As paisagens e as imagens urbanas despertam nas crianças emoções, associações, idéias, histórias. Temos a tendência de esquecê-las quando envelhecemos.
Wim Wenders
Pensar o espaço. Mais que isso, ver o espaço. Parece que nosso mundo e os sujeitos nele forjados são constituídos, em sua massa corpórea, de tempo. O tempo ideal para nascer (possível através dos métodos de contracepção), para estudar, trabalhar (caso os altos níveis de desemprego permitam), descansar, envelhecer (caso a ciência nos permita). A sensação é de que nós transitamos no e pelo tempo, tendo o espaço se transformado em mero coadjuvante. Em nosso dia-a-dia, nos esquecemos que, entre nós e o espaço, há uma relação recíproca: se ele é fruto da construção humana, se ele recebeu toda uma carga de técnica, de inspiração arquitetônica, de mão-de- obra para que ficasse desse ou daquele jeito, por outro lado, nós, sujeitos sociais, também somos por ele influenciados. Nosso modo de andar pelas ruas ou de dirigir por elas, os transportes coletivos dos quais nos servimos, o ato de morarmos em prédios ou casas, de trabalharmos no centro, de consumirmos nas ruas mais agitadas cujos preços são mais baratos ou optarmos pelo ar condicionado e imagens induzidamente belas dos shoppings centers; tudo isso nos é dito pelo espaço.
“Quando há muito o que ver, quando uma imagem é muito cheia, ou quando há muitas imagens, nada se vê. ‘Muito’ torna-se bem rápido
‘absolutamente nada’.1 Esta foi justamente uma das minhas primeiras
impressões do Bom Retiro, antigo bairro paulistano e reduto de vários grupos imigrantistas, como portugueses, italianos, judeus e coreanos. A principal rua, a José Paulino, com um ativo comércio de confecções no atacado e mesmo no varejo, chama nossa atenção pela beleza das vitrines e preços baixos. Pessoas, notadamente mulheres, andam de loja em loja com enormes sacolas; muitas delas comprando roupas que serão revendidas em suas cidades. Dentro dos estabelecimentos, atrás dos balcões, com um olhar sério e não muito convidativo, olhos orientais nos observam. Em algumas outras ruas a cena se repete. Restaurantes, cabeleireiras e templos coreanos são anunciados em seu próprio idioma. Decididamente, o Bom Retiro não é mais, majoritariamente, judeu.
Na verdade, minha primeiríssima impressão não foi nada boa. Cheguei ao bairro de ônibus, pois vinha da Lapa e ainda não tinha conhecimento das linhas de metrô que davam acesso à região. Quanto às outras linhas de ônibus nada posso dizer, mas a que utilizei, entrou no Bom Retiro pelas portas da feiúra, que descortinava fábricas abandonadas e decrépitas e lugares desertos. O pensamento instantâneo que me ocorreu foi o de que os judeus tiveram toda a razão de abandonar o bairro, até que alcançamos suas ruas principais e comecei a mudar de idéia. Mas, só um pouquinho. Andei por elas em busca de sinais que insistiam em não se deixar
1 Tais palavras compõem a explicação do autor sobre sua opção de retratar Berlim, em seu filme Asas do
Desejo, a partir do que chama de superfícies vazias ao invés das cheias, pois estas podem provocar o
efeito de não-visibilidade. WENDERS, Wim. A paisagem urbana. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Cidade, nº 23, 1994. p. 186.
transparecer em meio aos vendedores ambulantes, à azáfama da Rua José Paulino e às feições marcadamente orientais que entrevia dentro dos estabelecimentos. Ainda pensava que este era um espaço que, por certo, era o do esquecimento e não da vivência judaica.
