O trabalho de investigação, como já descrito, se desenvolveu segundo a coleta de dados, em três etapas, não seqüenciais e muitas vezes simultâneas. As pesquisas bibliográfica e documental foram conduzidas primordialmente durante o período de maio a dezembro de 2004. No entanto, a consulta ao material e às demais fontes aconteceu até março do corrente ano. A pesquisa de campo foi conduzida de novembro de 2004 a janeiro de 2005, por meio das entrevistas semi-estruturadas cujo roteiro se encontra em anexo.
Segundo Spink (1995), a coleta de dados em pesquisa qualitativa exige longas entrevistas semi estruturadas acopladas a levantamentos paralelos sobre o contexto social e conteúdos históricos que constitutivos dos sujeitos sociais.
As entrevistas seguiram um roteiro pré-estabelecido, mas flexível, construído de forma a possibilitar a apreensão dos discursos principais que os atores do campo possuem e compartilham (em anexo).
Como Gaskell (2000) salienta, o emprego de entrevistas em pesquisas predominantemente qualitativas é muito comum nas ciências sociais empíricas. Creswell (1998) sugere perguntas abertas e também fechadas, e aconselha que o investigador tenha uma atenta escuta. As questões podem se modificar durante o processo ou refletir outras faces do problema, como de fato aconteceu na pesquisa aqui desenvolvida. De qualquer forma, as perguntas têm o objetivo de coletar as “palavras” e “imagens” dos participantes.
Além disso, Pinheiro (2000) defende a entrevista como interação negociada e de posicionamento na prática discursiva. A interação ocorre dentro de um contexto, em uma dinâmica de posicionamentos: um processo discursivo em que os participantes produzem e reproduzem suas idéias. Há a compreensão da pessoa em sua continuidade e multiplicidade – identidade e selves posicionados.
Gaskell (2000) acrescenta que o ponto de partida é entender a realidade como socialmente construída, mas sob condições que os indivíduos não planejaram. O cientista social introduz, então, “esquemas interpretativos para compreender as narrativas dos atores em termos mais conceptuais e abstratos, muitas vezes em relação a outras observações” (GASKELL, 2000, p. 65).
Dado, ainda, que a entrevista qualitativa oferece suporte para compreensão das relações entre os atores sociais, suas crenças, atitudes, valores e motivações, este instrumento de coleta de dados se ajusta ao propósito desta pesquisa. Cabe destacar que toda entrevista é uma troca
social, um processo de comunicação, em que a interação se dá também em níveis simbólicos. Há, nas palavras de Gaskell (2000, p. 74), uma “negociação de realidades”.
Por esse motivo, um dos pontos críticos de se usar a entrevista é a necessidade de consciência quanto à influência do lado pessoal e subjetivo do pesquisador. Esse fato deve ser levado em consideração na análise dos resultados e inferências, de modo que possíveis distorções não prejudiquem a consistência interna do trabalho e tampouco comprometam a investigação como um todo.
3.3.1 Sujeitos da pesquisa
Seleção é o termo mais apropriado no tipo de estratégia proposto para esta investigação, conforme orientação de Gaskell (2000). O termo amostragem implica em procedimentos estatísticos, em que os resultados podem ser generalizados por serem de natureza quantitativa e probabilística. Como Bauer e Aarts (2000) atestam, é inconteste a característica de representatividade de uma amostra. No entanto, a amostragem estatística não se aplica à pesquisa que enfatiza a dimensão qualitativa, bem como a representatividade nem sempre se presta a todas as situações, especialmente na ciência social. Conseqüentemente, a seleção dos sujeitos não pode seguir os mesmos procedimentos de uma pesquisa predominantemente quantitativa.
