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Na América do Sul, a primeira universidade a se instalar foi no Peru. Ao longo de sua história e cultura, como era de se esperar, a educação universitária recebeu fortes influências do contexto e dos interesses de cada época.

Na era colonial, por volta de meados do século XVI, havia necessidade urgente de se formarem teólogos e sacerdotes para a evangelização. Além deles, também havia carência dos homens das leis, profissionais preparados para entender e orientar quanto ao aparato legal da época. Assim foi que Frei Tomás de San Martín, em 12 de maio de 1551, expediu a Real Cédula que criava a primeira universidade da América Latina: a “Real y Pontificia Universidad de la ciudad de los Reyes o de Lima”.

Começando a funcionar dois anos mais tarde, no Convento de Santo Domingo, e tendo como primeiro reitor o Frei Juan Bautista de la Rosa, aceitava alunos que haviam passado pela educação primária (básica ou elementar). A Universidade foi recebendo, aos poucos, membros de outras congregações religiosas, clérigos e laicos21. Esse fato enfraqueceu o poder dos dominicanos, que foram perdendo seu domínio. A mudança foi favorecida também pela eleição de um reitor laico: Dr. Pedro Fernández de Valenzuela. Assim foi iniciada a primeira reforma universitária peruana: a partir da mudança de sua ideologia e do controle político, seguida de mudanças estruturais.

A Universidade abandonou, então, o claustro de Santo Domingo e se instalou em São Marcelo, lugar em que, por sorteio, adotou o nome de “San Marcos”. Dez anos mais tarde, o mesmo vice-rei Toledo, que antes havia autorizado a eleição do reitor não religioso, expandiu ordem para que a reitoria fosse disputada tanto por laicos quanto por clérigos. Assim, de forma alternada, ambos setores governavam durante o período colonial.

A Universidade de San Marcos iniciou suas atividades com as faculdades de Teologia e de Artes e, logo depois, Direito e Medicina. O currículo acadêmico seguiu a orientação espanhola, adotando a Filosofia como base para as carreiras.

Outras universidades foram criadas posteriormente:

- em Cusco, a Universidade de San Ignacio, a mesma que havia sido fechada em 1767 com a expulsão dos jesuítas;

- a Universidade San Cristóbal de Huamanga, em dezembro de 1680 mas que só começou a funcionar após resolver uma série de dificuldades econômicas e políticas (oposição da Universidade San Marcos), em 1704, com seu primeiro reitor, o bispo Diego Ladrón de Guevara;

- a Universidade de San Antonio Abad, também em Cusco, fundada em 1692 e com estrutura acadêmica semelhante às universidades de San Marcos e San Cristóbal de Huamanga.

Assim, essas três instituições universitárias eram as responsáveis e legítimas por outorgar os graus de bacharelado, licenciatura, mestre e doutor aos filósofos, teólogos, letrados e médicos do Peru colonial. Não obstante, eram instituições elitistas, uma vez que apenas funcionários da Coroa e da aristocracia eram os que tinham acesso ao ensino superior. Assim que terminavam seus estudos, os estudantes saíam dos claustros para assumir os cargos da burocracia administrativa colonial e da igreja.

Até a segunda metade do século XVIII, não houve mudanças significativas. A partir daí se produziram algumas mudanças introduzidas inicialmente por novas correntes de pensamento. As idéias reformistas começaram a se expandir lenta e paulatinamente.

Na Metrópole estudos proibidos questionavam as velhas idéias. Em geral, a Universidade e a educação no seu conjunto estavam mobilizadas nesse sentido. No ano de 1770 o rei Carlos III da Espanha elaborou e instituiu algumas disposições contrárias ao pensamento denominado de escolástico. No caso peruano, o vice-rei Amat-Juniet preconizou algumas reformas nos planos

de estudo: em Filosofia, os alunos poderiam cultivar o pensamento filosófico livremente em Teologia, autores franceses foram incorporados ao currículo. Como conseqüência das mudanças no sistema educativo, no final do século XVIII observou-se uma forte e confusa mistura de teologia e liberalismo, de ciência e religião, imagem que foi absorvida perfeitamente pela Universidade nesse momento histórico.

