monovalent anions concentration(mol/l)
RADIATION CO-POLYMERIZATION AND ITS APPLICATION IN BIOTECHNOLOGY
3. RADIATION PREPARATION OF SOME INTERPENETRATING POLYMER NETWORKS INCLUDING NATURAL POLYMER AS THE SECOND COMPONENT
No caso da tutora Lurdes, o consumo criativo também chamou atenção, principalmente no que se refere à alimentação do animal.
Após a primeira conversa com Lurdes, marcamos a visita ao apartamento da família. O caminho já era conhecido, e as instruções se repetiram, e dessa vez, aconteceram. Na medida em que me aproximava, avisei que estava perto, pediu novamente para que eu esperasse na recepção para que ela descesse com o Bob.
Alguns minutos depois, ouvi latidos, e eles apareceram na porta na recepção, haviam descido pelo elevador de serviço. Bob me estranhou, ensaiou algum latido, mas sua tutora o conteve, consegui passar da porta sem mais transtorno. Nos cumprimentamos e ela pediu para que eu os acompanhasse até a rua, ela precisava levá-lo para fazer suas necessidades. Fomos em direção ao portão. Sua tutora pediu para que ele fizesse xixi logo e ele atendeu, ela riu e disse que quando está muito apressada pede para ele ir rápido e ele sempre obedece. Voltamos, entramos pelo elevador de serviço, com o Bob ainda desconfiado para o meu lado.
Ela o parou em frente à porta do décimo quinto andar, disse que era para que eu entrasse primeiro, ele quis passar na minha frente, mas a tutora segurou firme a coleira.
Na sala havia uma caixa transparente com alguns brinquedos, espalhados pelo chão uma bola de tênis, uma galinha e uma bola de futebol. A sala era espaçosa e havia uma varanda com várias plantas. Só estávamos nós no apartamento, eu, a tutora e o Bob.
Lurdes levou o pet para lavar as patinhas, coisa comum depois de levá-lo para passear, afirmou. O colocou no topo de uma pequena mesa na área de serviço, umedeceu um pano e passou em suas patas, mostrou uma bola de futebol toda mastigada e disse que sua irmã humana, sua enteada, havia dado para ele, era a bola preferida dela, e por isso se caracterizava como uma prova de amor, ele destruiu tudo em algumas horas. O pote de água e comida ficavam na cozinha, em uma espécie de estrutura que deixava os potes mais altos, sem que assim o animal precisasse se curvar para alimentar-se ou hidratar-se.
Lurdes chamou Bob para me mostrar alguns truques, ele sentou, esperou até que ela o chamasse para pegar a bola. Tentei chamá-lo para brincar, mas ele ainda não estava confortável com minha presença, mal chegava perto de mim.
A tutora estava sentada no chão, resolvi me juntar a ela para conversamos. Me explicou que modificou a sala em várias configurações para ter mais espaço para ele, “o sofá já foi ali, e depois ali, até ficar do jeito que tá”. Contou também como ele era antes, que não gostava de carinho, que não deixava ninguém se aproximar, que fazia xixi na varanda e sujava tudo, mas depois de terem uma conversa séria, ele nunca mais fez.
O Bob queria toda a atenção de sua tutora, empurrava a bola nas mãos dela e não demorou muito para fazer isso comigo. Conversamos entre interrupções do Bob que passava por cima do gravador, chegou até sentar nele uma vez. Quando não dávamos atenção, ele roubava as almofadas do sofá, e era preciso interromper a gravação para que sua tutora retirasse as almofadas de seu alcance e chamasse sua atenção, dizendo que aquele comportamento não era “bonito”. Mas Bob não saía de perto, quando não estava com a bola, agarrava-se em nossos braços, jogávamos a bola e aos poucos ele foi destruindo a bola em pedaços.
A tutora Lurdes já havia contado que gosta de costurar, retomei o assunto perguntando se ela já tinha produzido algo para o Bob.
