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Eu podia me levantar e reencontrar minha vida, minha verdadeira vida. Esquecia os temores noturnos até a próxima ocasião (...) Compreendi depois que este sonho era comum a muitos imigrantes, ao menos entre aqueles que vinham do Leste europeu.

Tzvetan Todorov

Polônia, Argentina, Egito, Brasil. Línguas, lembranças, festas, orações, trabalhos, comidas, escolas. Lugares e hábitos, lugares e valores, lugares e expectativas, lugares e esperanças. Mas, não caberia também a pergunta: lugares e decepções, tensões, angústia, medo? O entrecruzamento das memórias e vivências dos imigrantes judeus (ou de seus filhos) nos permitirão vislumbrar os vários matizes de suas referências identitárias, que se descortinam por meio de memórias individuais e sociais, de fatos sempre recorrentes ou continuamente obscuros, de atos de resistência ou acomodação, de tensões e conflitos. Os meandros da memória não são fáceis, por vezes nos parecem enevoados, perniciosos, tentadores, dolorosos. Por conta disso, considero ímpar a afirmação de Ecléa Bosi ao dizer que, “o ato de lembrar é um processo em contínua construção,

lembramos apenas aquilo com que conseguimos conviver no presente”1

Não são mais claros também os meandros definidores da identidade. De um lado, são as tentativas de se estabelecer uma via de mão única ou um elenco de características que detêm a autoridade para se afirmar a quem de direito pertence ou não uma determinada identidade. De outro, trata-se de, prudentemente,

buscar não uma identidade, mas referências identitárias, pautadas não em um manual de identificação, mas tanto na semelhança quanto na diferença, tanto no passado quanto no presente. Na realidade, mais no presente, pois é nele que as tensões tornam-se mais visíveis, que o ser judeu (ou polonês, egípcio, argentino, brasileiro), no sentido de pertencer a um grupo, raça ou religião, se desnuda de forma nem sempre compatível com aquilo que outros – ou seus pares – delimitariam ao definir sua identidade.

“O que é para o sr. ser judeu?”, pergunto ao sr. Isaac Lerner – nascido

no Brasil – em uma de minhas primeiras incursões ao Bom Retiro. Não tratou-se de uma entrevista, mas de uma conversa informal na sede da Chevra Kadisha (Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo), pois ao buscar informações sobre a instituição, alguns de seus funcionários indicaram-no por ser a pessoa mais antiga dali, que hoje presta serviços voluntários no local. Mas voltando à pergunta acima e a sua resposta: “Eu sou brasileiro. Sou judeu por causa da religião, mas sou

brasileiro.”2 Disse que gosta de Israel, mas os outros judeus que fiquem lá, porque

ele é brasileiro. Para exemplificar tal fato, falou: “minha mulher é brasileira e cristã”.3 No entanto, ele contou que demorou a se casar, porque esperou sua mãe falecer primeiro para não lhe dar o desgosto de vê-lo se casar com uma cristã.

Na mesma instituição – através de outra conversa informal –, a sra. Violeta Cencipers, à minha indagação sobre as diferentes nomenclaturas judaicas, como ashkenazi (judeus provenientes da Europa Ocidental e Oriental, local de maioria cristã) e sefaraditas (judeus provenientes da Espanha, Norte da África e do antigo Império Otomano e, com exceção do primeiro, locais de maioria muçulmana),

2 27/03/03 – conversa informal com o sr. Isaac Lerner. 3 Idem.

ela foi bastante incisiva ao falar sobre estes últimos: “Pra mim eles são árabes.

Podem ter a religião judaica, mas são árabes.”4

Estes trechos nos são elucidativos em certos sentidos. Primeiro, o sr. Isaac faz questão de deixar claro sua nacionalidade brasileira, e a sra. Violeta, por sua vez, desdenha dos sefaraditas devido a seus locais de origem, sua língua e hábitos que são muito próximos aos dos árabes. Segundo, a religião pode ou não constituir um elemento de unidade, já que no primeiro caso ela é apontada como a definidora da identidade judaica; mas no caso seguinte, ela não foi capaz de dissipar, ou mesmo se sobrepor, às diferenças dos locais de origem, pois, para a sra. Violeta, a proximidade com a etnia árabe age como aspecto desqualificador e excludente em relação àqueles que vieram da Europa. Dessa forma, em apenas uma rápida conversa que não deve ter durado mais que 15 minutos, foi possível entrever que, pensar nos diferentes modos pelos quais a identidade transparece, representa também buscar o campo de forças no qual eles foram e continuam sendo construídos.

