Para compreensão do exercício profissional dos psicólogos nas UBS’s, foram levantados, a fim de montar as características deste trabalho nos municípios pesquisados, alguns dados que apresentados a seguir.
A partir da Tabela 5, constata-se quatro tipos de carga horária de trabalho nas prefeituras: quarenta horas, trinta horas, vinte e quatro horas e vinte horas. Aqueles que trabalham trinta horas são os concursados pelo Estado, antes de 1990, antes da Municipalização dos serviços das UBS’s. Aqueles que trabalham quarenta horas são concursados após 1990 e já entraram no sistema vigente das Prefeituras, que é o trabalho de quarenta horas semanais. Observou-se também que os dois psicólogos que aparecem com vinte e quatro horas semanais de trabalho têm uma jornada de quarenta horas na Prefeitura, mas prestam serviços como psicólogos, em dois equipamentos diferentes, com atuação diferente. Estas vinte e quatro horas referem-se ao período que estão nas UBS’s. A diferença de carga horária entre os psicólogos que trabalham na rede pública, principalmente entre aqueles que trabalham trinta e quarenta horas, causa grande desconforto entre eles. De acordo com as informações que coletadas, tem havido negociações com as prefeituras para tentar chegar a um acordo. Olhando novamente a Tabela 1, são encontrados quatro psicólogos que se recusaram a participar da presente pesquisa, sendo que três destes psicólogos, da cidade de Diadema, marcaram sua posição ao se recusarem a participar da pesquisa, como uma forma de protesto à jornada de quarenta horas semanais, alegando que responder às perguntas seria uma atividade extra. Talvez este fato tenha ocorrido em função da autorização da coordenação da cidade para a realização da pesquisa, que pode ter suscitado neles a idéia de que a pesquisa pudesse ser de interesse de suas coordenações.
ALBUQUERQUE (1978), ao considerar que os psicólogos são assalariados e vinculados ao serviço público, está levando em conta que o profissional “psi” não tem mais a propriedade de seu trabalho. A demonstração de recusa em participar da pesquisa, utilizando- se da argumentação da carga horária, vai ao encontro do que afirma o autor, pois optar por não participar da pesquisa é o exercício do domínio que lhes sobrou, que está em seus instrumentos de trabalho, seus métodos. Assim, estes psicólogos fizeram a opção de como utilizariam melhor seu tempo.
Do mesmo modo, pode-se perceber que a questão da carga horária reúne a maioria dos psicólogos em torno de uma reivindicação, que é a redução de jornada. Não percebemos nenhuma outra manifestação que tivesse tanta adesão. Estas circunstâncias deixam os psicólogos à mercê da administração, que exerce seu poder de proprietário do trabalho.
Este é um exemplo da categoria “Mudança do atendimento: do consultório para instituição pública” onde se discute a questão do trabalho assalariado.
Na observação da Tabela 10, vê-se que, dos trinta e oito psicólogos entrevistados: a maioria deles, vinte e cinco (65,8%), faz uma jornada de quarenta horas, oito (21,1%) trabalham trinta horas, dois (5,3%) vinte e quatro horas e três (7,9%) trabalham vinte horas semanais.
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total
N 1 2 3 % 33,3% 66,7% 100,0% 20 % na Cidade 11,1% 12,5% 7,9% N 1 1 2 % 50,0% 50,0% 100,0% 24 % na Cidade 16,7% 6,3% 5,3% N 2 6 8 % 25,0% 75,0% 100,0% 30 % na Cidade 12,5% 85,7% 21,1% N 5 8 11 1 25 % 20,0% 32,0% 44,0% 4,0% 100,0% Carga horária semanal de trabalho UBS 40 % na Cidade 83,3% 88,9% 68,8% 14,3% 65,8% N 6 9 16 7 38 % 15,8% 23,7% 42,1% 18,4% 100,0% Total % na Cidade 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Tabela 10 – Carga Horária de Trabalho Semanal.
