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Special Forms

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Program Structure

5.1.3. Special Forms

Formato: Reportagem

Descrição

A reportagem sobre o investimento dos Estados em esportes abordou o assunto de maneira interpretativa/analítica, a partir de exemplos que ilustram os dados da pesquisa do IBGE. Nesta matéria há apenas fontes testemunhais. Não há entrevistas com especialistas responsáveis pela pesquisa ou analistas da questão, nem entrevistas com fontes oficiais. A origem da pesquisa é nacional, realizada em todos os Estados. A pesquisa científica é o assunto principal da matéria, responsável pela credibilidade da denúncia mostrada ao longo da matéria pelo repórter.

A abordagem da Ciência acontece de forma contextualizada. Analogia e exemplos são os recursos empregados na matéria para tornar o assunto interessante. A linguagem é clara e simplificada, no entanto, diferentemente das demais matérias estudadas, o repórter insere alguns termos específicos da linguagem oral, mas que não comprometem o entendimento do assunto. Esses termos podem ser identificados nos seguintes trechos: “Essa escola no Rio é considerada uma das três melhores do Estado, mas a situação do depósito de materiais esportivos não é lá essas coisas ”; “Essas bolas aqui, ó, foram emprestadas por alunos”; E aqui na janela a gente encontrou, ó, esse papel”, “Essa listinha aqui está aqui há dois anos”. Tal característica já foi apontada por Carmo Roldão (2003) ao investigar a linguagem oral do telejornalismo brasileiro. “(...) na construção da linguagem escrita, para ser falada na divulgação dos fatos para a sociedade através da televisão, aplicam-se tanto características da linguagem escrita, como características da linguagem oral, criando, assim, um padrão próprio que incorpora os dois anteriores” (CARMO ROLDÃO, 2003, p. 199-200). A Ciência não é apresentada de forma elogiativa, nem depreciativa, mas equilibrada. As imagens da matéria contribuem para a apreensão do conteúdo. Elas ilustram os dados da pesquisa com situações reais das escolas. Por isso, a Ciência, na matéria, está incorporada ao ambiente social, mas desarticulada do ambiente de produção. Não há imagens que demonstram o processo científico envolvido, há elementos ilustrativos somente dos resultados da pesquisa. Como

elementos ilustrativos são usados: vinheta, que indica o mapa do Brasil em forma de gráfico, além de gráfico sobre a porcentagem de investimento dos Estados em esportes. Estes elementos auxiliam na compreensão dos resultados da pesquisa.

Análise

A denúncia apoiada nos dados da pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é o foco da matéria sobre os investimentos dos Estados em esportes. Como se trata de um estudo em nível nacional, a matéria procura, a partir de exemplos de escolas de diferentes regiões do País, mostrar o ponto comum entre elas: o pequeno investimento dos Estados em esportes. Uma escola, a primeira mostrada, é da região norte (da cidade de Manaus), a outra da região Sudeste (Rio de Janeiro) e a última é da região sul (de Porto Alegre). Em todas elas são mostradas as precariedades das estruturas e dos equipamentos de esportes.

O tom da matéria é marcado pelo negativismo e pelo fatalismo (que dizem respeito aos resultados obtidos na pesquisa e não ao estudo do IBGE em si), que entrelaçam imagens e discursos ao longo de toda a matéria.

A interpretação negativista dos dados da pesquisa é feita pelos discursos da apresentadora, do repórter e também na edição dos discursos dos entrevistados. Essa característica ficou patente, entre outros pontos, no uso de adjetivos comparativos. A apresentadora, na abertura, informa: “Depois de mostrar como são pequenos os investimentos dos municípios brasileiros em esportes...”. Com isso, ela já deixa claro que os municípios investem pouco e lança um desafio aos Estados, comparando-os com os municípios, que já foram mal avaliados pelo IBGE. Em seu discurso fica subentendido que os municípios investem pouco. Será que os Estados são diferentes? E o que a pesquisa do IBGE acaba de descobrir. Ela prossegue: “...o IBGE revelou hoje quanto os Estados gastam”. A expressão facial séria da apresentadora Fátima Bernardes também colabora para a construção desses sentidos na matéria. Ao citar e comparar os dados da pesquisa com outra pesquisa já divulgada anteriormente, a matéria joga com o dialogismo (BAKHTIN, 1997) entre os discursos de divulgação científica: uma pesquisa já divulgada apóia e constitui a enunciação de uma outra matéria também de divulgação científica.

