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Gl'~~ III - plus de 200 dallal'S des Etats-Unis

A práxis política da cena transforma em material cênico as relações complexas que tratam da estrutura da sociedade, ao se evidenciarem fazem emergir o antagonismo opressor – oprimido, o que afirma a existência de forças sociais que atuam enquanto classe, o “oprimido”, o indivíduo, despossuído, desprovido do direito de falar, do direito de ter a sua personalidade, do direito de ser. (BOAL, 1991, pg. 77), está no centro dos jogos do arsenal teatral sistematizado por Boal, e também no teatro de agitprop russo, no teatro proletário alemão. Mas é a partir da análise dos limites do teatro do alemão Bertold Brecht, com base nas reflexões que “[…] evoluem a partir do exame crítico e criterioso das concepções” do mesmo, (PEREIRA, 2000, pg. 141), que a Poética do Oprimido se conforma. Boal traça um paralelo e aponta as diferenças centrais entre sua poética e a de Brecht, chamando a brechtiana de Poética de Conscientização, que revela por meio do teatro a realidade como modificável e propõe que a encenação se dê de modo a conduzir o espectador a fazer uma reflexão crítica consciente da peça, não se entregando ao personagem, mas posicionando-se diante da representação.

8 O referido texto “Les phases historiques de l'agit-prop soviétique”, in Le theâtre d'agit-prop de

1917 à 1932, de 1977, ainda não está oficialmente traduzido para o português, a versão utilizada foi traduzida por Iná Camargo Costa, realizada para uma publicação sobre formas e história da agitação e propaganda, e atualmente está em fase de edição.

Brecht propõe uma Poética em que o espectador delega poderes ao personagem para que este atue em seu lugar, mas se reserva o direito de pensar por si mesmo, muitas vezes em oposição ao personagem. Produz-se uma “conscientização”. (BOAL, 1991 p. 139)

A poética sistematizada por Boal, definida por ele como “Poética da Liberação”, ao propor a própria ação possibilita que ao ser alçado à condição de espect-ator o público assuma o papel protagônico, ensaiando as possíveis soluções, debatendo, preparando-se para a ação real. (BOAL, 1991 p. 139) “A poética do oprimido é essencialmente uma Poética da Liberação: o espectador já não delega poderes aos personagens para que pensem nem para que atuem em seu lugar. O espectador se libera: pensa e age por si mesmo! (BOAL, 1975, p.169) É essa ação que arvora o TO ao seu caráter pedagógico, e avança na formação da consciência através da práxis do espect-ator que dá corpo e caminho à cena.

Dentre as modalidades do agitprop a experiência da peça dialética também se pautava pela necessidade em ser didático e dialético. Os grupos que aderem a essa modalidade vão se debruçar sobre o ensejo de construção de uma outra moral, costumes e práticas principalmente no que tange as tarefas da juventude proletária na Revolução. Não há um desfecho de um enredo linear, onde uma solução é apresentada. Com destaque nessa modalidade (GARCIA, 2004) está a pesquisa cênica feita pelo Teatro de Agitação de Leningrado - TRAM, Movimento Teatral da Juventude Operária, formado em 1919, considerado um dos mais importantes grupos de agitprop dos anos 20. A modalidade é para Jean-Pierre Morel, uma das tentativas mais originais do teatro de agitação depois de 1925, por de modo didático envolver seu público na luta para mudar o que está estabelecido em vez de lhe fornecer soluções prontas, afirmando que:

Ele renova o gênero das peças de agitação – melhoradas, quando não redigidas coletivamente – e a maneira de as montar: o texto e a encenação tentam mostrar a vida cotidiana não mais a partir de aspectos dos costumes ou de conflitos pessoais, mas de atitudes e situações contraditórias. É um trabalho de cena novo, que tem o objetivo de mostrar as contradições junto com o que pode ser melhorado (MOREL,1977, s/p)

Brecht avança no que tange ao caráter pedagógico da peça dialética, e aponta com as Lehrstücke o objetivo de desenvolver um pensamento crítico-reflexivo, ultrapassando o caráter de mera transmissão de conceitos. O método dialético que se desenvolve no Teatro Fórum assemelha-se ao Lehrstück pelo fato de que,