“Já fiz ossinho pra ele. Pegava os brinquedos destruídos, arrumava, tirava aquele negócio que fazia barulho de dentro dos que não prestava mais e colocava dentro dos ossinhos dele. Eu lembro que eu tava fazendo um brinquedinho pra ele e ele Figura 17: Bob e a bola em visita à residência dos
sentadinho do meu lado. Eu na máquina fazendo e ele esperando eu fazer pra dar pra ele (risos)”
Continuei questionando sobre o orçamento familiar, a tutora explicou que se trata de “Gasto normal, né? Vacina, medicação, exames de rotina. Isso eu nem conto porque já faz parte como se fosse a gente, tipo, fazer exame de check up do ano. Aí então não tem essa coisa de ter um limite no orçamento. Ele faz parte. Dentro da alimentação natural eu compro, às vezes eu fazia, mas não compensava.”
Como podemos notar, a saúde do animal entra na lógica do orçamento familiar como funciona para qualquer outro membro da família. E além da produção e reforma de brinquedos para o Bob, em uma espécie de consumo criativo, a alimentação do pet também entra no orçamento familiar como elemento fixo. No entanto, também podemos pensá-lo como uma espécie de consumo criativo, em certa medida. Vejamos o relato da tutora Lurdes,
“Olha, eu poderia ter comprado o cachorro mais caro que existisse na... na época. Sim, eu podia ter comprado, de boa. Porque foi uma grana, viu? E aí muda de ração. Muda de ração. Muda de ração. Não gostava de nenhuma. Aí, olha, eu comprei desde a mais poderosa que existia no mercado e fui descendo o padrão. Porque eu acho que ele é vira-lata que gosta de ração porcaria né? (risos). Mas não teve jeito. Daí dessas coisas de conversar com as pessoas, eu conheci uma menina que tava com o mesmo problema e que ela tinha passado pra alimentação natural com a Dra. Daniele. A Carla Daniele do Animal Center”
Com consumo criativo pretendo abarcar as alternativas viáveis, de acordo com determinado contexto financeiro ou situacional, em que os tutores escolhem opções de consumo para seus pet que não se resumem aos produtos e serviços disponíveis no mercado pet, e mesmo quando faz parte dessa lógica, como a alimentação natural, que já está se estabelecendo como uma tendência do mercado com a profissionalização de material humano para fornecer tal serviço, ainda assim, como no caso de Lurdes, pode vir a ser uma demanda alternativa ao caminho que seria mais “natural”, com a alimentação a base de ração. E, nesse sentido, a rede de tutores colabora para que o alcance de tal alternativa, a alimentação natural, se espalhe entre outros tutores que estejam passando por situações semelhantes com seus pets, da rejeição da ração.
Continuo a fazer questões sobre como a tutora administra os limites de seu orçamento familiar e sobre o que consome com mais frequência para o Bob, em suas palavras,
“O Bob tem alimentação natural, né? Hoje em dia não tem muita coisa que eu compre para ele porque ele tem tudo. Mas quando ele era pequeno, nossa. Era brinquedo... Tudo que eu via de brinquedo eu comprava para ele. Tanto é que ele tem uma caixa de brinquedos, né? Mas tudo bem que essa caixa já foi renovada acho que umas três vezes porque logo no começo ele destruía tudo. Ele não destruiu minha casa como as pessoas dizem de comer móveis e tal. Ele sempre fez o que ele gosta, inclusive a cirurgia dele foi por causa disso que era por comer tecido. Do alfinete com o tecido. Eu acho que o alfinete estava no meio do tecido, eu não sei. E roupa minha, a Havaiana - Havaianas foram várias -, sapato do meu marido, a carteira dele, a carteira de motorista dele... Não tem jeito, né? Porque de repente ele fura esse... Agora não, tem
melhorado. Mas logo no começo sempre furava o orçamento. Porque ele tinha um problema de Otite, ou ele tinha um problema de giárdia, porque o Bob é muito suscetível a giárdia. Ele toma a vacina, toma o vermífugo que é específico para a giárdia, mas ele tem episódios de giárdia. Não posso deixar que nem todo mundo que deixa três meses”
Consumo e comportamento parece estar sempre atrelado, de uma forma ou de outra. Vemos, acima, que a tutora inicia enumerando o que consome para o pet, em seguida afirma que ele já tem tudo, retoma ao passado para indicar que já comprou muitos brinquedos, reforça a personalidade do animal, o gosto do animal, sobre o comportamento do animal, e retoma ao orçamento na medida em que trata dos problemas de saúde do Bob.
