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Une conception générale du vagabondage de pensées

Chapitre 2 : Impulsivité et contrôle des pensées

2.2 Mécanismes en jeu

2.2.2 Une conception générale du vagabondage de pensées

O texto "O burro e o boi no presépio" possui uma estrutura muito balizada, pois cada capítulo – cujo título é somente o numeral romano em ordem crescente, ou seja, do I ao XXVI – apresenta o nome do artista, o nome da obra de arte e o nome do local de exposição da tela respectivamente. Essas informações aparecem recuadas à margem esquerda; e, logo abaixo, centralizado, o texto em formato de poema, posto que é composto em versos distribuídos em estrofes, descrevendo a imagem de cada pintura em questão.

Como já antecipado no título, as telas são representações da cena do nascimento de Jesus. Embora muito instigante, essa disposição meticulosamente fixa, somada ao conteúdo complexamente trabalhado no estilo poema em prosa e/ou prosa poética, intimida de certo modo o leitor, uma vez que é, ao menos de início, uma leitura hermética.

Diante dessas peculiaridades, ainda que seja uma constância nos textos rosianos a inviabilidade de uma leitura ampla devido às incontáveis possibilidades de vieses interpretativos, no caso desse texto em análise é mais acentuada a importância de um recorte investigativo. Assim, há em alguns pontos a utilização de algumas observações complementares, principalmente de trabalhos críticos ─ mesmo que poucos, contamos com análises estruturais, intertextuais, linguísticas realizadas sobre esse texto. No entanto, a leitura é voltada realmente para a figura do burro.

Para essa estratégia de concentrar-se nas configurações do burro, alguns capítulos, que formam uma amostragem, seguem analisados e a eles associados às imagens das pinturas correspondentes, em vistas a corroborar com a compreensão da releitura muito à feitura rosiana. Ademais, como o destaque de Rosa no texto foi para as figuras do burro e do boi, este, algumas vezes, também foi considerado.

Podemos pensar, em certa medida, em um catálogo dentro de um catálogo, em vistas que o norte desta seção da tese pretende organizar alguns animais ícones rosianos em formato de catálogo e o texto "O burro e o boi no presépio (Catálogo Esparso)" tem no subtítulo a ideia de uma catalogação a partir de obras. A propósito, se atentarmos um pouco mais, notamos que a relevância da classificação, discutida na parte inicial desta seção, comprova-se com o resultado de um catálogo ímpar de

Guimarães Rosa de poemas ao produzir o texto "O burro e o boi no presépio", de

Ave, palavra.

Aqui, o capítulo I, iniciando a análise de alguns poemas desse catálogo rosiano:

O milagre é um ponto que columbre

num centro da Noite, uma luzinha, um riso De perfil, gris,

adiante (para que o Menino o veja), o Burrinho.

O Boi ainda não se destacou

da mansa treva. (ROSA, 1994, p. 1.095)

O burro da tela de Antonio Allegri da Corregio (Figura 1), pintor da Renascença italiana26, exposta em Dresde, Gemaeldegalerie, é captado sob a perspectiva da contraposição entre luz e treva. Sendo o Milagre o ponto que emana luz, o Burrinho, grafado em inicial maiúscula ─ singularidade, surge das trevas. Dá-nos a sensação de que o burro vem ao encontro (para que o Menino o veja); ou seja, tem consciência do momento, faz-se sujeito. Assim como se espera do Boi, pois este ainda não se destacou da mansa treva; ou seja, tem-se que ele também assumirá o seu papel.

26 Cf.: https://www.museodelprado.es/aprende/enciclopedia/voz/correggio-antonio-

Figura 1 – Nascimento de Cristo, de Correggio

Fonte: https://historiacomgosto.blogspot.com/2016/12/as-mais-belas-pinturas-de-natal.html. Acesso em: 5 jan. 2019

A percepção de existência, de vida, provocada a partir do destaque atribuído à imagem do burrinho, que ocupa seu espaço e seu tempo na história, uma vez que a cena retrata uma narrativa, é a máxima sensibilidade na ação de aproximar-se do outro isento de olhares comuns, orientando-se pelo duelo da singularidade x coletividade presente na identidade de cada Ser.