Convém assinalar, contudo, que a primeira reforma universitária oficial no Peru começou no ano de 1571, originada na Universidade de San Marcos. Este movimento reformista foi liderado pelos laicos e durou aproximadamente 10 anos. Naquele momento procurava-se dar autonomia à universidade, estimulando-a que tivesse renda própria e novos planos de estudos para as cinco faculdades que formavam a San Marcos. Esses planos caracterizavam-se pela rejeição da Historia, Geografia, as Ciências Naturais e a formação Física. Desta maneira deu- se início o longo movimento reformista e questionador que tem caracterizado historicamente a Universidade Peruana.

A chegada dos Borbones ao poder da Espanha e a expulsão dos jesuítas motivaram o desenvolvimento de outras mudanças mais significativas na educação. As idéias reformistas ampliaram-se rapidamente e o aristotelismo teve que se abrir às idéias de Descartes e Newton. O vice-rei Amat orientou que na Universidade de San Marcos fosse desenvolvido o interesse pelas ciências naturais e sociais, contrariamente às antigas posições escolásticas. No entanto, havia resistências evidentes e a mostra mais clara desta inquietude foi o fato de que em 1783 o reitor eleito foi o sr. José Miguel Villalta, do partido tradicionalista mostrando a veia conservadora que predominava ainda no seio da universidade. Assim, os intentos de reforma fracassaram.

O grupo reformista começou, então, a se reunir sob a égide da Academia Filarmônica, fundada no ano de 1737 e apoiada pelo jornal Mercúrio Peruano, publicado inicialmente em janeiro de 1791.

Nos inícios do século XIX, a universidade peruana recebeu a influência do movimento desencadeado por Hipólito Unanue. Apesar de ser oriundo do campo da medicina, procurava revolucionar o estudo sem, no entanto, se descuidar de aspectos filosóficos, já que Unanue tinha um profundo espírito religioso por acreditar que não há sociedade sem religião.

A educação superior na vida republicana dividiu-se em quatro etapas, a saber:

1) Etapa da iniciação - compreendida entre 1821 e 1850, e influenciada pelas obras educativas de San Martín, Simon Bolívar, Andrés de Santa Cruz e Agustín Gamarra. 2) Etapa de organização - de 1850 até finais do século XIX. Nesse período foi criado o

Regulamento Geral da Instituição Publica de 1876 e também se apresentou uma crise institucional.

3) Etapa da sistematização - de 1901 até 1941, destacando-se a criação das leis orgânicas de 1901, 1905 e 1920, além da reforma de 1902 e a criação do Ministério de Educação Pública em 1935.

4) Etapa da tecnificação - que compreende de 1941 até nossos dias. Neste período foi criada a lei 9359, o Plano Nacional de Educação Pública de 1950, o Inventário da Realidade Educativa Nacional de 1956, a Reforma da Educação Secundária de 1957, a implementação das leis universitárias 13417 de 1960 e 17437 de 1969; e o Informe Geral sobre a Reforma Peruana de 1970 que deu origem ao D.L: Nro. 19326, de 1972.

As universidades que funcionaram durante o período republicano foram as de San Marcos; San Cristóbal de Huamanga, san Antonio Abad do Cuzco, Santo Tomas e Santa Rosa de Trujillo, e Nacional de Arequipa. Esses centros de educação superior continuaram com os

velhos modelos coloniais, cujas alterações foram muito pouco significativas em seu modus operandi.

Na etapa da Organização, a universidade foi considerada uma instituição única dentro de uma política centralista e absorvedora. Facultou-se à Universidade de San Marcos controlar as demais universidades e também aprovar a formação de novos centros. Aproveitou para incrementar suas áreas, criando seis outras faculdades: Ciências Eclesiásticas, Direito, Medicina, Ciências Naturais, Matemáticas e Filosofia e Humanidades. A universidade de San Marcos, mesmo com a criação de outras disciplinas científicas, continuou sendo uma instituição elitista e aristotélica.