No levantamento inicial da cidade de Mauá, constatou-se que ali existia um tipo de trabalho de psicologia nas UBS’s. Quando as entrevistas começaram a ser feitas naquele município, cerca de quatro meses depois do levantamento, constatou-se que o trabalho estava em franca mudança. Os psicólogos haviam passado a trabalhar no sistema de Ambulatório de Saúde Mental. É importante ressaltar que oito dos nove psicólogos entrevistados em Mauá
contaram esta modificação. A psicóloga que não relatou esta mudança estava há pouco tempo na Unidade e ainda se familiarizava com o trabalho.
Mesmo depois dessa constatação, optou-se por manter a cidade de Mauá, por ser uma transformação recente e estes psicólogos ainda estarem trabalhando em UBS’s e não terem sido transferidos para os CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial), ainda em fase de implantação. Outro motivo é que o trabalho pretende registrar o movimento por que passa a profissão. Constata-se com esta mudança, que a cidade já não possui mais o trabalho de Psicologia em UBS’s na perspectiva do atendimento primário à população. Basicamente o trabalho passa, com estas mudanças, a ser no sentido da atenção secundária, do ambulatório.
Na observação da Tabela 5, pode-se perceber que 62,5%, cinco dos oito psicólogos que trabalham com Ambulatório de Saúde Mental, informaram que sua formação no Curso de Psicologia foi pouco suficiente para o trabalho que desenvolvem.
De um modo geral, através das entrevistas realizadas, pôde-se traçar um panorama das atividades para as quais as UBS’s estão voltadas. De acordo com a Tabela 11, os psicólogos entrevistados informaram que a cidade de Diadema tem trabalhado com prevenção e promoção. Atualmente, a cidade de Mauá está desenvolvendo um trabalho voltado para o atendimento em Ambulatório de Saúde Mental. A cidade de Santo André possui a maior diversificação em seus atendimentos entre os municípios pesquisados. A cidade presta atendimento em várias áreas como: Prevenção e Promoção; Diagnóstico Diferencial; DST- AIDS; Saúde da Mulher; Reprodução, planejamento familiar, esterilização; Saúde do escolar e problemas de aprendizagem. Percebemos, neste município, uma tendência de trabalho para o atendimento individual. Por último é mencionada a cidade de São Bernardo do Campo, cujo atendimento da UBS está mais próximo da proposta colocada por CAMPOS (1989), estando voltado para o trabalho em prevenção e promoção, na perspectiva do atendimento individual e em grupo, (ressalta-se que a organização por estes temas de atuação é dada pelas informações prestadas pelos entrevistados).
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total Prevenção e promoção 6 5 7 18 Ambulatório de saúde mental 9 9 Diagnóstico Diferencial 1 1 Tipo de
atendimento da unidade
Saúde da mulher 1 1 Reprodução, planejamento
familiar, esterilização. 5 5 Centro de especialidades 1 1 Saúde do escolar, problemas de
aprendizagem. 1 1
Total 6 9 16 7 38
Tabela 11 – Tipo de atendimento por cidade.
A seguir são relatadas as respostas dos psicólogos coletadas pela pesquisa, a partir de perguntas previamente elaboradas. Mais adiante poder-se-á ver, no relato dos psicólogos, quais são as atividades que eles informaram na entrevista como aquelas que eles executam nas UBS, além do que foi perguntado pelas pesquisadoras.
Foi perguntado a todos se fazem triagem na UBS. Dos trinta e oito entrevistados, dois informaram que não fazem e trinta e seis que fazem, (Tabela 12).
