Program Structure
5.2.2. Lambda-Expressions
Descrição
A nota coberta sobre uma britânica, de 63 anos, grávida de sete meses, tem abordagem do assunto meramente descritiva, pois não há nenhuma explicação sobre o “gancho” da matéria: a polêmica sobre a gravidez tardia na Inglaterra. Não foram ouvidas fontes nesta matéria, que apenas mostra a imagem da mulher grávida concedendo entrevista, mas sem áudio, tradução ou citação indireta de seu discurso. A notícia é de origem internacional. O tratamento de fertilização (que não se trata de uma pesquisa nova) não é o assunto principal da matéria, mas sim a questão da idade da mulher que foi submetida a esse tratamento. Também não há indicação da instituição que realizou o procedimento. Nesta matéria, a Ciência é o assunto principal. A abordagem do conteúdo é realizada de forma fragmentada. Para facilitar a compreensão, é usado o recurso da analogia com outro caso de gravidez tardia. A linguagem predominante é clara e simplificada. A Ciência não é abordada de forma elogiativa nem depreciativa, mas equilibrada. A polêmica ocorre pela idade avançada da gestante. O ambiente colabora para a apreensão do conteúdo, já que mostra a mulher, com 63 anos, grávida. No entanto, o ambiente não colabora para a apreensão do conteúdo científico envolvido. A Ciência, a partir das imagens, é incorporada ao ambiente social e totalmente desvinculada do ambiente de produção. Não há nenhuma demonstração do processo científico envolvido no assunto da nota coberta e não foi usado nenhum elemento ilustrativo.
Análise
A nota coberta sobre uma mulher grávida aos 63 anos é de origem internacional, mas, diferentemente das outras matérias analisadas, não trata de alguma nova descoberta ou nova técnica, mas da questão ética envolvendo um procedimento científico já bastante divulgado: o tratamento de fertilidade. A questão ética levantada pela matéria diz respeito aos casos de gravidez de mulheres com idades avançadas. Sobre isso, Candotti (2002, p. 17) avalia que a divulgação científica possibilita um exercício de reflexão sobre os impactos sociais e culturais da Ciência. “A circulação das idéias e dos resultados de pesquisas é fundamental para avaliar o seu impacto social e cultural, como também para recuperar, por meio do livre debate e confronto de idéias, os vínculos e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes, rompe ou fere”.
A nota coberta cita que há, na Inglaterra, uma polêmica ética envolvendo esses casos de gravidez, mas não especifica os pontos de vista das pessoas, grupos ou entidades a respeito do caso. Também não é exposta qual é essa polêmica. Com isso, ao ocultar a informação central, o gancho (já que não é o procedimento de fertilização a pauta da matéria, mas a ética envolvida), a própria questão ética pode ser transferida para a Ciência enquanto instituição ou mesmo para os personagens-ocultos envolvidos nesse processo, já que não há, pelo menos na matéria, um sujeito que atue de forma não-ética (não se sabe, a partir da matéria, se a falta de
ética é por parte dos cientistas que inventaram a técnica, das mulheres que se submetem ao procedimento, dos médicos que realizaram o tratamento de fertilização).
Um ponto a ser destacado diz respeito à formação da mulher. Ela é uma cientista, uma especialista em psiquiatria infantil. Esse quesito foi destacado antes mesmo de seu nome (já que tal apresentação foi citada logo na abertura da matéria). Pode-se notar um aspecto relevante nessa menção: ela é cientista, conhecedora dos processos que envolvem o desenvolvimento mental e psicológico das crianças e mesmo assim (desprezando esse conhecimento), ou por causa disso (avaliando e ponderando cientificamente as conseqüências), realizou o tratamento de fertilização em uma idade avançada.
Ao inserir, no discurso, a formação da mulher, caracterizando-a como uma cientista, pode-se criar o efeito de que, como conhecedora do desenvolvimento humano, ela não vê grandes problemas em gerar e criar um filho em idade avançada, mesmo com a polêmica alavancada na sociedade. Outro efeito é o de que os cientistas (tanto ela quanto os médicos responsáveis pelo tratamento) não estão preocupados com os aspectos éticos que cercam tal procedimento. Ainda pode-se criar o efeito de que ela, cientista, agiu de forma discordante eticamente. De qualquer forma, ao caracterizar a personagem-testemunha da matéria como personagem- especialista, foram criados sentidos diferenciados dos que seriam suscitados caso esse atributo fosse ocultado ou mesmo se a profissão da mulher não tivesse qualquer relação com a atividade científica.
