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1.7.1. Mudança do âmbito do atendimento: do individual para o coletivo

Entende-se que, para o desenvolvimento do trabalho em UBS’s é preciso haver novas idéias que indiquem uma possibilidade de leitura desta realidade. Entende-se também que esta perspectiva de trabalho exige do psicólogo mudanças que permitam que ele extrapole sua atuação, do plano individual de atendimento para o coletivo, que pode se desenvolver em instituições de saúde pública, como é o caso dos psicólogos entrevistados para a presente pesquisa.

A exposição de etapas do desenvolvimento da psicologia para a compreensão do âmbito a que está ligada em sua interpretação é ilustrada por BLEGER (1984) da seguinte forma, e é reproduzida aqui na íntegra pela importância de sua idéia:

“A) estudo de partes abstratas e abstraídas do ser humano (atenção, memória, juízo etc);

B) Estudo do ser humano como totalidade, mas abstraído do contexto social (sistemas mecanicistas, energetistas, organicistas etc.);

C) Estudo do ser humano como totalidade nas situações concretas e em seus vínculos interpessoais (presentes e passados). A partir deste terceiro enfoque conceitual e metodológico, o desenvolvimento cumpriu-se, ampliando os âmbitos em forma progressiva: a) âmbito psicossocial (indivíduos); b)

âmbito sócio-dinâmico (grupos); c) âmbito institucional (instituições); d) âmbito comunitário (comunidades)” (BLEGER, 1984, p. 34).

Para o entendimento sobre estes quatro âmbitos já mencionados, é preciso acrescentar a dinâmica que a psicologia clássica construiu durante o seu desenvolvimento: de (a) para (b), de (b) para (c) e de (c) para (d). De acordo com BLEGER (1984), o sentido inverso é o que pode propiciar melhor compreensão, pois o entendimento do indivíduo só é possível quando compreendemos a comunidade, a instituição e o grupo.

Existem diferenças claras entre a psicologia individual e social que são basicamente o modelo conceitual. Para BLEGER (1984), “pode-se estudar a psicologia do grupo (âmbito sócio-dinâmico) – por exemplo – com um modelo da psicologia individual, tanto como se pode estudar o indivíduo (âmbito psicossocial) com um modelo da psicologia social”. A argumentação do autor é clara ao dizer que, para que se possa passar do enfoque individual da atuação para o social, é preciso haver uma “reforma dos modelos conceituais e ampliação do âmbito de trabalho. A psicologia institucional requer e implica ambas as coisas” (BLEGER, 1984, p. 34).

Para BLEGER (1984) o enfoque da profissão deve passar da atividade individual, situação em que a relação doente e cura é a tônica, para a psico-higiene que trabalha com a população sadia visando a promoção da saúde. A mudança é de enfoque do modelo individual para o modelo grupal. A psicologia individual é uma forma de explicar o indivíduo e a sociedade, sempre do ponto de vista individual. A sociedade é olhada sob o ponto de vista das características individuais, ou seja, os conceitos que definem o ser humano acabam sendo extrapolados para o plano social.

A proposta do autor para o trabalho em psico-higiene é do desenvolvimento de uma leitura dos fenômenos sociais no sentido inverso do que a psicologia vinha fazendo. Se antes se olhava para a sociedade com as lentes do plano individual, BLEGER (1984, p. 35) propõe olhar para a instituição com o modelo da psicologia comunitária, para os grupos, com o modelo da psicologia institucional e comunitária, para o indivíduo com os modelos da psicologia dos grupos, das instituições e comunitárias.

Para BLEGER (1984) a psicologia está fadada ao fracasso se os psicólogos se ativerem unicamente ao atendimento individual.

A partir desta categoria, pode-se ler nas respostas dos entrevistados, como tem se dado a passagem do atendimento, que antes era de cunho individual e agora passa para questões coletivas.

1.7.2. Mudança do atendimento: do consultório para instituição pública.

A participação de psicólogos na Rede Pública traz, além de todas as questões já levantadas, uma outra, que remete à atuação deste profissional e o lugar que passa a ocupar como assalariado.

Esta categoria de análise é possível por meio do argumento de Guilhon de ALBUQUERQUE (1978). Ao fazer considerações acerca do trabalho do psicanalista, o autor trabalhou a hipótese de que as práticas médicas estão incorporadas à lógica da produção. A prática psicanalítica estaria em competição com a prática médica, inclusive quanto à questões econômicas. Deste modo, a prática da psicanálise também faria parte da lógica da produção.