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total Sim 6 9 14 7 36 Faz triagem
Não 2 2
Total 6 9 16 7 38 Tabela 12 - Triagem
Questionados sobre psicodiagnóstico, vinte e um psicólogos informaram que realizam esta atividade na UBS enquanto dezesseis informaram que não fazem este trabalho. Verificamos que somente na cidade de Santo André há onze psicólogos que fazem psicodiagnóstico, que representam 52,4% do total que informaram que executam esta atividade (Tabela 13). Os entrevistados referiram-se a esta atividade como algo que se desenvolve de modo precário, com poucos instrumentos de avaliação, e, em sua maioria, através de desenhos e uns poucos jogos. Alguns psicólogos relataram que, na ausência de material para o desenvolvimento desta atividade, traziam material de casa, ou compravam com seu dinheiro. Os psicólogos entrevistados referiram-se a esta atividade como um psicodiagnóstico não convencional e que, em suas atividades na UBS, não está previsto este tipo de atuação. No entanto, eles a praticam por entenderem que é impossível fazer o
atendimento individual sem antes fazer o psicodiagnóstico, principalmente se o paciente for uma criança.
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total Sim 4 4 11 2 21 Faz psicodiagnóstico
Não 2 5 5 4 16
Total 6 9 16 6 37
Tabela 13 - Psicodiagnóstico
Dos trinta e oito entrevistados, trinta e sete informaram que fazem encaminhamentos e orientações (Tabela 14). Trinta e seis psicólogos fazem atendimento psicoterapêutico individual e trinta fazem atendimento a grupos. No caso dos atendimentos a grupos, alguns mencionaram não se tratar de trabalho psicoterapêutico, e sim, de um trabalho de orientação. Psicólogos que estão em Centros de Especialidades e Ambulatórios de saúde Mental informaram que fazem atendimento psicoterapêutico em grupo, desde que estes sujeitos estejam razoavelmente íntegros para o desenvolvimento do trabalho.
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total Faz encaminhamentos Sim 6 8 16 7 37
Sim 5 9 16 7 37
Faz orientação
Não 1 1
Sim 5 9 16 6 36
Faz atendimento psicoterapêutico
individual na UBS Não 1 1 2
Sim 5 9 12 4 30
Faz atendimento psicoterapêutico
em grupo Não 1 4 3 8
Tabela 14
Perguntou-se aos entrevistados se eles consideravam que faziam trabalho na área da saúde pública. Uma boa parte dos psicólogos respondeu sim, sem hesitar. Alguns apresentaram questionamentos sobre o que seria “saúde pública” e outros foram dando suas próprias definições do que seria esta atividade. A maioria mencionou que o trabalho em UBS já é uma atividade da saúde pública. Outros disseram que se considerarmos as orientações e os trabalhos de grupo, então esta atividade é feita por eles. Dos trinta e oito entrevistados,
trinta e três responderam à pergunta e destes, vinte e quatro disseram que faziam “trabalhos na área da saúde pública” enquanto nove disseram que não fazem (Tabela 15).
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total
Sim 5 5 9 5 24
Faz saúde pública - orientação,
educação, informação etc. Não 4 4 1 9
Total 5 9 13 6 33
Tabela 15 – Saúde pública
Além do questionamento sobre “saúde pública”, perguntou-se aos psicólogos se eles faziam trabalhos voltados à prevenção e à promoção. Vinte e sete responderam que sim e nove responderam que não, (Tabela 16).
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total Sim 5 5 10 7 27 Realiza trabalhos em prevenção e promoção
Não 1 3 5 9
Total 6 8 15 7 36
Tabela 16 – Trabalha com prevenção e promoção
Na Tabela 17, é possível visualizar todas as atividades que os psicólogos informaram que realizam em seu trabalho na UBS.
De todos os dados encontrados, ressalta-se que a maioria dos psicólogos relatou trabalhos na linha do atendimento clínico, em grupo e individual, da seguinte forma: vinte e cinco psicólogos (65,8%) fazem Atendimento a Grupos, o mesmo número (65,8%) faz Atendimento a Adultos, vinte e dois (57,9%) fazem Atendimento a Crianças, dezoito (47,4%) fazem Atendimentos a Adolescentes e o mesmo número (47,4%) fazem Aconselhamento. Pode-se dizer que há uma tendência na ação do psicólogo nas UBS’s para o atendimento psicoterapêutico.
