Foi perguntado aos psicólogos o que eles achavam sobre a colaboração que a Psicologia tem a dar nas áreas da prevenção e promoção. Grande parte dos psicólogos relatou a importância da presença da psicologia na realização de tais atividades, apesar de se constatar a dificuldade que é para eles, extrapolarem do plano individual para o coletivo, neste assunto. Percebeu-se que esta dificuldade esteve associada à falta de compreensão de como este assunto deveria estar relacionado com o trabalho que realizam. Alguns deles perguntaram aos entrevistadores se a questão era sobre a Psicologia em geral. Boa parte dos entrevistados procurou relacionar a prevenção às questões mais abrangentes da Psicologia, distanciando-a, com isto, de sua atividade na UBS.
Perguntou-se também a opinião deles, sobre a contribuição que a Psicologia tem a oferecer para os trabalhos de prevenção e promoção. Dos trinta e oito entrevistados, somente vinte responderam, o que significa 52,6%. As respostas mais freqüentes foram: oportunidade de promover saúde pública no serviço público e o trabalho com auto estima, conforme Tabela 24.
N % Oferecimento da escuta 2 5,3 Repartir o conhecimento 2 5,3
Diagnóstico 1 2,6
Trabalhar a auto estima 6 15,8 A ponte entre o médico/paciente/medicação 1 2,6 Oportunidade de promover saúde pública no serviço público 8 21,1 Respostas válidas Total 20 52,6 Não se aplica 11 28,9 Não informado 7 18,4 Respostas perdidas Total 18 47,4 Total 38 100,0
Os relatos desta colaboração são, em sua maioria, voltados à saúde mental: a prevenção da doença, antes que ela fique crônica ou, antes que ela surja; que a prevenção passa pela informação, pela educação. No entanto, os exemplos citados por eles são de casos individuais, resolvidos no âmbito do atendimento em psicologia clínica.
De acordo com as quatro categorias colocadas pela presente pesquisa, percebe-se que a mudança proposta por BLEGER (1984) em que é preciso passar de um enfoque curativo para o preventivo, para o desenvolvimento das ações coletivas, voltadas à prevenção, encontra-se, de acordo com os relatos dos psicólogos entrevistados, com dificuldades para se desenvolver, no ambiente das UBS’s.
Neste relato dos entrevistados, as mudanças necessárias para o desenvolvimento do trabalho nas UBS’s estão longe de serem atingidas e, alguns casos, nesta perspectiva, tornam- se inviáveis: do âmbito do atendimento, do individual para o coletivo, como meio de ação; de mudança de área de atuação, da Saúde Mental para a Psicologia da Saúde.
Foi perguntado aos entrevistados o que eles entendiam por prevenção. Foram coloca- das todas as respostas levantadas na Tabela 25, onde se pode encontrar uma grande variedade de respostas: orientação, conhecimento, educação, qualidade de vida etc.
Total
Grupos educativos 1
Qualidade de vida 3
Conhecimento, educação. 5 Oferecer capacidade de escolha e arcar com conseqüências 1 Trabalho com auto estima, com potencial, para uma vida digna. 2 Isolar campos de risco 1 Ouvir, escuta a pais. 1 Sensibilizar, motivas, mobilizar o indivíduo a mudar. 1 Trabalhar antes que os sintomas apareçam 3 Tomada de consciência 2
Orientação 6
Garantir o acesso da população à informação 1 Ampliar perspectiva de trabalho do psicólogo 1 Equilibrar (equilíbrio) 1
Autoconhecimento 1
Educação em saúde 3
Prevenção é
Trabalho na área social, saúde pública, psicológica. 1 Informação para mudanças sócio-econômicas 1
Uma guerra 1
Total 37
Tabela 25 Prevenção
Falar em promoção foi algo bem difícil para os entrevistados. A princípio, a grande maioria mostrou não entender do que se tratava; todavia, as respostas demonstraram uma aproximação de sua prática profissional. Observa-se que o entendimento de Promoção de Saúde aproxima-se do que foi falado sobre Prevenção, sendo que os conceitos que mais apareceram estão voltados para a educação, a informação, a formação e a qualidade de vida.