Na lógica da produção, a organização do trabalho dos profissionais de saúde deixa de ser artesanal para se tornar uma parte do processo industrial. Nesta argumentação, o autor vai mostrando que: “... o tipo dominante de profissional – que trabalha de acordo com o modelo do produtor individual independente – perde pouco a pouco sua autonomia e sua predominância e torna-se cada vez menos viável do ponto de vista econômico” (ALBUQUERQUE, 1978, p. 100).

A psicanálise tem como marca de seu trabalho, a independência do profissional que trabalha individualmente. Mas, com a realidade sócio-econômica em nosso país, os psicanalistas podem ser encontrados trabalhando em instituições terapêuticas, de modo assalariado – consideramos ser possível ampliar a idéia transportando-a para os psicólogos como um todo.

É esta análise que ALBUQUERQUE (1978) faz do processo de transformação do trabalho do psicanalista, que é transportada para a toda categoria “psi”, que aos poucos vai perdendo sua independência para começar a fazer parte de “instituições terapêuticas – hospitalares ou quase hospitalares – onde não são mais proprietários de seus instrumentos e objeto de trabalho” (ALBUQUERQUE, 1978, p. 100).

No entanto, neste processo, o psicanalista permanece com o “... controle técnico indi- vidual sobre o instrumento e o objeto de trabalho” (ALBUQUERQUE, 1978, p. 100) o que causa um conflito entre o profissional e a administração da instituição onde presta serviços.

O autor lembra que este processo é idêntico ao ocorrido com os artesãos que deixaram de ter a propriedade do seu objeto de trabalho e, muitas vezes, até mesmo de seus instrumentos de trabalho, mas, permaneceram com o controle técnico das operações (ALBUQUERQUE, 1978).

Essa categoria de análise relata a relação de trabalho entre os psicólogos, suas Unidades de trabalho, suas coordenações e seus municípios, a partir do levantamento das experiências profissionais dos entrevistados.

1.7.3. Mudança do enfoque do trabalho: do curativo para o preventivo:

Na perspectiva da Atenção Primária à Saúde, em que as ações básicas de saúde estão voltadas para aspectos preventivos, a atuação dos psicólogos nas UBS’s precisa levar em conta que há uma mudança no enfoque de seu trabalho: do curativo para o preventivo.

De acordo com BLEGER (1984) “a melhor medicina seria aquela na qual profissionais dedicassem seus esforços à saúde pública, quer dizer, dentro de uma organização que centre e dirija os esforços coletivos para proteger, fomentar e reparar a saúde” (p. 19), A proposta de trabalho do autor está centrada na prevenção. O que se percebe da Psicologia como profissão é que ainda nos dias de hoje, tem estado voltada para uma abordagem mais curativa do que preventiva.

Pode-se basear no que BLEGER (1984) propõe de que o psicólogo clínico exerça sua função social, que não é “basicamente a terapia e sim a saúde pública e, dentro dela, a higiene mental” (BLEGER, 1984, p. 20). O autor instiga os psicólogos a exercerem sua função social, através da higiene mental na saúde pública, trabalhando no sentido da psico-higiene e não no de esperar que as pessoas adoeçam, para depois intervir. Exercer a função social, para o autor, é a atuação no sentido da prevenção. Este exercício vem completar o que BLEGER (1984) cita como o objetivo mais recente da Higiene Mental, que amplia a atuação do psicólogo, pois “não se refere tão só à doença ou à sua profilaxia e sim também à promoção de um maior

equilíbrio, de um melhor nível de saúde na população” (BLEGER, 1984 p. 22). Para ele, a mudança de enfoque da doença para a saúde proporciona o desenvolvimento pleno dos indivíduos e da comunidade total.

A adoção de promoção de saúde em comunidades é algo que não pode ser descartado frente à demanda e aos problemas urgentes, pois nestes casos é preciso fazer o atendimento assistencial, ou profilático, mas é necessário ter um critério para definir o que é prioridade. Para BLEGER (1984), em toda equipe de saúde pública deve haver um psicólogo para exercer funções de psico-higiene:

“A higiene mental é um ramo da saúde pública e deve ser encarada em concordância com a organização e o nível que esta última tenha alcançado 'em cada lugar, de tal maneira que não podem se desvincular entre si.

A higiene compreende o conjunto de conhecimentos, métodos e técnicas para conservar e desenvolver a saúde” (BLEGER, 1984, p. 25).