Espacialidade e temporalidade diferentes, bem como percepções diferentes. Minha segunda inserção no Bom Retiro foi via metrô, “um não-lugar” nas palavras de Arantes2 e que, além de me poupar daquela visão anterior, me
deixou na Estação Tiradentes, cujas escadas rolantes me levaram até a Praça Cel. Fernando Prestes. A imagem que se descortinou foi simplesmente, linda, com os antigos prédios da Fatec (Faculdade de Tecnologia de São Paulo) e da Divisão do Arquivo Histórico “Washington Luís”, de 1920. Neste último, entrei em contato com importantes fontes sobre o bairro – uma delas teria a função de guia por suas ruas – e indicações da localização de outras tantas no próprio bairro. No arquivo, encontrei livros, mapoteca e um setor de logradouros capazes de dar uma visibilidade ao bairro, que não tinha sido capaz de perceber anteriormente. Agora sim, me sentia capaz de encarnar o flâneur de Benjamim;3 porém, não totalmente como o idealizado pelo filósofo, já que eu
partia de vários pontos de informação e referência, como o livro O Bairro do
Bom Retiro de Hilário Dertônio.4 Este forneceu-me uma orientação inicial
através de um mapa com as principais ruas do bairro, que eram (ou foram) também as de ocupação dos imigrantes judeus: Rua da Graça, Guarani, Três Rios, Prates, Correia de Melo, Correia dos Santos, José Paulino.
2 ARANTES, Antônio Augusto. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público. São Paulo:
Imprensa Oficial, 2000. p. 110.
3 BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Obras Escolhidas, v. I. São Paulo: Brasiliense,
1987.
4 Esta obra faz parte de uma coleção sobre a história dos bairros de São Paulo, realizada sob a iniciativa
da prefeitura ( Secretaria de Educação ). Foram monografias escolhidas em concurso público. DERTÔNIO, Hilário. O bairro do Bom Retiro. São Paulo: Departamento Municipal de Cultura, 1971.
Nosso comportamento no dia a dia está envolvido pelo espaço, pelos inúmeros territórios que percorremos. Porém, na maioria das vezes, não nos damos conta disso, já que nossos olhos, como que atraídos por ímãs, não se afastam do relógio. Sem dúvida, tudo é tempo, mas é igualmente espaço; e cada vez que pensamos andar apenas sobre o primeiro, provocamos o ostracismo e a morte do segundo. O olhar atento, bem como o aguçar dos demais sentidos, são atitudes que podem nos colocar em sintonia com o espaço, evitando desperdiçar o conhecimento nele intrínseco.
As marcas judaicas, não tão notórias, tiveram de ser investigadas com mais minúcia. Mas elas estavam lá, demarcando territórios, indicando presenças vivas daquela outra imigração. Talvez, cada uma delas, transmutadas em confeitarias, restaurantes, sinagogas, teatro, arquivo, associações beneficentes, açougue, escolas, represente uma fronteira mais para com os vizinhos coreanos do que com os brasileiros, pois estes afinal, já estavam há mais tempo no bairro. Por outro lado, tais marcas podem se constituir no que denominarei, espaços de continuidade para os judeus que se deslocaram para outros bairros (Morumbi, Higienópolis, Moema), mas que continuam freqüentando estes pontos, dando-lhes uma sobrevida como indicadores da presença de imigrantes que há muito de lá se foram. Afinal, após um olhar mais acurado, os indícios judaicos não me pareciam mais tão invisíveis!
Para se resgatar a história dos judeus no Bom Retiro, retrocederemos a um breve tour pelo bairro. A partir da terceira década do século XIX, a área do futuro bairro, por ser muito plana, era procurada por pessoas que, com um poder aquisitivo maior, podiam se dar ao luxo de ali se instalar em chácaras, para seu descanso de fim- de-semana. Na Planta da
Mapa 1: Mappa da Capital de S. Paulo – Publicado por Francisco de Albuquerque e Jules Martin em Julho de 1877
Instalar em chácaras, para seu descanso de fim-de-semana. Na Planta da Cidade de São Paulo de 1868 (devido seu mau estado de conservação não é