No primeiro off , ao mostrar uma imagem desoladora de um campo de futebol com terra, sem qualquer condição de infra-estrutura, com alunos jogando bola, é reforçado o tom negativista da matéria. Essa imagem é composta por um discurso fatalista e desesperançoso da situação. Diz o repórter: “Educação física é sonho impossível para esses alunos em Manaus”. O fatalismo é explicado pela força com que o repórter joga com as palavras “sonho impossível”, como algo que jamais será concretizado, como se a situação nunca pudesse ser mudada e, fatalmente, os alunos nunca terão aulas de Educação Física. Isso é reforçado pela sonora do aluno (que não teve nome divulgado), que afirma que gosta de jogar futebol e handbol, mas que não tem campo para isso. Ou seja, o sonho do aluno – afirmado pelo repórter e confirmado pelo aluno – não passa mesmo de um sonho, impossível de se realizar.

No segundo off da matéria há a apresentação dos dados da pesquisa e, nesse ponto, também, não se despreza o uso de adjetivos e de imagens que colaboram para o caráter pessimista da matéria. No trecho “De cada dez escolas estaduais do país, quatro eram assim há três anos e a situação do norte era pior...”, a descrição “eram assim” remete às condições precárias do campo de futebol mostrado anteriormente. Nota-se também que a matéria emprega enunciados dependentes do ambiente (MAINGUENEAU, 2001) para construir o discurso e

dar credibilidade à informação (o repórter esteve nos locais e verificou as condições das escolas). Já no trecho “a situação do norte era pior” faz inferência (DUCROT, 1981) de que a média nacional é ruim e na região norte a situação é pior ainda. As imagens dos números da pesquisa, com as porcentagens de escolas com e sem instalações esportivas, reforçam essa posição. Na continuação desse discurso, o repórter salienta o pouco investimento dos Estados com a palavra “só”, no trecho: “...Os governantes dos Estados gastaram com esportes em 2003 só 0,09% do total de despesas”. Em seguida, ele fala de uma escola do Rio de Janeiro considerada uma das três melhores do Estado, mas que, mesmo com essa categoria, não possui infra-estrutura para a prática de esportes: “Essa escola no Rio é considerada uma das três melhores do Estado, mas a situação do depósito de materiais esportivos não é lá essas coisas”. A expressão “não é lá essas coisas” remete também à denúncia de precariedade da situação. A imagem que cobre esse trecho do off mostra o depósito em más condições de armazenagem de materiais e reforça esse sentido.

A passagem, que mostra o repórter dentro do referido depósito de materiais esportivos, também está repleta da carga negativa atribuída à matéria. Ao mostrar as bolas estragadas, que não foram adquiridas pela escola mas emprestadas por alunos, o repórter enfatiza que, além de não terem materiais esportivos em quantidade e qualidade suficientes, os que estão na escola foram emprestados por alunos, o que não deveria acontecer, já que bolas não fazem parte da lista de materiais que alunos devem comprar. Depois disso, foram mostradas imagens, e reforçadas pelo discurso do repórter, que mostram os problemas encontrados nos equipamentos, inclusive com comprometimento da segurança dos alunos.

O descaso é reforçado pela lista que um professor de Educação Física preparou, com os materiais que devem ser adquiridos pela escola, lista essa que se encontra abandonada há dois anos e que foi “descoberta” na vasculha feita pela equipe de reportagem no depósito. Isso é composto também pela expressão facial de descrédito do repórter, no trecho: “E aqui na janela a gente encontrou, ó, esse papel. É um levantamento de material esportivo feito por um professor. Precisa de bola de handbol, basquete, futsal, voleibol. Essa listinha está aqui há dois anos”. É possível notar o tom de investigação que o repórter impingiu ao seu discurso. Ao mesmo tempo, o repórter emprega os pronomes e verbos na terceira pessoa do plural, o que pode representar que ele e sua equipe de Jornalismo descobriram, encontraram ou mesmo que ele compartilha com o público esta descoberta: trata-se de uma forma de aproximar o telespectador da matéria e de criar a sensação no público de pertencimento à cena enunciativa do discurso (o repórter fala para o público sobre seu ato de descobrir e inclui o público nessa ação) e também coloca o telespectador na posição de descobridor daquelas informações e de conhecedor daquele fato descoberto.

Os materiais e a infra-estrutura existentes na escola, como piscina e quadra de tênis, são atribuídos à comunidade. Não há, no entanto, explicação de como essa iniciativa foi realizada, o que poderia mostrar um outro lado da situação: a atuação de pessoas da comunidade em prol da educação pública. Atuação essa incentivada até mesmo pela emissora, no caso o projeto “Amigos da Escola”, criado pela Rede Globo, que prevê a participação de membros da comunidade nas escolas.