Mudar o enfoque do trabalho não é uma tarefa fácil. Deve-se considerar que a formação a que todos os psicólogos estiveram sujeitos no decorrer de seus cursos de Psicologia era enfatizada (e ainda é) na perspectiva da leitura do indivíduo por seus sintomas, suas dificuldades e o modo como se aprendia a atuar estava voltado para a cura. No entanto, BLEGER (1984) mostra que há uma perspectiva que permite o desenvolvimento do trabalho neste enfoque.

O trabalho em UBS’s, na perspectiva da Atenção Primária à Saúde e, o objetivo, citado acima, da higiene mental que propõe BLEGER (1984), têm propostas semelhantes. Para o autor, o atendimento de modo integral à saúde tem ênfase na qualidade de vida da população e os problemas, não crônicos, podem ser tratados na Rede Básica de atendimentos. Para o trabalho do psicólogo inserido na UBS, propõe-se a perspectiva da promoção e da prevenção e o atendimento poderia ser tanto individual, como coletivo, o que, de acordo com BLEGER (1984) é possível, desde que a leitura sobre o ser humano se dê no sentido inverso do que a Psicologia costuma fazer, ou seja, que ela ocorra com o entendimento da instituição a partir da Psicologia Comunitária; com a leitura dos grupos por meio da Psicologia Institucional e da Comunitária e do indivíduo, na perspectiva das Psicologias dos Grupos, Institucional e Comunitária. Esta categoria possibilitará a visualização das questões relativas ao atendimento nas UBS’s, permitindo que se faça a análise do modo como a interpretação

desta realidade vem sendo conduzida por estes profissionais que são chamados a executar uma tarefa preventiva.

1.7.4. Mudança de área de atuação: da saúde mental para a psicologia da saúde.

De acordo com CAMPOS (1989) as UBS estão voltadas tanto para o atendimento clínico quanto para os trabalhos de prevenção e promoção. O trabalho do psicólogo neste contexto, também seguem esta recomendação (SILVA, 1988). JACKSON & CAVALARI (1991), já constatavam em sua pesquisa a existência de documentos que faziam a menção desta orientação para o trabalho dos psicólogos nas Unidades Básicas de Saúde.

Após estas pesquisas, começou a se estruturar uma possibilidade de interpretação teórica para as questões da Psicologia, voltadas para a saúde. Deste modo, surge a Psicologia da Saúde, que é assim definida por MATARAZZO (1980): “o conjunto das contribuições específicas, educacionais, científicas e práxicas da disciplina da Psicologia, para a promoção e manutenção da saúde, prevenção e tratamento da doença e disfunções relacionadas” (In OGDEN, 1999).

Com esta possibilidade, a Psicologia amplia sua forma de atendimento e interpretação das questões de saúde, pois antes, as ações em UBS’s eram, em grande parte, interpretadas por meio da Saúde Mental.

A Psicologia da Saúde é o enfoque do trabalho para o qual está voltada a Psicologia nas UBS’s. Situações que requeiram um atendimento específico de Saúde Mental são encaminhadas para os Ambulatórios de Saúde Mental e para os Centro de Atenção Psicossocial - CAPS, no caso dos municípios que possuem este serviço.

Trata-se de uma área relativamente nova de estudos e de trabalho para os psicólogos. “A psicologia da Saúde constitui, provavelmente, o mais recente desenvolvimento no processo de inserção da Psicologia na compreensão da saúde” (OGDEM, 1999), na medida em que começa a ocupar o espaço que permite a atuação no sentido de uma leitura integrada do ser humano, desafiando “a cisão que as ciências fizeram do corpo e mente” (OGDEM, 1999).

Para MURPHY (1997), a promoção de saúde esteve durante todo o tempo de sua existência, voltada para o entendimento e prevenção das doenças, no plano físico: “Só mais

recentemente a promoção da saúde se debruçou sobre assuntos de saúde mental”. (MURPHY, 1997, p. XI). Para ele, a psicologia pode facilitar a promoção de saúde a realizar seus objetivos.

O autor entende que a promoção de saúde tem ampliado seu foco de atenção, pois antes:

“A educação para a saúde tem-se concentrado prioritariamente na mudança do comportamento individual ou de factores intrapessoais como as atitudes e as crenças, julgados determinantes do comportamento, a fim de promover um melhor estado de saúde”. (MURPHY, 1997, p. XI).

