Geralmente, quando nos lembramos do processo de aprendizagem da leitura, tal significa que foi algo difícil e complexo, acarretando algum sofrimento por parte do sujeito aprendiz (Morais, 1994).
Nas diferentes definições do ato de ler, podemos identificar pelo menos três pontos de vista básicos sobre o processo de aprender a ler (Viana & Teixeira, 2002): a) aprender a ler significa aprender a descodificar palavras (uma vez descodificadas as palavras, a compreensão torna-se possível); b) aprender a ler significa aprender a identificar palavras e a obter significado (logo que tenha lugar a compreensão individual das palavras, do sentido das frases ou parágrafos, a compreensão do texto operar-se-á automaticamente) e c) aprender a ler significa trazer significado para o texto com o fim de obter dele significado (a compreensão não resulta somente da descodificação precisa de cada palavra na frase, sendo que o conhecimento extratextual do sujeito confere significado ao texto).
Carrol (cit in Viana & Teixeira, 2002) considera que o processo de leitura exige a intervenção de inúmeros componentes que têm de ser aprendidos e praticados:
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b) Aprender a segmentar as palavras faladas nos sons que as compõem;
c) Aprender a reconhecer e a discriminar as letras do alfabeto nas suas várias formas de apresentação gráfica;
d) Aprender o princípio de orientação esquerda/direita quer na exploração da palavra isolada quer num texto:
e) Aprender que há padrões de correspondência letra-som com grande regularidade e saber utilizá-los no reconhecimento das palavras que o sujeito já conhece na linguagem oral bem como na pronúncia de palavras não familiares;
f) Aprender a reconhecer palavras impressas, servindo-se de todas as pistas que possam ser úteis;
g) Aprender que as palavras impressas são transcrições das palavras faladas e que têm significados idênticos a estas;
h) Aprender a raciocinar e a pensar sobre o que se lê, dentro dos limites das capacidades e da experiencia do sujeito.
Segundo Alexander e Slinger-Constant (2004), uma boa leitura carece de algumas características essenciais: a) consciência fonética - consciência da estrutura dos sons da linguagem falada e das unidades básicas do discurso (fonemas); b) conhecimento da relação entre letras e sons e correspondência soletramento-som, permitindo uma descodificação fonológica adequada; c) aquisição visual das palavras - automatismo na leitura das palavras sem necessitar da descodificação som-a-som, conduzindo à descodificação ortográfica; d) vocabulário - o armazenamento do significado das palavras e a habilidade de aceder fluentemente à informação e e) compreensão do texto - habilidade para pensar e extrair informação do texto enquanto ocorre uma integração fluente de múltiplos processos.
Rui Manuel Carreteiro 15 A primeira descoberta que uma criança faz quando está a aprender a ler é a de que as palavras escritas são compostas por partes, podendo ser divididas em unidades menores do que o som – consciência fonémica (Shaywitz, 2003). Esta descoberta é essencial para a leitura, variando muito de criança para criança: enquanto para umas é um processo relativamente rápido e sem esforço aparente, nos disléxicos, uma falha a este nível afeta a capacidade de segmentar a palavra verbalizada nos sons subjacentes (Shaywitz, 2003).
Shaywitz (2003) concebe o processo de leitura como dois grandes componentes: a descodificação, que resulta no reconhecimento imediato das palavras e a compreensão, relacionada com o seu significado (Fig. 1.1.).
Figura 1.1.
Processo de Leitura (adaptado de Shaywitz, 2003)
Discurso Sintaxe Semantica Fonologia Compreensão Descodificação Linguagem Leitura Inteligência Geral Vocabulário Reconhecimento Imediato de Palavras Significado Formação de Conceitos R a c io c ín io Texto Descodificação ^
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Weiss (1987, cit in Ferreiro & Teberosky, 1986) refere três estádios na aprendizagem da leitura. No primeiro, que situa entre os 2 e os 5-6 anos de idade, através de conversas com os pais, irmãos e outros contactos com livros, a criança apercebe-se da existência de sinais utilizados para representar palavras e sensibiliza-se para a existência de uma relação entre o discurso e o que está escrito nos livros que os adultos ou irmãos mais velhos lêem. Gradualmente, descobre a relação entre o que eles dizem e o que está escrito nos livros (Ferreiro & Teberosky, 1986). Finalmente, aprende certas letras, passa a escrever o seu nome ou o de alguns objetos, ligando os sons às palavras que os representam.