Assim, este Burrinho, tal qual Sete-de-Ouros, o burrinho pedrês, pensa,

escolhe por onde pisa. Isto é, sabe o seu lugar, mostra-se conhecedor desse

domínio. Esse raciocínio favorece a análise do poema do capítulo III:

Obscientes sorrisos

─ orelhas, chifres, focinhos, claros ─

fortes como estrelas Inermes, grandes.

Sós com a Família (a ela se incorporam) são os que a hospedam.

Alguma coisa cedem

à imensa história. (ROSA, 1994, p. 1.096)

O afresco do também renascentista italiano, Fra Filippo Lippi, junto à catedral de Spoleto27, revela de forma mais clara as imagens do burro e do boi que recebem os mesmos adjetivos de Rosa, os quais acentuam a presença dos animais na história. Se Burrinho do capítulo I já se mostrava dominador do seu espaço, aqui o bicho revela a humanidade de acolher, ceder o seu habitat. Ele juntamente com o boi incorporam à família.

Nesse caso, os estudos que defendem a ideia de uma virada animal dão conta da cena e sobretudo da narrativa poética rosiana; por exemplo, a concepção do pesquisador Fermín A. Rodríguez (2011, p. 169-170):

Haveria uma virada animal não apenas quando um texto dá voltas ao redor do animal, rodeando-o ou cercando-o entre limites, mas também quando um animal passa e o texto, afetado por um detalhe desencadeado da representação, vira sobre ele mesmo como uma luva ao avesso, interiorizando o fora e exteriorizando o dentro. Umbral de intensidade, de matéria cega e espessa, vazia de anedotas e de sentido, a pegada do animal marca uma zona de passo entre o humano e o animal, a violenta animalização do homem ou a piedosa humanização do animal trabalhando nesse horizonte instável de relações e reconfigurações de corpos que, em seus bons e maus encontros, fazem e desfazem permanentemente a instituição social. (RODRÍGUEZ, 2011, p. 169-170)28

Este burrinho do capítulo III traz à tona a reflexão da zoopolítica acerca da perceptível participação do animal como agente social. A afirmação de dicotomia tão presente nos discursos humanistas é dissolvida pela leitura cujo olhar contempla a interação entre seres humanos e inumanos por meio de um horizonte instável de relações e reconfigurações. É, então, no momento de reconhecimento do valor cultural dessa coexistência (homens e bichos), que chegamos a tocar o lirismo engajado dos últimos versos.

27 Cf.: https://www.ufrgs.br/napead/projetos/historia-arte/idmod.php?p=filippo. Acesso em: 5 jan.

2019.

28 Cf.: In: MACIEL, Maria Esther (org.). Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e

Figura 2 – Natividade, de Fra Filippo Lippi

Fonte: https://www.ufrgs.br/napead/projetos/historia-arte/idmod.php?p=filippo. Acesso em: 5 jan. 2019.

O jogo rosiano entre ceder espaço no estábulo e ceder a imagem e tudo que a circunda a uma herança cultural fortalece a constatação de que não foram escolhas aleatórias: as figuras do burro e do boi. Há uma tradição que justifica por ela mesma a alegórica presença desses animais numa cena conhecida por inúmeras gerações. Nesse sentido, a imagem do afresco (Figura 2 acima) revela que o burro e o boi

alguma coisa cedem à imensa história.

Essa vertente histórica cujo contato é direto com outras perspectivas, como a filosófica, a mística ─ possuidora de questões que, dificilmente, cessariam de serem refletidas ─ torna mais compreensível as razões de a poética ser tão produtiva para trabalhar temáticas quanto aquelas que envolvem o universo dos animais rosianos. Ao ocupar-se da poética sob a ótica da história esbarramos com o controverso conceito de verdade.