Para Tomaz Tadeu da Silva, falar em identidade implica ter a noção de uma forte separação entre nós e eles, e esta oposição binária apresenta uma divisão do mundo não em duas classes simétricas, mas, pelo contrário, um dos lados é privilegiado, recebendo um valor positivo, e o outro, negativo. É criada então uma identidade hegemônica, que é constantemente assombrada pelo seu Outro, personagem que lhe dá o sentido de sua existência. 5

Partindo destas indagações, retomemos as narrativas acima. Quem é o Outro para o sr. Isaac e para a sra. Violeta? Pelos poucos dados fornecidos pelo sr. Isaac – que prontificou-se a ajudar na pesquisa fornecendo dados escritos, como referências bibliográficas, periódicos ou indicações para busca em arquivos, já que

não se interessou muito em conceder entrevistas – creio que poderíamos arriscar em apontar o Outro, pelo menos em parte, como os judeus que vivem em Israel. Pelo modo como se referiu a eles, “que fiquem lá”, parece que sua afinidade maior é para com os brasileiros. Esta situação se deixou transparecer com maior clareza quando ele contou que conheceu sua esposa em um lugar da Lapa no qual havia dança todo domingo, das 15 às 18 horas, e que faz uns 14 ou 15 anos que eles passam o reveillon em Lindóia, interior do Estado de São Paulo, saindo da capital no dia 26, “depois da ceia e tudo o mais”.6 Duas referências significativas: a viagem após a ceia de Natal e o Ano Novo do dia 31 de dezembro, pois enquanto o Ano Novo judaico é comemorado em setembro, o Natal não o é em tempo algum.

Apesar destas poucas informações demonstrarem seu afeto e apreço pelos brasileiros, em sua fala também aparece o mesmo sentimento em relação aos judeus, quando disse que a história que eu estava fazendo era linda, sensacional, porque a história deles era muito rica. Ao perguntar-lhe sobre um artigo de um dos folhetos da Chevra, se as pessoas mencionadas ali eram todas judias, ele respondeu: “tudo o que eu falar pra você é judeu.”7 No mesmo dia, à noite, recebi um telefonema seu no qual me dizia podia contar com sua ajuda, principalmente para que eu escrevesse a história “correta” sobre os judeus.

A conversa com o sr. Isaac foi igualmente curta, porém importante por apontar que, apesar da aparente harmonia que pontuou sua relação com os brasileiros desde sua juventude, esta experiência foi marcada por, pelo menos, um tipo de tensão, aquela que remete à sua mãe. Não sei informar como se deu o período de namoro com sua esposa, mas o casamento teve que esperar devido à origem não-judia dela. Somente suas experiências nos dariam conta de aprofundar

5 SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença: a perspectivas dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes,

2004. pp. 82-84.

6 Conversa com Isaac Lerner. 7 Idem.

esta e qualquer outra questão para que se explicitassem os conflitos vivenciados por ele.

Experiência. A palavra-chave utilizada por Thompson8 para a interpretação do processo histórico. Articulando a ela as palavras cultura e consciência, são criados o que o autor denomina de “termos de junção”, uma vez que a vivência dos sujeitos, expressada por sua consciência, é construída na experiência dentro de sua cultura. Ao se tratar o sujeito como alguém que ajuda a urdir a teia da história – e não como um mero expectador seu – e o faz tendo por chão a experiência, as falas do sr. Isaac ganham coerência.

Ao longo do tempo, teria tornado-lhe possível, ao transitar pelos dois mundos – o judaico e o brasileiro – reelaborar seus saberes e fazeres, adquirindo ou desfazendo-se de elementos culturais de ambos.

