Este trabalho trata de mudança, de descontinuidade, de alteração de padrões, de instabilidade. A perspectiva usada para analisar a mudança, no entanto, foi baseada na teoria institucional, que tem como princípio a perenidade das instituições. A transformação institucional é vista como um processo estrutural e muitas vezes de difícil e lenta execução. O trabalho que ora se apresenta buscou resgatar a face dinâmica da mudança institucional, a partir do entendimento dos processos de desinstitucionalização e reinstitucionalização. Sob esse prisma, a mudança institucional é percebida como viável e não tão lenta, e depende dos significados que vão sendo compartilhados durante as trocas sociais. Nesse processo, podem ocorrer questionamentos inevitáveis quanto a uma prática sistemática e institucionalizada, uma vez que novas realidades vão se apresentando para os que interagem socialmente. A idéia de vácuo institucional é rechaçada aqui, o que levou à defesa da seguinte tese:
Numa dinâmica de mudança institucional, ocorre uma desordem institucional, em que convivem instituições vigentes em processo de desinstitucionalização e novos discursos institucionais em busca de legitimidade que podem re-construir a ordem vigente.
O problema de pesquisa, enunciado na introdução, termina por conjugar a metodologia que se ajusta não só às premissas do autor, mas também aos propósitos da pesquisa: há entendimento de que os discursos são fluidos, constitutivos da realidade social e, nesse sentido, podem conviver ainda que sejam diferentes em seus conteúdos.
Ao buscar responder ao problema26 desta tese, pretendeu-se, a partir dos resultados das entrevistas, contribuir academicamente para a Escola Institucional nos seguintes aspectos, a saber:
1. A distinção entre pressões para institucionalização (DIMAGGIO & POWELL, 1983) e pressões para desinstitucionalização (OLIVER, 1992) não foi levada em consideração aqui de forma fragmentada e seqüencial. Elas foram avaliadas em conjunto e submetidas à apreciação de todos os atores do campo a ser estudado, de modo a captar a representação social que fazem do campo.
2. A polêmica levantada por esta tese sobre o vácuo institucional, outrossim, talvez seja o maior benefício desta tese, pois permite rever o enfoque da mudança institucional desde uma perspectiva mais dinâmica. A mudança, até então tratada na teoria institucional dentro de uma visão de conformidade e busca de isomorfismo, apresenta outra visão: ao se entender os processos de desinstitucionalização e reinstitucionalização concomitantemente, é possível lidar com um processo de transformação que vai além da forma e, assim ampliar a abordagem utilizada nos Estudos Institucionais.
3. Metodologicamente, o uso da análise dos discursos auxilia e se ajusta à proposta da tese, por evidenciar o dinamismo presente e inevitável da mudança institucional. Os discursos apresentam o movimento das trocas sociais.
Ademais, sob uma perspectiva pragmática, acredita-se que o mapeamento do campo do ensino superior no Peru auxiliou no diagnóstico de algumas problemáticas existentes na realidade estudada e apontou caminhos para futuras investigações no campo estudado. A Educação como um todo está passando por uma fase de transição sem precedentes. Observa- se um campo diverso, composto por atores que parecem possuir interesses e valores distintos.
26 Que práticas discursivas constroem as instituições presentes nas organizações de ensino superior
As universidades são organizações que tradicionalmente atribuem maior peso ao ambiente institucional, mas atualmente observa-se que certas instituições de nível superior parecem valorizar mais a dimensão técnica de seu ambiente.
O Peru está passando por grandes mudanças estruturais e que são de tipo econômico, político e sociais. Verificam-se avanços, ainda que lentos, em termos de capacidade tecnológica, científica e produtiva e há um discurso na literatura encontrada de que as instituições de educação superior podem ser de grande transcendência para a obtenção de uma nova estratégia de desenvolvimento econômico e social do país. Além disso, serviria para aumentar a competitividade do Peru e melhorar as possibilidades de inserção no mercado mundial. No entanto, o que se percebem são discursos paralelos, como a análise dos dados fez revelar. Ao menos há três correntes que nem sempre concordam com o que se dita como verdade, com o que supostamente estaria institucionalizado.