“Prevenção: Pensando no meu trabalho que é basicamente com crianças. Então, me vem a Educação”.
“Promoção de Saúde: Me vem uma coisa de marketing. Promoção de saúde, num me vem claro este termo. Como veio a idéia de marketing, talvez seja até a informação. Promover a saúde talvez seja até a veiculação. Da informação, pra que um maior número de pessoas possam ter acesso”. (Ana Maria, 43 anos).
“Prevenção, olha prevenção como eu vejo, seria toda ação que você desenvolve pra prevenir a ocorrência de determinado problema ou a complicação de determinado problema, acho que é mais ou menos isso”. “Promoção de Saúde: São ações que visam mais a promover qualidade de vida pra população, consciência de direitos, oportunidades de ações que a pessoa vai ter uma repercussão direta, é mais nessa linha”. (Erasto 43 anos). “Prevenção. Eu acho que é assim, você partir pra orientação mesmo, partir dali, desde como eu te falei, desde a gestação mesmo, você já ta prevenindo os futuros problemas, mesmo com orientação”.
“Promover saúde psicológica. Acho que entra na questão até da prevenção, quando você está prevenindo você está promovendo saúde, porque depois que ta, você só vai tratar a doença, né. No caso, tentando melhorar”. (Ernesto, 38 nos).
“Prevenção: Eu parto muito princípio assim, você tá prevenindo não é o remediar, tem que vir antes, pra prevenir, então acho que psicologicamente, na área psicológica, acho que dá pra você desenvolver vários trabalhos com esse intuito mesmo de não chegar só, a pessoa já vir, a pessoa já tá comprometida pra tá vindo buscar atendimento, na área psicológica dá pra você pensar em trabalhos de grupo de orientação, grupos nas escolas que na parte da saúde dá pra gente tá aliando a questão da saúde com a área escolar, é de fato você desenvolver programas de forma a conscientizar, a dar informação pras pessoas, eu acho que você tem que ir antes, não é oferecer só o tratamento, acho que antes de se pensar no tratamento também tem que se pensar em várias outras medidas justamente pra isso mesmo, acho que é
informar, é poder tirar as dúvidas, é proporcionar espaço pra que as pessoas possam ter acesso as informações mesmo”.
“Promoção: Acho que na verdade vai mais ou menos na mesma linha, acho que quando você busca prevenir, você busca dar informações, você busca tirar dúvidas, e acho que você promover saúde na área da psicologia, acho que é justamente você proporcionar esses grupos, esses grupos aos quais as pessoas possam ter acesso, pra buscar essas informações, pra buscar tirar suas dúvidas, pra buscar ter ajuda, até antes que elas possam ficar comprometidas, seja levemente, seja gravemente”. (Rosemary, 28 anos).
Para visualização das respostas encontradas, a Tabela 26, traz um apanhado de tentativas de definição do que, para os entrevistados, é Promoção de Saúde.
Total Educar, informar, formar. 7
Alertar, informar. 1 Oferecer integridade, cidadania. 1
Viver melhor 3
Trabalhar com grupos para atender população maior 1 Orientação, conhecimento. 3 Ouvir/escutar pais 1 É o antes, que vem em todas as etapas da vida. 2 Discutir questões ligadas ao viver a vida e a realidade. 2 Veiculação da informação a um maior número de pessoas 2 Oferecer alternativas 1 Garantir o acesso 2 Favorecer o desenvolvimento 1 Estar junto, facilitar. 1 Minimizar sintomas, sofrimento. 1 Divulgação, conscientização. 1 Atividade terapêutica 2 Promover qualidade de vida, direitos, oportunidades 2 Cuidar da doença já instalada 1 Promoção é
Viver com dignidade 1
Total 36
Tabela 26 – Promoção de Saúde
Procurou-se levantar o grau de satisfação entre os psicólogos entrevistados, no que se refere à participação destes na saúde pública, no trabalho que realizam no dia a dia das
UBS’s. Foram encontrados vinte e sete entrevistados que disseram estarem satisfeitos com sua participação. Este é um dado importante, que representa 73% da população que respondeu à pergunta. (Obs: um psicólogo não respondeu à questão) – Tabela 27.