Como já foi indicado, nosso contato foi extremamente reduzido, limitando-se a uma única e breve conversa. Por que então mencioná-la, se outras conversas geraram ricas entrevistas e fontes mais abundantes? Primeiro, porque, pra mim, suas palavras foram um tanto impactantes. Em meio à leitura de fontes escritas, tais como livros e periódicos, antigos e atuais, seus focos eram o “ser judeu”, seus valores e tradições, sua identidade, suas estratégias para continuarem se sentindo judeus, enfim. E quando eu perguntei ao sr. Isaac sobre ser judeu, sua resposta foi enfática na afirmação de “ser brasileiro”, para só depois se referir à história judaica.

De certa forma, este episódio representou um desmonte de algumas concepções pré-estabelecidas que levava comigo devido às leituras anteriores, como a procura por elementos que me levassem a “uma” identidade judaica. Mas, o fundamental, foi ter proporcionado o desnudamento da multiplicidade de

experiências vividas pelos sujeitos que, a partir daí, interagiram e interagem em maior ou menor grau no “mundo” judaico ou brasileiro. Talvez seja o caso de, como afirma Todorov – ele mesmo um imigrante búlgaro em Paris e que, portanto, manteve-se na confluência de duas culturas – ser impossível manter a neutralidade entre estas duas vidas. E mais, duas vidas que não se combinam impunemente.9

Retornemos agora à fala da sra. Violeta – que também me causou impacto pelos motivos já relatados – sobre os judeus sefaraditas que, para ela, são árabes. Creio que aqui penetramos num terreno mais escorregadio da identidade do que o apresentado em relação ao sr. Isaac, posto que com ele a dualidade aparente foi entre o ser judeu e o ser brasileiro, ou entre o ser judeu no Brasil e em Israel. No entanto, no caso da sra. Violeta, o “outro” é igualmente judeu e vive aqui. Isto foi perceptível em uma rápida e superficial conversa; porém, as entrevistas posteriormente realizadas mostraram caminhos semelhantes: judeus ortodoxos, laicos, liberais, progressistas, socialistas, pobres ou ricos, enxergando o “outro” não só nos brasileiros, mas nos judeus cujos posicionamentos – religiosos, políticos, econômicos – aparecem diferentes dos seus.

Diante desses posicionamentos, a interpretação que Bhabha10 faz da nação torna-se bastante clara. Ao apresentar a nação como uma construção discursiva e não mais como uma comunidade imaginada, homogênea e horizontal, ele nos propõe observá-la como uma forma de vida híbrida, que apresenta suas fissuras e tensões. Ao retratar as memórias de imigrantes judeus que vieram para a cidade de São Paulo, Eva Alterman Blay, cientista social de origem judaica, escreve para uma edição especial da Revista Shalom (1984), dedicada à imigração dos judeus em São Paulo:

9 TODOROV, Tzvetan. op.cit. p.18.

Os imigrantes reconstroem no novo espaço uma estrutura marcada pelo passado religioso comum. Mas as afinidades terminam aí, pois cada um dos grupos traz em sua bagagem elementos das culturas de seus países maternos. Isso explica a implantação de várias sinagogas por vezes na mesma rua, ou tão próximas que aparentemente não fazem sentido.11

Continua a mesma autora,

Os judeus em São Paulo constituem uma comunidade, se forem considerados do ponto de vista da sociedade global; isto é, ‘vistos de fora’, os judeus se inter-relacionam por várias formas institucionais ou informais. Origem religiosa, posição política, passado comum, são fatores que provocam a criação de grupos, aos quais os indivíduos pertencem e que têm uma demarcação face ao restante da sociedade brasileira.

Vistos ‘de dentro’, estes grupos são distintos entre si e tão heterogêneos que são quase incompatíveis com a noção de comunidade. As pessoas de um grupo não conhecem as dos outros, e muitas vezes não têm contato nenhum com judeus, pelo menos de forma sistemática.12

Os judeus vistos “de fora” e vistos “de dentro”. “Vistos de fora”, pela sociedade brasileira, eles constituiriam uma comunidade, ou melhor dizendo, “a” comunidade judaica de São Paulo, como provavelmente definiríamos outros grupos imigrantes da cidade: “a” comunidade italiana, “a” japonesa, “a” sírio-libanesa, etc. Nesta perspectiva, a imagem criada da nação – da identidade – é ,retomando Bhabha13, a do tempo homogêneo e vazio, da temporalidade do “enquanto isso”, ou seja, aquela que abre caminho para o surgimento da “comunidade imaginada”,

11 BLAY, Eva Alterman. As duas memórias. In: Quando os judeus descobriram (e amaram) São Paulo. São

Paulo: Revista Shalom, nº 223, 1984. p. 9.