permitida sua retirada da Divisão do Arquivo Histórico “Washington Luís”), é possível observar o nome Dulley, manuscrito, junto a uma construção que talvez seria o traçado de uma, duas ou três ruas. É visível o nome da Rua do Bom Retiro. Pois bem, este era o nome de uma das chácaras mencionadas que, posteriormente serão loteadas para construções. Um pouco antes, por volta de 1860, “Manfred Meyer, judeu alsaciano, comissário-agente do
consulado francês, ali instalou a primeira grande olaria da cidade.”1 Se
menciono tais fatos, tão distantes da problemática desta pesquisa, é para que se possa construir uma visualização espacial, bem como o entendimento do porquê do local ter sido escolhido por diferentes imigrantes e em momentos diferentes. Apenas um comentário; o sr. Meyer, apesar da origem judaica, viveu anos antes da onda migratória deste grupo que se iniciaria após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
No Mappa da Capital da Província de São Paulo – seos Edifícios
públicos, Hotéis, Linhas férreas, Igrejas, Bonds, Passeios, etc. (Mapa 1), de
1877, consta a Rua do Bom Retiro, mas as referências param na Estrada de Ferro Jundiahy e Campinas e na Avenida da Luz. Esta ferrovia terá um papel crucial na chegada dos imigrantes, via porto de Santos, pois daí, a viagem para São Paulo se fazia por trem e seus passageiros desembarcavam na Estação da Luz. Muitos então, resolviam por ali ficar. Segundo Hilário Dertônio,
1 VELTMAN, Henrique. A história dos judeus em São Paulo. Rio de Janeiro: Instituto Arnaldo Niskier,
A projeção atingida pelo bairro deve-se (...) também por situar-se ao lado da São Paulo Railway, mais conhecida por Estrada de Ferro Inglêsa, e que agora se chama Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, estrada imaginada e lançada pelo Barão e Visconde de Mauá e inaugurada em 16 de fevereiro de 1867. A via férrea corre praticamente nos limites entre o bairro em aprêço e os de Santa Efigênia e Santa Cecília e deu azo a que, naquele, se instalassem armazéns de depósito de mercadorias as quais eram desembarcadas da Estação da Luz ou de desvios particulares. Ocorreu, por êsse motivo, a proliferação de indústrias de transformação de tais mercadorias e elas tornaram o Bom Retiro essencialmente operário. Dos imigrantes, os italianos principalmente eram ótimos artífices e, procurados pela indústria, ali se estabeleceram, dando naquela época a predominância do meio itálico na população.2
Na Planta da Cidade de São Paulo (Planta 2) levantada pela Companhia Cantareira e Esgotos em 1881, pelo seu engenheiro em chefe, apenas o Jardim Público (da Luz ou Botânico) e o Campo da Luz aparecem, sendo o primeiro uma das mais importantes paradas da Estrada de Ferro “Santos-Jundiay”. Há uma marcação pontilhada, que talvez sejam traçados de ruas naquele que se constituirá o bairro do Bom Retiro. Há também algumas construções não denominadas, mas que bem poderiam indicar chácaras ou as fábricas que começavam a se estabelecer lá, como a Fábrica Anhaia, de tecidos de algodão e a Cervejaria Germânia.
Planta 2: Planta da Cidade de São Paulo levantada pela Companhia Cantareira e Esgotos (1881)
Na Planta da Capital do Estado de São e seus arrabaldes (Planta 3) de 1890, o nome Bom Retiro já consta como designação de um bairro, mas as ruas ainda são poucas: Rua do Dulley, Rua Alegre da Luz, Rua dos Immigrantes, Rua Alta, Rua do Jardim, Rua do Bom Retiro. Esta última mudará mais tarde para Rua Washington Luís.
No entanto, na Planta Geral da Capital de São Paulo (Planta 4) de 1897, o nome do bairro não consta, porém ruas como Tocantins, da Graça, Júlio Conceição, Anhaia, Guarany, dos 3 Rios, dos Bandeirantes, Ribeiro de Lima, dos Immigrantes, são mencionadas (área marcada), bem como o Jardim Público (marcado como J. P.). Avançando um pouco na análise geográfica, na planta que aborda O Bom Retiro e Bairros Adjacentes em 1933 (Planta 5), não há uma visão geral da cidade, somente do bairro em questão e seu entorno, mas que nos permite, com mais clareza, observar as atuais vias da região que serão comentadas posteriormente.