No segundo estádio, que tem lugar aos 6-7 anos de idade, a criança começa a ler, identificando o significado de cada palavra, uma por uma. Procura, de certo modo, adivinhar o significado dos vocábulos, baseando-se no conhecimento que tem da escrita e da linguagem falada. Adota um método heurístico, colocando hipóteses prováveis: serve-se de técnicas de descodificação para extrair inferências e descobrir significados. À medida que vai lendo com mais facilidade, os erros vão diminuindo, estabelecendo-se uma ligação gradualmente estreita entre a leitura e o significado vocabular.
No terceiro estádio, que se inicia pelos 7 anos de idade, o contexto das frases passa a desempenhar um papel cada vez mais importante. O leitor coloca hipóteses relativas ao significado da frase. As palavras lidas ativam esquemas de memória que auxiliam a compreensão sintática. Aprende a adotar técnicas de leitura em conformidade com o género de textos que lê (informativos, persuasivos, poéticos, cómicos, científicos, etc.), que irá desenvolver durante a escolaridade e mesmo após a idade escolar – por exemplo, através da declamação de textos, de resumos, de críticas e da apreciação de vários estilos literários, que lhe permitem compreender, interpretar, apreciar e trabalhar a mensagem dos autores.
Rui Manuel Carreteiro 17 Nos anos 80, Uta Frith apresenta um modelo de evolução da leitura através de três estádios sucessivos que correspondem à aquisição de estratégias diferentes para tratar a informação, com vista ao estabelecimento de um sistema ortográfico correto pela criança. No primeiro estádio (logográfico), as palavras são global e visualmente reconhecidas. O segundo estádio (alfabético) é caracterizado pela aplicação de regras simples de correspondência entre grafemas e fonemas. Por último, o estádio ortográfico é atingido com a aplicação de um modelo sofisticado da ortografia no reconhecimento visual.
De acordo com este modelo, as diferentes estratégias surgem numa ordem fixa e invariante, aplicando-se tanto na aquisição da leitura como na escrita. No entanto, Frith (1985) defende que estas duas aquisições não se desenvolvem simultaneamente: uma criança pode ter atingido um dado estádio de leitura e, ao mesmo tempo, ter atingido um outro estádio de escrita. A dislexia, no seu conjunto, é concebida por este modelo como uma impossibilidade em aceder seja ao estádio alfabético (bloqueio no estádio logográfico), seja ao estádio ortográfico (bloqueio no estádio alfabético).
Atualmente, parece haver algum consenso no que concerne a algumas das fases pelas quais as crianças passam na aprendizagem da leitura. Genericamente, Coltheart (2005b) descreve três fases essenciais pelas quais as crianças adquirem o processo de leitura. Na primeira fase, que Coltheart (2005b) denomina por fase da discriminação-
rede, a criança tende a identificar as palavras de acordo com as características do
estímulo escrito. Por exemplo, perante as palavras “gato” e “edifício”, poderá identificar a palavra “gato” como “TV” e “edifício” como “automóvel” porque a palavra “edifício” é visualmente maior do que a palavra “gato” (da mesma forma que o automóvel é maior do que TV). Embora esta fase seja bastante limitada, de acordo com Coltheart (2005b) acaba por ser bastante importante visto que permite à criança a ideia de que a linguagem
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não é uma mera questão de sons envolvendo também representações visuais, escritas numa página.
Na segunda fase, ou fase da recodificação fonológica (Coltheart, 2005a, 2005b), a criança começa a aprender a relação entre as letras individuais e os respetivos sons. Esta fase permite à criança uma ferramenta essencial para a leitura de uma grande variedade de palavras, razão pela qual a instrução ao nível fonémico se revela essencial no ensino da leitura. É também por esta razão que, segundo o autor, a avaliação da leitura de pseudopalavras se revela essencial em qualquer teste de leitura.
Embora esta fase permita à criança ler a maioria das palavras desconhecidas, ainda não permite considerar a criança como um leitor eficiente basicamente por três razões: 1) esta estratégia de leitura é bastante lenta e laboriosa; 2) esta estratégia não permite a leitura de palavras irregulares e 3) nesta fase, a criança ainda não consegue estabelecer a distinção entre palavras homófonas (i.e., palavras que têm escritas ou significados diferentes apesar da mesma pronunciação - Coltheart, 2005a, 2005b).
Para se tornar um leitor eficiente, a criança deve atingir uma terceira fase que permitirá o reconhecimento das palavras como um todo, i.e., aprender a aceder rápida e automaticamente a entradas do léxico a partir observação da palavra impressa.