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15,7 millions en 1963-1964, triplant ainsi enere les deux exercices

O teatro político aqui estudado tem em sua coluna vertebral os trabalhadores organizados, e se conforma na busca pela práxis cênica que evidencie as relações sociais e

suas contradições e não os problemas de um indivíduo. Para tal, o método materialista histórico dialético se constitui enquanto concepção estética, apresentando-se para o Teatro Sem Terra e seu sistema interno como fundamental para ser possível levar à cena o projeto político defendido pelo MST. A Patativa do Assaré se organiza

questionando os pilares de estruturação do sistema agrário do país, de caráter monopolista, exportador e de forte traço autoritário no que concerne às relações de trabalho (…) Portanto, sem meias palavras, estamos falando de um projeto que priorize a descentralização da propriedade e viabilize a organização da propriedade coletiva dos meios de produção, o que implica um processo massivo de transferência dos meios produtivos para a classe trabalhadora. (PATATIVA, 2007, pg.1)

É o projeto político do MST que define a parceria estético-política do MST com o CTO. Por terem ambas as organizações a compreensão de que é preciso alterar as bases materiais de sustentação da opressão e exploração, desmercantilizar a criação e para tal, socializar seus meios de produção. Ao alçar à esfera teatral os problemas vividos pelos oprimidos, Boal propõe um teatro que não somente adota os procedimentos teatrais que aproximam-se dos expressos no contexto da consolidação da Revolução Russa, mas sistematiza um arsenal que tornou-se parte fundamental do aporte teórico e prático do teatro político que tem seu leito histórico constituído nas experiências teatrais forjadas em momentos de ascenso das lutas de massas.

Teatro político esse, que se organiza em contextos históricos, econômicos, sociais e culturais diferentes, em nosso caso, o TO, no bojo das lutas sociais populares crescentes no Brasil e na América Latina. Tendo despontado no início do século XX na Rússia com o Agitprop Soviético e na Alemanha com o Teatro Político de Piscator e o Teatro Épico de Brecht; no Brasil, tem sua expressão de maior emborcadura sistematizada no Teatro do Oprimido de Boal ao afirmar a cena como lugar das questões propostas por pessoas interessadas em discutir por meio do teatro as contradições e opressões que vivenciam as desafiando a propor caminhos. No arsenal boalino, uma importante diferença do Teatro Político do início do século XX na Alemanha e URSS, é a incorporação da dialogicidade freireana, reafirmando o talvez óbvio, que o teatro não é um ato solitário e se estabelece na dimensão dialógica, essa, ao ser explorada por Boal, possibilita e fundamenta a concepção praxiológica do espect-ator, radicalizando a refuncionalização concebida por Brecht, alterando profundamente o lugar ocupado pelo espectador no espetáculo.

relacionados à função, forjando uma estética própria dos sujeitos que se apropriam dos meios de produção teatrais, o que possibilita a afirmação da estética Sem Terra. Ao criar formas próprias de fazer arte, o MST torna o teatro ação alocada numa estratégia maior, atuando em perspectiva coletiva nacional e internacionalmente. “Augusto Boal, desde a década de 1960, tinha plena consciência da parte que cabe aos trabalhadores de teatro na construção desse projeto radical de sociedade”(PATATIVA, 2005, pg.1), e se “O homem simples vê no teatro o templo das musas, onde só se pode entrar de casaca e correspondente boa disposição.” (PISCATOR, 1968, pg. 42) o MST ocupa esse templo e o profana:

Por acompanharmos o curso da história, sabemos que — enquanto persistir o sistema regido pela lei do capital — nas ruas parte de nossa “platéia” sempre será a tropa de choque, a cavalaria. Não nos amedronta saber que nosso teatro em praça pública se fará em meio a bombas “de efeito moral” e rasantes de helicópteros. Pelo contrário, isso nos dá a certeza que nosso teatro é uma arma dos trabalhadores na luta de classes, e cientes disso nos empenharemos sempre na qualificação estética e política, aprendendo e multiplicando as diversas tradições da linguagem teatral. (PATATIVA, 2005, pg. 11)

Com a criação do espect-ator, Boal organiza na própria cena, a socialização dos meios de produção, ao fazê-lo com um movimento social que pressupõe a socialização não somente do modo de produção teatral, mas do modo de produção e reprodução da vida humana, vai-se além da condição de espetáculo, questiona-se a fragmentação e mercantilização do mundo contemporâneo; o teatro é no MST não somente emissor de um projeto, e sim parte de um projeto político coletivo de sociedade.

Enveredar pelo Teatro do Oprimido da Brigada Nacional de Teatro Patativa do Assaré, descortinar a prática teatral do MST, suscita algumas questões que pretendem ser aprofundadas em um próximo estudo. Concluo, que o arsenal boalino, quando apropriado por um movimento organizado tem potencializada sua ação de socialização dos meios de produção, mas o teatro feito por esse movimento. É possível afirmar que essa parceria, MST e CTO, resulta em uma nova síntese estético-política, que se forja como avanço histórico do Teatro Político brasileiro, expresso na Estética Sem Terra?

Uma das dificuldades encontradas, dentre as tantas, foi não ter sido possível assistir espetáculos da Patativa do Assaré, o que limitou a análise e o identificar do sistema interno com olhos na prática. Sabendo que um sistema interno não é um receita de bolo, nos perguntamos se o sistema interno teatral Sem Terra, organizador da Estética Sem Terra, apontados em quatro elementos: A) desmercantilização e socialização dos meios de produção

teatrais; B) trabalho coletivo; C) a refuncionalização; D) método materialista histórico dialético, parecem elementos que se utilizados por outros movimentos sociais na conformação de suas práticas teatrais tem-se a possibilidade maior de emissão de projetos políticos com vistas à emancipação humana. Mas isso só se confirma indo à prática cênica, tornando-se espect-ator para pensar na cena as questões colocadas. É preciso experimentar cenicamente o que aqui pudemos estudar, que venha o futuro, que venha o palco, porque como bem nos disse o guerrilheiro baiano Carlos Marighella, “é preciso passar a ação”.

Figura 23: Homenagem a Boal feita pelo MST na Escola Nacional Florestan Fernandes – ao centro, Maria Rita Kehl, vice presidente do Instituto Boal e João Pedro Stédile, da direção nacional do MST

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