Conforme orientação de Rocha (2004), os critérios de escolha de respondentes são intencionais e de conveniência, e algumas vezes procuram-se participantes fora do considerado padrão, justamente para aprofundar a análise do fenômeno estudado. A análise de dados, centrada na totalidade do discurso, é demorada e tais estudos têm usado os sujeitos dito
“genéricos”, conforme Spink (1995). São poucos sujeitos mas que, devidamente contextualizados, têm o poder de representar o grupo no individuo.
Gaskell (2000) fornece alguns argumentos para sustentar essa afirmativa. Em uma amostra não probabilística, a margem de erro das respostas ligada a uma divisão de 50/50 com qualquer indicador poderia chegar a 40 por cento. Assim, se 30 médicos fossem entrevistados e 50% deles afirmarem prescrever remédios homeopáticos, poder-se-ia dizer com segurança que entre 20 a 80% da população de médicos iria sugerir tratamento homeopático. Gaskell (2000) assevera que o uso de números ou quantificadores vagos em pesquisas qualitativas indica uma interpretação não fidedigna e não legítima, e tampouco sustenta qualquer generalização para uma determinada população.
Quando o assunto for relevante para mais de um contexto social, a questão assume complexidade maior. A seleção dos sujeitos obedeceria a praxe, em que se lança mão de variáveis padrão, como segmentação geográfica e características sócio-demográfica. Supondo que cada uma dessas variáveis seja dicotômica, poderíamos ter 16 células para cobrir as possíveis combinações. Assim, seriam necessárias pelo menos 32 entrevistas, uma vez que, atenta Gaskell (2000), duas entrevistas é o mínimo para cada combinação.
No entanto, nem sempre esse número está dentro das possibilidades dos estudos. Uma alternativa seria empregar grupos naturais, em que as pessoas interagem conjuntamente: elas podem partilhar um passado comum ou ter um projeto futuro comum. O grupo natural compartilha valores, elementos simbólicos e uma linguagem (GASKELL, 2000), sendo mais ajustado a este projeto de pesquisa, pela própria definição de campo e premissa de realidade socialmente construída.
Gaskell (2000) observa que o número ideal de entrevistas vai depender de alguns fatores e chama a atenção para o fato de que a quantidade não melhora a qualidade do tema investigado. A interpretação da realidade é limitada a um número de versões e, como o grupo compartilha o mesmo universo simbólico, as representações sociais não se diferenciam de maneira significativa. Temas comuns começam a aparecer com certa freqüência, não sendo necessário um número muito grande de entrevistas para captar as informações que o investigador necessita.
Uma questão operacional é trazida à tona pelo referido autor: há uma perda de informações de cunho emocional e simbólico no processo de transcrição das entrevistas, uma vez que cada uma pode gerar um mínimo de 10 páginas. Nessa transcrição, algumas impressões e interpretações podem fugir da memória, e comentários, depoimentos ou relatos são passíveis de uma releitura e ressignificação por parte do pesquisador. Pelas razões descritas, Gaskell (2000) aconselha um limite máximo para cada pesquisador de 15 a 25 entrevistas individuais e cerca de 6 a 8 discussões com grupos focais. Acrescenta que a pesquisa pode ser dividida em fases, em que pode haver dois ou mais conjuntos de entrevistas, seguidos por análises.
Face ao exposto, estabelecidas a caracterização de cada população, foram selecionados 30 docentes e gestores representativos das principais universidades peruanas. Situados no mesmo contexto cultural, social, político e econômico, compartem o mesmo universo de significações, especialmente no que tange aos movimentos de mudança no ensino superior. No entanto, desses 30 apenas 17 puderam participar da pesquisa empírica.
Com relação às instituições de ensino superior, foram selecionadas as principais universidades públicas e privadas do Peru, concentrando-se na área de Ciências Sociais, pela condição de acessibilidade aos sujeitos. Assim, a escolha foi intencional, mas respaldada pela necessidade
de foco e, ainda, pelo fato de a realidade peruana estar se transformando no que se refere a políticas públicas, em especial com relação à Educação.