Constata-se que depois dos atendimentos psicoterapêuticos, aparecem os trabalhos voltados aos programas de saúde como Planejamento Familiar (44,7%), Hipertensão (42,1%), Diabéticos (42,1%), Atendimento aos Escolares (42,1%), Gestantes (39,5%), Puericultura (39,5%), Aleitamento Materno (39,5%), BCG (36,8%).
Há também um grupo que diversifica suas atividades entre: Grupo de portadores de HIV (34,2%), Terceira Idade (34,2%), Educação Sexual (34,2%), Climatério (31,6%), Grupo de Mães (31,6%) e outras. Citou-se apenas as que um maior número de psicólogos realiza.
N % Grupos de adolescentes 18 47,4% Grupo de hipertensos 16 42,1% Grupo de diabéticos 16 42,1% Grupo de puericultura 15 39,5% Grupo de amamentação - aleitamento materno 15 39,5% Grupo de planejamento familiar 17 44,7% Grupo de matrícula 10 26,3% Grupo de gestantes 15 39,5% Grupo de portadores de HIV 13 34,2%
Grupo de BCG 14 36,8%
Grupo de pais (orientação) 11 28,9% Preparação para esterilização 11 28,9% Atendimento a crianças 22 57,9% Atendimento a adultos 25 65,8% Atendimento a grupos 25 65,8% Atendimento ao escolar 16 42,1%
Higiene bucal 10 26,3%
Grupos de mães (bebês) 12 31,6% Climatério (menopausa) 12 31,6%
Saúde do adulto 11 28,9%
Terceira idade 13 34,2%
Saúde da Criança 11 28,9% Trabalho de reintegração do paciente de doença mental à sociedade 11 28,9% Psicoterapia breve 10 26,3%
Aconselhamento 18 47,4%
Educação Sexual 13 34,2%
Faz trabalho com comunidade de base 1 2,6% Faz trabalho comunitário com ONG's 1 2,6% Faz atendimento/grupo sobre violência doméstica 2 5,3% Faz grupo de ajustamento social 1 2,6% Trabalha com dependência química 1 2,6% Trabalha com família 2 5,3% Trabalha com mulheres depressivas 1 2,6% Trabalha com psicóticos 2 5,3% Faz trabalho com oficinas 1 2,6%
Na Tabela do Anexo 3, é possível visualizar o cruzamento dos dados sobre o tipo de atendimento que os psicólogos realizam, fazendo-se uma aproximação pelo tipo de trabalho que eles dizem que a UBS’s em que estão presta à população. Essa aproximação ocorreu por temas de trabalho, baseando-se em seus relatos. Entende-se que estas atividades estão inseridas dentro de uma política municipal de atendimento à saúde, que determina que tipo de serviço a população de um determinado local precisa. Estes dados fazem compreender o contexto das atividades executadas pelos psicólogos.
Nas UBS que fazem um trabalho voltado à prevenção e promoção, os psicólogos realizam atividades preferencialmente voltadas a: adolescentes, hipertensos, puericultura, aleitamento materno, planejamento familiar, gestantes, matrícula, BCG, orientação a pais, terceira idade e saúde da criança. De modo geral, os psicólogos trabalham com atendimento psicoterapêutico de adultos, crianças, grupos, do escolar e aconselhamentos.
Nas UBS que foram caracterizadas pelos psicólogos como de ambulatório de saúde mental, os psicólogos fazem preferencialmente as seguintes atividades: atendimento psicoterapêutico a adultos, crianças, grupos, famílias, mulheres depressivas, psicóticos, dependência química, ajustamento social e violência Doméstica.
Os psicólogos que trabalham nas UBS que atendem à saúde da mulher fazem atendimento à gestantes, grupos de mães, climatério, educação sexual, hipertensos e higiene bucal.
As atividades desenvolvidas por psicólogos nas UBS que trabalham com reprodução, planejamento familiar e esterilização, estão voltadas para: adolescentes, planejamento familiar, gestantes, preparação para esterilização, atendimento a crianças, a adultos, ao escolar, a grupos, climatério e educação sexual.