12 Idem. p. 11.

idealizada, sem tensões ou divergências. É a comunidade pensada como que constituída por um povo unitário, é a nação pensada como totalidade. Porém, é uma concepção que não tem como se furtar da temporalidade do “enquanto isso”, uma vez que, enquanto a suposta homogeneidade paira sobre todos os membros da comunidade como uma bênção, os atritos inerentes a ela continuam seu percurso sem tréguas.

Os judeus “vistos de dentro”: vistos por seus pares, através da percepção da diferença. É por esta perspectiva que entrevejo a questão da identidade judaica, tanto no trecho descrito acima como nas narrativas dos sujeitos. Trata-se de buscar não apenas aquilo que confere diferença, mas as vozes que indicam os múltiplos conflitos dentro de uma mesma “comunidade”. E, além disso, tentar compreender dentro deste universo díspar, a busca por elementos que possam dar o conforto da unidade.

A união entre os judeus e a manutenção de suas tradições são tidas como seculares pelo senso comum: se não fosse por elas, como esta nação sem um Estado que a representasse por mais de mil anos, dispersa por inúmeras regiões do globo, teria sobrevivido às perseguições, ao preconceito e ao desprezo impingido por outros povos e religiões? Como teriam sobrevivido às acusações de terem sido os assassinos de Cristo, feitas pela Igreja católica medieval, ou aos pogroms da Rússia czarista do século XIX, ou ainda, e principalmente, ao holocausto da Segunda Guerra Mundial? Pelo menos é assim que me lembro da história dos judeus contada desde o período escolar do Ensino Médio e livros como Êxodo e

Armagedon, do escritor judeu Leon Uris.

Mas e hoje, como os srs. Ben Abraham, Menachen Muksy, Maurício Baruk e as sras. Sarah Friedman e Ruth Rosemberg vêem esta união e em que se baseiam para mantê-la ou justificá-la? Em quais lugares da memória estas pessoas

procuram as raízes que as unem e as abençoam como judeus? Em quais fatos passados estão a anuência para as atitudes contemporâneas? E em que medida, hoje, eles experimentam as diferenças, as tensões e as divergências entre si e como se lembram delas em tempos passados a partir de seu presente? Tarefa melindrosa será a de desatar este nó górdio.

Para averiguarmos o terreno escorregadio da identidade – ou a vontade de sua constituição – uma das trilhas a seguir é, sem dúvida, a que nos conduz à memória social e individual, ou seja, a uma memória compartilhada – tanto pelo grupo quanto pelo indivíduo. Em uma obra intitulada Paulicéia Prometida, que compõe o projeto São Paulo de Perfil, idealizada pelo Departamento de Jornalismo da ECA (USP), os jornalistas realizaram uma série de entrevistas com imigrantes judeus e seus descendentes, uma vez que esta edição foi dedicada aos judeus do Bom Retiro ou de outras regiões da cidade de São Paulo. Pergunta recorrente foi aquela direcionada para o “ser judeu”, sendo que algumas respostas chamaram a atenção, como a de Renato, 17 anos na época (1990) – estudante do ITA – que, pelas leis religiosas judaicas não era considerado judeu, pois sua mãe não era judia. Diz ele: “o importante é se sentir judeu...”

Continuando, o jornalista nos conta que, para fazer o Bar-Mitzva (ritual que marca a passagem do menino para a adolescência), uma semana antes, foi necessária sua conversão ao judaísmo, por causa de sua descendência materna. Hoje, defende o Estado de Israel, pois considera-o “muito importante para a união e

sobrevivência do povo judeu”. Para ele, “desde a Bíblia, a história do povo judeu é uma história de resistência e luta”. 14

Penso se nestas palavras não cabe aquela “vontade” da nação, aquela “comunidade imaginada”, uma vez que o jovem em questão, ele mesmo um Outro,