[...] os dois projetos rompem com as clássicas funções dos atores e dos seus papéis, questionando profundamente a peça e sua problemática marxista. Ambos os projetos pressupõem um investimento substancial dos atores e

espectadores. Neste investimento substancial a parte do sujeito não é somente a da subjetividade, mas a de um interesse histórico e ideológico. Lehrstück e Fórum questionam o teatro e sua essência comunitária, pela reversibilidade de funções entre o modo agere e o modo spectare. Essa reversibilidade permite a Boal criar uma nova relação entre o espectador, o ator e a personagem” (PEREIRA, 2000, pg.140)

Na direção do Teatro de Arena, Boal aprofundou a experiência com as influências de Brecht e radicaliza o Efeito Distanciamento (Verfremdungseffekt), criando o sistema Curinga, em que os atores se revezam fazendo todos os personagens, um embrião do que viria a ser o Teatro do Oprimido, e se arvora a dizer que dá o passo não caminhado por Brecht:

Brecht tentou o mesmo, mas, a meu ver, ficou na metade do caminho. O que é insuficiente em Brecht é a falta de ação do espectador. Seu teatro é catártico, pois não basta que o espectador pense: é necessário que ele aja, acione, realize, faça, atue. O erro de Brecht foi não perceber o caráter indissolúvel do ethos e da diánoia, ação e pensamento – ele propõe dissociar e mesmo contrapor o pensamento do espectador ao pensamento do personagem, mas a ação dramática continua independente do espectador, que se mantém na condição de espectador. (BOAL, 1980, p. 83)

A recusa de Boal sobre a separação entre o palco e a cena enlaçada, a recusa do sujeito Sem-Terra em esperar a transformação, associada a organização política – movimento social - possibilita ao teatro do MST ocupar a cena ocupando o latifúndio. Quando a coletividade se dá não somente no momento do espetáculo, têm-se a possibilidade de se propor uma intervenção mais apurada e consciente. Identidade de classe pautada pela construção de um mesmo projeto político. Não se trata de um teatro para os Sem Terra e sim de um teatro dos Sem Terra, parafraseando Erwin Piscator e sua proposta de Teatro Proletário, que diz, “Não se tratava de um teatro que pretendia proporcionar arte aos proletários, e sim uma propaganda consciente; não se tratava de um teatro para o proletariado e sim de um teatro do proletário.” (PISCATOR, 1968 ,pg. 51).

O ensaio da ação transformadora que se dá na peça-fórum quando os espect-atores são os militantes de um movimento, é realizado de modo não somente diferente de espect-atores não organizados, mas com potencial maior de transgressão, por ser um projeto comum de sociedade defendido pelos participantes do fórum,

[...] as intervenções em uma cena de Teatro-fórum são frutos de um processo de fruição da obra teatral pelo espect-ator, e envolvem questões como a formação, as experiências anteriores em determinado contexto social e a produção ideológica perante o mundo. (CANDA, 2013, pg.131)

Sabendo que,

[...] a arte do Sem Terra vai além das belas artes (música, poesia, teatro dança, arquitetura, pintura e escultura), ligam à vida e a utopia socialista. A

educação artística sai de dentro das escolas porque os artistas espectadores se transformaram em ‘artistas’ da própria história. (BOGO, 2002, p. 144) A formação dos militantes do MST com o CTO propunha desenvolver um pensamento crítico-reflexivo, ultrapassando o caráter de mera transmissão de conceitos; e o teatro desenvolvido na parceria tratou de questões práticas, referentes aos princípios básicos e fundamentais das relações humanas, bem como os problemas vivenciados no cotidiano, como evidenciado na análise da peça Privatleite. A possibilidade de reflexão, nessas peças, vem do questionamento da realidade e da própria existência humana; acontece à medida que o indivíduo se percebe como parte integrante de uma determinada classe social, percebendo também que as relações existentes no meio se encontram determinadas pela própria organização social do trabalho e pelo sistema político vigente, ampliando o olhar dirigido a esse sistema e, abordando os conflitos estabelecidos entre seres humanos e seres humanos, seres humanos e seu meio; estudam os movimentos humanos, responsáveis pelo funcionamento e condução das relações historicamente estabelecidas, com o intuito de propor intervenções e mudanças orientadas pelo Movimento. Ser parte de uma organização política orienta a prática cênica da Brigada Patativa do Assaré, que tem em sua gênese um projeto estratégico de sociedade e o enfrentamento ao neoliberalismo que solavanca o Brasil na década 90.