Até que ponto as experiências do burro no momento do nascimento de Cristo são reais? Esse questionamento capcioso pode ser melhor discutido com a análise do poema do capítulo VII:

Em suas caras, em seus olhos,

desmede-se a ênfase de uma resposta sem pergunta.

Valem entre as pessoas. Velam o menino.

São irreais como não anjos

como

simples notações do amor

─ maior que o tempo. (ROSA, 1994, p. 1.097)

Ao nos provocar com o contemplar das faces dos bichos (do burro e do boi) da pintura Adoração dos pastores (Figura 3), do artista alemão Martin Schongauer, o poeta nos instiga a pensar nas inquietações humanas sob uma visada primorosa. Há uma hábil inversão entre perguntas e respostas universais na medida em que nas caras e nos olhos dos animais desmede-se a ênfase de uma resposta sem pergunta. Dito de um outro modo, o questionamento, que pode ser entendido como os inúmeros "porquês" que se apropriam da existência dos seres, perde força e, por conseguinte, a resposta, que pode ser compreendida como experiência, ganha espaço. Há mais validade no convívio do burro com as pessoas, na sintonia dele com o Menino, pois no olhar rosiano os bichos "valem entre as pessoas, velam o Menino".

Figura 3 – Adoração dos pastores, de Schongauer

Fonte: https://pt.wahooart.com/@@/8XYHMP-Martin-Schongauer- Adora%C3%A7%C3%A3o-. Acesso em: 5 jan. 2019

Assim, o limiar complexo entre representação e experiência colabora para pensar a indagação anterior sobre a vivência do burro no nascimento do Menino ser real ou não. Tal como o raciocínio desenvolvido pela estudiosa Paula Glenadel (2011, p. 81), que contribui para discorrer sobre uma possível leitura dessa presença do burro no presépio.

A complexidade das relações entre representação e experiência, entre ficção e testemunho: ‘Há aí um gênio do testemunho que nos lembra que o ato testemunhal é poético ou não existe, a partir do momento em que ele deve inventar sua língua e formar-se num performativo incomensurável’. Então, sem perder sua singularidade, sua opacidade irredutível ao sentido, a experiência torna-se exemplar, à maneira da ficção. Ela nos ensina que a ‘verdade’ se desdobra em ‘poesia’, uma vez que faltam e faltarão sempre palavras para dizê-la. (GLENADEL, 2011, p. 81)29

É possível, dessa maneira, observar que a experiência do burro nessa aura poética revela mais que tentativas cientificas de explicação. Daí para Rosa, o motivo do burro e do boi serem irreais como não anjos, pois sua participação na cena, na

29 Cf.: In: MACIEL, Maria Esther (org.). Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e

história, seja real seja fictícia, existe. Ou seja, é testemunhal, os bichos são

notações do amor.

Para continuar refletindo sob essa linha discursivo-teórica, tomaremos para análise o poema do capítulo XXIV:

Os que oculta ciência de tudo souberam. Seus mágicos presentes, o Menino recebe-os. O colo.

A mãe. O universo.

Atrás, porém, os dois ─ um burro, um boi ─ grimaçante e aturdido, mugínquo e mudo. Inevitáveis.

Íntimos das sombras.

Insubstituíveis. (ROSA, 1994, p. 1.104)

O grandioso momento do nascimento de Cristo, cujas circunstâncias não convém o alcance da ciência, é retratado na pintura Adoração de Reis (Figura 4), de Albrecht Duerer, com ênfase na entrega dos presentes pelos Reis ao Menino Jesus como anuncia o próprio título da obra. Todavia, na leitura rosiana, o burro juntamente com o boi ganham um olhar cuidadoso, sobretudo o burro, cuja presença é notada com pormenorizar dos detalhes.

