chão? Aí eles preferiam comer do chão. Aí eu peguei e fiz o playground lá. Já fiz aquela casinha da codorna... Tem brinquedo que eu compro e eles destroem, tipo, mesmo que nada.”
Perguntei ao tutor de onde vinha suas inspirações, o tutor respondeu que Figura 18: foto tirada na visita feita a casa do tutor
Liebermann enquanto me mostrava toda a estrutura que ele mesmo havia montado.
“Muitas coisas que eu faço, eu busco na internet, né? Algumas coisas assim... Digamos, coisas caseiras, entendeu? Para ver se facilita também até... As coisas, né? Digamos, alguma coisa que eu fiz que eu vi na internet... O que eu faço? Lá na mata, como eu falei, tem um espaço que o pessoal joga lixo - o pessoal mal-educado. Então quando eu preciso de alguma coisa, eu vou lá, e escolho o que é que tem. Dependendo do que tiver lá, eu trago tudo para casa. E lá na minha bancada, na minha mesa lá trás, que eu faço tudo”.
Dessa forma, o consumo criativo não está atrelado somente à imaginação e produção de artefatos e estruturas, também envolve alternativas de economia para os tutores. Nesse caso, o acesso à matéria prima acontece de forma econômica, ao se reciclar elementos que foram descartados na mata próxima à residência do tutor Liebermann, bem como a relação online/offline também aparece como instrumento que proporciona acesso aos tipos de artefatos e ambientes que o tutor pode (re)criar.
Vejamos na visita que fiz ao Cãoportado, descrito no segundo capítulo, que em determinado momento, enquanto conversávamos sobre o orçamento para os pets dos tutores adestradores e proprietários da Daycare e Hospedagem, Tathi e Ênio estavam sentados à mesa da cozinha e perguntei sobre os brinquedos que eles ofertavam para os clientes e para os seus próprios pets, Tathi respondeu que “além dos brinquedos que a gente compra, tem os brinquedos que a gente faz, que são os brinquedos caseiros, que são muito...”. Ênio completou, “Na verdade, diariamente é uma baralha pra todo dia a gente produzir alguma coisa nova pra eles, entendeu? Então, sempre a gente tem que está tendo ideias, nem que seja uma bacia de água e jogar ração pra eles ficarem mergulhando, assim, enfiando o focinho pra pegar a ração, ou uma garrafa pet com um comedouro, colocar ração dentro, pendurar em alguma coisa, mas a gente produz brinquedinhos também, de pvc, os próprios obstáculos de agility, várias outras coisas.. a caixa de referência, que você fez esses dias (falando com Tathi)”
Os tutores/adestradores me contaram que foram convidados por um evento pet na cidade de Natal para ministrar um curso sobre o esporte agility, Tathi conta que
“Na verdade, o curso que a gente fez foi só pra montar os obstáculos de baixo custo, que são os obstáculos feitos de PVC. Mas o curso mesmo de agility a gente não fez, inclusive no curso que a gente fez para montar os obstáculos a gente chamou Pinheiro (adestrador), que é amigo da gente, e ele tem mais conhecimento sobre o esporte aí ele ajudou ele nessa parte de competição, do que é permitido, do que não é, das regras, normas...”
É importante ressaltar que os participantes do curso eram outros tutores, e o uso dos obstáculos passou a ser direcionado aos cães como exercício dentro do método de enriquecimento ambiental, utilizado pelos adestradores. E, dessa forma, possibilitou o acesso ao conhecimento de produção desses obstáculos para uma audiência ampla de tutores, que podem reproduzir ou não seus elementos para os seus pets.
Ainda conversando sobre as produções caseiras, perguntei à Tathi do que se tratava o target,
“é um target que a gente usa pro adestramento. Na verdade, não é uma caixa de referência, o que eu fiz foi um target mesmo. A caixa de referência é mais alta, pra o cão colocar as patas dentro. Nesse caso, é um target elevado, Rubi coloca as patas da frente e eu faço ela ficar girando sem tirar as patas de cima, aí ela cria uma melhor noção corporal porque, assim, a maior parte do peso do cão está nas patas da frente, quando eleva as patas da frente, fica com peso maior nas patas de trás, o que dá mais uma consciência da parte traseira dela, e aí cria uma noção corporal dessa parte de trás. Porque o cão, geralmente, não tem uma noção dessa parte traseira dele. Aí no
target ela coloca as patinhas e ela tem que mover só a parte de trás dela pro lado e pro
outro.”
A adestradora foi até uma sala ao lado da cozinha e trouxe uma caixa recheada de brinquedos e algumas estruturas de madeira, chamou Rubi e deu ordens para ela simular o procedimento, já que ela ainda estava sendo treinada para executar tal movimento.
No que se refere aos brinquedos que são produzidos pelos adestradores, quis saber quais eles mais se interessavam em fazer e se eles comercializam. Os adestradores afirmaram que não costumam comercializar produtos por não ser o foco central do seu trabalho, no entanto, quando fazem uma grande compra de produtos, costumam avisar aos clientes humanos caso surja interesse por parte deles. E também ofertam os brinquedos produzidos para os clientes pets no dia a dia. Tathi apontou para a construção de um brinquedo específico, inspirado no brinquedo disponível no mercado pet mas produzido a partir da reciclagem. Em suas palavras, “Tem um de pvc que eu acho bem legal, que é simulando a pet bola, que coloca a ração dentro e ela tem vários níveis. Aí a gente fez um caseiro com cano pvc, aí a gente fura o cano, tampa dos dois lados e coloca a comida dentro. Aí o cão tem que ficar rolando pra comida cair. A gente sempre tenta estar enriquecendo o ambiente deles em todos os aspectos.”
A noção de consumo criativo, no caso dos adestradores, está atrelada ao método de trabalho que eles utilizam na lida com o animal, o enriquecimento ambiental. Porém, ao abstrair motivação individual de cada tutor, a prática de um consumo criativo como solução à alimentação ou estética do pet, ou como alternativa de baixo custo para a manutenção da
Figura 19: Ilustração da labradora Rubi no target de adestramento em demonstração.
qualidade de vida do animal, ou reforço ao método de trabalho comportamental com o animal, está presente e se manifesta e se transforma de acordo com o contexto e com as necessidades de ambos, tutores e pets.
O que vai determinar o tipo de relação que será estabelecida entre humanos e não humanos é o valor que uma sociedade, cultura, grupo e/ou religião lhe atribuirá. Na nossa sociedade ocidental contemporânea os impulsos do consumo hedonista, como diria Campbell (2006), ou elusivo e ambíguo, segundo Barbosa (2006), dominam as formas de trocas, na medida em que estão relacionados à imaginação e aos sentimentos – elementos que também podem ser fundamentais para o estabelecimento de vínculo social entre humanos e não humanos na atualidade68 –, sendo também responsáveis pela construção de relações sociais e construções de subjetividades. Sendo assim, pensaremos a seguir, como é possível problematizar o estatuto do animal de companhia69 na sociedade de consumo.
68 A construção da ideia do animal de companhia e como ele deve ser tratado em sociedade mobiliza um mercado pet que atende, e supera, as expectativas deste nicho: os tutores dos pets.
69 Com animal de companhia entende-se uma variedade de animais que passam a conviver com os humanos,
compartilhando e construindo afetos, experiências, identidades e responsabilidades civis para com estes animais que, em sua maioria, são cães e gatos, e no contexto desta pesquisa, primordialmente, cães.