• Aucun résultat trouvé

A intertextualidade e interdiscursividade são elementos constitutivos da prática discursiva pois mostram a inter-relação inevitável de outros textos e contextos no discurso social. Muitas vezes esses termos são usados como sinônimos, mas nesta tese, eles assumem suas diferenças sendo entendidos como complementares para uma análise mais criteriosa dos dados.

Conforme Spink (1995), na análise do discurso a avaliação das entrevistas deve se basear na interface de duas forças: de um lado o conteúdo, que circula no campo organizacional estudado; de outro, a força que resulta do próprio processo de interação social e as pressões que geram e mantêm identidades coletivas. Em suas palavras: “O contexto [...] é essencialmente ‘intertextual’. Ou seja, é a justaposição de dois textos: o texto sócio-histórico que remete às construções sociais que alimentam nossa subjetividade; e o texto – discurso, versões funcionais constituintes de nossas relações” (SPINK, 1995, p. 121-122)

O termo intertextualidade foi cunhado por Kristeva ao final dos anos 60, ao se referir ao trabalho de Bakhtin, conforme relata Fairclough (2001). Bakhtin entendia que os textos do momento presente são construídos e influenciados por textos anteriores e posteriores. Os primeiros refletem momentos históricos no discurso presente, e os últimos consistem nas respostas antecipadas por meio de projeções baseadas em analises contextuais. Nesse sentido, os enunciados agem como elos de ligação em uma “cadeia comunicativa”, uma vez que outros

enunciados se intercomunicam com o que é verbalizado durante todo o processo de comunicação.

O conceito de intertextualidade é dinâmico, pois indica como os textos podem transformar textos anteriores e reestruturar instituições e convenções, gerando assim novos textos (FIORIN, 1994). Conforme Foucault (1972, p. 98): “não pode haver enunciado que de uma maneira ou de outra não reatualize outros enunciados”. Essa reatualização ou transformação é o que Fairclough (2001) chama de produtividade de textos, e afirma que está condicionada às relações de poder inevitáveis que os textos carregam.

Trazendo esse conceito para o discurso oral, Fairclough (2001) afirma que também a fala dos indivíduos é permeada por discursos de outras pessoas, por discursos presentes no contexto social e privado, em que há diferentes graus do que é do próprio indivíduo e do que vem de fora de sua consciência.

Alves (2002) pontua que todo discurso tem um sentido, mas não um sentido imanente e tampouco permanente e, por isso, há a necessidade de interpretá-lo. O ato da interpretação implica que há um sentido fora do próprio discurso que precisa ser captado e esse sentido transcende o texto e o explícito. Eis a diferença entre discurso e texto, pois não haveria interdiscursividade se todo discurso fosse texto.

Os universos simbólicos e seus significados são centrais para melhor compreensão dessas dimensões da formação discursiva. Além do que é verbalizado e aparente, seja por escrito ou pela fala existe o oculto e o implícito, o não-dito e o subjacente ao discurso (ALVES, 2002). Conseqüentemente, a interdiscursividade revela a forca que o discurso tem em constituir a realidade e, nessa linha de pensamento, afirma Fairclough (2001) que essa força se evidencia nas instituições e convenções da pratica social.

O princípio da interdiscursividade sugere que as ordens de discurso têm primazia sobre os tipos particulares de discurso. Os limites, no entanto, são flexíveis mostrando as possibilidades de desarticulações e rearticulações dos discursos por meio da prática social.

A interdiscursividade se manifesta, então, nos discursos indiretos e na própria prática social, mais do que nos textos e falas evidentes. Uma forma de tratar o não-dito na análise do discurso, com vistas a captar a interdiscursividade, sugerida por Orlandi (1999), é observar o silêncio. Como orienta Gill (2002), observar os silêncios exige uma consciência das tendências e de todo o entorno social, político, econômico e cultural sobre o objeto de estudo, para que se tenha uma compreensão contextual mais ampla.

Conforme salienta Orlandi (1999), o silêncio não indica uma não significação. E tampouco deve ser visto única e exclusivamente como uma ausência de palavras. Pode haver silencio conjugado com palavras:

- Uma ausência de palavras pode ser interpretada como um espaço de recuo necessário para a própria significação, para reflexão do sentido que o indivíduo vai dar ao enunciado;

- O silêncio pode assumir a forma de expressões ambíguas ou irônicas. Assim, nesse silêncio dito fundador (ORLANDI, 1999), o sentido real pode ser diferente do que o explícito nas palavras. Ao se usar a ironia, como Fairclough (2001) demonstra, um outro enunciado ecoa do enunciado emitido. No entanto, depende de os intérpretes serem capazes de reconhecer essa diferença. A ironia presente no silêncio fundador é mais sutil, segundo Orlandi (1999), mas permite sua contradição constitutiva.

- Outras “categorias” de silêncio são identificadas, como os que atravessam as palavras, “que ‘falam’ por elas, que as calam” (ORLANDI, 1999, p. 83). A negação carrega outros textos que seriam por demais polêmicos se fossem explicitados, conforme Fairclough (2001). Os metadiscursos seriam formas de distanciamento cujo objetivo é mostrar que o falante controla os níveis do discurso. Na verdade, implicitamente esse falante está muito mais arraigado ao

discurso do que quer fazer parecer. Os metadiscursos aparecem em expressões evasivas ou uso de metáforas.

Os silêncios correspondem a momentos de interdiscursividade de um discurso, pois são pontos de transformação de uma narrativa, onde se criam novos sentidos, gera novas narrativas. Assim, não pode ser desconsiderado no momento da análise dos dados, uma vez que pode indicar o atravessamento de outros discursos.

Entendidos esses conceitos, a seguir encontra-se a apresentação das possibilidades e limitações da análise de discurso como técnica de análise de dados.