monovalent anions concentration(mol/l)
MEDICINE AND BIOTECHNOLOGY Z.S. Nurkeeva
3. PHYSICAL CHEMISTRY BEHAVIOUR OF STIMULI-SENSITIVE POLYMERS BASED ON VINYL ETHERS
A primeira vez, assim como se deu comigo, em que Priscila a viu, foi através de uma foto no Instagram, em 2015. Perguntei à tutora sua primeira impressão em relação a foto e ela logo afirmou que identificou no pet o desejo de ser adotado, evidenciado em suas feições de carência. Em suas palavras, “Ela tava com aquela carinha mesmo de ‘quero ser adotada’.”. Seu desejo, por assim dizer, foi atendido pela futura tutora.
A gente pegou ela no dia 29 de dezembro de 2015. Ela tinha aproximadamente dois meses, e a gente colocou exatamente na data que a gente tava dois meses atrás. Porque a gente não tinha como saber a data exata. E a gente queria ter o aniversário dela, então botou dois meses atrás.
Ao ser resgatada por uma protetora de animais que publicou sua foto para que ela pudesse ser adotada, Priscila teve acesso ao contexto que antecede sua relação com Ayla,
Ela (Ayla) foi encontrada na rua, a menina postou e a gente... No momento que eu vi falei que eu queria. Mas no momento que eu vi não sabia que ela ia ser minha, porque existe uma espera e tudo mais.
No mesmo dia que encontraram o pet pela primeira vez, os tutores levaram-na para casa. O desejo de encontrar um animal de companhia que pudesse dividir a vida familiar com o casal
recém-casado, vontade expressa por seu marido, motivou Priscila a buscar/aguardar pela chegada do pet que faria parte de sua família. Como Priscila mudou de cidade para casar-se,
tinha uma cachorrinha com minha mãe. Ela era minha, ganhei quando tinha 12 anos, mas... Cachorro escolhe o dono, né? E ela escolheu a minha mãe e não a mim. Então eu achei judiação se eu tirasse ela da minha mãe e trouxesse pra cá.
A tutora já havia tido a experiência de conviver com um animal de companhia como parte integrante da família, da qual considera tia de seu pet89. Mesmo partindo de seu marido, ao insistir para que o casal “comprasse” um pet, o projeto de incorporar um novo membro à família, Priscila, já familiarizada à tal experiência, mesmo argumentando contra, tendo em vista uma nova rotina que se instauraria como preocupação para o casal e negociações de seus demais compromissos, caso fosse preciso, e, levando em conta a possibilidade do animal não ter companhia, coisa que a tutora levou em consideração em sua decisão, Priscila conta que,
Ele queria um cachorro e eu falei ‘Não, dá muito trabalho’. Mas aí fiquei olhando os grupos de adoção. Porque eu sabia que ele queria... E... No final, eu queria, entendeu? Só que dá um pouco de trabalho e eu fiquei meio assim ‘ah, vai ficar em casa...’, que a gente trabalha o dia todo fora.
Já com o pet em casa, a tutora identifica em seu comportamento traços que remontam à sua condição de resgate, sua vulnerabilidade e origem impossível de ser rastreada.
Uma pessoa que encontrou ela na rua. Ela tinha um cachorro e tava passeando na rua e a Ayla tava dentro de uma caixa sozinha. Então, a gente não sabe se ela tem irmão, se alguém deixou, nem nada.
Segundo a tutora,
Olha... (sorriu) Foi... Difícil. Foi um processo... Que no início é difícil, né? Assim... É um serzinho. Ela chamava Hanna. A menina que pegou ela botou o nome de Hanna. Mas eu não gostava desse nome. Assim, não teve o afeto com esse nome. E aí eu e
89 Postagem no Instagram.
Bruno, a gente ficou “É, vai ser que nome?”. Tentamos vários. E até que a gente lembrou que uma vez meu pai queria que a minha filha se chamasse Ayla. Desde o início queria que o nome da minha filha fosse Ayla. Só que a filha humana, né? Assim, no pensamento dele. Só que sempre eu falei pra ele “Pai, Ayla é nome de cachorro”. “Não, é de gente também”. Eu falei assim “É essa a hora de usar que vou ter que usar né?”. Aí eu botei Ayla. E o Marieta saiu depois de um tempo, entendeu? Na verdade, quando a gente briga às vezes, a gente quer um nome maior. Então ficou AYLA MARIETA (falou mais alto). Porque só Ayla era AYLA (sorriu).