Preferencialmente, os atendimentos dos psicólogos nas UBS consideradas como centro de especialidades estão voltados ao atendimento psicoterapêutico a adolescentes, a adultos, psicoterapia breve, aconselhamento e de um modo geral, à saúde do adulto.
As UBS em que os psicólogos informaram que realizam um trabalho voltado à saúde do escolar e aos problemas de aprendizagem, trabalham com diabéticos, puericultura, gestantes, higiene bucal e de um modo geral, saúde da criança. Atendimento psicoterapêutico a crianças, ao escolar e a grupo de mães, orientação a pais, psicoterapia breve, aconselhamento.
Percebe-se, com estes dados, que as atividades executadas por psicólogos nas UBS’s são de grande abrangência, estando próximas do que é proposto como função do Psicólogo Clínico no CBO (Ministério do Trabalho, 1982). Neste documento, está previsto o atendimento tanto no âmbito individual, quanto coletivo. Está previsto o trabalho em consultório e em instituições públicas, principalmente as de saúde, numa mudança de enfoque do curativo para o preventivo. A perspectiva de ação do psicólogo, além de considerar a área da saúde mental, adota o trabalho em Psicologia da Saúde.
A grande abrangência de áreas para o atendimento à população, faz com que haja uma divergência entre teoria e prática. Ao mesmo tempo em que a abrangência está prevista teoricamente, tanto pelos documentos da profissão, quanto na origem do Atendimento Primário à Saúde, demonstra uma inaplicabilidade em sua prática. A dificuldade relatada pelos psicólogos para o desenvolvimento de seu trabalho é sentida, em parte, pela fragmentação. Alguns falam das políticas públicas de saúde, outros falam da demanda. Há ainda os que entendem que a participação de Psicólogos em UBS está equivocada, apresentando uma busca de autonomia para sua atuação na Unidade e desenvolvendo com isto, o atendimento clínico individualizado como única alternativa de ação.
A busca de autonomia do trabalho é uma constante nos relatos dos entrevistados. A autonomia é o exercício de tomada de decisões de acordo com nossas vivências e significações, valores e crenças, algo que está embasado nos próprios critérios, de acordo com nosso ponto de vista:
“... afinal, parece ser isto o que a própria palavra carrega de sentido e expressa de significados: auto + nomia = normas próprias (...) Se, ao contrário, nos mantivermos cultivando – consciente ou inconscientemente – heteronomia, continuamos a agir acriticamente, segundo o ponto de vista do outro que nos é imposto anulando nossa identidade...” ARAGÃO (2003).
De acordo com a autora, autonomia só é possível quando se pode “compreender, assumir e empreender as mudanças necessárias para o desenvolvimento do País, da minha comunidade ou em meu âmbito pessoal” ARAGÃO (2003). Por isto, transportando-se deste texto para o atual contexto, ressalta-se que a necessidade da continuidade de aprendizado é tão
importante para os psicólogos nas UBS’s. O exercício de sua autonomia é parte do processo de construção da identidade profissional no campo da saúde e mais especificamente, na UBS.
A competência dos entrevistados tem sido buscada fora da rede pública, através das supervisões, dos cursos, orientações etc. A busca por esta formação é individualizada e reflete uma utilização destes conteúdos, feita de modo individualizado. Assim, o aspecto coletivo vai sendo deixado de lado e a autonomia sonhada pelo psicólogo que trabalha na Unidade, vai tomando um rumo para o trabalho fora da UBS.
Ainda na perspectiva de uma competência buscada para o exercício daquilo que está fora da proposta da UBS, o aspecto preventivo é exercido no atendimento individual e a leitura do trabalho sob a ótica da Psicologia da Saúde, é quase desconhecida, mantendo-se uma atuação sob o enfoque da saúde mental, área para a qual os psicólogos formados há algum tempo sentem-se preparados para atuar.