Dertônio nos dá a seguinte informação:
A partir de 1900, com as obras da nova Estação da Luz, com a construção do viaduto unindo as ruas José Paulino e Couto de Magalhães e com a execução da passagem inferior da Alameda Nothmann sob as linhas da Inglesa, entrou o bairro a expandir-se comercialmente.3
Planta 3: Planta da Capital do Estado de S. Paulo e seus arrabaldes desenhada e publicada por Jules Martin em 1890
Planta 4: Planta Geral da Capital de São Paulo organizada sob a direção do Dr. Gomes Cardim, Intendente de Obras (1897)
Planta 5: o Bom Retiro e bairros adjacentes em 1933 – Fonte: DERTÔNIO, Hilário. O Bairro do
Ao desenvolver a atividade comercial, a região tornou-se um
atrativo para os judeus ou, pelo menos, para muitos deles que, ainda na
Europa, obtiveram experiência neste ramo. Outros não possuíam nenhum
envolvimento com o comércio, mas ao chegarem ao bairro por meio da já
referida estrada de ferro que desembocava na Estação da Luz e por terem ali
parentes que vieram antes ou simplesmente pessoas de origem judaica,
optaram por ficar. Nas palavras de Jacó Guinsburg
Os que não tinham ofício, quando vinham para cá, iam trabalhar à prestação. (Ter uma loja queria dizer estar bem de vida). Mas o imigrante recém-chegado ia à loja do patrício e obtinha um crédito. Recebia então algumas peças de fazenda (...) e ia bater de porta em porta, fazendo uma coisa que era chamada “clapm”, em ídich, “clapm it” quer dizer bater à porta. Então era assim que começavam.4
Na continuidade de sua narrativa, temos a impressão – pois que a venda à prestação na cidade era uma atividade bem anterior a esta imigração judaica, tanto que os judeus foram, inicialmente, chamados de “russos da prestação” ou “turcos da prestação” – de que ele coloca os judeus como iniciadores de algo na cidade:
E esse trabalho [ venda à prestação ] teve um mérito muito grande porque, na realidade, foi o primeiro sistema de
4 Entrevista de Jacó Guinsburg concedida a FAERMAN, Marcos. Destino: Bom Retiro. In: Quando os
captação para o mercado, de introdução de uma faixa que estava totalmente fora do mercado.5
Para o sr. Menachen Muksy, a vinda para o Bom Retiro não foi diferente, apesar da distância dos anos do período áureo da chegada dos judeus ao Brasil e, particularmente, a São Paulo – entre cerca de 1928 a 1932. Tinha de 12 para 13 anos e era natural de Uruguaiana, Rio Grande do Sul, o destino que seus pais escolheram ao saírem da Europa. Quando pergunto qual o ano de sua chegada à cidade, sua memória nos dá a seguinte informação:
“Foi...58. 58. Me lembro que, quando cheguei em São Paulo, tava jogando ainda Brasil e Chile pela Copa do Mundo. Aquilo foi 58. Acho que junho, junho de 58.”6
O sr. Menachen é um aficionado por futebol, e ouso dizer que este foi um dos meios que promoveram sua inserção na cidade. Mas, retornando à sua memória, ao que ele elegeu como marco de sua chegada a São Paulo, as palavras de Ecléa Bosi nos são elucidativas: “a memória parte do presente, de
um presente ávido pelo passado.”7 Aqueles foram tempos difíceis, porém sua
lembrança recorreu a um fato prazeroso para recordar o momento da chegada a uma cidade desconhecida que, durante um tempo, veria as dificuldade de sua família para se manter. É possível, assim, compreendermos de maneira mais nítida a colocação da autora acima mencionada, quando afirma que o tecnicismo reinante em nossa época tem por objetivo nos convencer que a nostalgia é inútil. No entanto, nosso mundo não é feito somente de técnica,
5 Idem.
6 Entrevista com Menachen Muksy.
7 BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
mas igualmente de territórios, nações e paisagens.8 Lembrar hoje, da Copa do
Mundo, talvez teria sido uma maneira de minimizar a lembrança dos problemas vindouros.
Continua o sr. Menachen à minha indagação se eles vieram direto para o bairro:
Veio direto pro Bom Retiro. Porque meu pai tinha uns...uns conterrâneos aqui, conhecidos, então a gente já...veio pro Bom Retiro. Ah, ele fez de tudo [ sobre sua ocupação profissional ]: era camelô, vendia roupa à prestação, ele era...ajudante de eletricista. Era, como se diz, marreteiro.9
Em poucas palavras, ao se referir aos negócios da família e à doença de sua mãe, o sr. Menachen acabou por descrever as transformações pelas quais passou o bairro. Em 58, quando lá chegou, o Bom Retiro ainda era majoritariamente judeu. Seu pai vendeu roupa à prestação, montou uma lojinha que teve de ser vendida; abriu outra que também foi vendida. É interessante notar que, no final da narrativa, ele faz uma associação entre o fato de o bairro ter se tornado um reduto coreano e sua constante “batalha” na vida. É como se as dificuldades tivessem aparecido a partir deste momento; porém vimos que o cotidiano de toda sua família nunca foi fácil. Hoje, como um dos poucos moradores judeus do bairro e com um emprego modesto, suas lembranças privilegiaram a presença coreana quase como marco da impossibilidade de se prosperar no local.