A ausência de fontes na matéria contribui para os efeitos difusos que podem ser criados. A personagem da matéria é mostrada sorrindo, caminhando na rua, cercada de fotógrafos. Essa imagem contrapõe-se ao problema ético que é imputado ao caso de que ela é protagonista: ela é a mulher grávida com idade avançada (com o agravante de ser cientista) que se submeteu à fertilização assistida e que, com isso, aumentou a polêmica sobre tal procedimento médico. Ao mostrar a mulher sorrindo na rua, cercada de jornalistas, pode-se criar o efeito de que, mesmo transgredindo o percurso natural da vida e abalando setores da sociedade britânica, ela está feliz. Ou ainda: vale a pena não seguir as normas éticas defendidas por determinada sociedade para satisfazer um desejo pessoal de busca pela felicidade, não importando as visões discordantes. Além disso, ela estava sendo requisitada, procurada por jornalistas, sendo fotografada. Por essa iniciativa, ela obteve projeção pública a tal ponto de ser mencionada em uma matéria em outro país, no Brasil. Com isso, pode-se criar também o efeito de que, ao fazer o que se quer, mesmo não seguindo as normas éticas impostas pela sociedade, é possível ganhar notoriedade, fama, destaque social e ficar famosa. E a Ciência pode contribuir para isso.
Vale ressaltar o erro de leitura cometido pelo apresentador que, pelo tom absurdo que tomou, diminuiu, no final da nota coberta, a seriedade do assunto. Ao comparar o caso da britânica com o de outra mulher, Heródoto Barbeiro a comparou a um homem. Disse ele: “No ano passado, um homem de 66 anos bateu recorde mundial ao se tornar, perdão, uma mulher, ao se tornar mãe, depois do tratamento de fertilização assistida”. Com isso, mesmo corrigindo seu próprio erro, o discurso já havia sido formulado e esse contra-senso, que cerca o que foi dito, compõe a matéria.
O apresentador faz uso de modalizações autonímicas que deixam sua marca no discurso e são emblemáticas da posição discursiva que ele atribui a seu discurso no contexto da matéria, assim como mostra a posição discursiva atribuída ao telespectador da matéria. As modalizações autonímicas são comentários que o enunciador faz sobre sua própria
enunciação. (AUTHIER-REVUZ apud PAULIUKONIS, 2003). Ao proferir a palavra “perdão” fica patente o reconhecimento do erro por parte do apresentador e também o respeito dele para com os telespectadores. Foi mais que um pedido de desculpas. Foi um pedido de perdão, de remissão da culpa.
Não se tratava simplesmente de um erro gramatical, de pronúncia ou mesmo de informação técnica. Foi um equívoco que levou a uma idéia absurda e que envolveu até mesmo o procedimento científico: a Ciência ainda não é capaz de fazer com que homens fiquem “grávidos”, o que seria realmente uma grande descoberta científica, mas que, se isso acontecesse, realmente ocasionaria uma polêmica. Portanto, foi diluído o impacto da própria matéria, pois, mesmo com o erro, a matéria mostrou que a polêmica ética poderia realmente ser maior se o que o apresentador disse fosse realmente verdadeiro: um homem “grávido” graças à Ciência. Isso minimizou o impacto (inclusive da polêmica ética) do assunto.
Comparações entre as matérias: a função educativa
A reportagem do Jornal Nacional sobre “Investimento dos Estados em esportes: pesquisa IBGE” faz uma interpretação negativista dos dados da pesquisa. Um ponto negativo para a explanação da pesquisa refere-se à ausência de fontes especialistas na matéria. Nenhum pesquisador responsável pela pesquisa foi ouvido.
Por outro lado, para facilitar a compreensão do assunto, a matéria emprega exemplos – a maior parte negativos – de escolas em relação à infra-estrutura para a prática de Educação Física. Outro recurso para atrair a atenção do público é mostrar imagens, em tom de denúncia e de investigação por parte da equipe de reportagem, e a falta de investimentos governamentais. A linguagem é simples, com alguns usos típicos da linguagem oral, o que também facilita a aproximação com o público.
No caso da nota coberta do Jornal da Cultura sobre uma mulher grávida aos 63 anos, que aborda a questão ética envolvendo o tratamento de fertilidade, não há uma contextualização do assunto científico. Também não há explicação da polêmica gerada na Inglaterra com o caso: a nota coberta apenas cita que há uma polêmica. A ausência de fontes também dificulta a contextualização do assunto. Apenas a mulher grávida é mostrada, mas a imagem não a vincula a algo negativo ou polêmico, já que ela é mostrada sorrindo e sendo entrevistada na rua. Houve, ainda, um erro de informação dito pelo apresentador (prontamente corrigido por ele próprio), que criou um sentido cômico à nota coberta e diminuiu o impacto da informação, além de poder representar um ponto de dispersão do público.