Figura 4 – Adoração dos Reis, de Albrecht Duerer

Fonte: https://i1.wp.com/virusdaarte.net/wp-content/uploads/2014/01/mag.png. Acesso em 5 jan. 2019

Os bichos são percebidos de forma particular atrás do ponto central da cena, porém reconhecidos em suas relevantes experiências. Embora a caracterização rosiana por meio de um léxico híbrido ─ "grimaçante e aturdido30, mugínquo e mudo" ─ levem à ideia de que os animais pouco atuaram, um papel valoroso a eles é atribuído, pois tais quais no poema VII o burro e o boi são testemunhas, consequentemente "inevitáveis, insubstituíveis".

Podemos voltar mais uma vez à citação de Glenadel (2011, p. 81), na qual observa-se que "o ato testemunhal é poético ou não existe, a partir do momento em que ele deve inventar sua língua e formar-se num performativo incomensurável". Sob essa ótica, Rosa, valendo-se do domínio da linguagem, do lirismo, identifica a expressividade dos animais e, assim, configurações em perspectivas mais aprofundadas aparecem. Ao burro, por exemplo, é dado o direito de ser burro, de

guardar suas próprias excepcionalidades, seus mistérios. Interessantemente, o contexto enigmático que compreende cada Ser, e não

diferentemente o burro, é um ponto de destaque do último poema do texto "O burro e o boi no presépio", capítulo XXVI:

30 Cf.: MARTINS, Nilce Sant'Anna. O léxico de Guimarães Rosa. 2.ª ed. São Paulo: Editora da

Universidade de São Paulo, 2001. Grimaçante: Do fr. grimacer, de grimace, “contorsão do rosto, careta”. (MARTINS, 2001, p. 255); Aturdido: atordoado, estonteado, confuso

O rubro Boi ─

roupa e sangue; e terra. O Burro, atrás, através,

enigma de cerne e de betume. Domésticos, não extáticos protagonistas,

duendes de solidão.

Burro e Boi em sono e sonho ─ glorificantes, et laudantes DEUM... (ROSA, 1994, p. 1.105)

O Burro no painel Nascimento de Cristo (Figura 5), do pintor alemão Martin Schongauer, é lido como "enigma de cerne e de betume", conduzindo a uma ideia de essência, de conteúdo. Há uma ilustração fluida, ao modo singular rosiano de poetizar, da subjetividade do animal, da percepção de Vida.

Figura 5 – Nascimento de Cristo, de Martin Schongauer

Fonte: http://virusdaarte.net/martin-schongauer-nascimento-de-cristo/. Acesso em: 5 jan. 2019

As considerações crítico-reflexivas finais sobre a figura do Burro no presépio encontram aquelas mensuradas na análise do conto "Burrinho pedrês", à medida

que o burro tem percebida sua vivência junto aos outros. De certa maneira, dando aos outros um pouco do seu íntimo e, ao mesmo tempo, recebendo dos outros as suas essencialidades. Essas passagens revelam, portanto, as inevitáveis interações entre homem e bichos e, por conseguinte, a importância de se pensar nessas relações sob várias possibilidades significativas.

Essas experiências, ficcionais ou não, são espontâneas tais quais o ato de viver o é. Nessa naturalidade, o mistério da vida se revela admirável: "Burro e Boi em sono e sonho/─ glorificantes et laudantes/DEUM".31 Logo, a expressão latina arremata não só o texto "O burro e o boi no presépio" bem como esta análise sobre ele, elucidando a condição natural a todos os viventes de não capacidade de desvendar, de conhecer a natureza do mundo e de tudo que nele há.

É importante ressaltar o emprego de referências religiosas incutidas nas leituras rosianas, como por exemplo essa expressão latina dos últimos versos do poema XXVI, bem compreensíveis pelo próprio conteúdo do texto. No entanto, para esta discussão, não se faz tão primordial adentrar nos meandros dessa questão, pois Guimarães Rosa investe em significativos elementos composicionais ─ pertinentes para uma leitura na perspectiva zooliterária ─ os quais dão conta, independentemente de proselitismo, da figura do burro.