Total % Plenamente satisfatória 5 13,5% Satisfatória 27 73,0% Pouco satisfatória 4 10,8% Participação na saúde pública Insatisfatória 1 2,7% Total 37 100%
Tabela 27 – Satisfação com seu trabalho na UBS
Boa parte daqueles que disseram estar satisfeitos, ou plenamente satisfeitos com sua participação da Saúde Pública, ao fazerem suas afirmações, levaram em consideração todas as dificuldades que enfrentam para a realização de suas atividades, bem como as questões sociais que influem na demanda e as questões políticas que repercutem na qualidade do atendimento à população. Neste sentido, foi perguntado o que seria necessário para o bom desenvolvimento de suas atividades na UBS. Num primeiro momento, as respostas foram estimuladas por meio de alguns itens previamente organizados, conforme consta na Tabela 28. Pode-se observar que, em relação às estas questões, o índice de respostas foi bem alto, demonstrando que a maioria concorda que há uma série de necessidades não supridas, para a melhora das condições de trabalho e conseqüente melhoria do atendimento à população.
N % Condições físicas 34 89,5% Verbas 37 97,4% Material 37 97,4% Instrumentos 32 84,2% Suporte técnico 37 97,4% Maior integração entre os profissionais 36 94,7% Maior participação de instâncias superiores 36 94,7% Tabela 28 – necessário para o desenvolvimento do trabalho
Na Tabela 29, encontram-se as respostas que os entrevistados deram, a fim de comple- tar a questão relativa às necessidades para o desenvolvimento de seu trabalho na UBS. Além da falta de verbas, de recursos, bem enfatizada por eles, pode-se encontrar o relato da falta de pessoal, de que trabalham com o mínimo e que há falta de formação para o trabalho na UBS.
Na citação a seguir, encontramos a expressão do esforço profissional para a superação dos obstáculos existentes, para a continuidade do trabalho na UBS. Note-se (no anexo), que esta frase foi colocada frente à questão que procurou levantar o grau de satisfação com o trabalho na UBS, mas pode ser usada na análise das dificuldades encontradas:
“Olha, eu sou o próprio beija-flor daquela história do incêndio que ele vai gota a gota jogar água, mas eu acho que minha gota a gota eu to fazendo direitinho, então eu acho que dentro daquilo que eu faço, o meu atendimento aqui, eu faço com a maior ética, a maior força que eu tenho interna, todos os meus conhecimentos, eu acho que o pouquinho que eu faço, a gota a gota do enorme incêndio, ela é satisfatória sim, eu me avalio direitinho sim, não deixo minhas coisas pessoais interferir aqui no meu trabalho”. (Tarsila, 58 anos).
N % Relato das dificuldades encontradas, no trabalho em equipe multiprofissional. 5 13,2%
Falta de pessoal 20 52,6%
Filas de espera grandes 13 34,2% Falta de verbas, recursos 26 68,4% Falta de formação para o trabalho na UBS 11 28,9% Trabalha-se com o mínimo 15 39,5% Aprende-se fazendo, não há fórmulas, há diferenças regionais 5 13,2% Currículo escolar fraco (formação psi) 11 28,9% Que a psicologia deixe de ser o patinho feio da saúde 1 2,6%
Tabela 29 – relato das necessidades constatadas nas UBS’s
Pode-se observar na Tabela 30, os motivos que levaram os entrevistados a escolher este trabalho, na UBS. Observa-se que os entrevistados ficaram à vontade para dar uma, ou mais respostas. Na Tabela 30, pode-se observar todas as respostas. Ressalta-se a importância de se observar que nem todos os entrevistados fizeram opção por este trabalho, relatando que
não tiveram outra opção. Mas, observa-se também, que há uma compreensão sobre o caráter social, público e coletivo do trabalho do psicólogo nas UBS.