No governo de Echanique em 1852, criou-se a Escola de Engenheiros Civis e também foi instituído o Regulamento da Universidade de San Marcos. O Estado começou, então, a intervir na conformação das comissões examinadoras e da inclusão de novas disciplinas e criação de novos cursos. Teve início a fase de um Estado regulador da vida acadêmica na universidade peruana.

Ainda que San Marcos tenha mantido certa importância em relação às do interior (províncias), pode-se dizer que a responsabilidade pela educação superior foi ampliada, transcendendo o âmbito da universidade para um nível mais macro. No interior de cada uma das universidades do país se formou uma Junta Universitária como órgão de governo da qual também faziam parte o reitor (presidente) e decanos e docentes de cada faculdade. Durante a vigência do Regulamento de 1855, a preocupação governamental se estendeu também ao ensino médio.

A Universidade San Marcos mantinha sua hegemonia e autonomia de escolher suas próprias autoridades, ao passo que esta regalia não era dada às universidades consideradas menores como as universidades de Cusco e de Arequipa. O Conselho Superior de Instrução que

formava parte do Estado designava suas autoridades principais. Em função da forte crise econômica do país, a autonomia relativa desapareceu completamente, reforçaram-se os critérios centralizadores, absorventes, absolutistas e discriminatórios por parte do governo, tornando a regulamentação mais consistente. Além disso, as universidades de Huamanga, Trujillo e Puno foram fechadas por impossibilidade de se sustentar financeiramente. Foi um momento de institucionalização da crise para outros níveis, como o social.

Durante o século XX e ao longo da etapa de sistematização, a lei de 1901 outorgava a função de ensino superior apenas às Universidades Mayor de San Marcos e às Universidades Menores de Trujillo, Cusco e Arequipa. Nessa época se falava de ensino superior livre, desde que respondesse ao Conselho Superior de Instrução. Na verdade, havia uma liberdade regulada: os docentes seriam nomeados por cinco anos, cada universidade poderia eleger suas autoridades, os cursos que antes haviam sido excluídos foram reconhecidos e legitimados em todas as universidades – Jurisprudência, Ciências e História, Filosofia e Letras e Teologia, Medicina, Ciências Políticas e Administrativas – e a matrícula de mulheres foi autorizada. Nessa época foi fundada a Universidade Católica do Peru, dando início ao ensino superior particular.

Em 20 de março de 1930 aconteceu um grande debate da missão da universidade entre reformistas e o velho pensamento da universidade peruana, e em outubro do mesmo ano foi nomeada uma comissão de Reforma Universitária.

Na Etapa denominada da Tecnificação, a lei de 1941 manteve o rótulo de Universidade Maior a San Marcos e anulou o adjetivo de menores aos demais centros de educação superior peruanos. O estatuto de 1946 definia a universidade como uma associação de mestres, alunos

e formados que devem estudar, pesquisar e propagar o conhecimento humano para o desenvolvimento da comunidade em geral.

A lei universitária 13417 criou o Conselho Inter-universitário como um organismo responsável de realizar atividades de coordenação, e verificou-se a necessidade de declarar a urgente construção de cidades universitárias. Esta lei teve um claro sentido democrático, possibilitando maior desenvolvimento da educação superior: a década dos sessenta e alguns anos anteriores foram testemunhas da criação de novas universidades, bem como da reabertura de San Cristobal de Huamanga e o desenvolvimento da Universidade Comunal do Centro. Em 1968 o Peru contava com sete universidades e 33 centros de educação superior. Houve uma inusitada proliferação de universidades e escolas normais. Por outro lado, acompanhou uma profissionalização do docente universitário, respaldada pelos níveis profissionais de docência na estrutura da universidade (docentes em tempo parcial, tempo completo e dedicação exclusiva).

Em resumo, é possível afirmar que a universidade peruana teve durante as etapas analisadas alguns momentos de efetiva vida institucional e acadêmica, mesmo sendo bastante efêmeros e que estiveram às voltas com movimentos políticos que aconteciam na sociedade de esse tempo.