Alguns docentes concordam com a reforma, outros acreditam que haveria mudanças significativas se fossem implementadas as leis que já existem. Há os que discursam como vítimas, demandando a proteção do Estado e poucos são os que clamam pela participação social. A mercantilização chegou aos umbrais da universidade, assim como em toda a sociedade peruana e a percepção, mesmo que inconsciente, de que não há uma integração entre objetivos da universidade e a realidade do país, faz nascer questionamentos vários. E nessa desordem discursiva, nesse fluxo de discursos ora conflitantes, ora congruentes, vão se formando práticas capazes de atender às particularidades de cada região do Peru.
A própria missão ou sentido da existência da universidade já não parece tão claro, podendo-se perceber que, além das críticas oriundas presentes na literatura há uma espécie de questionamento generalizado, difuso em todo o corpo social, se faz cada vez mais presente e
explícito nos discursos não tão consistentes. O sentimento geral de frustração em relação às expectativas não realizadas e às promessas não cumpridas de desenvolvimento e progresso das sociedades, a desvalorização da cultura elaborada e a banalização das referências em todos os setores da vida humana, são causas abrangentes que levam igualmente à desvalorização da universidade ou à sua visão exclusivamente mercantilizada.
A universidade não é mais vista como instituição, mas como organização, que apresenta diversas e próprias missões, estruturas e modus operandi. Talvez seja causa dessa configuração atual o processo de descentralização, caracterizado pela autonomia universitária e falta de uma Lei específica para universidade tenham contribuído para a construção dessas vozes tão diferentes, mas o fato é que há discursos e práticas discursivas institucionalizados, mesmo na falta de um instrumento legal que regulamente a universidade.
Todavia, o fato de a universidade estar se “organizacionando” mais, se instrumentalizando mais, o fato de estar enfatizando mais sua dimensão técnica e estrutural, não significa, necessariamente, que está perdendo sua dimensão política e institucional e isso ficou claro na convivência dos discursos do campo. Obviamente sofre de processo crônico de corrosão interna, comprometendo sua eficiência e eficácia, tornando-se pouco fecunda no atendimento de seus objetivos, consagrados pela tradição e reiterados até há pouco tempo. A pesquisa fica em segundo plano, na realidade peruana e a formação docente e discente segue o mesmo rumo.
Pode sugerir que, face à necessidade de dar respostas a diversas pressões institucionais – correlatas – a organização valoriza mais o ambiente técnico. O valor da universidade está concentrado na dimensão técnica, ainda que suas ações sejam motivadas por questões políticas. Observa-se que quando a pressão institucional interna é maior do que a externa, a
desinstitucionalização ocorre porque reflete o uso agônico da razão de seus atores. Quando há uma pressão interna para desinstitucionalização , implica dizer que há um consenso sobre a mudança, o que promove o movimento, rompe a inércia... ou melhor, direciona as práticas para outra direção.
Os discursos analisados revelaram as múltiplas racionalidades presentes no ambiente organizacional, e seria complementar um estudo que aprofundasse mais a formação dos valores na dinâmica institucional. Entender os valores relevantes a uma determinada cultura organizacional poderia ser outro caminho para se entender a mudança em sua face dinâmica e fluida. É importante salientar que nesse sentido a infusão de valores seria responsável pela transformação do conceito de organização em instituição.
A perspectiva simbólica-interpretativa da realidade sustenta esse entendimento, uma vez que pressupõe a participação ativa na construção, reconstrução e qualquer outro movimento dos elementos culturais e institucionais. A dimensão subjetiva, resultante dessa nova visão sócio- construtivista da realidade, pode servir para entender os múltiplos discursos constituintes do campo investigado.
A partir dessa proposta, a pluralidade de instituições, encontradas na análise dos discursos dos entrevistados, se respalda nos processos cognitivo e social, naturais e esperados nas organizações. A interação social, como não pode ser prevista em todos os seus movimentos, atuaria dentro da iteração. A partir das revisões inevitáveis e aleatórias resultantes dos processos interativos, os sujeitos revisam suas convicções e valores, suas verdades e não- verdades, suas instituições. Nessa dinâmica, poderiam incorporar outros discursos diferentes dos que estão reproduzindo no seu próprio grupo. Essa seria uma explicação para a
pluralidade dos discursos encontrados, mesmo dentro de um mesmo grupo e estaria indicando que a ausência de instituições não poderia explicar a transição institucional.