Pareceu conveniente, agora, nominar aquele animal de companhia, que seria tratado como filha, de Ayla90, por considerar que existia mais afeto com esse nome.
Segundo Bourdieu (2006), ao levantar a questão da nominação, ou seja, o nome próprio, institui-se uma identidade social constante e durável, que garante a identidade do indivíduo biológico em todos os campos possíveis onde ele intervém como agente* (grifo do autor), isto é, em todas as suas histórias de vida possíveis (2006, p. 186). O autor entende o nome próprio como sendo uma instituição, garantindo aos indivíduos uma constância social. Sendo aquele “o atestado visível da identidade de seu portador através dos tempos e dos espaços sociais” (2006, p. 187). E, para além disto, a possibilidade de documentar em registros oficiais sua manifestação social de existência. É claro que Bourdieu não estava se referindo à construção de identidade por parte dos não humanos, mas ao aproximá-lo deste ponto de vista, perceberemos o quanto se faz importante, aqui em especial, para os tutores de Ayla, ao se mobilizarem para fazer um registro de seu pet:
A gente tem um que foi registrado na internet (identidade social), mas hoje em dia aqui em Natal inclusive o dela (Bárbara) já é registrado em cartório.
Ao movimentar-se em rede, Ayla mobilizou, primeiramente, protetoras de animais, depois a família e, em certo sentido, a esfera pública, aqui materializada no registro disponível na internet91, que oferece uma alternativa a identidade social do animal de companhia. E, aqui, mais uma vez vemos tensões se desenharem. Os tutores acharam que o registro civil era necessário, mas não encontraram alternativas na lei para tanto, diferentemente da tutora Bárbara, que registou em cartório92 seu pet Stitch. Essa tendência não somente se apresenta como forma de afirmarem que se trata de uma filha(o), e para além da possibilidade de Ayla ter acesso aos direitos animais caso seja possível num futuro breve, representa definir o papel que ela, ou Stitch, ocupam para outros humanos.
90 O segundo nome próprio, Marieta, surge como nome para dar ênfase e como recurso para chamar atenção do
animal em momentos específicos.
91 Site que disponibiliza, a partir dos dados dos tutores, uma espécie de documento de nascimento e uma identidade
para pets.
Ayla também precisou adaptar-se à família do casal, ou melhor, à ideia do animal de companhia como integrante dessa nova constituição de família, na medida em que, embora parte da rede, ainda não estava consolidada em sua posição como ator social.
A primeira vez que eles viram (Família de Priscila) ela já tinha um tempinho e... Eles se assustaram, na verdade. Porque nas fotos ela parecia ser um pouco menor. Mas, assim, o susto foi do tamanho, que ela sempre foi muito dócil. Então todos aprovaram. Meus pais e eu, a gente já tinha tido outro cachorro, que é a Pitucha. Então já estão acostumados. E os pais do Bruno no início ficaram um pouco receosos, que o primeiro cachorro que o Bruno teve morreu, assim, com uma semana. Então eles ficaram um pouco receosos porque ela foi da rua e ela tinha doença do carrapato. Então eles tiveram medo que a gente se apegasse muito a ela e ela não sobrevivesse.
O medo de que o casal se apegasse a um animal de rua, sem história, doente e sem raça definida, deixou os parentes do casal apreensivos.
A família foi uma rede em que Ayla passou a se posicionar, ainda sem identidade estabilizada dentro daquela ordem, tendo que passar por um processo de nomeação que mexeu com as estruturas da organização familiar pré-estabelecida. Tensões acerca da permanência do animal em detrimento do medo de que ela não sobrevivesse e isso causasse sofrimento ao tutor Bruno, situação que já havia sido vivenciada pela família do tutor e que gerou expectativas em torno do estatuto daquele animal naquela família, que foram reestruturadas na medida em que o pet vingou saudável, precisaram ser negociadas entre os tutores e a família do tutor Bruno.