N % Passou no concurso 12 31,6% Não teve outra escolha 8 21,1% Foi transferido 11 28,9% Questão financeira 2 5,3% Acredita no trabalho 22 57,9% Gosta do trabalho em prevenção e promoção 19 50,0% Não se identifica com o trabalho de consultório 10 26,3% Identifica-se com o trabalho na UBS / Serviço Público 15 39,5% Gosta do trabalho em periferia / carentes 10 26,3% Gosta do trabalho com pessoas (lado social) 8 21,1% Ter sensibilidade pública. Gosta de ser servidor público. 6 15,8% Identifica-se com trabalho em equipe multidisciplinar 7 18,4% Gosta do trabalho em instituição 6 15,8% Autonomia do trabalho 2 5,3% Por causa do desafio de fazer algo diferente 8 21,1% Por ser de sua área 1 2,6% Porque a saúde pública concilia o social com a parte clínica 1 2,6%
Tabela 30 – faz este trabalho porque
Finalizando a exposição dos resultados, na Tabela 31, pode-se perceber que os psicólogos têm uma noção do que seria ideal para uma boa participação da Psicologia em Unidades Básicas de Saúde. Aliando a resposta às necessidades levantadas, vinte psicólogos disseram que é preciso haver mais profissionais nas UBS’s, para o atendimento da demanda, e dezoito disseram que é preciso garantir o acesso da população ao sistema. O que é ideal, segundo eles, é diminuir a pressão que a demanda lhes causa, a fim de proporcionar atendimento aos que procuram por seus serviços.
A todo o momento, em quase todas as entrevistas, percebe-se a dificuldade que eles têm em lidar com uma grande demanda e a impotência que está na limitação das próprias condições de trabalho, que não permite que fiquem satisfeitos com esta dificuldade diária, que incide sobre eles. Há aqueles que falaram sobre a necessidade de se fazer estudos sobre qual é a demanda de serviços, por região. Como não há, eles não têm como saber se o trabalho que desenvolvem, baseado na orientação local, é o que de fato o que aquela população precisa.
N % Atendimento ideal é ter o serviço à disposição, garantir o acesso. 18 47,4%
Não esperar em filas 8 21,1%
Ter mais profissionais 20 52,6% Estudo para determinar programas de acordo com a demanda da região 7 18,4% Integração com outras secretarias para trabalho em parceria 6 15,8%
Respeito 7 18,4%
Não soube dizer 2 5,3%
Quando consegue atingir seu objetivo 1 2,6% O ideal não existe, é uma instância de poder 5 13,2%
O ideal é acolher 2 5,3%
Ideal é o atendimento substitutivo à internação psiquiátrica 2 5,3% Criação de um centro de atend. à criança e ao adolescente p/ os aspectos físicos e emocionais 1 2,6% Serviço de boa qualidade e que as pessoas pudessem participar das decisões 2 5,3%
Tabela 31 – o que seria ideal para o desenvolvimento de seu trabalho
Há também cinco psicólogos que entendem que o ideal não existe, que é uma instância de poder.
Considera-se que há uma distância entre a teoria (o discurso) e a prática, pois a proposta das UBS’s a prevê como porta do sistema de saúde. Nela seria possível encontrar uma equipe multiprofissional pronta para resolver a maioria das questões que ali chegam. E ainda, onde se é possível trabalhar numa perspectiva voltada para o coletivo.
Em geral, as propostas iniciadas pelas políticas públicas de saúde começam bem. Estes programas vão bem até o ponto em que surge uma nova proposta e então começam a minguar. É este sentimento que muitos colocaram. O ideal fica então no contexto do discurso, enquanto não se oferecem condições para se chegar perto daquilo que se deseja. Faltam verbas, falta material, falta pessoal, os profissionais trabalham cansados, fazendo dupla jornada para se manter, pois os salários não são satisfatórios para que eles se dediquem exclusivamente a esta atividade. Neste contexto, as ações e as boas intenções caem no vazio, pois a dificuldade para o desenvolvimento de seus trabalhos é tamanha que não permite que elas ultrapassem um determinado limite.