As instituições, identificadas nos discursos dos entrevistados, ora mostram sua característica restritiva e regulatória, ora revelam uma dimensão libertadora, como um processo de tomada de consciência que surge a partir do compartilhamento social. Esse elemento libertador poderia ainda ser entendido dentro da visão integradora da ação humana. O sentido de identidade com o grupo aparece por vezes como mais importante do que a necessidade de emancipação, ainda que em muitos momentos de ressignificação os sujeitos mostram que estão indecisos.
Os espaços sociais, no entanto, possuem esse lado dialético, em que as contradições começam a partir do entendimento dos processos de institucionalização. Na relação dual de interiorização da exterioridade e exteriorização da interioridade, os indivíduos produzem essa reflexão sobre o que está ajustado ou não aos seus valores e idéias. E constantemente um processo decisório, ainda que os processos cognitivos não ocorram sempre no nível consciente. Naturalmente há interesses que permeiam essas escolhas e seria uma oportunidade investigar mais adiante a dimensão política dos processos de institucionalização ou de mudança institucional. Dessa forma resgataria parte do trabalho do precursor do Institucionalismo. Ademais, o lado invisível e panóptico do poder poderia ser aprofundado nas análises institucionais e essa é outra proposta que se faz para futuras investigações.
Uma reflexão advinda dessa discussão é a respeito dos motivos expressos de mudança. Em que pese o discurso da valorização da diversidade, presente na realidade organizacional, a mudança muitas vezes homogeneíza o grupo. Na verdade, esse processo de transformação em “iguais” serve para criar laços de pertença que reavivam e reafirmam valores, normas e
legitimidade. A mudança institucional, mais fortemente, unifica mais do que diversifica. No entanto, o que foi observado durante as entrevistas, que nesse processo de unificação há vários questionamentos, há vários grupos de pertença, há várias identidades buscando legitimidade e eco nos grupos identificados. Essa desordem institucional mostra que o que existe durante a contestação de instituições não é um vazio, mas uma convivência plural de valores e questionamentos desses valores.
Enfim, entender os discursos e as instituições que surgiram ao longo da pesquisa de campo elucida questões ou questionamentos contemporâneos que têm surgido em função dessas mudanças de foco e de lógica de pensamento e, quiçá, fornecer suporte à reforma iminente de reestruturação do campo da educação superior.
Assim, ousa-se afirmar que esta tese foi confirmada, que não há um vácuo institucional, mas uma desordem, uma série de vozes convivendo que refletem os discursos e as práticas diversas que existem no campo, um campo plural. No Peru, há práticas descentralizadas que muitas vezes atuam como mecanismos micro institucionais que ajustam às regras institucionais macro às realidades de cada região. Não há ausência, há uma desordem institucional, uma ordem institucional multivocal, ou seja, com muitos discursos que revelam práticas agônicas, momentos de ressignificação dos discursos vigentes. Há uma pluralidade de discursos que convivem, como uma arena institucional. As resistências existem por buscar alternativas nas lacunas em outras instituições sem anular as instituições antigas formalizadas.
A análise de discurso se mostrou ajustada para a esta tese mas não se pode negligenciar suas limitações. Além da dificuldade de coletar os dados e analisá-los, há de se reconhecer as possibilidades de vieses que podem ter ocorrido durante o processamento das informações. Os discursos e o referencial do entrevistador podem – e devem – ter permeado e influenciado as
observações feitas no capítulo 5. Além disso, há também a preocupação de os entrevistados manipularem suas falas, perceptível em suas hesitações, necessidades de explicar o que antes haviam dito, enfim, as ressignificações significam muito mais do que o explicitado.
Ademais, a aplicação da análise de discurso exige capacidade de abstração frente ao objeto a ser pesquisado, fundamental para a compreensão dos fenômenos a serem analisados que requer do pesquisador grande rigor acadêmico.
Contudo, mesmo ante as limitações apresentadas, considerou-se o método mais apropriado para alcançar o objetivo final da pesquisa. Em momento algum houve o objetivo de generalizar os resultados desta pesquisa, nem mesmo estender para toda a realidade peruana ou usar terminologias estatísticas, dada a natureza qualitativa deste estudo. Nesse sentido, sugere-se aqui que outras abordagens possam ser feitas, tanto com predominância quantitativa quanto qualitativa.
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