A loja era aqui no Bom Retiro, na Rua Silva Pinto. [ Sobre a posterior venda da loja ] Ele vendeu...necessidade, né? Vendeu, e...pra montar outra, começamos tudo de novo...Conseguimos outra lojinha, entendeu? Outra loja. Com sacrifício conseguimos mais um. Mas depois veio a doença, né? Foi obrigado a vender para poder salvar mãe. Acabou falecendo. Não tinha jeito. Bom, depois daquele tempo lá, tô lutando, batalhando, pra...porque, infelizmente, infelizmente, agora o bairro se tornou bairro de coreano mais do que judeu.10
O sr. Menachen, morador do Bom Retiro, atualmente trabalha na portaria da instituição Ten Yad, (localizada à Rua Ribeiro de Lima) voltada para a assistência de pessoas carentes, inclusive não-judias, fornecendo almoço diário a elas, além da prestação de outras atividades como, por exemplo, viagens de lazer. Para realizar nossa entrevista, ele sugeriu que fôssemos a uma lanchonete para que o barulho da rua não nos atrapalhasse, já que fica em uma cadeira, na rua mesmo, para controlar a entrada e a saída dos freqüentadores do refeitório. Passamos então à Rua da Graça, na qual ele me mostrou um restaurante construído abaixo do nível do passeio e que foi um dos primeiros de origem e comida judaicas, não só do bairro como da cidade, cujo nome pitoresco era Buraco da Sara (em uma associação entre o nome de sua dona com a posição “afundada” de seu estabelecimento). Posteriormente, seu nome tornou-se Bistrô da Sara (Foto 1), devido à conotação pejorativa, para nós brasileiros, de seu primeiro nome. Ainda serve comida judaica, mas de outros tipos também.
9 Entrevista com Menachen Muksy. 10 Idem.
No entanto, não só o sr. Menachen, mas outros interlocutores se referiram àquele restaurante como um marco da presença judaica no bairro – inclusive os mais novos mencionaram-no como Buraco da Sara. Poderíamos dizer que estamos diante de um rastro, que “inscreve a lembrança de uma
presença que não existe mais e que sempre corre o risco de se apagar
definitivamente?”11 Memória e rastro estão intrinsecamente ligados, vivendo a
memória em uma constante tensão entre a presença e a ausência, “presença
do presente que se lembra do passado desaparecido, mas também presença do passado desaparecido que faz sua irrupção em um presente
evanescente.”12
O chamamento da memória utiliza-se de labirintos reais ou fictícios, povoados por objetos, pessoas, lugares, odores, sensibilidades, e que transitam por diferentes temporalidades. Talvez pelo nome pitoresco que teve o
restaurante no passado; talvez, para um passante desavisado,o aroma que dele se desprende hoje se transmute, em algum ponto recôndito de sua memória, no cheiro de um falafel (bolinho de grão de bico frito, consumido em pão sírio com homus – pasta de grão de bico –, tahine – pasta de gergelim – e salada) ou de um guefilte fish (bolinho de carpa ou dourado, servido no caldo em que se cozinhou a cabeça e as espinhas do peixe), ou talvez por simplesmente evocar momentos aprazíveis, o fato é que o ex-Buraco da Sara encontrou solidez na lembrança daqueles que o conheceram como tal e,
11 GAGNEBIN, Jeanne Marie. Verdade e memória do passado. In: Trabalhos da Memória. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC – SP. São Paulo, nº 17, 1998.p. 218.
questão absorvente, na “lembrança” daqueles que apenas ouviram falar dele (como já se disse, inclusive não-judeus).
A memória se enraíza em vários planos, ou seja, no espaço, no gesto, na imagem, no concreto, no objeto e, do vínculo com o passado é que ela extrai a força para a formação da identidade, ao reconstituir comportamentos e sensibilidades de uma época.13 Creio que este restaurante,