Type Specifiers
4.5. Type Speciers That Specialize
Descrição
A reportagem sobre a pesquisa que conclui que quem trabalha sentado vive menos tem abordagem interpretativa/analítica. A origem da pesquisa é internacional. Esta reportagem apresenta fontes testemunhal e especialista. Mas, no caso das fontes, estas não fazem parte da pesquisa, ou seja, buscou-se, na matéria, fontes nacionais que pudessem contribuir com testemunho e conhecimento científico para um resultado de uma pesquisa internacional; as fontes da matéria não participaram da pesquisa e as fontes envolvidas na pesquisa não foram ouvidas. Além disso, não há identificação da origem da fonte especializada nacional, o especialista é denominado apenas como médico. A pesquisa é realizada na Inglaterra, pela Universidade de Cambridge, mas a ambientação da matéria ocorre em São Paulo (não há imagens da Inglaterra). O médico brasileiro fala do seu lugar de trabalho. Ele está vestido de jaleco, sentado em sua mesa. Há uma concordância entre os discursos das fontes, da repórter e do apresentador. A informação do cientista corrobora a informação do jornalista. A Ciência aparece na matéria de forma fragmentada. Além da ausência de fontes envo lvidas na pesquisa, não há explicações da metodologia nem outros dados que possibilitem uma avaliação, por parte do público, da relevância, dos limites e da relativização dos resultados. Entre os recursos de linguagem, a matéria usa principalmente exemplos e comparações/analogias para desenvolver a matéria. Sobre a linguagem na matéria, esta se caracteriza pela clareza e pela simplificação.
A Ciência é apresentada de forma equilibrada (nem elogiada e nem depreciada). A conclusão da matéria é feita pelos apresentadores, que se mostram espantados com o resultado, mas também crédulos, e até preocupado, no caso do Boechat: “Doze anos menos quem trabalha sentado. Pelo amor de Deus”, tanto que comentam sobre a possibilidade de mudarem seus comportamentos para que não sejam afetados pelo resultado da pesquisa (trabalhar sentado e viver menos devido à forma de apresentar o telejornal, sentados). Diz Boechat: “Joelmir, é melhor a gente ficar de pé para apresentar o jornal”. Mas não há tom de negatividade nas palavras dos apresentadores, que brincam com a possibilidade, ou não, de mudança na apresentação do telejornal, chamando a atenção para um aspecto pessoal de um deles. Joelmir Betting não aceita apresentar do jornal de pé porque, naquele dia, estaria de calça jeans, escondida atrás da bancada – o que não combina com a roupa que é mostrada pelas câmeras (terno e gravata). Diz ele: “Não, eu tô de calça jeans, não vai dar”. Apesar de não apresentar imagens do processo de produção da pesquisa, os ambientes escolhidos para representar as rotinas de trabalho de quem trabalha se movimentando (no caso, os trabalhadores da obra) e de quem trabalha sentado (no caso, os profissionais de escritório) colaboram para a apreensão do conteúdo. A Ciência, na matéria, a partir das imagens apresentadas, é incorporada ao ambiente social, mas é desarticulada do ambiente de produção desta. Não há demonstração do processo científico. As imagens, desta forma, não auxiliam na compreensão do processo científico envolvido no assunto. Não há emprego de nenhum elemento ilustrativo nesta matéria.
Análise
A matéria trata de uma pesquisa desenvolvida na Inglaterra e que compara o condicionamento físico de pessoas que têm trabalho movimentado com aquelas que trabalham sentadas.Uma característica marcante desta reportagem é a menção a uma pesquisa internacional e a adequação desta à realidade nacional. A pesquisa foi desenvolvida pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, mas não foram ouvidos trabalhadores ingleses nem os pesquisadores responsáveis pela pesquisa, o que poderia sugerir distorções dos resultados (possivelmente, trabalhadores brasileiros e ingleses têm rotinas de trabalho, dietas e hábitos de vida que influenciariam nos resultados da pesquisa, porém, essas ressalvas não são feitas). Além disso, não há na matéria nenhuma explicação sobre a metodologia empregada no estudo, o que dificulta a compreensão da relação entre a realização da pesquisa e a realidade das pessoas. Perguntas como: quantas pessoas foram estudadas?, em que período? Ou mesmo trabalhadores de que área e de que país (es)? poderiam contribuir para relativizar o alcance dos resultados.
Esta matéria é caracterizada jornalisticamente como fria, já que não há uma data que explicite quando a pesquisa foi concluída e quando foi divulgada. A pesquisa serviu mais como um “gancho”, um mote para a abordagem de outro assunto, esse sim ainda mais atemporal: o condicionamento físico, comparando pessoas que trabalham sentadas com as que exercem trabalho “pesado”. Esse caráter atemporal do assunto pode ser observado na relação de continuidade e perenidade que a repórter estabelece com o assunto: “Para quem trabalha muito tempo sentado, há dois conselhos médicos que atravessam gerações e sempre dão resultados para melhorar a expectativa de vida”. Com a expressão “conselhos que atravessam gerações”, a jornalista ressalta que o assunto que será tratado em seguida não é novidade. O que se pode notar é que há dois discursos nesta matéria, com conteúdos distintos. Um deles é o discurso sobre a pesquisa britânica, sobre a qual é feita a abertura da matéria. Foram a pesquisa e os pesquisadores que deram credibilidade à matéria. A partir daí, com o aval e o amparo da Ciência, a repórter transita pela realidade brasileira e abandona os dados e os resultados da pesquisa citada anteriormente na matéria, constituindo um outro discurso, sobre a importância dos exercícios físicos, esse menos atrelado aos conceitos científicos. Com isso, outras fontes são ouvidas, tanto testemunhais – trabalhadores braçais e de escritório – como especialista – um médico – que não agrega nova informação sobre a pesquisa (e nem poderia, já que ele não participou de sua elaboração).
Sobre a fonte especialista, além de pouco espaço dado ao pesquisador, no caso, identificado apenas como médico (apenas oito segundos, numa matéria de dois minutos e três segundos), seu discurso não trouxe nenhuma informação nova que pudesse aumentar a compreensão sobre a pesquisa ou sobre a relação: trabalhar sentado – viver menos (Disse ele: “A pessoa que tem pouca atividade física ela não pode comer da mesma maneira que alguém que tem muita atividade física”).
Dessa forma, a pouca valorização da fonte especialista foi suprida pela repórter com discursos generalizantes, que represent am um suposto consenso da comunidade acadêmica, ou seja, sempre que precisou da chancela de um especialista, a repórter recorreu a simplificações como: “Para quem trabalha muito tempo sentado, há dois conselhos médicos que atravessam gerações e sempre dão resultados para melhorar a expectativa de vida”; “A segunda recomendação dos médicos é a alimentação balanceada”; “Sendo assim, segundo os estudiosos de Cambridge, dá até para comparar uma obra a uma academia”. Tais discursos
jogam com o que Maingueneau (2001) designa de não-pessoa: fala-se de um “terceiro” (o especialista) sem que este tenha espaço enquanto participante do discurso.
Esse segundo discurso da matéria (o do condicionamento físico) não incorpora o discurso da pesquisa britânica. O anúncio de abertura matéria é quase que completamente abandonado ao longo do seu desenvolvimento. A única expressão que, de forma vaga, relaciona os pesquisadores ao que é dito, é a comparação de uma construção a uma academia, mesmo assim, tratando-se de um conteúdo que não faz ligação com o resultado da pesquisa. A encenação (MAINGUENEAU, 2001) criada nesta matéria está na dualidade trabalho braçal
versus trabalho de escritório com pouco esforço físico.