Outro exemplo, no final da matéria, mostra, de forma descontextualizada e sem muitas explicações, o que, na matéria, é “um projeto de caça-talentos na escola, em Porto Alegre, que revelou Daiane dos Santos”. Nada mais é dito sobre o projeto. Nenhuma identificação com a realidade da escola em que o projeto está inserido. Nenhuma fonte envolvida no projeto foi ouvida. No final deste off, o repórter afirma que ainda faltam campeões, mas também não

explica por quê faltam campeões, se é por causa da falta de preparo ou por estes ainda não terem sido descobertos.

O final da matéria é dado por um discurso de Daiane do Santos sobre a distribuição desigual de verbas para o esporte, o que acaba por contrapor com o assunto abordado até então: na matéria, a pesquisa do IBGE revelou que os Estados brasileiros investem pouco, de forma geral, com uma situação pior dos Estados do Norte. No entanto, Daiane dos Santos encerra a matéria tratando da situação diferenciada entre os Estados. A matéria é concluída sem um consenso, com uma fala que desconstruiu o sentido do discurso da matéria desenvolvida até então (“Uns Estados têm tanto e outros tão pouco”), mas nem a matéria e nem a pesquisa divulgada na matéria mostraram que alguns Estados têm muita verba destinada aos esportes. Além do tom de denúncia da matéria, outro ponto a ser destacado diz respeito à inserção das fontes e aos sentidos gerados na matéria com os discursos das fontes. Não há fontes especialistas nesta reportagem. Não foram ouvidos pesquisadores do IBGE responsáveis pela pesquisa, profissionais, pesquisadores, professores de Educação Física ou mesmo de Educação ou pesquisadores de Políticas Públicas. Além disso, não há fontes oficiais na matéria. Essas duas categorias de fontes são extremamente importantes jornalisticamente no caso desta matéria.

No caso das fontes especialistas, essas poderiam contribuir com informações sobre a importância de se realizar atividades de Educação Física nas escolas e os prejuízos à educação com o descaso dos governantes apontado na matéria. Já a fonte especialista do IBGE poderia colaborar com informações sobre o alcance da pesquisa, além de dados e análises que não constam do relatório oficial divulgado. No caso das fontes oficiais, ligadas a governos estaduais, seriam importantes na matéria para que o tom de denúncia fosse ponderado, levando-se em conta um dos critérios básicos de produção de matérias jornalísticas: ouvir o outro lado envolvido no fato.

Para tentar suprir a falta de uma fonte especialista na matéria, o repórter recorreu ao depoimento de Daiane dos Santos. No contexto da matéria, ela pode ser caracterizada como uma fonte testemunhal (ela foi descoberta por um projeto de caça-talentos em escolas), mas seu discurso é o de uma fonte especialista: ela ocupa a posição discursiva de uma fonte especialista. Nota-se, com isso, o que Abramo (2003) chama de padrão de inversão da opinião pela informação: Daiane dos Santos ocupa o espaço discursivo da fonte especialista.

Dessa forma, pode-se aferir que esta matéria abordou a Ciência com grande ênfase na denúncia, caracterizada pelo tom negativista, pelo uso indiscriminado de adjetivos (que também gera controvérsias em Jornalismo, porque torna o texto explicitamente opinativo) e pela ausência de fontes especialistas e oficiais, o que acarreta em lacunas de informação. No caso das fontes testemunhais também há lacuna s. O repórter citou professores e a comunidade, mas não foram ouvidos membros da escola ou da comunidade para comprovar ou não a realidade mostrada na matéria.

O discurso do repórter para tratar dos alunos e as falas selecionadas dos alunos também cria sentidos que colaboram para o denuncismo da matéria. Os alunos são tidos como vítimas indefesas da situação, como incapazes de agir para reverter a situação (eles estão fadados a não terem aulas de Educação Física). Além disso, são os alunos que têm “sonhos impossíveis”, são eles que não têm instalações inadequadas, equipamentos de segurança e

materiais para a prática de esportes. A matéria até cita um lado ativo, colaborador dos alunos (“Essas bolas aqui, ó, foram emprestadas por alunos”), mas isso não é destacado nas falas. Quando os alunos aparecem na matéria, as imagens são de instalações precárias (campo de futebol de terra) e, além do mais, são anônimos: seus nomes não são divulgados por escrito na tela.

Telejornal: Jornal da Cultura

Matéria: Grávida de 63 anos (CD-Rom 2, página 09)

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