Pergunto à tutora como funciona essa alimentação natural,
"É assim, cada saquinho... Ele come quatrocentos gramas por dia de comida. Então eu compro o saco de um quilo que dá para dois dias e meio. Como meu freezer não é grande eu compro para quinze dias no máximo. Quando eu compro bastante é para quinze dias. Eu já comprei para mais, aí fica muita coisa no freezer, aí eu compro assim, no máximo quinze dias. Que nem hoje, eu fui lá só que não tinha da... Só tinha de frango. Como eu fui fazer o exame que era perto eu já aproveitei, né? Aí não tinha da que ele gosta, aí amanhã ela vai fazer e então sexta-feira eu vou buscar. Ás vezes eu mando trazer pelo uber. Ás vezes eu aviso, falo para ela ‘eu quero tanto, tanto, tanto’, ela deixa separado, eu chamo o uber ele para lá, ela explica e ele traz para mim”.
Mais uma vez, vemos como a leitura que o tutor faz das preferências de seus pets o oferece autonomia para escolher ou não aquilo que deseja consumir para o animal. Se não tem o sabor que o pet gosta, a tutora avalia deixar para outro dia a aquisição da alimentação natural, dessa vez, com o pedido feito para o sabor de preferência do Bob. Através do relato da tutora a tendência da relação online/offline surge como uma necessidade no contexto do ato de consumir, não só o produto, mas o serviço, que embora fora do universo pet, se transforma em um facilitador que une esses dois mundos, online/offline, humano/não humano, mercado pet/consumidores tutores.
Na medida em que a tutora continuava seu discurso sobre a alimentação do seu pet, me intrigou a seguinte afirmação, “então, eu compro a comida a ela porque eu confio, né? Mas é porque ela é nutricionista, responsável e eu já fui lá, é muito limpo”. Dessa forma, não se trata apenas das necessidades do Bob, de seus sabores preferidos, o que também pesou na hora de escolher continuar consumindo a alimentação natural como alternativa a alimentação à base de ração foi a relação de confiança estabelecida entre a consumidora tutora e a nutricionista pet.
Fiquei por lá depois da conversa, começamos a conversar sobre a vida, sobre meus cachorros, e a tutora me contou um pouco mais sobre sua vida em São Paulo. Lurdes contou do tipo de artesanato que fez durante um tempo e me mostrou saudosa fotos de algumas de suas
peças, disse ter aprendido tudo sozinha. Me convidou para visitar um novo pet shop que acabou de ser inaugurado e que no dia anterior a nossa conversa havia me seguido nas redes sociais, e então Lurdes me convidou para jantar. No começo tentei declinar o convite, não queria incomodar, mas ela insistiu e me ofereceu um caldo de feijão, aí não tive como recusar, adoro feijão.
Seu marido saiu novamente com roupa de ginástica, disse que voltaria logo, mas teria que sair em seguida, e assim o fez. Depois a sua enteada também saiu. Ficamos novamente nós três. Fui até a cozinha e a acompanhei nos processos que estava fazendo. Ela contou que faria um procedimento médico no dia seguinte e estava comento uma espécie de papa. Esquentou o feijão no micro-ondas e me deu. Bateu sua comida no liquidificador enquanto Bob sentado ao seu lado, estava atento a tudo o que acontecia. Depois pegou um pacote na geladeira e esquentou no micro-ondas também, perguntei do que se tratava, sem querer ser curiosa demais, e ela afirmou que se tratava da comida do Bob. Perguntei se ele só comia quente, e ela disse que também comia frio, mas que ele ficava mais feliz quando ela esquentava só um pouco, então prefere dar a comida quente. Ela colocou a comida no pote da ração e ele comeu em alguns segundos, depois ela colocou um pouco da sua própria papa, e ele comeu rapidamente, ficou embaixo da mesa, fixamente olhando para ela enquanto comíamos e conversávamos.