É como uma bola de neve. A participação do psicólogo vai ficando cada vez mais afastada da proposta da UBS enquanto que esta não propicia uma aproximação, não investe na formação para o entendimento, o trabalho vai ficando comprometido e o profissional vai se tornando mais uma ferramenta de um sistema que não funciona.
Neste sentido, BOURDIEU (1989) apresenta a participação do trabalhador no processo de exploração do qual faz parte ao entrar na produção. Pode-se comparar esta visão com o que se encontra em alguns psicólogos trabalhando nas UBS’s. Profissionais responsáveis por uma “produção”, conscientes de sua situação, mas ao mesmo tempo justificando seus pequenos ganhos com algum espaço para atuarem na linha teórica que apreciam, ou pelo salário “fixo” que entra todos os meses, ao contrário da renda que teriam no consultório.
“As atitudes inculcadas pela experiência inicial do mundo social, a qual, em certas conjunturas, pode predispor os jovens trabalhadores a aceitarem, ou mesmo a desejarem, a entrada no mundo do trabalho, identificado como o mundo dos adultos, são reforçadas pela própria experiência do trabalho e por todas as transformações das atitudes que ela implica (e nas quais se pode pensar por analogia com as que Goffman descreve como constitutivas do processo de ‘asilização’): seria preciso evocar aqui todo o processo de
investimento que leva os trabalhadores a contribuírem para a sua própria
exploração pelo próprio esforço que fazem para se apropriarem do seu trabalho e das suas condições de trabalho e que os faz apegarem-se ao seu
oficio (em todos os sentido do termo) por intermédio das próprias liberdades (ínfimas muitas vezes e quase sempre ‘funcionais’) que lhes são concedidas e, também, claro, sob o efeito da concorrência que se gera nas diferenças (...) constitutivas do espaço profissional que funciona como campo.” (BOURDIEU, 1989, p. 96).
Os psicólogos criam justificativas para continuarem trabalhando e enfrentando uma realidade que passa por: desconforto de terem que prestar contas de quantas pessoas atenderam por dia; meta de produtividade a cumprir; falta de condições materiais para desenvolver dignamente seu trabalho. Aliado a isto, a maioria não tem orientação de suas coordenações, entre outras coisas. Os psicólogos contribuem para a continuidade de sua situação desconfortável, na medida em que tentam tornar seu trabalho aceitável.
“O que deste modo se lembra, é que existe um investimento no próprio
trabalho que faz com que o trabalho proporcione um ganho específico,
irredutível ao lucro monetário: este ‘ganho’ do trabalho, que constitui em parte o ‘interesse’ pelo facto de trabalhar e que é, por outra parte, efeito da ilusão constitutiva da participação num campo, contribui para tornar o trabalho aceitável para o trabalhador apesar da exploração; ele contribui até, em certos casos, para uma forma de auto-exploração”. (BOURDIEU, 1989, p. 97).
3.4. Exercício da profissão fora da UBS
Uma outra questão importante a ser analisada em relação à montagem do perfil profissional dos psicólogos entrevistados, é a constatação de que dezesseis (42,1%) deles executam outra atividade fora da UBS, doze psicólogos (31,6%), não exercem atividade fora da UBS e dez psicólogos (26,3%) já exerceram outras atividades, não exercem mais. Destaca- se que entre os que atuam fora da UBS, a maioria (68,8%) encontra-se na cidade de Santo André. Entre aqueles que já exerceram atividade fora da UBS e não exercem mais, a maioria (57,1%) está na cidade de São Bernardo do Campo.
Diadema Mauá Santo André São Bernardo Total N 3 2 11 16 % 18,8% 12,5% 68,8% 100,0% Sim % na Cidade 50,0% 22,2% 68,8% 42,1% N 1 5 3 3 12 % 8,3% 41,7% 25,0% 25,0% 100,0% Não % na Cidade 16,7% 55,6% 18,8% 42,9% 31,6%