Sua participação tem estado voltada para outros aspectos que não necessariamente os individuais e intrapessoais: “Em contrapartida, o desenvolvimento histórico da promoção da saúde assistiu a um movimento para lá da educação, a fim de incluir medidas econômicas, ambientais, sociais e legislativas para melhorar a saúde da população”. (MURPHY, 1997, p. XI).

II. MÉTODO

A presente pesquisa surgiu como uma necessidade de se conhecer o trabalho que os psicólogos estão desenvolvendo nas UBS’s da Região do Grande ABC. Para o entendimento desta atuação, buscou-se nas pesquisas já realizadas no decorrer dos últimos trinta anos sobre a profissão da Psicologia, o subsídio para que se pudesse entender qual o caminho a ser percorrido para levantamento do relato da atuação. Deste modo, a presente pesquisa pretendeu se inserir nesta tradição de pesquisas em Psicologia.

MELLO (1971 E 1975) já indicava a grande presença de psicólogos na área clínica, juntamente com pesquisas realizadas posteriormente pelo CRP-06 e o CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA.

Na tentativa de entender como pensam os psicólogos a respeito de sua atuação, como definem e interpretam o trabalho que realizam, CARVALHO (1984) discute que não há critérios de conceituação para a “atuação profissional”. Os psicólogos pesquisados por MELLO (1975) e CARVALHO (1984) revelaram uma conceituação voltada ao local onde realizam o trabalho. Se estivessem no consultório, então atuavam em clínica. Se atendessem uma população de baixa renda, então faziam Psicologia Social. CARVALHO (1984), coloca que não está claro para os psicólogos um “conceito de atuação”.

Ao trabalhar o conceito de “profissão” BOURDIEU (1989), fala que a linguagem é o meio pelo qual se dá a construção daquilo que chamam de profissão:

“A linguagem levanta um problema particularmente dramático para o sociólogo: ela é, com efeito, um enorme depósito de pré-construções naturalizadas, portanto, ignoradas como tal, que funcionam como instrumentos inconscientes de construção”. (BOURDIEU, 1989, p. 39).

A profissão, para BOURDIEU (1989) é construída socialmente através da linguagem que o próprio grupo “profissional” utiliza para descrever-se, para representar-se. A partir daí, se insere no contexto social:

“Profession é uma palavra da linguagem comum que entrou de contrabando na linguagem científica; mas é, sobretudo, uma construção social, produto de

todo um trabalho social de construção de um grupo e de uma representação dos grupos, que se insinuou docemente no mundo social”. (BOURDIEU, 1989, p. 40).

Assim, apresentamos o objeto de estudos desta pesquisa que é a própria profissão de psicólogo, em especial, nas Unidades Básicas de Saúde da Região do Grande ABC, numa perspectiva de dar continuidade às pesquisas sobre a categoria profissional que já vem ocorrendo há 30 anos.

Por meio da compreensão do movimento de mudanças por que passa a Psicologia e das inúmeras mudanças que vem ocorrendo em seu exercício, em função das áreas emergentes, chegou-se à metodologia da pesquisa. Ela foi construída por meio da compreensão da atuação dos psicólogos no Brasil nos últimos 30 anos. A Psicologia tem construído sua imagem profissional no decorrer de suas atividades práticas, cujos agentes deste processo são os próprios psicólogos, nas situações em que ela se vê chamada a atuar.

Montou-se um roteiro de questões que, à luz das pesquisas já realizadas, traçasse o perfil da formação profissional dos entrevistados. O instrumento procurou levantar algumas questões sobre saúde, prevenção e promoção de saúde e as atividades desenvolvidas por psicólogos nas Unidades Básicas de Saúde da Região do Grande ABC.

A pesquisa pretendeu trabalhar com o universo de psicólogos que trabalhavam nas UBS’s das cidades da região que possuem este tipo de atendimento. Constatou-se a existência de um total de quarenta e oito psicólogos nas UBS’s. Destes, entrevistou-se trinta e oito psicólogos que se dispuseram a participar, de quatro das sete cidades que compõem o Grande ABC. A duração deste processo foi de seis meses de pesquisa.

Elaboramos quatro categorias de análise e por meio delas, fizemos a leitura dos dados coletados. São elas: 1) Mudança do âmbito do atendimento: do individual para o coletivo; 2) Mudança do atendimento: do consultório para instituição pública; 3) Mudança do enfoque do trabalho: do “curativo” para o preventivo; 4) Mudança de área de atuação: da saúde mental para a psicologia da saúde.

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