14 CÉSAR, Wellington Cordeiro. Shalom, dona Conceição! In: Paulicéia Prometida. São Paulo: USP, 1990. pp.

abraçou não só valores e tradições, mas a causa judaica. O pai, judeu, morreu há vários anos atrás, tendo sido criado, com dificuldade, pela mãe. Por meio de uma bolsa de estudos, cursou o Ensino Médio no Colégio I. L Peretz, uma das escolas judaicas mais conceituadas da cidade, fundada nos anos 50, onde amadureceu o desejo de se “tornar” judeu, pois que a admiração por eles já existia desde antes. No site do colégio, encontramos o histórico da instituição, cujos objetivos, entre outros, comportam “educar judaicamente”, levar os jovens a conservarem “suas

relações com as tradições, com a comunidade e com Israel”, bem como proporcionar

uma “formação multi e inter-disciplinar, sob a perspectiva privilegiada do judaísmo”.15 De acordo com a história da escola, dos anos 90 pra cá, não parece ter havido uma mudança nestes projetos.

Dessa forma, entendo as palavras do garoto quanto à sobrevivência e a história do povo judeu, como parte significativa de sua experiência em uma etapa da vida – a adolescência – em que a auto-afirmação está se processando. Sua educação em uma escola tradicional da elite judaica, cuja apresentação no site referido deixa entrever que a preservação de uma memória hegemônica – explícita em suas colocações – teria contribuído em sua escolha de se tornar judeu, mas também no que ele elencou para narrar ao jornalista: o Estado de Israel e a resistência e luta que marcaram a trajetória judaica. Suas afirmações, talvez até certezas, parecem-me um indicativo de uma disputa por espaço e aceitação, já que, pelas normas judaicas, a origem materna determina também a do filho. Sua colocação anterior, enfatizando que o importante é se sentir judeu, pode ser tomada como uma forma de luta por alguém que, por princípio, já se encontrava excluído do “mundo” judaico.

Em relação a uma outra reportagem, com a sra. Amália, já aposentada e que viveu na Europa o terror nazista (em 1939 tinha 12 anos), a jornalista teve a seguinte percepção:

Nacionalidade é uma questão delicada. Se dona Amália fala o tempo inteiro, sem vacilar, sobre assuntos mais complexos – a perda da família, juventude vivida num campo de concentração – é no problema de sua nacionalidade que ela dá mais incertezas. Nasceu em Wiélen, Polônia, mas não aceita ser polonesa. Diz-se ‘italiana de coração’, mas é naturalizada brasileira. E além disso, ‘judia com muito orgulho’.16

Várias respostas tiveram a religião como fundamento, tais como a de

uma jovem de 19 anos, Márcia, estudante de Jornalismo e Administração:

Ser judia pra mim é simplesmente ser de uma religião. Se o assunto é pátria, eu sou antes brasileira e depois judia. Sair do Brasil? Quero sim, mas não para Israel. (...) Hoje sou a famosa ‘judia de 3 dias’, que são a Páscoa, o Ano Novo e o dia em que a gente jejua. (...) Não sou contra, mas não sei se me casaria com alguém de outra religião.17

Diferentemente, em um sentido não-religioso, do sr. Joaquim Fromer, 63 anos no momento da composição da obra Paulicéia Prometida, obtém-se a seguinte informação:

Religioso Joaquim não é mais; admite, contudo, ser judeu. (... ) Tradições judaicas não cultiva, nem ele nem os filhos, mas

16ALVES, Alessandra. Estou mesmo viva? In: Paulicéia Prometida. op. cit. p. 57.

17A entrevistada, Márcia, não tem seu sobrenome citado. Sua entrevista foi dada ao jornalista, D’AMARO, Paulo

todos admitem ser judeus; apreciam a literatura ídiche, mas não participam de festas nem são casados com judeus.18

Finalizando as observações sobre este conjunto de reportagens, diz Gabriel: “o judeu é um religioso acima de tudo. (...) O povo judeu já é brasileiro e

começa a assimilar a cultura deste povo, se adaptando à liberdade e espontaneidade. Sem dúvida, eu sou um religioso judeu, mas acima de tudo eu sou brasileiro.”19

As reportagens descritas e abrangem sujeitos de diferentes idades e experiências, contribuem para que nos debrucemos mais intensamente sobre as múltiplas possibilidades abertas acerca da nação e da identidade. De um modo